segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Vai um gin do Peter’s ?

Uma amiga, num almoço inspirado na esplanada da Gulbenkian a estender-se jardim adentro, onde nos esquecemos que continuamos no centro de Lisboa, recomendou-me um livro imperdível: as entrevistas a escritores de renome, publicadas na revista «The Paris Review» (http://www.theparisreview.com), criada em 1953 por escritores americanos radicados em Paris.

Um dos objectivos era dar voz aos próprios artistas, para contrapor ao excesso de audiência dada, já nessa altura, aos críticos literários. Assim arrancou um periódico único, que gravou grandes reflexões de grandes nomes da literatura do século XX.

O livro editado em Portugal o ano passado(1) registou os encontros com 10 escritores: E.M. Foster, Graham Greene, William Faulkner, Trumam Capote, Ernest Hemingway, Lawrence Durrell, Boris Pasternak, Saul Bellow, Jorge Luis Borges e Jack Kerouac. Os próprios entrevistadores circulavam no meio artístico, ajudando-nos a conhecer os entrevistados sem ser intrusivos nem banais… Tudo parece decorrer com alguma naturalidade, apesar de nem todos gostarem de ser observados, como Hemingway ou G.Greene.

Os recantos para escrever não podiam ser mais díspares e excêntricos: do gabinete vazio, a escassos centímetros quadrados numa prancha a abarrotar de papéis para ali escrever de pé na maior das austeridades, ou o sofá onde a escrita flúi na horizontal e de copo na mão, ou sentado em quarto escuro sem janelas ao jeito de uma cela... Quase não encontramos denominadores comuns. A regra parece ser a circunstância e o gosto exclusivos de cada escritor!

Em termos artísticos: uns superlativizam a ideia original perseguida pelo artista, enquanto outros assumem que escrevem para sobreviver, como qualquer outro trabalhador.

Uns consideram-se inspirados e embalados pelo prazer da escrita, enquanto outros dizem entregar-se ao árduo dia-a-dia, guiados pela disciplina férrea de quem tem de produzir páginas preenchidas em prazos muito apertados.

Uns curtem uma vida boémia e eclética, enquanto outros se sujeitam a uma agenda bem modesta e regrada.

E, ao contrário do que esperaríamos, não são os mesmos a somar o prazer das farras ao prazer da escrita!

Ainda no terreno das improbabilidades: também não são os palavrosos os mais abertos. Nem os comunicativos os mais interessantes. Nem os simpáticos os menos egocêntricos. Nem os antipáticos os menos afectivos. Nem os irreverentes os mais sinceros. Nem os faladores os mais profundos. Talvez porque a substância das coisas se comunique melhor nas entrelinhas.

E aqui deter-me-ia em dois dos gigantes que por ali desfilam, coincidentemente premiados com o Nobel, whatever it means: Boris Pasternak e Ernest Hemingway.

Nenhum é de contacto fácil, embora em Pasternak as manifestas dificuldades em ser entrevistado (a conversa reparte-se por 3 visitas diferentes) sejam atenuadas pelo facto de a entrevistadora ser de ascendência russa, filha de artistas com quem o escritor privara.

São ambos de uma agudeza de espírito indisfarçável. Nem mesmo os remoques resmungados por Hemingway turvam o jacto muito límpido da sua genialidade transbordante. Como uma ferida em carne viva que aguenta mal superficialidades. Uma alma causticada pela dor e pela incompreensão, que esgotou a tolerância à mediania. Sente-se, em ambos, que o tempo lhes foge, enquanto o caminho até ao cume permanece uma longa e penosa caminhada… a sós. Provavelmente, inatingível.

Este gin já vai longo pelo que deixarei para o próximo a entrevista memorável ao velho lobo do mar.

Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas, numa Segunda-feira)

_____________

(1) Título: Entrevistas da Paris Review

Autor: vários

Data de edição/reimpressão: 2009

Editor : Tinta da China

3 comentários:

marialemos disse...

A esplanada do jardim da Gulbenkian faz dessas:)
A sua sugestão faz-me lembrar «In the Warmth of Other Suns: The Epic Story of America's Great Migration» de Isabel Wilkerson. Baseia-se no 'Works Progress Administration's Federal Writers' Project' com autores como Saul Bellow. (O W.P.A. era conhecido como Whistle, Piss and Argue...)
Great post:)

Anónimo disse...

Podes continuar a falar-nos de literatura, MZ. Gostei imenso. Nunca mais me esqueço que me recomendaste o De Profundis do Oscar Wilde, um dos grandes livros que li até à data. Bjs e até ao teu regresso. pcp

Anónimo disse...

Obrigadíssima, às duas, os comentários tão animadores e com óptimas dicas. Peço desculpa de só agora estar online e poder agradecer-lhes. MZ

Acerca de mim

Arquivo do blogue