31 dezembro 2025

Vai um gin do Peter’s ?

 O NATAL COMEÇA NA GRUTA  

Há vinte anos, amigos de diferentes movimentos resolveram dar continuidade aos preparativos organizados em conjunto para as vindas dos Papas a Portugal, desde a visita de S.João Paulo II, em 1991. A ideia de prepararem o Natal fez surgir um coro com todos a bordo. Nesse Natal, ouviu-se o primeiro concerto do “Coro dos Movimentos”, onde tantos já tiveram (e ainda têm, como eu) sobrinhos a actuar. Os maestros ou maestrinas têm dado provas de imenso profissionalismo e autoridade natural, apesar de serem da idade dos coralistas. O repertório variado e muito original tem sido outra das boas apostas. 

Aos poucos, juntaram às músicas, textos compostos por alguém do coro, com especial sentido poético e uma sabedoria que talvez não se esperasse em estudantes universitários e recém-licenciados. Acrescentaram o bom hábito de distribuir pelos bancos os livrinhos do concerto, para os espectadores acompanharem tudo, de fio a pavio. E juntam-se às centenas, apesar das noites geladas de Dezembro. 

Este ano, além dos textos compostos pelo Francisco Mendes, foi estreada uma música composta por este jovem talentosíssimo. A obra chama-se «Sonhos de José» e transcrevo a letra, com pena de não ter conseguido apanhar uma gravação na net: 

«José não tenhas medo   
Sou eu
Sei que é difícil de acreditar
No que aconteceu
O filho de Maria é vontade de Deus
Pelo Espírito Santo a Virgem concebeu 

O Sonho de Deus
Fez-se em sonhos teus
Desperta do sono
Recebe Maria
Entrega o que és a Jesus
Terás Sagrada Família
Jesus, Maria, José
Família de Nazaré 

José, filho de David,
És tu
Que tomas por esposa
Aquela que um Filho vai dar à luz
E tu pôr-lhe-ás o nome de Jesus
Pois tu carpinteiro
És homem bom
És homem justo.»

Partilho excertos dos escritos do Francisco, tão novo e inspirado, que adoptou para leit motiv da sua mensagem de Natal a Gruta: 

«NOSSA SENHORA COMO GRUTA

Não se entra numa gruta para ficar lá para sempre. Mas é preciso entrar. É preciso ver. 
Mais um concerto, mais um Advento, mais um tempo para o qual não tenho tempo.
Mas entro. (…)
Em 1962, Michel Siffre, um espeleologista francês partiu numa expedição para uma gruta nos Alpes. 
Levou todo o material necessário, mas decidiu que não levaria relógio e que só queria ser contactado pelo exterior dois meses depois do início da expedição.
Quando o chamaram, no final de dois meses, a sua perceção dizia-lhe que só tinha passado um.
A gruta fria, escura e silenciosa tinha-lhe mudado a perceção do tempo. Trabalhou nesses dois meses como nunca tinha trabalhado. (…) O tempo da gruta é um tempo diferente, mais largo.
Na gruta há tempo para que eu me aproxime do tempo de Deus.
Há tempo para que uma Virgem prepare no silêncio, no íntimo, no escuro, o tempo largo de Deus.
Porque, sem saber, Nossa Senhora foi a gruta antes da gruta. 
O abrigo seguro e silencioso onde se prepara o sonho de Deus.
É Maria que nos mostra a primeira gruta, a que nos abre a preparação. O “sim” de Maria muda tudo, com ela há todo um Advento. Um corpo que se prepara para ser mãe de um menino. Um coração que se prepara para ser Mãe de Deus. 
Maria, a entranha que deixou Deus entrar.
Mesmo que não se entre na gruta para ficar lá para sempre, é preciso entrar.
Sê bem-vindo! 

