07 dezembro 2022

Vai um gin do Peter’s ?

PRESÉPIO REVELA SEGREDOS DE DEUS

No Sábado 3 de Dezembro, foram inaugurados dois presépios no Vaticano, na presença do Papa Francisco. O primeiro encontra-se na Praça de S.Pedro, enquadrado pela clássica árvore de Natal, decorada com enfeites executados por crianças de um centro de reabilitação psiquiátrico italiano e de uma escola de Abruzzo. A própria árvore provém de um povoado montanhoso da região de Abruzzo, chamado Rosello.


© Daniel Ibanez/ CNA

Esculpido em madeira de cedro alpino, o presépio ao ar livre é composto por figuras em tamanho real, oferecidas pela região de Friuli no Norte de Itália (Venezia Giulia).  No epicentro, destaca-se o modesto abrigo em meia-lua, onde Maria, José e o seu Bebé recebem todos quantos queiram visitá-los. A forma arredondada e aberta daquele gomo de caverna expressa bem a disponibilidade da Sagrada Família para acolher todos, sem distinções nem qualquer possibilidade de se resguardarem com paredes e porta, intencionalmente inexistentes. 

© Antoine Mekary /Aleteia


© Daniel Ibanez/ CNA

© Daniel Ibanez/ CNA

Um segundo presépio, oferecido pela Guatemala, foi colocado no auditório Paulo VI, onde decorrem as audiências papais.  

Vaticano, 3 de Dez. 2022. (CNS photo/Remo Casilli, Reuters)

Entretanto, a 8 de Dezembro, será inaugurada a exposição internacional de presépios, que ficará ao ar livre, na colunata de Bernini, até 8 de Janeiro de 2023. Este ano, as representações são marcadas pela guerra, destacando-se a natividade concebida num porão de Mariupol (cidade portuária ucraniana com o nome Nossa Senhora), para evocar e homenagear o terrível cerco a Azovstal.  

Mostra internacional de “100 Presépios”, que será inaugurada a 8.DEZ

A profusão de presépios no Vaticano levou Francisco a partilhar ideias e dicas, que visam acordar significados menos comuns e mais interpelativos sobre estas “instalações” tradicionais, com mais alcance do que possam parecer:   

REFLEXÃO DO PAPA SOBRE A IMPORTÂNCIA DO PRESÉPIO

«Everyone should try to find some quiet time to spend before a creche at Christmas.

Silence encourages contemplation of the child Jesus and helps us to become intimate with God, with the fragile simplicity of a tiny newborn baby, with the meekness of his being laid down, with the tender affection of the swaddling clothes that envelop him.

If we really want to celebrate Christmas, let us rediscover through the crib the surprise and amazement of littleness, the littleness of God, who makes himself small, who is not born in the splendor of appearances, but in the poverty of a stable.

Prayer is the best way to say thank you before this gift of free love, to say thank you to Jesus who desires to enter our homes and our hearts. Yes, God loves us so much that he shares our humanity and our lives.

Even in the worst moments, he is there, because he is the Emmanuel, the God with us, the light that illuminates the darkness and the tender presence that accompanies us on our journey.

(The lights on the Christmas tree are a reminder that Jesus came) to lighten our darkness, our existence often enclosed in the shadow of sin, fear, pain. The tree also should make people think about the importance of roots. Like a tree, only a person who is rooted in good soil remains firm, grows, matures, resists the winds that shake him and becomes a point of reference for those who look upon him. The Christmas tree is a reminder of the need to remain rooted in Christ.

Audiência com os Doadores, a 3.DEZ.2022, 
no auditório Paulo VI. 

Ainda bem que o presépio vai muito além da dimensão decorativa desta época, evocando uma grandeza sobrenatural com ecos curiosos na expressão muito batida sobre a “magia do Natal”. Possamos nós ter olhos e ouvidos para redescobrir os segredos que a mais prosaica representação da natividade pode encerrar.   

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

06 dezembro 2022

Poemas dos dias que correm

 Litania do Natal


A noite fora longa, escura, fria.
Ai noites de Natal que dáveis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?
Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus...»
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as mãos erguia.
Comigo repetia: «Meu Jesus...»
Que então me recordei do santo dia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus...»
E a tarde descaiu, lenta e sombria.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus...»

