sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A virtude dos doutoramentos

Fotografia do homem de Azeitão, intitulada "La chèvre et les couleurs d'automne"

Sigo sem atenção nem furor o fim do romance entre Bárbara Guimarães e Manuel Maria Carrilho. Senti o mesmo nível de entusiasmo com o início da relação, pois não nutro por qualquer um dos dois sentimento especial. Ela proporciona-me uma valência estética - moderada, no meu conceito -, ele oferece-me uma dimensão irritante. O meu voyeurismo tem limites, sobretudo se há défice de interesse e excesso do seu contrário. 

Nas minhas leituras pelo éter percebi que alguém se teria surpreendido com o comportamento de Carrilho, sendo ele um filósofo com um doutoramento e tradução em francês, proveniente de uma família com conhecimentos e estudos elevados. Significaria isto que o estado civilizacional avançado de MMC o impediria, de alguma forma, de assumir um comportamento aparentemente tão primitivo. Portanto, passe o raciocínio simplista, o que o ex-ministro socialista fez seria mais consentâneo com um cavador, filho e neto de cavadores. É o aparente paradoxo do comandante de um campo de concentração nazi: como era possível que entre as nove e as cinco mandasse judeus para a câmara de gás, e entre as cinco e as nove se sentasse a ouvir quartetos de Brahms?

Não saberia perorar sobre o mal, tema descrito à exaustão. Mas gosto de pensar (e adquirir certezas) que, como diria alguém próximo, um licenciado é apenas alguém que estudou mais anos. Um doutorado não adquire virtudes morais por tempo de estudo nem por quantidade de livros lidos. Por outro lado, seja num trolha provinciano, seja num doutorado urbano, não se consegue ser o que não se tem dentro de si - neste caso princípios básicos.

Aristoteles acreditava que todas as virtudes (a verdade, a honradez, a humildade, outras) poderiam ser adquiridas, mas para isso era preciso estar-se rodeado de pessoas que apreciassem essas virtudes. Talvez Carrilho se rodeasse apenas de si próprio e daquela sua evidente vaidade, desconhecendo que a adjectivação rica nos livros que escreveu não garante, nem significa, elevação moral. Independentemente de ter a razão do seu lado - algo que me é bastante indiferente - MMC é a evidência objectiva de que um curso não dá nada se não se tiver algo dentro de si. E que ser-se educado pode ser muito diferente de ser-se educado. A frase não é um erro, é uma nuance.

Ser-se filósofo pressupõe a procura da verdade. Há maneiras educadas de o fazer. 

JdB  

3 comentários:

LA disse...

Dominique Strauss Kahn - lembram-se? Nas vesperas de ser nomeado candidato a' presidencia de Franca...

Anónimo disse...

Ricas observações e soberba fotografia!
Abr
fq

Anónimo disse...

não sei se bateu ou não bateu e não sei se ela bebe, se enfrasca ou coisa parecida.
mas parece-me horroroso vir a público expor a vida íntima dessa meneira.
mas enfim, é a vida; já nos tempos da minha avozinha havia um ditado argentino,
"doctor se hace, señor se nace"

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