PRESÉPIO COMO GRUTA

(…) Tudo pronto para montar o presépio e pôr as figuras todas… na gruta. Era uma gruta ou um estábulo?
Uma hospedaria não era de certeza… S.Lucas conta-nos que já não havia lugar e que o Menino ficou reclinado “numa manjedoura”.  
A partir daí entra a tradição: (…) Belém tinha um sistema de grutas, e muitas funcionavam como armazéns agrícolas, por isso é possível que numa gruta houvesse uma manjedoura. 
É possível… É possível…
Enquanto me embrenho em questões históricas (…) esqueço-me da mais espectacular possibilidade.
É só olhar para o presépio. 
A questão espacial fica especial se eu me lembrar de que Deus cabe numa gruta! (…) (No) tal lugar escuro, frio e inóspito.
Mas um lugar cuja Natureza muda pela presença de Deus. 
Uma gruta é escura, mas aquela gruta é o lugar mais iluminado da terra.
Uma gruta é inóspita, mas quela gruta é fonte de Vida.
Uma gruta é fria, mas aquela faz arder corações. 
[No presépio quem é que aquece quem? São os pais, os reis, os animais que aquecem o Menino? Ou é o Menino que os aquece a todos?]
(…) Se é assim no presépio, como não será comigo?
Deus cabe-me no coração, pelo que é e pelo que Deus faz dele.  

IGREJA COMO GRUTA

Escura, fria, sem vida. É assim a Igreja sem Jesus.
Uma gruta sem luz é assustadora. 
Um Igreja sem Jesus é inimaginável.
A Igreja também é uma gruta, edificada sobre a Pedra. Mas a Igreja é amada por Cristo e esse Amor faz dela uma gruta diferente. 
Quando estás na Igreja, por mais parada que ela te pareça, a Igreja move-se. Se fechares os olhos e ouvires bem, ouves para lá do silêncio… os ecos de todos os que aqui chegam, os ecos de todos os que por aqui passaram.
Quando abres os olhos, percebes que há movimento na gruta. 
Para a Igreja ser abrigo, para a Igreja proteger, para ser o crescimento constante de cada pedra, precisa de desenhar movimento. Um movimento que aponta para a profundidade e reencaminha para a saída. 
Mas se Deus sonhou a Igreja, se Deus a amou, por que é que nos quer em constante saída?
Porque não se entra numa gruta para ficar lá para sempre.
A Alegria não se esconde. 
Se Ele já nasceu, o que ainda estás a fazer aí parado?» 

Uma das peças mais salerosas do Coro dos Movimentos é a ária do espanhol Jorge Álvarez, intitulada «Ven y reina» (aqui numa gravação de 2024, que se repetiu também este ano):  


Rembrandt também representou o presépio como gruta escura e fria, apenas com um foco de luz em redor de um Bebé nu, maximamente despojado, e da Mãe que o mostra a um Mago idoso, imponente, de joelhos e até curvado para se aproximar daquele minúsculo ser humano. Esta obra maior do barroco e do tenebrismo revela a catadupa de paradoxos de um Deus, que decide vir ao mundo na máxima vulnerabilidade, como recém-nascido, igual a qualquer humano, sem nenhuma originalidade e tão insignificante face à opulência dos soberanos que O visitam, com pálio, trajados sumptuosamente, numa cena difícil de perceber para quem não perceba quem é aquele Pequenino. 

Também na tela do pintor de seiscentos ecoa a pergunta: afinal, quem ilumina quem?... Atrás dos Sábios do Oriente, amontoa-se uma multidão, talvez formada por pajens e gente da corte, que os terá acompanhado na longa viagem. A maioria parece alheada, conversando entre si, quase de costas para o foco de luz onde as figuras principais contracenam. Talvez a luz nem esteja ao alcance de todos os olhares, tal a distração da maioria dos que se acotovelam por detrás do pálio. Resta uma minoria curiosa, que espreita para aquele pequeno círculo luminoso e insólito, talvez procurando vislumbrar a causa da estranha inversão de papéis entre uns e outros, segundo os critérios do mundo. Porque se furou o protocolo tão acintosamente? O mistério manter-se-á indecifrável para os desinteressados, demasiado entretidos com os seus afazeres e preocupações. Quantos conseguirão aceitar e reconhecer a possibilidade de se esconder um Mistério decisivo sob uma aparência tão banal? A luz quente e aconchegante que Rembrandt associou àquele Bebé, a par da vénia enternecida e solene do Sábio mais próximo do Bebé, com as mãos em gesto de adoração, ficaram como sinais eloquentes do alcance maior do nascimento de Jesus. De facto, tudo mudou, quando entrou no curso da História, em carne-e-osso.          

Adoração dos Magos. Rembrandt, 1632. Tela de 54cm x 44cm. Original em colecção privada de Roma, com réplicas no Hermitage e no museu sueco de Gothenburg.

