quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Moleskine

Mineiros chilenos. A saga continua mas, estou certo, daqui a meia dúzia de semanas ninguém falará deles, esfumando-se o tema na voragem das coisas mais mediáticas. Parece que continuam bem e, segundo li, já há alguma divisão de tarefas, o que permite uma ocupação, tão saudável quanto possível, do tempo. Demorará até que cheguem à superfície, se bem que se fale numa possível antecipação. Até lá é a ausência de sol, o relógio que marcha com uma lentidão de desespero, e as vídeo-conferências com familiares, disciplinados para um optimismo que se pretende contagiante.

Livros. Mais um excerto do Diário dos Vencidos – o 5 de Outubro visto pelos monárquicos em 1910 (Joaquim Leitão, Ed. Aletheia):

(...) Nessa ocasião, um sargento da Estrela falava pelo telefone ao Coronel Malaquias de Lemos, dizendo que lhe haviam comunicado que estava proclamada a República, e que se rendesse, mas que ele não queria render-se porque ainda podia combater.

- E o coronel Malaquias que respondeu?

- Respondeu o seguinte: “Entreguem-se também, que eu já me entreguei”. “Mas nós ainda podemos resistir!...”, dizia o sargento. “Entregue-se, já lhe disse!”, insistiu o coronel Malaquias. E voltando-se para quem estava: “Ora vejam a que estado de indisciplina chegou o exército! Um sargento a discutir comigo a oportunidade de se render. Que me dizem a este sargento, hã? Que me dizem ao sargento!?...”

Beatices (I). Casamento, Sábado, em Vila Viçosa. É de lamentar a canícula calipolense (37ºC às 14.00h, deglutia eu umas migas antes de me atirar à gravata...) mas tudo o resto esteve no domínio do perfeito. Faço parte daquela gente que, num casamento, distingue o verdadeiramente essencial – a cerimónia religiosa – do que é genuinamente importante – o copo-de-água. Fixei os contornos gerais da homilia – muito inspirada – e o fim da 2ª leitura, da famosa carta aos Coríntios: (a caridade) tudo desculpa, tudo crê, tudo espera, tudo suporta. A caridade não acaba nunca. Sentado na Igreja, olhei à volta e pensei que é nesta fé que eu quero continuar a viver.

Beatices (II). Missa, Domingo, no Estoril. No fim da homilia falam dois seminaristas, prestes a entrar no 2º ano, e dois rapazes que entrariam 2ªfeira para frequentar o 1º ano. Conheço um de cada grupo, amigos dos meus filhos. Em todos se nota a confiança e a exaltação. No fundo, não é isso, também, o que define a nossa espiritualidade? De facto, Deus não escolhe os capacitados, dá forças aos escolhidos. A fé pode ser contagiante?

Beatices (III). Mão próxima envia-me, 2ªfeira, o link para uma entrevista da LQ, minha amiga de juventude, que agora tem um lugar de responsabilidade nas Irmãs da Caridade. 25 minutos, quase, a falar do amor de Cristo, de serviço, dos mais pobres, da fome espiritual e da fome física. Retenho, no tom de voz que me é familiar, o sentido geral da conversa. Fixo uma das últimas frases, talvez: tenho a certeza de que nunca seria feliz em mais sítio nenhum”. Fé é isto.

Futebol. Segundo desaire no espaço de menos de uma semana, desta vez com a Noruega, com quem nunca tínhamos perdido. Vale-nos o hóquei em patins e a alegria de termos cilindrado, por 14-1, os nossos aliados ingleses. Somos melhores no stick - o que me faz lembrar que poderíamos oferecer um par de patins ao Madaíl e ao Queiroz.

Processo Casa Pia. Há muito tempo que embirro com o Carlos Cruz (antes, ainda, do processo) e alimento um convencimento (injusto, talvez, porque sem bases) da sua culpa. Mas, numa onda que por vezes me invade de fixar o acessório, dei por mim a olhar para o advogado Sá Fernandes, por quem não nutro simpatia alguma. E imaginei esta cena – hipotética, mas possível: a equipa de defesa de Carlos Cruz sabe da sua culpabilidade mas este, por deficiências processuais, acaba não condenado (falta de provas, erros, prescrição). Sá Fernandes tira o panamá (ou era um palhinha?), elogia a justiça que já não vive no mundo das trevas e abraça o apresentador, gritando, entre duas fortes palmadas nas costas transpiradas, porreiro, pá! Nesse dia, no remanso da sua vida familiar, beija a Sofia com um sorriso (desconheço se tem filhos da idade das vítimas) e pergunta-lhe: não queres abrir uma boa garrafa de vinho? Ganhámos o processo casa pia. Eu, agoniado e burguês na minha vida confortável, socorro-me de uma água das pedras e do sossego de não ser advogado, de ter tirado, apenas, um curso menor de engenharia.

JdB

3 comentários:

Anónimo disse...

Muito gosto eu desta misturada de temas! Hoje particularmente inspirado. Faço uma especial referência ao Beatices (I) e (III). O I porque é óbvio, não dá para comentar o que é óbvio e perfeito, o III porque conheci a LQ em Calcutá. Se não me engano... obrigada, as ever. pcp

Anónimo disse...

Esta dos patins para Madail e Queiroz è boa. Sabe como eu gosto de 2ºs. sentidos´
SdB(I)

Anónimo disse...

Excelente, João!
Apreciei sobretudo os patins e as observações "in fine" sobre o Processo Casa Pia.
Um abraço,
fq

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