sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Ir a Lusaca e voltar


Atravessamos a fronteira na zona do lago Kariba, que nos garantem ter menos movimento, vedado que está o trânsito a pesados nesta estrada que cruza uma reserva. Até cerca de 40km da Zâmbia seguimos a estrada que todos os camiões provenientes da África do Sul, Moçambique, Zimbabué tomam para rumar a norte. Encontrar-se-ão na estrema do país, formando longas filas para vencer os obstáculos burocraticamente complicados na passagem de um lado para o outro.
Os procedimentos para atravessar a linha que separa os países, embora cumpridos de forma simpática pelos funcionários diligentes, são totalmente obsoletos à luz dos nossos critérios ocidentais: longos cadernos preenchidos à mão - pelo próprio transeunte - sem qualquer controlo, carimbos sucessivos em documentos vários, perguntas importantes cujas respostas não são validadas e, por fim, de cá para lá, o pagamento de 50 dólares americanos pelo meu visto, pois sou turista. Uma forma expedita de ganhar divisas a troco de um recibo bonito, como um selo holográfico, carimbado em duplicado.
Estando bem acompanhado, nunca temi pela minha segurança, muito menos pela minha não passagem para o o país vizinho. Mas, o facto é que persiste a sensação (formatada pela nossa facilidade de circulação no espaço Schengen) de que uma resposta mal dada, um sorriso entendido a desoras ou uma desconfiança provocada por um diálogo que os locais não entendem poderão provocar um pequeno incidente, onde a razão da força esmagaria a força da razão, com a mesma dificuldade com que um elefante tropeçaria numa lêndea ao sol de inverno.
Durante alguns quilómetros, já em solo zambiano, temos a noção de uma vegetação semelhante à que deixámos para trás – vastidão, mato, cores secas verde e castanha, alguns cabeços povoados por árvores que crescem nesta zona de África. A aproximação a Lusaca realça as diferenças: do lado zimbabueano, uma natureza selvagem, espontânea, bonita. Do lado da Zâmbia, uma natureza igualmente selvagem, mas desorganizada, anárquica, com grandes vestígios, junto de alguns aglomerados populacionais, de sujidade e descuido.
Facilmente nos apercebemos de que a Zâmbia é um país que não vive a crise profunda do seu vizinho: há uma profusão imensa de carros em circulação, sinal de acesso fácil a combustível; as lojecas de beira de estrada, embora degradadas, estão abertas e em funcionamento; há bancadas de venda de produtos ao longo do percurso, um ror de mini-buses (os nossos pães de forma) evita os infindáveis pedidos de boleia ao longo das vias.

Devido a características próprias, mas também devido às cerimónias fúnebres do presidente Mwanawasa, que se realizaram na 4ª feira e que provocaram o encerramento de algumas ruas, o trânsito na cidade é caótico, lento, desrespeitador das convenções mundiais – um amarelo obriga a passagem sob risco de embate por trás, um vermelho depende…
Tenho o dia 3 de Setembro livre – pelo menos até ao fim da tarde. Refiro ao Sr. Eurico Marques, emigrante nestas paragens há 50 anos, rotário e natural da Figueira da Foz – e que foi de uma amabilidade inestimável aquando da nossa chegada – que talvez vá passear a pé pela cidade, munido de um mapa, de máquina fotográfica e de curiosidade pelos motivos de interesse que sempre existem numa capital africana. Recomenda-me fortemente que não o faça, dado o carácter aparentemente violento das gentes locais. Convida-me, como alternativa, para um programa bem menos agressivo, se exceptuarmos o excesso ponderal de que ainda sofro: um churrasco, um braai em linguagem africander, em casa de um sul-africano, caçador de caça grossa, e que conheci no MOTH (Members of the Tin Hat) de volta de uma bebida generosa.
No dia seguinte lá estávamos, em casa do Chris e da sua segunda esposa, uma ucraniana de Odessa e aqui residente há mais de vinte anos. Ainda o relógio não batera o meio-dia e meia hora e já eu me servia de um uísque, bebida que me acompanharia durante o almoço, até meio da tarde. Precavido, previdente e cauteloso, só a primeira dose foi correcta; todas as outras foram sub-standard, porque a sobriedade é uma característica a manter, estejamos na África profunda, na cosmopolita Londres – ou no pacato Monte Estoril. Os outros convivas (mais dois sul-africanos, um deles casado com uma russa) provocaram, pela amostra da manhã, um aumento no vidrão local. O que comemos? Vaca, porco e salsichas de Kudu (um primo do antílope), carnes limpas e suculentas, grelhadas ao ar livre e borrifadas com cerveja, enquanto os convivas peroravam sobre o futuro da nação e sobre a entrega de África aos locais.
Lusaca é uma cidade relativamente feia – bem menos interessante do que Harare – mas com outra pujança. Enquanto aqui, na capital do Zimbabué se têm de procurar legumes por montes e vales, pesquisando aturadamente os melhores preços da cebola ou do tomate, havendo, para além disso, um excesso de inexistências (passe a contradição) de bens essenciais, lá há de tudo, como na botica. Fomos a um supermercado normal, e senti-me no Harrod’s, quando ainda não era do egípcio. É extraordinário como a trivialidade se transforma em luxo: deambulámos pelos topos de gôndola, circulámos pelos corredores dos enlatados e das farinhas com um salivar disfarçado, porque a sobriedade, repito, é uma atitude a manter.
O regresso, ontem de manhã, voltou a ser pelo lago Kariba, onde a presença de quatro elefantes na beira da estada atrasou um pouco a partida após um almoço caro e de pouca qualidade. Acabamos por fazer os últimos quase 200 quilómetros de noite, o que é uma façanha arriscada: as estradas não têm luz, os carros não têm faróis, alguns circulam com os quatro piscas ligados, ou apenas um, ou com os máximos, porque é a forma de iluminação que as avarias e as falta de dinheiro provocam nos veículos. Há o quase desespero de se manterem visíveis pelos que passam na mesma estrada - e qualquer subterfúgio é bom, desde que eficaz; na beira, gente que pede boleia, que vende um peixe, raspadinhas para carregar os telemóveis, um bocado qualquer de legume. Se considerarmos a cor dos locais e a iluminação que (não) existe, facilmente percebemos os elevados riscos ocupacionais.

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