Um grande presente de Natal terão tido os donos desta tela original de Rembrandt, que pensavam possuir uma cópia de boa qualidade do mestre flamengo do claro-escuro. Descobriram tratar-se do original (2016), quando o levaram a uma oficina de restauro, depois de o quadro ter caído e ficado com a moldura estragada.  

Feliz Ano Novo a todos e Feliz Dia de Reis, na próxima semana!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

30 dezembro 2025

Da refeição como espaço *

Ernest Shackleton partiu de Plymouth para o Polo Sul a 8 de Agosto de 1914. A viagem a que ele se propunha foi um rotundo fracasso - não chegou ao destino. No entanto, toda a viagem do explorador inglês é um acto de enorme heroísmo: nas piores condições atmosféricas possíveis, sem comunicações, sem barco, com pouca comida, com uma equipa debilitada, com um frio antártico e sem cães que foram sendo abatidos por questões de necessidade, conseguiu empreender o resgate de todos. Não ficou ninguém para trás. 

No seu livro South, Shackleton descreve com pormenor técnico toda a viagem - temperaturas, coordenadas, tipo de gelo, fauna existente, meteorologia, invenções a bordo. E descreve - e é aqui que quero ater-me - as refeições. Fá-lo de uma forma detalhada: os horários, a composição, as conversas à volta do tema ou de um fogão alimentado a gordura de foca. Não fala de informação nutricional, mas de hábitos; não fala de escorbuto, mas de espaços de convívio; não fala de sobrevivência de organismos, mas da vida de uma equipa em perigo de vida; não fala de necessidades imediatas, mas de momentos tribais. A refeição é um espaço de coesão quando tudo ao redor parece desagregar-se. 

***

Em A Festa de Babette, de Karen Blixen, Babette é uma cozinheira que, vítima de um infortúnio qualquer, aporta a Berlevaag, uma cidadezinha no sopé das montanhas de um fiorde norueguês. Aquela comunidade - um seita religiosa conhecida e respeitada por toda a Noruega - havia sido fundada por um deão, um profeta. E cito: os seus membros renunciavam aos prazeres deste mundo, pois a Terra, e tudo o que sobre ela existe, era quase uma ilusão e a realidade verdadeira era a Nova Jerusalém por que ansiavam. Na comunidade há duas velhas que não se falam há 40 anos, pois entre uma e outra houve destruição de herança e de noivado; dois irmãos não se falam há 45 anos; dois outros velhos suportam nos ombros o peso da culpa de um amor antigo, falso e leviano. São caras macilentas, sombrias, escuras de alma e de roupa, onde se percebe que o prazer mais não é do que pecado. 

Babette é francesa e vive na casa das filhas puritanas do deão. Ao fim de doze anos recebe uma carta de França onde é informada que recebera dez mil francos por ter acertado na lotaria. E cito de novo: qual não foi o seu espanto [das filhas do deão] quando Babette, numa noite de Setembro, veio à sala, mais humilde, ou mais contida, do que nunca, para lhes pedir que a deixassem fazer um jantar em honra do centenário do Deão. Neste banquete, onde estão todos os velhos desavindos, Babette serve um amontillado que acompanha um sopa de tartaruga; prossegue com blinis Demidoff regados com um Veuve Cliquot, que ainda persiste nas cailles en sarcophage; depois vêm as uvas, os pêssegos e os figos frescos. No fim do banquete há palavras brandas, sorrisos genuínos, olhares pacificadores. 

***

Num livro há biscoitos e chá que pouco mais é do que água; há fome. Noutro livro há codornizes e vinhos raros; há abundância. E no entanto, entre South, de Ernest Shackleton. e A Festa de Babette, de Karen Blixen, não há diferença nenhuma. Ambos são a face de uma mesma moeda: a refeição como espaço tribal. 

