segunda-feira, 8 de fevereiro de 2016

Vai um gin do Peter’s?

O Novo Ano começou em grande, na Gulbenkian, com o que poderíamos chamar de concerto-filme ou banda sonora ao vivo, replicando a experiência iniciada pela Fundação, em 2015 com «2001 Odisseia no Espaço».  A 8 e a 9 de Janeiro de 2016, passou o primeiro filme da trilogia «O SENHOR DOS ANÉIS: a Irmandade do Anel»(1), de Peter Jackson, baseando-se na obra-prima de J.R.R.Tolkien. 

Quando  as  tarefas  maiores  cabem aos mais pequenos, numa lógica
que desafia os cálculos humanos, abre-se uma caixa de pandora.

A novidade consistiu em colocar o público na perspectiva única do compositor encarregue de fazer a banda sonora desta epopeia – o canadiano Howard Shore  –  que recorda a sua saga para musicar O SENHOR DOS ANÉIS como uma viagem ao mundo riquíssimo do escritor inglês. Uma experiência gratificante, afirmou, ter mergulhado no universo tão plural de Tolkien, cravejado de extratos temporais e espaciais que se entrecruzam formando uma teia agigantada, além de uma miríade de dimensões que contracenam entre humanos e outras espécies desconhecidas e não detectáveis aos sentidos (um pormenor desenvolvido adiante ser-nos desvendado o invisível). Mesmo a nível de comunicação, Tolkien oferece-nos uma profusão de línguas, várias delas inventadas por ele, com alfabetos próprios e fonéticas exóticas. 

O desafio atirou Shore para uma música em escala operática, multiplicando os coros e fazendo intervir sons de outras latitudes (tambor japonês, correntes nas cordas do piano, estridências guturais, etc.), desdobrando-se em verdadeiras acrobacias. 

Compôs mais de 40 bandas sonoras. Com O SENHOR DOS ANÉIS
arrecadou os principais prémios do Cinema: Globo de Ouro e Óscar.
No palco mal cabia o enorme corpo de orquestra, os 2 coros – infantil e de adultos – além do soprana, que actuaram à nossa frente, sincronizados com a imagem e as falas do filme, a correr num grande ecrã que enchia o fundo do palco. Semelhante ao momento da gravação da banda sonora. 

Uma das composições, de tom élfico, foi encomendada a Enya e interpretada, na Gulbenkian, pelo soprano britânico Grace Davidson, com um timbre muito semelhante ao da compositora. Um momento impressionante, aquele “May It Be” ao vivo. Mesmo para os que sejam menos fãs de Tolkien, aquela proximidade com a música linda do filme tornou a experiência mais impactante e artística, difícil de traduzir em palavras.

Já quase tudo foi dito sobre a obra do autor inglês que tem, pelo menos, o mérito raro de suscitar reacções apaixonadas, entre os fãs e os alérgicos que acham incompreensível as multidões de adeptos daqueles escritos semi isotéricos, que continuam a entusiasmar gerações após gerações por todo o mundo. 

A acumulação vertiginosa de metáforas e de símbolos impregna com tanta intensidade as narrativas de Tolkien, que colocam a sua obra num patamar único no seio da literatura do Maravilhoso e do Fantástico (2). Muito revolucionário. 

Who was John Ronald Reuel Tolkien (1892-1973)?
The Tolkien Society answers: http://www.tolkiensociety.org/author/biography/
Só que para uma certa intelectualidade, Edgar Allen Poe (obviamente genial) marca o limite venerável – logo, aceitável – nas Letras, sem infantilismos nem efeitos literários bombásticos, que fazem as delícias do público acrítico, consumidor de literatura de aeroporto à base de overdose de adrenalina e de flick flacks narrativos, como se fosse uma degeneração circense da arte literária. Mas caberá Tolkien nessa sub-categoria?