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

José Régio, in 'Antologia Poética' 

05 dezembro 2022

Músicas dos dias que correm

 

Todo este céu

Abraça-me bem E cobre o meu corpo enfim nesse agasalho São os teus braços sim, cuida de mim Basta-me um gesto, porém Abraça-me bem Bem no teu colo Chega-me mais a ti Um pouco mais Suavemente assim, tudo por fim São mágoas que eu consolo Bem no teu colo Todo este céu De pássaros e tons muito assombrados Traz o teu ser tão bom Todo este som Desce a nós com um véu Todo este céu Lançado à Terra Sob restingas e ilhéus, mil sombras de asas Lembram a ausência de um deus Num último adeus Pois só teu afago me espera Lançado à Terra E qualquer coisa acontece No mais alto dos céus Qualquer coisa no fundo do meu coração Mas não sei das trevas, nem da luz Pois sem ti não há nem céu nem chão E se a noite já ronda a minha cruz Luz nas trevas, minha paixão Abraça-me bem E cobre o meu corpo enfim nesse agasalho São os teus braços sim, cuida de mim Basta-me um gesto, porém Abraça-me bem Bem no teu colo Chega-me mais a ti, um pouco mais... Suavemente assim tudo por fim São mágoas que eu consolo Bem no teu colo Bem no teu colo...


* enviado por mão amiga. Vale a pena atentar em tudo - letra, música e interpretação. Fausto Bordalo Dias é, como se costuma dizer, muito cá de casa.

04 dezembro 2022

II Domingo do Advento

EVANGELHO - Mt 3, 1-12

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naqueles dias,
apareceu João Baptista a pregar no deserto da Judeia, dizendo:
«Arrependei-vos, porque está perto o reino dos Céus».
Foi dele que o profeta Isaías falou, ao dizer:
«Uma voz clama no deserto:
'Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas'».
João tinha uma veste tecida com pelos de camelo
e uma cintura de cabedal à volta dos rins.
O seu alimento eram gafanhotos e mel silvestre.
Acorria a ele gente de Jerusalém,
de toda a Judeia e de toda a região do Jordão;
e eram batizados por ele no rio Jordão,
confessando os seus pecados.
Ao ver muitos fariseus e saduceus que vinham ao seu batismo,
disse-lhes:
«Raça de víboras,
quem vos ensinou a fugir da ira que está para vir?
Praticai ações
que se conformem ao arrependimento que manifestais.
Não penseis que basta dizer:
'Abraão é o nosso pai',
porque eu vos digo:
Deus pode suscitar, destas pedras, filhos de Abraão.
O machado já está posto à raiz das árvores.
Por isso, toda a árvore que não dá fruto
será cortada e lançada ao fogo.
Eu batizo-vos com água,
para vos levar ao arrependimento.
Mas Aquele que vem depois de mim é mais forte do que eu
e não sou digno de levar as suas sandálias.
Ele batizar-vos-á no Espírito Santo e no fogo.
Tem a pá na sua mão:
há de limpar a eira e recolher o trigo no celeiro.
Mas a palha, queimá-la-á num fogo que não se apaga».

02 dezembro 2022

Poemas dos dias que correm

Cemitério de Vysehrad, Praga (Setembro de 2022)

O espelho 

Esse que em mim envelhece
assomou ao espelho
a tentar mostrar que sou eu.
Os outros de mim,
fingindo desconhecer a imagem,
deixaram-me, a sós, perplexo,
com meu súbito reflexo.
A idade é isto: o peso da luz
com que nos vemos.

Mia Couto

01 dezembro 2022

Símbolos para o dia de hoje




Hino (original) da Restauração * 

Lusitanos, é chegado
O dia da redempção
Caem do pulso as algemas
Ressurge livre a nação

O Deus de Affonso, em Ourique
Dos livres nos deu a lei:
Nossos braços a sustentem
Pela pátria, pelo rei

Às armas, às armas
O ferro empunhar;
A pátria nos chama
Convida a lidar.

Excelsa Casa, Bragança
Remiu captiva nação;
Pois nos trouxe a liberdade
Devemos-lhe o coração.

Bragança diz hoje ao povo:
“Sempre, sempre te amarei”
O povo diz a Bragança
“Sempre fiel te serei”

Às armas, às armas
etc, etc…

Esta c’roa portugueza
Que por Deus te foi doada
Foi por mão de valerosos
De mil jóias engastada.
Este sceptro que hoje empunhas,
É do mundo respeitado,
Porque em ambos hemisférios
Tem mil povos dominado!