JdB

* publicado originalmente a 2 de Dezembro de 2016

28 dezembro 2025

Festa da Sagrada Família

 EVANGELHO – Mateus 2,13-15.19-23

Depois de os Magos partirem,
o Anjo do Senhor apareceu em sonhos a José e disse-lhe:
«Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe e foge para o Egipto
e fica lá até que eu te diga,
pois Herodes vai procurar o Menino para O matar».
José levantou-se de noite,
tomou o Menino e sua Mãe e partiu para o Egipto
e ficou lá até à morte de Herodes,
para se cumprir o que o Senhor anunciara pelo profeta:
«Do Egipto chamei o meu filho».
Quando Herodes morreu,
o Anjo apareceu em sonhos a José no Egipto e disse-lhe:
«Levanta-te, toma o Menino e sua Mãe
e vai para a terra de Israel,
pois aqueles que atentavam contra a vida do Menino
já morreram».
José levantou-se, tomou o Menino e sua Mãe,
e voltou para a terra de Israel.
Mas, quando ouviu dizer que Arquelau reinava na Judeia,
em lugar de seu pai, Herodes,
teve receio de ir para lá.
E, avisado em sonhos, retirou-se para a região da Galileia
e foi morar numa cidade chamada Nazaré,
para se cumprir o que fora anunciado pelos Profetas:
«Há de chamar-Se Nazareno».

27 dezembro 2025

Pensamentos Impensados

Não sei se Soror Mariana Alcoforado jogava à bisca; pelo menos era viciada em cartas.

Mancebo é o que põe cebo com as mãos.

Se um comerciante aumentar um produto 200%, será que pode fazer um desconto de 100%?

Um sem-abrigo foi preso e julgado por não ter bilhete de identidade. Como o crime não era grave foi-lhe dada a pena mínima: termo de identidade e residência.

SdB (I)

26 dezembro 2025

Poemas dos dias que correm

 SHEMÀ

Vós que viveis seguros
nas vossas casas aquecidas,
vós que encontrais no regresso ao fim do dia
comida quente e rostos amigos:

Considerai se isto é um homem
que trabalha na lama
que não conhece a paz
que luta por meio pão
que morre por um sim ou um não.
Considerai se isto é uma mulher
sem cabelo e sem nome
sem mais forças para lembrar
vazios os olhos e frio o ventre
como uma rã no Inverno.

Meditai que isto assim se passou:
Ordeno-vos estas palavras.
Gravai-as no coração
estando em casa ou no vosso caminho.
Quando vos deitardes e ao levantar:
repeti-as aos vossos filhos.
Ou que a vossa casa se arruine,
a doença vos definhe,
os vossos filhos vos virem a cara.
.
10 de Janeiro, 1946

Primo Levi
(1919 - 1987)
In "A Uma Hora Incerta"
(Tradução de Rui Miguel Ribeiro)

25 dezembro 2025

Missa do Dia de Natal

 EVANGELHO – João 1,1-18

No princípio era o Verbo
e o Verbo estava com Deus
e o Verbo era Deus.
No princípio, Ele estava com Deus.
Tudo se fez por meio d’Ele
e sem Ele nada foi feito.
N’Ele estava a vida
e a vida era a luz dos homens.
A luz brilha nas trevas,
e as trevas não a receberam.
Apareceu um homem enviado por Deus, chamado João.
Veio como testemunha,
para dar testemunho da luz,
a fim de que todos acreditassem por meio dele.
Ele não era a luz,
mas veio para dar testemunho da luz.
O Verbo era a luz verdadeira,
que, vindo ao mundo, ilumina todo o homem.
Estava no mundo,
e o mundo, que foi feito por Ele, não O conheceu.
Veio para o que era seu,
e os seus não O receberam.
Mas, àqueles que O receberam e acreditaram no seu nome,
deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus.
Estes não nasceram do sangue,
nem da vontade da carne, nem da vontade do homem,
mas de Deus.
E o Verbo fez-Se carne e habitou entre nós.
Nós vimos a sua glória,
glória que Lhe vem do Pai como Filho Unigénito,
cheio de graça e de verdade.
João dá testemunho d’Ele, exclamando:
«Era deste que eu dizia:
‘O que vem depois de mim passou à minha frente,
porque existia antes de mim’».
Na verdade, foi da sua plenitude que todos nós recebemos
graça sobre graça.
Porque, se a Lei foi dada por meio de Moisés,
a graça e a verdade vieram por meio de Jesus Cristo.
A Deus, nunca ninguém O viu.
O Filho Unigénito, que está no seio do Pai,
é que O deu a conhecer.