A forma mais rápida (que conheço) de explicar o valor ímpar do legado do inglês é perceber o lugar especial que ocupa no património artístico do Ocidente. Apesar de subversivo e algo vanguardista para os parâmetros da Idade Contemporânea, o autor recupera uma voz única da Antiguidade, igualmente densa em metáforas e em símbolos: o Apocalipse. Sim, Tolkien podia ser uma reedição moderna (carregada de alusões à industrialização pesada da nossa era) do último livro da Bíblia. O escritor replica na perfeição a grande novidade introduzida por S.João Evangelista que, graças ao olhar aguçado do narrador, torna perscrutável o mundo invisível. Desse modo, permite ao leitor passar para o outro lado do espelho, numa façanha só ao alcance da Arte. Por esta demonstração pura do papel magno da arte literária, ninguém ousa recusar méritos ao autor bíblico.   

Ecos ancestrais numa versão actualizada do Apocalipse
Voltando ao século XX: ler o britânico ignorando os ecos intencionalmente cifrados (não é por acaso que os mapas superabundam nos seus livros) do que parece cingir-se a uma aventura épica, é reduzir drasticamente a força das suas palavras, lavradas em prosa poética. Só numa leitura superficial se pode confundir com um thriller de cavalaria.  

Em «O SENHOR DOS ANÉIS», o drama da alma humana flui ao ritmo da demanda do ser humano durante a sua breve existência terrena, época após época, desde o princípio dos tempos. Dostoievski foi outro dos grandes (e magnos) exploradores da alma humana, especializando-se na dimensão psicológica. É no livro de Tolkien, publicado a título póstumo – «The Silmarillion» – que a matriz do Apocalipse se revela especialmente óbvia. 

Animados pela coragem dos inocentes, ainda com alguma boa fé (um luxo num mundo
de ardilosos, ávidos de poder) aceitam uma missão muito acima das suas possibilidades.
Um atrevimento que confunde os maus e atordoa os que se baseiam nas suas capacidades. 
O mal em todo o seu esplendor:  criaturas tenebrosas, chamadas à vida apenas para
matar, são formadas das entranhas da terra lamacenta, cruéis e insaciáveis de sangue. 
Uma das originalidades do inglês, fiel ao sentido encriptado do texto bíblico, consiste em acrescentar à viagem dos humanos, durante o seu percurso de vida, toda a galeria de seres invisíveis que cruzam e influenciam o caminho da humanidade errante. Não, não convoca os entes de outras galáxias. Não se trata de ficção científica. Tudo se passa num espaço semelhante ao planeta azul, mas com nomes novos e seres diversos para melhor escancarar os significados encapotados e misteriosos da realidade que nos rodeia. Daquela que, equivocados pelo excesso de proximidade, julgamos conhecida, familiar e controlável. Engano puro, esse sim, infantil. Respeitando os paradoxos da própria vida, há momentos em que mostra cruamente, e muitos outros em que resguarda e apenas deixa adivinhar, numa trama densa e cheia de imprevistos. O suspense esconde, sob uma capa lúdica, uma catadupa de acontecimentos radicais e, frequentemente, vorazes, que de outro modo seriam indigestos.

Lugares grandiosos  e  intimidantes  são  boa metáfora das
falácias/miragens em que a vaidade nos costuma enredar. 

Quem disse que o mal era feio? Tolkien não tem ilusões: boa dose (mas não tudo) do que
encanta e seduz acaba por se revelar mortífero ou, pelo menos, pouco recomendável.
 Que outra coisa é o Anel Principal?

A nossa cultura também tem expressões de alerta à dose imensa de mistério que encerra a vida. Lembro uma das emblemáticas: Só sei que nada sei, depois parafraseada pela elite científica e académica na versão muito realista de assumir que: quanto mais sei, mais sei que nada sei. Mas quantas vezes são frases ditas e repisadas para sustentar uma pose blasée, com um mínimo de decoro e consistência, quase nunca (querendo) consciencializando o alcance profundo com que a primeira foi proferida pelo grande filósofo grego Sócrates? Para a maioria: o que não está ao alcance da vista não existe ou tem uma irrelevância equivalente a não existir. Descaradamente egocêntrico mas de todos os tempos.     

Voltando à banda sonora: Shore conseguiu transpor para a pauta o imaginário barroco de «O SENHOR DOS ANÉIS», preenchendo de música o ambiente de lutas ferozes pelo poder supremo, materializado pela posse do Anel Principal. Evoca-se a grande tentação de ser um deus para conseguir submeter tudo e todos, na máxima instrumentalização. Algo infantil, até pelo descaramento.    