Às armas, às armas
etc, etc…

Nunca pode ser subjeita
Esta nação valerosa,
Que do Tejo até ao Ganges
Tem a história tão famosa.

Ama-a pois, qual o merece;
Ama-a, sim, nosso bom rei
Dos inimigos a defende,
Escuda-a na paz, e lei.

Às armas, às armas
etc, etc…

Ai! Se houver quem já se atreva
Contra os lusos a tentar,
O valor de um povo heróico
Hade os ímpios debellar.

Viva a Pátria, a liberdade,
Viva o regime da lei,
A família real viva,
Viva, viva o nosso rei.

Às armas, às armas
etc, etc…

30 novembro 2022

Das coisas que não nos largam *

 Éramos quatro sentados à mesa - onde não se envelhece, dizem os alentejanos - de onde nos levantámos já passava da uma da manhã. Une-nos uma amizade tardia, nascida essencialmente, mas não exclusivamente, de uma vida profissional mais ou menos próxima. Falámos de tudo: das anedotas, da política, dos livros, das comidas e dos carros; mas também falámos das desarmonias interiores de cada um de nós, da forma como as combatemos, dos triggers aos quais é  fundamental estarmos atentos porque são episódios que desencadeiam o que temos de mais complicado. Falámos de terapias, das experiências de um ou de outro. Quatro homens feitos e direitos que vão desnudando a alma sem que isso constitua humilhação ou voyeurismo social.


Tenho um interesse muito grande por terapias. Nas vésperas falava com um amigo cuja namorada faz hipnoterapia para curar algumas fobias. Tive vontade de experimentar, embora não tenha fobias dignas de registo. Mas este tratamento à base de hipnose, assim como o de dois comensais, interessa-me, não do ponto de vista técnico, mas do ponto de vista do efeito no auto-conhecimento da pessoa que passa por isso. Interessa-me o que aprendemos de nós, não só as misérias humanas que nos habitam, mas a forma de as controlar, de as dominar ou de as contornar. Interessa-me perceber o que em cada um de nós desencadeia um ataque de raiva incontida ou uma vontade súbita de ceder a uma adição. Interessa-me o impacto secundário da terapia na pessoa, sendo que o directo é o conseguir não beber ou o não ser excessivamente agressivo com alguém.  Mas o que verdadeiramente me suscita curiosidade é o que a terapia fez na pessoa, como a alterou para melhor, o que ela passou a saber sobre si própria que a enriqueceu interiormente.

Depois, num âmbito diferente em termos de tempo e interlocutor - mas não, em bom rigor, de tema -, conversei sobre auto-conhecimento aplicado às características que temos. E surgiu esta tríade que pode resumir, ainda que de forma muito incompleta, a nossa atitude face ao pior que temos ou somos: aceitação, reconhecimento, modificação. Isto é, aceitamos os nossos defeitos, reconhecemos os nossos defeitos, modificamos o nosso comportamento (não modificamos o nosso defeito, parece-me). Numa visão muito repentista, a sequência seria, para mim: reconhecer, aceitar, modificar. Reconheço o que sou, aceito-me como sou, modifico o que sou. Mas podemos alterar as duas primeiras palavras? Isto é, podemos dizer aceitar, reconhecer, modificar? Se sim, o que nos diz isso? Ou fazemos apenas um jogo de palavras?

Num certo sentido, ser-se colérico é o mesmo que ser-se adicto. Quem o é, é-o para sempre. Como evidenciamos a nossa vontade de mudar? Principalmente através de gestos concretos, independentemente, para mim, da motivação. Serei sempre colérico, ou forreta, ou orgulhoso ou o que quer que seja, como um adicto o é. A alteração de comportamentos não significa mais do que uma alteração de comportamentos. Não pretende dizer a ninguém que afinal não sou, mas pretende mostrar aos outros que conseguimos controlar o que somos. A única forma de demonstrar uma mudança interior é através de gestos concretos, não através de deambulações interiores que pouco mudarão o que somos. O único (passe o simplismo) pensamento interior necessário é a vontade de "mudar". Não a vontade de ser outra pessoa, mas a vontade de ter outros comportamentos e, com isso, talvez, ser outra pessoa. Essa tem de ser a verdadeira motivação. Apaziguamentos da consciência ou desejo de passar uma imagem diferente não são mais do que folclore.