24 dezembro 2025

Natal

 Adoração dos pastores (Matthias Stom, c. 1650)

Para todos os que ajudam a manter este estabelecimento aberto, quer através da participação ou apenas da visita e leitura, vão os meus votos de um Santo Natal. Que a contemplação do presépio seja motivo de alegria e confiança. 

JdB 

Em memória de Chris Rea (1951 - 2025)

 

23 dezembro 2025

Poemas dos dias que correm

Nascença Eterna 

Nascença Eterna,
Nasce mais uma vez!
Refaz a humílima Caverna
Que nunca se desfez.
.
Distância Transcendente,
Chega-te, uma vez mais,
Tão perto que te aqueças, como a gente,
No bafo dos obscuros animais.
.
Os que te dizem não,
Os épicos do absurdo,
Que afirmarão, na sua negação,
Senão seu olho cego, ouvido surdo?
.
Infelizes supremos,
Com seu fracasso alcançam nomeada,
E contentes se atiram aos extremos
Do seu nada.
.
Na nossa ambiguidade,
Somos piores, nós, talvez,
E uns e outros só vemos a verdade
Que, Verdade de Sempre!, tu nos dês.
.
Se nada tem sentido sem a fé
No seu sentido, Sol que não te apagas,
Rompe mais uma vez na noite, que não é
Senão o dia de outras plagas.
.
Perpétua Luz, Contínua Oferta
A nossa escuridade interna,
Abre-te, Porta sempre aberta,
Mais uma vez, na humílima Caverna.


– José Régio, em ‘Obra Completa’.

21 dezembro 2025

IV Domingo do Advento

 EVANGELHO – Mateus 1,18-24

O nascimento de Jesus deu-se do seguinte modo:
Maria, sua Mãe, noiva de José,
antes de terem vivido em comum,
encontrara-se grávida por virtude do Espírito Santo.
Mas José, seu esposo,
que era justo e não queria difamá-la,
resolveu repudiá-la em segredo.
Tinha ele assim pensado,
quando lhe apareceu num sonho o Anjo do Senhor,
que lhe disse:
«José, filho de David,
não temas receber Maria, tua esposa,
pois o que nela se gerou é fruto do Espírito Santo.
Ela dará à luz um Filho
e tu pôr-Lhe-ás o nome de Jesus,
porque Ele salvará o povo dos seus pecados».
Tudo isto aconteceu para se cumprir o que o senhor anunciara
por meio do Profeta, que diz:
«A Virgem conceberá e dará à luz um Filho,
que será chamado ‘Emanuel’,
que quer dizer ‘Deus connosco’».
Quando despertou do sono,
José fez como o Anjo do Senhor lhe ordenara
e recebeu sua esposa.

20 dezembro 2025

Pensamentos Impensados

A língua portuguesa é muito traiçoeira; ouvido na televisão:

    A mãe pediu o poder paternal... 
    No âmbito do processo Casa Pia, foi ouvido um surdo-mudo...

Os afro-asiáticos são parentes afastados dos afrodisíacos.

Os peixes podem ter apetites carnais?

Poderá falar-se do dia-a-dia do guarda-nocturno?

SdB (I)

18 dezembro 2025

Poemas dos dias que correm

Autobiografia

Quando era pequeno
estava sempre triste,
e o meu pai dizia,
olhando-me e meneando
a cabeça: meu filho
não serves para nada.
 
Fui depois para a escola
com pão, até logos,
mas acompanhado
pela tristeza. O professor
grasnou: menininho
não serves para nada.
 
Veio, então, a guerra,
a morte – vi-a –
a quando acabou
e toda a gente a esqueceu,
continuei, triste, a ouvir:
não serves para nada.
 
E quando me puseram
as largas calças,
a tristeza de imediato
tratou de mudá-las.
Meus amigos disseram:
não serves para nada.
 
Na rua, nas aulas,
odiando e aprendendo
a injustiça e as suas leis,
perseguia-me sempre
a triste cantilena:
não serves para nada.
 
De tristeza em tristeza
fui caindo pelos degraus
da vida. E um dia
a miúda que eu amo
disse-me, de modo alegre:
não serves para nada.
 
Vivo agora com ela,
limpo e bem penteado.
Temos uma filha,
a quem, por vezes, digo,
também com alegria:
não serves para nada.

josé agustin goytisolo
iluminação do eu
antologia de poesia hispano-americana
tradução de daniel ferreira
contracapa
2021

17 dezembro 2025

Vai um gin do Peter’s ?

