quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Crónicas de um mestrando tardio - o tempo


Várias pessoas me perguntam o que aprendo no mestrado em Teoria da Literatura. Para além de uma ou outra resposta mais completa, porventura mais maçadora, talvez se justificasse afirmar: por enquanto nada. E sublinharia o por enquanto, porque o busílis da questão pode andar por aí.

Há um conceito que me é absolutamente claro nesta altura - o momento em que nos ensinam e o momento em que aprendemos pode ser substancialmente diferente. Esta ideia é bastante interessante porque oferece um sossego e uma perspectiva: 1) não conseguirmos/querermos aprender logo não precisa de ser estranho, muito pelo contrário. 2) a noção de tempo passa a ser algo de muito próprio, pouco baiada por ideias comummente aceites. Tento explicar:

1) quando se conclui o ensino no tempo dito normal, os momentos de ensinamento e aprendizagem são simultâneos - ou pouco diferidos, se pensarmos no estudo após uma aula ou antes de um exame. Ora, o que eu sinto é algo diferente, talvez porque a minha mente já esteja cansada e a memória esvaecida pelo uso. O que eu oiço nas aulas é como uma despensa que se vai enchendo com matéria-prima gastronómica: peixe, massas, especiarias. Ali fica tudo em repouso, porque me falta a sabedoria para uma utilização proveitosa. Um dia mais tarde, quando eu conseguir assimilar vocabulários novos, o que lá está dentro assume um sentido mais certo e parece encaixar-se numa lógica existencial. Sinto que há um puzzle sobre a vida que se vai fazendo na ressaca daquelas aulas. Estranho? Não, falta-me é a capacidade de explicar.

2) Se o momento do ensinamento pode ser diferente do momento da aprendizagem, será que podemos extrapolar a ideia para outros campos? O momento em que fomos a Paris, ou a Londres, ou a Florença pela primeira vez foi, de facto, a primeira vez, ou foi noutra altura? O nascimento dos filhos foi naquele momento, ou pode ter sido num outro? E o desaparecimento de alguém que nos era particularmente querido foi exactamente naquele dia específico? Em que difere o tempo cronológico e o tempo emocional (em sentido lato)? Em que momento é que ouvi o verso de Walt Whitman (…) Do I contradict myself?/Very well, then I contradict myself/(I am large, I contain multitudes)? Foi quando mo citaram ou quando ele fez sentido dentro de mim? 

O que aprendo no mestrado em Teoria da Literatura? Por enquanto pouca coisa, mas a culpa é minha…

JdB  

4 comentários:

LA disse...

"Education is an admirable thing, but it is well to remember from time to time that nothing that is worth knowing can be taught" Oscar Wilde

Mais apropriado ao Mestrado que a metafora da despensa! :)

Anónimo disse...

Chrónus
Kairós
Aenon

Anónimo disse...

O tema do tempo e da nossa relação com ele, é, para mim, porventura dos mais interessantes que se possa suscitar.
Quanto a esta matéria da introdução do tempo na aprendizagem, estou de acordo com alguns filósofos orientais sugerem que se deixem as perguntas "a marinar", sem pressa, alguns dias, talvez mais, o tempo que for preciso porque a resposta originada por esse "repouso" será sempre muito mais profunda e completa do que aquela que se acha de imediato.
Infelizmente, no mundo ocidental (ou talvez, pura e simplesmente no mundo de hoje em dia, um pouco por toda a parte, independentemente da geografia) a par do fast food, temos o fast living, o fast thinking e, no seu caso, o fast learning.
Infelizmente deixar-mos as ideias a "repousar" não se coaduna com o ritmo frenético que, burros que somos, conseguimos imprimir às nossas vidas.
é pena.
Provavelmente pôr as ideias do mestrado a "marinar" irá trazer-lhe uma perspectiva completamente diferente do que está a aprender,
v

Anónimo disse...

Sabe para que serve o mestrado em teoria da literatura? (sendo que teoria da literatura, para mim, sugere o que falámos há uns meses na Nova: lógica, matemática do pensamento, abstracção, filosofia?). Serve para aprender a criar ligações, aprofundar o pensamento, misturar saberes, a tornar mais lúcido o pensamento, a saber rapidamente filtrar o essencial do acessório. Mais que qualquer teoria sobre o que outros pensadores pensaram e escreveram, serve para o próprio ir mais longe dentro de si, para encontrar o seu próprio fio condutor, a sua própria lógica interna. Que tal processo de depuração? Não sei, é o que eu imagino que teoria da literatura é, posso estar completamente errada. Acho que está completamente no bom caminho! Bjs pcp

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