JdB

* publicado originalmente a 27 de Julho de 2016  

29 novembro 2022

Músicas dos dias que correm *

 

* último álbum de Katia Guerreiro, nesta faixa com uma colaboração interessante de Rui Veloso.

28 novembro 2022

Dos locais de passagem

 


Esta fotografia foi tirada no Hospital Santa Maria este sábado. Não há dúvida do que quer dizer: não se pode / deve atravessar este serviço para ir de A para B, isto é, o espaço não serve de corta-mato. Esta fotografia pode ler-se como um aviso claro, auto-explicativo, óbvio. Mas também pode ler-se como uma metáfora para outras coisas importantes da vida. Para isso é preciso dar-se um sentido diferente à expressão serviço. Pode ser amizade, amor, carreira, projecto. Ou pode ser, na sua visão mais radical, vida, ou seja,  a vida não é local de passagem

Eu sei que para um cristão a vida é apenas uma passagem para a eternidade, e este singelo A4, na interpretação que quis dar-lhe, não contraria esse ensinamento, e podemos regressar à lógica do hospital: atravessar este serviço implica uma ausência de registo, porque a pessoa quer apenas atravessá-lo, não usufruir do que se disponibiliza lá dentro; implica incomodar quem lá está, talvez mesmo invadir um pudor de quem está numa maca, numa situação de fragilidade. É uma passagem efémera, sem deixar um traço, uma evidência, uma marca. Uma circulação rápida de um ponto para outro.

A vida não é local de passagem. Não podemos ir do nascimento (o ponto A) para a morte  (o ponto B) sem querer tocar a vida dos outros, sem nos registarmos, sem aproveitar o que a vida nos dá, ou mesmo sem pararmos aqui e ali para vermos como deixar o mundo um pouco melhor. A nossas caminhada na Terra não pode ser um corta-mato.  

Este serviço não é local de passagem. Agradeçamos esta metáfora tão curiosa ao Serviço Nacional de Saúde. 

JdB

27 novembro 2022

I Domingo do Advento

 EVANGELHO - Mt 24, 37-44

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
disse Jesus aos seus discípulos:
«Como aconteceu nos dias de Noé,
assim sucederá na vinda do Filho do homem.
Nos dias que precederam o dilúvio,
comiam e bebiam, casavam e davam em casamento,
até ao dia em que Noé entrou na arca;
e não deram por nada,
até que veio o dilúvio, que a todos levou.
Assim será também na vinda do Filho do homem.
Então, de dois que estiverem no campo,
um será tomado e outro deixado;
de duas mulheres que estiverem a moer com a mó,
uma será tomada e outra deixada.
Portanto, vigiai,
porque não sabeis em que dia virá o vosso Senhor.
Compreendei isto:
se o dono da casa soubesse a que horas da noite viria o ladrão,
estaria vigilante e não deixaria arrombar a sua casa.
Por isso, estai vós também preparados,
porque na hora em que menos pensais,
virá o Filho do homem.

25 novembro 2022

Poemas dos dias que correm *

A PESAGEM DO CORAÇÃO

Que ninguém por tua culpa tenha passado fome,
tenha sentido medo ou frio.
Que ninguém tenha deixado de viver por tua culpa,
nem temido a morte, nem desejado morrer.
Que nenhuma pessoa tenha dito o teu nome com pavor
ou olhado o teu rosto com desprezo.
Que os outros te chorem quando partires.
Assim o teu coração não terá guardado o chumbo
que pesa nas mudanças.
Assim o teu coração será mais leve
que a mais leve pluma.

Amalia Bautista
(1962 - )
In "Telhados de Vidro nº 20 de Setembro de 2015"
(Tradução de Inês Dias)

24 novembro 2022

Moleskine

O céu de Punta Cana, Novembro de 2022

O céu de Punta Cana, Novembro de 2022

Fotografias e esculturas

Vejo um filme onde alguém afaga, saudoso uma fotografia. Talvez lhe aponha um beijo. Enternece-nos esta possível saudade de quem partiu, seja qual for o destino. Algumas cenas depois, alguém conversa com uma estátua. Achamos graça a esta espécie de loucura, ou de demência. Falar com uma estátua? Depois talvez percebamos que não há diferença entre afagar uma fotografia ou conversar com uma estátua. A demência, a haver, é a mesma. 