O NATAL PEDE OLHOS PARA O IMPREVISTO

Mão amiga enviou-me o testemunho sobre um pater família extraordinário, escrito por um dos filhos mais novos, pouco depois da Partida desse pai marcante. O escrito continua em construção, a receber inúmeros contributos, enquanto uma neta resolveu passar o texto nuclear para o formato de podcast. Assim começou a revelar a vida bondosa e discretíssima do avô, que se cruzou com um mar de gente em dificuldade, desencantando soluções para problemas que não estavam ao alcance dos próprios resolver. A um fez chegar o dinheiro para poder fazer uma cirurgia urgente, a outro comida, a outro a marcação da consulta com o médico certo e a muitos sem-abrigos um cobertor quente para os proteger de mais uma noite invernosa, ao relento! Para lá das muitas pessoas ajudadas, impressiona a simplicidade discreta daquele pai e avô soft, que tive a sorte de conhecer. Era um homem de fé, muito autêntico, com imenso charme e uma boa educação transbordante de generosidade e subtileza. Adivinhava-se no seu olhar límpido e fraternal uma alma grande, embora só antevisse a ponta do “iceberg”. Descobre-se no podcast uma outra dimensão, vivida em segredo, sem que a mão esquerda soubesse o que fazia a direita.   

A aproximação da noite mais estrelada do ano quadra bem com a beleza escondida desta vida tão generosa e empenhada em socorrer quem encontrou desamparado. O filho chamou ao testemunho sobre o pai: «Legado da bondade secreta de Miguel de Almeida», contando o que viu e depois juntando os incontáveis frutos que continuam a despontar onde menos se espera: 

https://drive.google.com/file/d/1b9PJVZUkcN5mLkGnyBZM_P0-CiUsJULs/view?usp=sharing

De facto, a capacidade de amar para além do universo daqueles com quem temos afinidades, sempre tocou a humanidade, embora nem todos tenham (tenhamos) a coragem de ouvir e de responder aos gritos de socorro que nos rodeiam. 

Se há momento onde se sente a presença do amor universal é no Natal. Mas esse expoente do Amor ultrapassa a tal ponto a mente e as capacidades humanas, que se torna vertiginoso, abrindo-nos um horizonte imenso, que nos tira da nossa zona de conforto (para dizer o menos). Quase tudo no Bebé de Belém resulta paradoxal aos olhos humanos: o omnipotente assumir a vulnerabilidade humana, o eterno entrar no tempo, o imortal sucumbir à morte a que os humanos estão sujeitos, mas não os anjos, menos ainda um deus... Oscar Wilde (in “De Profundis”) considerou Cristo a figura mais revolucionária, plena e interessante da História. 

Precisamente, na arte reverbera muito do vanguardismo de Jesus, daquele que mais nos desinstala. Picasso oferece vários exemplos, como na sua tela prenunciadora do cubismo «Les demoiselles d’Avignon» (1907), que desafiou as gerações do princípio do séc. XX, exibindo com desfaçatez e despudor um grupo de prostitutas de um bordel de Barcelona. Claro que chocou a maioria, embora a sua obra possa ser vista como uma réplica modernista da frase chocante de Jesus, quando surpreendeu os Doutores da Lei e demais chefes da Sinagoga, garantindo-lhes que os cobradores de impostos (frequentemente, mercenários e corruptos) e as prostitutas iriam à sua frente para o Céu. Mas não tenhamos ilusões sobre a actualidade desta frase do Evangelho, que sempre se aplicou e aplica a muitos dos cumpridores do culto e dos preceitos religiosos. Esta imprevisibilidade, que vira do avesso os critérios meramente humanos, foi repetida por Cristo de muitos modos: nem todo o que diz, Pai, Pai, entrará no Reino dos Céus, para além da parábola do bom Samaritano (estrangeiro desconsiderado pelos judeus), que em caridade verdadeira dá mil a zero ao sacerdote e ao levita (da elite religiosa judaica)! 

Pablo Picasso (1881-1973):  «Les Demoiselles d'Avignon», 1907, tela de 244cm x 234 cm © MoMA de Nova Iorque.

