sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Contos dos dias que correm*

José

José adormeceu. À sua volta, mesmo antes de fechar os olhos, viu um ror de gente: a mulher, a filha e o genro, o neto Ismael com dezoito mesinhos; viu os óculos grossos do seu chefe, momentos antes de o ver a ele. Curiosamente, vislumbrou também os seios generosos de D. Márcia, a empregada do supermercado, antes de a ver a ela, como se nestas duas pessoas os adereços fossem mais importantes que o personagem. Depois não se lembra de mais nada. Caiu num torpor incerto, com tempo ainda para perceber um fio de saliva que lhe escorria pela comissura dos lábios.
Durante um tempo que lhe foi indeterminado sonhou, sentindo que o seu rosto revelaria a natureza das sensações: sorriu a pensar nos seios fartos e ofegantes da empregada do supermercado; comoveu-se com a ideia do netinho, a quem ele levaria à pesca do achigã; franziu o sobrolho ao genro, um mecânico de automóveis com uma relação difícil com a honestidade; fechou as mãos numa violência contida ao recordar o chefe, e os seus horrorosos aros grossos, a impedir-lhe a promoção. Estendeu uma mão metafórica à filha e uma indiferença real à mulher. O seu mundo era este.
José acordou. À sua volta, inexplicavelmente, um ror de gente: uma criança que chorava, um homem com uns óculos feios, uma velha de cabelos mal pintados e seios deficientemente tapados numa alegria que comovia a própria, uma rapariga bonita de mão dada com um rapaz com cara de gatuno, uma mulher que segurava uma imagem de Santa Senhorinha e uma estátua de Nossa Senhora de Fátima numa fluorescência plástica. Mas quem é este gente?, pensava o Sr. José. O que estão aqui a fazer?
Antes ainda de cair numa espécie de catalepsia, ouviu o médico dizer com a voz forte que caracteriza a superioridade científica: 
Correu tudo bem; removemos do cérebro a causa da eructação persistente do Sr. José. Temos, no entanto, um efeito secundário, já estudado internacionalmente. Durante alguns meses o Sr. José sofrerá de amnésia absoluta, não se lembrando de nada, tendo que reaprender a conviver convosco. Durante esses meses será uma pessoa diferente. 
Nesse preciso momento, todo aquele grupo (menos a criança, que persistia no choro) irrompeu numa alegria esfusiante, sorrindo e abraçando-o, como se toda a informação clínica fosse motivo de júbilo, e os efeitos secundários tivessem, só inexplicavelmente para alguns, o mesmo sinal.

JdB

*enviado para um concurso de escrita criativa em que decidi participar. É-nos apresentado, semanalmente, um tema/ideia, para desenvolver em menos de 400 palavras.

1 comentário:

ACC disse...

e???????????????
Gostava de ler as cenas dos próximos capítulos do ex-futuro ou futuro-ex Sr.Zé.
Já tinha saudades destes seus contos quase improváveis.

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