Netflix

"Em conversas francas com o ator Jonah Hill, o aclamado psiquiatra Phil Stutz explora as suas experiências da juventude e o seu ímpar modelo visual de terapia." Vale a pena ver este documentário.

Goethe e os óculos (tradução minha, do inglês)

É sabido que Goethe não é amigo de óculos.

“Pode ser um mero capricho meu”, disse ele em várias ocasiões, “mas não consigo ultrapassá-lo. Sempre que um estranho se aproxima de mim com óculos no nariz, sou tomado por um sentimento dissonante que não consigo dominar. Isto aborrece-me tanto que, no limite, me retira grande parte da benevolência e me arruina os pensamentos, impossibilitando um desenvolvimento natural, sem constrangimentos, da minha própria natureza. Dá-me sempre a impressão de desobligeant, como se um estranho me dissesse algo rude no primeiro contacto. 

(...)

Parece-me sempre que para os estranhos sou o objecto de um exame rigoroso, e é como se, com os seus olhares armados, eles penetrassem nos meus pensamentos mais secretos e espiassem cada ruga do meu velho rosto. Mas, ao mesmo tempo que se esforçam por conhecer-me, destroem qualquer igualdade justa entre nós, pois impedem-me de conhecê-los. Na verdade, o que ganho com um homem cujos olhos não posso ver enquanto ele fala, e cujo espelho de alma me está velado por um par de óculos que me ofuscam?

Se um dia quisermos perceber de onde vem a ideia de olhos nos olhos, temos aqui a resposta. Olhos nos olhos não é olhos nos óculos.

JdB 


23 novembro 2022

Vai um gin do Peter’s ?

 EXPOENTE DA TERNURA EM PEDRA

Coube a um fotógrafo judeu naturalizado norte-americano, Robert Hupka (1919-2001), o privilégio de ter feito uma das mais completas coberturas fotográficas da Pietá, esculpida por Michelangelo Buonarroti com apenas 23 anos de idade! 

Além da beleza magistral da obra em mármore de Carrara, impressiona a abordagem revolucionária à representação de Maria a segurar o Filho morto nos braços, ambos exibindo uma perfeição anatómica invulgar e enlaçados numa harmonia plena de ternura e tranquilidade. O olhar doce dos dois é, só por si, um milagre, depois de atingidos por uma onda de violência tremenda. Michelangelo quis que o sofrimento associado àquela morte brutal não fosse a imagem de marca da escultura, mas antes a extrema e misteriosa beleza que une e emana de Maria e de Jesus. No fundo, confia que a última palavra na redenção cabe à beleza, e não à dor. Tudo lindo e pleno de significado, à italiana! Esta obra maior do florentino é a única que leva a sua assinatura em lugar muito visível, na faixa que colocou sobre o seio da Virgem.  

A fotorreportagem de Hupka foi captada em 1964, na Feira Mundial de Nova Iorque, aproveitando o facto de a Pietá do florentino ser a coqueluche desse certame. Rapidamente, conseguiu autorizações raras para ver a peça a todas as horas, acompanhar os trabalhos de bastidores, como o empacotamento da peça e até montar andaimes para a poder observar e registar de perspectivas menos visíveis. 

Robert Hupka nascera em Viena e fugira para os Estados Unidos no alvor da Segunda Guerra Mundial, escapando à perseguição aos judeus que vitimou os seus pais. Neto do compositor Ignaz Brüll, amigo de Brahms, Hupka interessava-se pelo registo das actuações musicais. É notável a sua série fotográfica aos ensaios do maetro italiano Arturo Toscanini a dirigir a NBC Symphony Orchestra acompanhada pelos solos do violinista Samuel Antek. Vieram a desaguar no livro «This Was Toscanini» (1963) e a ilustrar capas de CDs com actuações de Toscanini. 

Engenheiro de formação e especializado no registo da arte em diferentes suportes, Hupka ficou logo fascinado pela obra-prima de Michelangelo. Isso ressalta no rigor comovido com que capta a Pietá sob todos os ângulos e a todas as horas do dia para a apanhar sob as variantes de luz possíveis. A familiaridade que teve com a obra não banalizou o espanto inicial, antes o intensificou.  






Em 1975, uma selecção de 150 imagens da fotorreportagem de Hupka foi vertida para catálogo oficial à venda na loja dos Museus do Vaticano em edições multilingues. 