O ex-galerista de arte, actualmente responsável pela Catedral de Westminter, em Londres, oferece uma interpretação deliciosa sobre a ‘tirada’ desafiante de Jesus, aparentemente, no limite do aceitável: 

«Jesus says something that must have shocked His listeners, when He tells the chief priests and elders that tax collectors and prostitutes are entering the kingdom of God ahead of them. In doing so, He overturned the usual assumptions about who was close to God and who was not. People presumed that holiness was found among the religious leaders, the outwardly respectable, those who kept the rules. Jesus suggests the opposite: that God may be at work in the very people society dismisses or judges.

We too can be so quick to judge others, especially in a religious context. It is easy to assume who is “in” and who is “out,” who is close to God and who is far away, based on what we see on the surface. Yet, only God knows the real story... the hidden battles, the quiet acts of kindness, the longing for grace that lies beneath a person’s life.

In this context, it is interesting to think of Pablo Picasso’s Les Demoiselles d’Avignon, one of the most famous and controversial depictions of prostitutes in Western art. Painted in 1907, it shows five women from a brothel in Barcelona, confronting the viewer with bold, unidealised faces and angular bodies. Picasso was not painting them to celebrate their profession, but to challenge viewers to confront the humanity often hidden behind labels, judgement, and social shame, something not unlike the very people Jesus welcomed in today's Gospel.

What shocked the art world in 1907 was not only the subject matter, but the radical way Picasso painted it. Les Demoiselles d’Avignon is considered by many to be the first great step into Cubism, the movement Picasso later developed with Georges Braque. Cubism broke away from traditional perspective; instead of showing one viewpoint, it fractured forms into sharp facets, presenting multiple angles at once. It was a way of saying that reality is more complex than a single viewpoint can capture, much like the human soul itself.

In a way, this mirrors what Jesus does in today’s Gospel: He asks us to see beyond outward appearances, to look past the labels society gives, and to recognise the dignity, depth, and sacred worth of every person, especially those whom the world is quickest to judge.» 

Do P. Patrick van der Vorst, a 16.DEZ.2025  

Meio século antes de Cristo, Heráclito (500 a.C.-450 a.C.) – filósofo pré-socrático da Grécia antiga, pai da dialética e alcunhado de “obscuro”, nomeadamente, pelos paradoxos – cumpriu a audácia dos bons pensadores, aconselhando o desconforto da busca de um horizonte mais amplo, para conseguirmos responder ao pedido de infinito que nos habita. Intuitivamente, foi arauto do maior anseio do coração humano, estranha e misteriosamente sedento de uma grandeza que não abarca. Heráclito condensou esse conselho neste aparente paradoxo: «Se não esperarmos o inesperado, não o reconheceremos.» (traduzido da citação encontrada em francês: «Si l’on n’éspère pas l’inespérable, et bien, on ne le reconnaîtra pas.»).  Em pleno séc. XX, a muito glosada (frequentemente, adulterada) frase de Camus «sejam realistas, peçam o impossível» ecoa o sábio paradoxo do grego sobre a necessidade vital de desejarmos para lá dos limites visíveis e da mera lógica comum… sob pena de nos escapar o principal. No recentíssimo filme-documentário dedicado pelo actor e realizador italiano Roberto Benigni ao seu Apóstolo preferido, S.Pedro, reitera-se a mesma ideia: «As coisas mais importantes da vida não se aprendem e não se ensinam: encontram-se».  No ano zero da era cristã, coube aos Magos a coragem de procurarem o imprevisto. Por isso, conseguiram reconhecê-Lo abrigado num casebre improvável, onde o Salvador também nos espera… se O procurarmos.  

FELIZ E SANTO NATAL a todos, 

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas) 

16 dezembro 2025

Da astrologia

o costume...

Sábado passado foi ouvir a minha amiga Luiza Azancot a falar sobre Alinhamento para o novo ano, sabendo como enfrentar os novos desafios e abraçar oportunidades. A Luiza, por quem tenho uma grande amizade, já manteve neste estabelecimento um rubrica regular e muito interessante intitulada Diário de uma Astróloga. É uma mulher inteligente, boa comunicadora, culta e, estou certo, astróloga competente.

Tenho uma relação pacífica com a astrologia: não sei muito e não quero (nem conseguiria) saber mais; embora reconheça que poderá haver algum fundo de verdade, nunca usei a astrologia para nada - nem para me inquietar, nem para me dar grandes explicações, nem para me orientar em caminhos futuros nem para me precaver ou alegrar com o que aí vem.

