terça-feira, 9 de setembro de 2008

Cartas à minha madrinha

Querida Madrinha,
Espero que esta a encontre de saúde, que nós por cá todos bem.
Vou presumir a minha diligência no cumprimento das suas fortes recomendações:
Misture-se com as pessoas, oiça o que têm para dizer, ausculte os seus problemas e anseios, disseque-lhes os passados, descortine-lhes os presentes, preveja-lhes os futuros.
Tentei, madrinha, tentei, e acho que consegui – ainda que o empreendimento não seja de se atar e pôr ao fumeiro. Conheci pretos, brancos, amarelos (para mantermos a interpretação colorida dos povos orientais), cores misturadas. Conversei com gente de cá, gente daí mas que está cá, gente de passagem, gente interrogada quanto ao seu destino, gente certa quanto ao seu querer.
Sabe? Se me pedisse para lhe dizer uma única coisa que todos têm em comum, não hesitaria um minuto, dar-lhe-ia a resposta em menos tempo do que a madrinha demora a matar insectos incómodos com o seu mata-moscas de plástico: as pessoas gostam de cá estar, de cá viver.
Ninguém me disse que queria ir embora no vapor da madrugada, ninguém se referiu ao país como um charco de tristezas onde sobrenadam carências múltiplas. Pedem-se 50 dólares americanos por uma dúzia de ovos; não há carne, peixe, bens essenciais; a electricidade falta, fomentando o negócio dos geradores, provocando ruídos persistentes e desagradáveis na quietude do bairro.
Mas, não obstante este quadro de tristeza, as pessoas querem ficar: o editor inglês que é casado com uma senhora daqui; o casal de alemães que vive cá há 38 anos; a brasileira cujos pulmões respiram melhor em Harare do que em Brasília; o professor universitário indiano a quem não pagam há dois meses; as duas irmãs locais que mantêm uma banca numa espécie de feira da ladra em versão pior; a jovem elegante e enóloga que promove vinhos, revolvendo gotas de néctar sob a língua enquanto fala em finais prolongados.
Antevejo-lhe a sagacidade nos olhos, madrinha, a pergunta que assoma na ponta da sua língua:
E porquê, menino? Porque quer toda essa gente ficar, quando uma omeleta custa os olhos de uma cara, um frango de fricassé assume foros de luxo, a penúria do molho de tomate é servido a conta-gotas?
Eu respondo em três pequeninas palavras, mesmo que nesta frase esteja implícita a suspeita de um raciocínio estranho, enviesado: qualidade de vida. As pessoas, na diversidade dos seus anseios, na multiplicidade das suas vontades, na imensidão das suas frustrações, revêem-se no sossego, no clima, no convívio, na beleza, na extensão, no potencial. Todas as que são daqui revelam um orgulho em serem zimbabueanas, um povo, garantem-me, que é pacífico, afável, paciente, que se contenta com tudo, que não responde quando é agredido, não respinga quando sofre o ardor de um estalo. Ninguém ambiciona o consumismo europeu, a voragem trabalhadora, o stress do trânsito, a vulgaridade das televisões, o acanhado - em termos comparativos - das cidades.
De um ponto de vista mais corriqueiro, digo-lhe que as raparigas de cá são muito casadoiras - no sentido da vontade: as irmãs Magdalene (curioso como este nome desemboca sempre no estuário da minha vida) e Purity, com quem lanchei num fim de tarde morno; a Monalisa, a Melissa e a Memory com quem confraternizei numa noite congolesa feita de M’s (esta inicial, senhores...). Todas elas ambicionam um homem que as vele, que as proteja, com quem possam partilhar os momentos difíceis e tormentosos de um futuro que não se abre, para já, risonho. Dizem-me que não há homens com vacas suficientes – ou com interesse quanto baste. Mas a raparigada de cá quer aquilo que na Europa se abandona com um desinteresse militante, se desfaz com uma facilidade imensa, se repete como um pitéu que caiu bem: o casamento.
A nível escolar, muito embora haja 12.000 estudantes universitários em Harare, só conheci uma local - a Purity – quase finalista de engenharia civil. Sorrio, madrinha, sorrio, porque estou à espera da próxima pergunta:
E o que fazem a tanto licenciado, se o país tem o dinamismo de um caracol, a abundância de um lar pobre, a visão de um frequent flyer da multiópticas?
Pois é… Emigram para a África do Sul, Moçambique ou Angola, Inglaterra, onde são considerados bons profissionais. As jovens com quem falei mostraram vontade em ter uma experiência de expatriação, conhecer outro mundo. Elenquem-me destinos, solicitei curioso. Não se fizeram rogadas e falaram-me de Espanha, do Canadá, da Noruega, não porque se revejam nos países, mas porque têm lá uma amiga, um conhecido, um parente. O regresso, mesmo assim, adivinha-se-lhes nos olhos. Este é um país tribal, rústico, onde o apelo da terra, o chamamento do campo e das raízes ancestrais se fixa na alma de cada um, condicionando a vida a longo prazo.
Perguntar-me-á, curiosa, sobre a influência dos Estados Unidos, esse eterno protector do mundo e da civilização ocidental, na cultura desta juventude que erguerá o Zimbabué das cinzas. Diria que pouca, muito pouca. A música que ouvem, e ao som da qual dançam e se meneiam numa sensualidade que corrompe, é local – essencialmente africana; não há o conceito do hambúrguer e a paisagem não foi desfeada, ainda, pela existência do McDonald’s. Lê-se pouco, provavelmente, porque não há dinheiro para o sustento do corpo, quanto mais para o do espírito. Entre o Truman Capote e um prato de chicken fingers – em havendo para o que quer que seja - les coeurs ne balancent pas…
Sabe, madrinha, tenho saudades da família, de casa, do mar, dos amigos, da disponibilidade do supermercado, do paredão, da banda larga, do 2º canal da RTP, da farmácia Cruzeiro, da FNAC. Forças fortes e irresistíveis impelem-me ao regresso na data aprazada. Mas, digo-lhe, percebo o encanto da vida aqui, numa cidade que me tratou bem e que tem a fama de ser a mais bonita da África subsariana, num país que tem um futuro que pode ser invejável, onde fazer 600km é ir ali que já se volta, onde os babuínos velam, o kudu espreita, o elefante calcorreia o nosso alcatrão. Regressarei ao solo que me viu nascer dando mais importância ao valor dos bens triviais, com cuja escassez me defrontei aqui, e que foi um bom ensinamento para um certo modo de vida.
Termino, querida madrinha. Se tenho histórias de pessoas para contar? É claro que tenho. Mas o meu blogue é um livro aberto, uma montra escancarada por onde estou certo que se espreita. Entre aquilo que eu sei dos outros e aquilo que gosto de inventar sem maldade há o pudor da vida alheia. Aqui, como em todo o lado, há amores que se perdem, olhos que se desencontram, mãos que se tocam na escuridão de um sonho ou de um desejo. Aqui, neste calor que se aproxima, a perdição anda de mãos dadas com a ânsia, a tristeza e a alegria são parceiras inseparáveis, entre a quimera e o desânimo não se sabe quem espreita quem.
Deixe-me abraçá-la e beijá-la, ainda que de longe.






1 comentário:

Anónimo disse...

Desejo que a sua madrinha o abençoe e o estimule a mais desabafos destes.
Gostei muito desta carta, reflecte bem a vida de luz e de sombra.
Já soa a despedida para uns e boas vindas para outros.
C'est la vie mon ami...
Beijinhos

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