Na sinopse do memorável livro, o autor explica como, pela primeira, se deparou com “a verdadeira grandeza”: 

«Sinopsis

Author and photographer Robert Hupka writes: 

"Pieta, an Italian word meaning 'pity', 'compassion', 'sorrow', is derived from the Latin pietas, signifying 'loyalty to the highest degree......a profound love that neither life nor death can destroy.'

The classic meaning of the word pieta is the whole-souled abiding in the Divine Will, but it is also the name traditionally given to works of art representing the dead body of Christ in the arms of His Mother. 

All photographs were taken at the World's Fair, some during the preparations for the statue's crating. I was in the fortunate position of photographing the statue from angles never before seen. I took thousands of pictures, photographing from every angle at any hour of the day and the night. 

It was an experience that cannot be put into words, the experience of being in the presence of the mystery of true greatness. 

As I spent countless hours in these devoted labors of photography, the statue became to me an ever-deeper mystery of faith and beauty, and I was struck by the realization that Michelangelo's greatest masterpiece had never been seen in its full magnitude, except by a very privileged few." 

With 150 photographs and commentary, the reader can come to know the beauty and mystery of Michelangelo's most magnificent statue through the lens of Robert Hupka.»               

Na aproximação do Advento, a beleza bondosa da Pietá, que transborda da lente de Hupka, antecipa a beleza do nascimento do Bebé que Michelangelo imortalizou noutro momento crucial da sua entrega à Humanidade. Condensa o principal da resposta dada pelo escultor aos que estranharam que o rosto da Mãe fosse tão jovem como o do Filho: «As pessoas apaixonadas por Deus nunca envelhecem». 

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

22 novembro 2022

Textos dos dias que correm *

“... Tenho sessenta anos. Não te iludas: não estou ainda bastante fraco para ceder às imaginações do medo, quase tão absurdas como as da esperança e seguramente muito mais penosas. Se fosse preciso enganar-me a mim mesmo, preferia que fosse no sentido da confiança; não perderia mais com isso e sofreria menos.
Este fim tão próximo não é necessariamente imediato; deito-me ainda, todas as noites, com a esperança de chegar à manhã seguinte. Adentro dos limites intransponíveis de que te falei há pouco, posso defender a minha posição passo a passo e recuperar mesmo algumas polegadas do terreno perdido. Não deixo por isso de ter chegado à idade em que a vida se torna, para cada homem, uma derrota aceite. Dizer que os meus dias estão contados não significa nada; sempre assim foi; é assim para todos nós. Mas a incerteza do lugar, do tempo e do modo, que nos impede de distinguir bem o fim para o qual avançamos sem cessar,
diminui para mim à medida que a minha doença mortal progride. Qualquer pessoa pode morrer de um momento para o outro, mas o doente sabe que passados dez anos já não será vivo. A minha margem de hesitação já se não alonga em anos, mas em meses. As minhas probabilidades de acabar com uma punhalada no coração ou por uma queda de cavalo tornam-se cada vez menores; a peste parece improvável, a lepra ou o cancro afiguram-se definitivamente afastados. Já não corro o risco de cair nas fronteiras, atingido por um machado caledónio ou trespassado por uma flecha parta; as tempestades não souberam aproveitar as ocasiões que se lhes ofereceram, e o feiticeiro que me predisse que eu me não afogaria parece ter acertado. Morrerei em Tíbure, em Roma ou em Nápoles quando muito, e uma crise de sufocação encarregar-se-á da tarefa. Serei levado pela décima ou pela centésima crise? É essa a única questão.

Assim como o viajante que navega entre as ilhas do Arquipélago vê despontar, ao entardecer, uma espécie de névoa luminosa e descobre pouco a pouco a linha da costa, eu começo a avistar o perfil da minha morte. Certas fracções da minha vida assemelham-se já a salas desguarnecidas de um palácio demasiadamente vasto que um proprietário empobrecido renuncia a ocupar todo.”