Na palestra da Luiza - à qual fui com gosto, sem fazer sacrifícios nem fretes de amigo - estavam entre 20 e 30 pessoas, mais coisa menos. E começou com numerologia: o somatório dos algarismos que compõem 2025 (2+0+2+5) é 9. O somatório dos algarismos que compõem 2026 (2+0+2+6) é 10. Entre ambos há um mar de diferenças: 2025 é fim de ciclo, 2026 é princípio de ciclo. Não consigo obviamente reproduzir tudo o que foi dito, mas falou-se de novos projectos, de acabar com coisas que nos são tóxicas ou pesadas, de largar lastro prejudicial, de abraçar o futuro e tudo aquilo que ele nos oferece de possibilidades num ciclo que agora começa.

Ouvi tudo com atenção (a retenção já é outra coisa...) e, ao olhar para as pessoas, só via olhos de felicidade, de esperança, de certeza quanto à força que vamos ter para acabar com o que não merece continuar. Pessoas vi que sentiam que a Luiza estava a falar para elas, e que elas já tinham percebido dentro de si a alegria de um novo ciclo.  Havia ali uma espécie de irmandade composta por pessoas para quem 2026 já era um mar de alegrias.

Ora, eu, que tenho sempre esta mania de olhar para o lado menos solar das coisas, dei por mim a pensar. Será que ninguém tem medo de vir a ser a vítima da pessoa para quem 2026 será um ano de novos começos? Eu explico com um exemplo totalmente fictício: no mesmo sofá está o José, dono de uma empresa onde trabalha o Carlos. O José está certo que a Luiza fala para ele, porque ele percebe o ano da mudança, da alegria da mudança: José olha para Carlos, sorri de um encantamento todo feito de futuro e diz ao empregado: olha Carlos, é tempo de seguir os meus sonhos. Vou fechar a empresa e vou pintar girassóis para o Tahiti, que sempre foi o meu sono. Vais ter de procurar emprego. 2026 vai ser um grande ano para me realizar...

Conversava com alguém que me dizia, face ao exemplo que eu dei, que para o Carlos o fecho da empresa pode ser uma oportunidade. É claro que pode! Mas será que o Carlos quer? E será que o preço que ele vai pagar não é demasiado? Todos nós temos a possibilidade de transformar uma desgraça num triunfo pessoal. Porém, muitos dos que passaram pela desgraça preferiam não a ter vivido, e passariam bem sem o triunfo. 2026 pode ser ano de novos começos. Mas também pode ser o ano de muitos fins. Quem sorri tem de ter a certeza de que é protagonista dos seus começos, e não vítima dos fins dos outros...

JdB        

14 dezembro 2025

III Domingo do Advento

 EVANGELHO – Mateus 11, 2-11

Naquele tempo,
João Baptista ouviu falar, na prisão, das obras de Cristo
e mandou-Lhe dizer pelos discípulos:
«És Tu Aquele que há de vir ou devemos esperar outro?»
Jesus respondeu-lhes:
«Ide contar a João o que vedes e ouvis:
os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados,
os surdos ouvem, os mortos ressuscitam
e a boa nova é anunciada aos pobres.
E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim
motivo de escândalo».
Quando os mensageiros partiram,
Jesus começou a falar de João às multidões:
«Que fostes ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento?
Então que fostes ver? Um homem vestido com roupas delicadas?
Mas aqueles que usam roupas delicadas
encontram-se nos palácios dos reis.
Que fostes ver então? Um profeta?
Sim – Eu vo-lo digo – e mais que profeta.
É dele que está escrito:
‘Vou enviar à tua frente o meu mensageiro,
para te preparar o caminho’.
Em verdade vos digo:
Entre os filhos de mulher,
não apareceu ninguém maior do que João Baptista.
Mas o menor no reino dos Céus é maior do que ele».

13 dezembro 2025

Pensamentos Impensados

O Kama Sutra, se estiver em formato de "livre de poche" passa a ser "livro deboche"?

De uma pessoa que caia 10 vezes se diz que está em decadência.

Tenho espondilose, artrose, exostose e escoliose; serei o feiticeiro de ose?

O milho roxo é um cereal killer?

SdB (I)

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