quarta-feira, 3 de setembro de 2008

A montanha sagrada de Ngomakurira


O convite para o JdC, proveniente de um diplomata acreditado em Harare, referia o seguinte:
(...) an outing on the top of mount Ngomakurira (this is the big bold mountain next to Domboshawa) scheduled 31 August. This will be a late afternoon early evening "camping diner around a campfire". An absolute must. Splendid scenery and rock paintings. A good manner to celebrate the end of the cold season. It will be possible to walk up, and down, or drive up and down (or mixed). I will organise cars etc… driving up is possible but difficult, requiring a few 4X4 skills and good nerves.
Graças à amabilidade de ambos os interlocutores em boa hora fui incluído. O programa prometia e não desiludiu: encontro pelas 14.30h em casa do referido diplomata, caravana de quatro jeeps 4x4 em direcção a uma montanha considerada altamente sagrada pela população local, organização da equipa que iria a pé ou de carro.
Fui dos voluntários entusiastas para subir à custa do meu próprio combustível – hora e meia de caminhada lenta, vagarosa, íngreme, por capim escorregadio, pedras soltas ou rocha firme, mas nunca por trilhos abertos pelo Homem. Uma subida cansativa, acompanhada por uma conversa franca, agradável, simpática, com os meus companheiros de escalada (JdC incluído). Se levássemos bandeiras nacionais ver-se-ia a da Bélgica, Argentina, Zimbabué, Áustria, Portugal.
Uma vez por semana começo o meu post com a frase: Hoje é Domingo, e eu não esqueço a minha condição de Católico. Tal como já tinha experimentado nos Açores e na Madeira, por exemplo, mas também noutros locais do mundo onde a natureza ocupa todos os nossos sentidos, ontem tive a noção da minha pequenez face à grandiosidade, ao carácter esmagador de tudo o que me envolvia, de tudo o que sinto ter sido obra da Criação. Como crente, quero acreditar que nada desta beleza é por acaso (sabendo que não posso usar o mesmo raciocínio para o que é feio). Foi, seguramente, das vistas mais deslumbrantes que pude observar em toda a minha vida. Não a vegetação luxuriante dos nossos arquipélagos, não a envolvente com o mar no Rio de Janeiro, mas a extensão de África, que não me canso de sublinhar. Se não vi paisagem até ao fim do mundo, isso não se deve ao facto da Terra ser redonda – os meus olhos, simplesmente, já não abarcavam mais. Uma paisagem fascinante, feita sobretudo de campo, numa mancha que se salientou aos meus olhos como acastanhada seca.
Chegámos ao topo da montanha Ngomakurira a pouca meia hora de distância do pôr-do-sol. Esperava-nos uma mesa posta com bebidas: cerveja, água, vinho, refrigerantes. Mais à frente, cadeiras de campismo dispostas à volta de uma fogueira que se acenderia quando a noite caísse, e que seria a única iluminação naquele noite escura como breu.
Andei um pouco por cima de rochas para me abeirar do precipício, de onde poderia ver até ao limite das minhas possibilidades. Tudo em meu redor pedia silêncio, recolhimento, liberdade de pensamento, mesmo que as minhas ideias estivessem fugidias, desencontradas, desconexas. Ali apetecia estar em paz com a vida, connosco próprios, expurgar dos nossos corações tudo aquilo que nos magoa, nos deprime, nos conflitua com o próximo. Nenhuma imagem valerá mais do que mil palavras, nenhum texto sublime substituirá uma fotografia. Há sensações que nos são únicas, intransmissíveis, que ficam dentro de nós, exaltações que não se descrevem, porque o pudor que cada um tem as reserva para si. Cada um dos que estava à minha volta terá tido sensações próprias e condicionadas por estados de espírito, dores do corpo, vidas únicas e reservadas. Eu, confesso, senti-me esmagado. E que bom é, devo confessar, ter a felicidade de olhar para alguma coisa, algum lugar, algum espaço e ver para além da beleza do postal ilustrado; sentir que algo mexe dentro de nós, nos inquieta ou sossega; olhar com os olhos, mas também com o coração, porque as coisas não são (só) o que são, são aquilo que vemos nelas, com o olhar que temos no momento.
Caiu a noite e eram horas de jantar. Sentámo-nos à volta da fogueira, não a cantar como os meninos, mas a conversar em pequenos grupos, a perguntar e a ouvir – não só a quem e de quem está ao nosso lado, mas também aos nossos silêncios, às nossas entranhas, ao nosso eu irrevelável, àquilo que dentro de nós declara o sentido das coisas.
Era já noite escura de uma lua nova quando empreendemos, em menor número do que à subida, a caminhada de volta para os carros. Apoderava-se de cada um de nós, estou certo, o cansaço físico. Havia quem conversasse, quem fosse em silêncio, de lanterna em punho a perscrutar as pedras do caminho, vislumbrar quais as que nos fariam tropeçar e cair. Obstáculos da caminhada, metaforicamente falando ou não.

Adeus, até ao meu regresso…

4 comentários:

Anónimo disse...

Por essas razões e para quem por la passou que é o caso não me canso de ver o Out of Africa.....- "I had a farm in Africa..."
Amigo, essa dimensão ficará para sempre instalada em si.........
Beijo tridimensional

Anónimo disse...

Também estou esmagada com a beleza.
Parabéns pela descrição e pelas fotografias.
É uma maneira linda de comemorar um fim de estação. Belo programa.
Beijinhos

Anónimo disse...

Deve ser uma sensação formidável!

ana v. disse...

Caramba, vizinho, está a ficar especialista em crónicas de viagem! Quase me senti aí, esmagada também. Há experiências que nunca mais se esquecem... e essa, aposto, vai ser uma delas.

beijo

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