marguerite yourcenar
memórias de adriano
trad. maria lamas
ulisseia

1974 

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* tirado daqui

21 novembro 2022

20 novembro 2022

Solenidade de Nosso Senhor Jesus Cristo, Rei do Universo

EVANGELHO - Lc 23,35-43

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus

Naquele tempo,
os chefes dos judeus zombavam de Jesus, dizendo:
«Salvou os outros: salve-Se a Si mesmo,
se é o Messias de Deus, o Eleito».
Também os soldados troçavam d'Ele;
aproximando-se para Lhe oferecerem vinagre, diziam:
«Se és o Rei dos judeus, salva-Te a Ti mesmo».
Por cima d'Ele havia um letreiro:
«Este é o Rei dos judeus».
Entretanto, um dos malfeitores que tinham sido crucificados
insultava-O, dizendo:
«Não és Tu o Messias?
Salva-Te a Ti mesmo e a nós também».
Mas o outro, tomando a palavra, repreendeu-o:
«Não temes a Deus,
tu que sofres o mesmo suplício?
Quanto a nós, fez-se justiça,
pois recebemos o castigo das nossas más acções.
Mas Ele nada praticou de condenável».
E acrescentou:
«Jesus, lembra-Te de Mim, quando vieres com a tua realeza».
Jesus respondeu-lhe:
«Em verdade te digo: Hoje estarás comigo no Paraíso».

18 novembro 2022

Bem-aventurados os misericordiosos *

Fernando Alcácer era juiz num tribunal nos arredores de Lisboa. Homem com vasta experiência na aplicação das leis, há muito que tinha as melhores classificações dentro da magistratura. Quando acontecia um réu recorrer da sua sentença, o tribunal de instância superior confirmava o que o Dr. Alcácer tinha determinado, sinal da justiça da pena aplicada. Não raramente recebia visitas de colegas que, dentro de uma ética que sempre regula as actividades humanas - lícitas ou não -, lhe vinham pedir conselhos, ouvir uma opinião, interpretar o espírito menos óbvio do legislador.

Além da consideração dos seus pares, o juiz era um homem apreciado por advogados, funcionários judiciais, procuradores. Todos lhe reconheciam o rigor, o sentido de humanidade, a atenção às agravantes e às suas inversas, o respeito por uma justiça presumivelmente caracterizada por um venda nos olhos. Reconheciam-lhe, além disso, uma característica que, não sendo inédita, no juiz assumia uma dimensão rara: a memória para matrículas de automóveis de colegas, advogados, funcionários, arguidos, fornecedores... Acontecia frequentemente o dr. Alcácer dirigir-se a uma secretária dizendo:

Vi sua matrícula ontem no Centro Comercial, D. Arlete... Estivemos lá à mesma hora.

O povo, na sua imensa e pretensa sabedoria, entende que no melhor pano cai a nódoa. No caso vertente a mancha assentou numa fazenda que se chamava Fernando Alcácer, quando da sua boca saiu uma sentença que todos consideraram demasiado branda para o crime económico de um empresário local. Comentou-se o caso e o próprio juiz – naquele seu hábito obsessivo, quase, de fixar todas as matrículas, inclusivamente a do réu – questionou a sua própria brandura. Mas o facto é que vira qualquer coisa, embora não soubesse verbalizar o quê, nem onde, que o levara a decidir daquela forma. Só sabia que algo o impelira a isso, como se o juiz, para além de conhecer as leis e as matrículas, visse também, premonitoriamente, para além do desfocado das vidas reais e comezinhas do presente.

Metera-se no carro e seguira para casa. Com ele seguia um temporal como há muito não se via na região - uma chuva intensa, um vendaval de arrancar árvores, uma trovoada de ensurdecer - e um incómodo que lhe apertava o estômago:

Mas porque fui eu aplicar aquela sentença tão branda... Será que cometi o erro da minha vida? Será que beneficiei quem não devia? Mas o que me passou pela cabeça?

Embrulhado neste estado de espírito, o juiz passaria um sinal vermelho. Pela esquerda, na legitimidade do seu direito de passagem, viu um carro aproximar-se e fazer sinais intensos de luzes, mas o alerta não era mais do que a bateria de holofotes que iluminaria o horror que se aproximava. No último instante, quando o embate estava à distância de um fio de cabelo, Fernando Alcácer foi espectador da sua própria vida: viu-se como menino na escola a chorar uma mãe que desaparecia; como jovem no liceu a sentir o pulular das hormonas adolescentes; reviveu a arritmia cardíaca do primeiro beijo num vão de escada; olhou a imponência da escadaria no primeiro dia em que pôs os pés na faculdade; reviu-se como jovem licenciado em Direito e como estudante do Curso de Estudos Judiciários; suou de novo a angústia da primeira sentença. Reviu, no fundo, toda a sua vida.

Nestas magias que permitem que o tempo tenha uma duração indefinida, houve espaço suficiente para o juiz identificar a matrícula daquele carro e o condutor, um empresário local beneficiário de uma sentença ligeira. Teve a nítida sensação da ironia da situação quando percebeu que o réu culpado sorria para um juiz misericordioso, um instante antes de guinar o carro e embater com uma violência brutal num poste, desfazendo-se num estrondo de chapa esmagada e dor anunciada.

JdB

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* Publicado originalmente a 24 de Maio de 2010

16 novembro 2022

Poemas dos dias que correm

Canção de uma Sombra

Ai, se não fosse a névoa da manhã
E a velhinha janela onde me vou
Debruçar para ouvir a voz das coisas,
Eu não era o que sou.

Se não fosse esta fonte que chorava
E como nós, cantava e que secou…
E este sol que eu comungo, de joelhos,
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse este luar que chama
Os aspectos à Vida, e se infiltrou,
Como fluido mágico, em meu ser,
Eu não era o que sou.

E se a estrela da tarde não brilhasse;
E se não fosse o vento que embalou
Meu coração e as nuvens nos seus braços
Eu não era o que sou.

Ai, se não fosse a noite misteriosa
Que meus olhos de sombras povoou
E de vozes sombrias meus ouvidos,
Eu não era o que sou.

Sem esta terra funda e fundo rio
Que ergue as asas e sobe em claro voo;
Sem estes ermos montes e arvoredos
Eu não era o que sou.

Teixeira de Pascoaes

14 novembro 2022

Crónica de um serviço ao Caribe (II)

 De um certo modo, penso que muitos de nós sentimos fazer parte da História quando temos filhos. Talvez seja um dos momentos em que a nossa pequena existência se engrandece e assume uma dimensão até então nunca sentida. Não digo, com isto, que não haja outras formas de dar tamanho à alma, porque não é só na paternidade / maternidade que nos alcandoramos a um patamar diferente. Se me lembrar de Viktor Frankl, de quem já aqui falei várias vezes, talvez isso também aconteça com um grande amor ou com um grande projecto.  

Estar numa reunião de organizações ligadas à oncologia pediátrica não é tarefa inédita. Esta foi-o, por serem organizações latino-americanas como quem ainda não estivera de forma substantiva. Impressiona sempre o nível de actividade, de dedicação, de competência destas pessoas, algumas das quais trabalhando em circunstâncias políticas ou económicas muito desfavoráveis. Impressiona o nível de colaboração entre médicos, voluntários, pais, sobreviventes, uma comunidade unida pelo mesmo objectivo: minorar o sofrimento das crianças / adolescentes / jovens adultos afectados pelo cancro, tomar atenção às necessidades de sobreviventes e prestar o auxílio possível aos Pais neste processo tão doloroso. 

Disse-o várias vezes, não sei se o escrevi aqui: é notável a quantidade de gente boa que tenho conhecido desde que me iniciei nestas andanças internacionais. A mancha que ressalta é uma mancha humanamente gratificante, sem vaidades pessoais ou agendas escondidas, numa vontade imensa de colaborar, de encontrar soluções ou de procurar caminhos comuns. Estou certo de que qualquer médico me atenderia uma chamada, me responderia a uma mensagem caso eu tivesse necessidade, ou lhe encaminhasse um caso mais desafiante. 

Até 2030, esta comunidade internacional estará envolvida num projecto global de combate à oncologia pediátrica. Pretende-se que a taxa de sobrevivência global seja de 60% (é muito inferior, hoje em dia) e pretende-se minorar o sofrimento destes doentes. O sucesso desta "empreitada" permitirá salvar 1 milhão de vidas - crianças ou jovens com um nome, com sonhos, com aspiração a serem agricultores, futebolistas, médicos. O nome de cada um deles, deste milhão de crianças que iremos salvar, está, como não me canso de repetir, gravado em cada um dos nossos corações.

Fazer parte deste projecto é ser protagonista da História, é assistir à mudança global de uma parte dolorosa da nossa existência. Em cada sobrevivente com que me cruzo vejo a esperança em dias melhores, vejo a conquista que a ciência faz no terreno do sofrimento e da morte. 

A fotografia acima é uma boa metáfora para coisas maiores. Uma das raparigas é uma sobrevivente colombiana, de Cali. Dizem-me que nunca tinha visto o mar.

JdB

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