Citando o Programa de Sala da Gulbenkian, que remete para os escritos do musicólogo Doug Adams, autor de «The Music of the Lord of the Rings Films»: 


Partitura original composta por Howard Shore

O compositor Howard Shore confere uma brilhante vivacidade à imaginação literária de J.R.R. Tolkien com a sua premiada composição  –  Academy e Grammy  – O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel. A música de Shore expressa o filme de Peter Jackson como uma imensa obra sinfónica – uma visão musical única, construída a partir de muitos séculos de tendências estilísticas. A música de O Senhor dos Anéis é uma das bandas sonoras cinematográficas mais complexas e abrangentes. Esta apresentação única permite, no entanto, à música suportar o peso da narrativa e criar uma experiência de concerto ao vivo completamente nova e dramática.

A partitura de Shore capta não só a emoção arrebatadora da Irmandade, as empolgantes perspectivas e as grandes jornadas, mas faz também eco da própria construção da Terra Média de Tolkien. Estilos, instrumentos e intérpretes oriundos de várias partes do mundo fornecem um cunho musical único a cada uma das culturas de Tolkien. Os rurais e simples Hobbits fixam as suas raízes numa malha sonora de origem celta. Os místicos Elfos são pintados com etéreas cores orientais. Os Anões, os abrasivos cortadores de pedras de Tolkien , recebem colunas de harmonias paralelas e um rude e gutural coro masculino. As hordas de Orcs reclamam os mais violentos e percussivos sons de Shore, incluindo tambores taiko japoneses, placas de metal (sinos) e cordas de piano percutidas com correntes, enquanto o mundo dos Homens, os imperfeitos mas nobres herdeiros da Terra Média, é introduzido por firmes figuras nos metais. Num sentido operático, estes mundos musicais misturam-se, ora combinando forças no ponto culminante de um poder, ora chocando violentamente… mas curvando-se sempre à vontade de O Anel da sua própria e sinistra família de temas. A larga escala da música necessita de uma orquestra sinfónica, de um coro misto, de um coro de rapazes e de solistas instrumentais e vocais que cantam nas linguagens concebidas por Tolkien. Quenya, Sindarin, Khuzdul, Adûnaic, Black Speech, além do inglês. Canções tradicionais originais surgem em paralelo com hinos diatónicos, nós de polifonia, clusters complexos e fervilhantes e passagens dissonantes aleatórias. É uma escrita propositada e informada, tão contida na sua execução como é de longo alcance em termos de influência: uma vez dentro deste amplo quadro reside uma visão musical notavelmente concisa. A escrita de Shore assume uma tonalidade sonora grosseira, construída em robustas estruturas orquestrais e num fluido sentido de discurso que é, ao mesmo tempo, despojado de frívola ornamentação. Diz Howard Shore: “Esta é a primeira vez que a partitura completa de A Irmandade do Anel será interpretada ao vivo em Portugal, com projeção do filme, na Fundação Calouste Gulbenkian. A minha primeira partitura para a trilogia O Senhor dos Anéis: A Irmandade do Anel foi o início da minha jornada no mundo de Tolkien e guardarei para sempre um carinho especial pela música e pela experiência.”»



Como todos os espectáculos ao vivo, houve ali um acréscimo de comunicação que nos envolveu por completo, a anos-luz das sessões virtuais em sala de cinema. Faz-nos muita falta a realidade palpável, factual. Ver o virtual na posição de complemento, que mais lhe convém, tornou-se uma raridade, pelo que estas ocasiões são oásis numa época bastante viciada na virtualidade.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) FICHA TÉCNICA

Título original: THE LORD OF THE RINGS: The Fellowship of the Ring 
Título traduzido em Portugal: O SENHOR DOS ANÉIS: A Irmandade do Anel
Realização: Peter Jackson
Argumento: Fran Walsh, Philippa Boyens e Peter Jackson
Produzido por:  Barrie M. Osborne, Peter Jackson, Fran Walsh e Tim Sanders
Banda Sonora:  Howard Shore e ária de Enya “May It Be”.
Duração: 178 min.
Ano:       2001
País: EUA e Nova Zelândia
Local das filmagens: Nova Zelândia

(2) A distinção entre o Maravilhoso e o Fantástico na Literatura é bem explicada pelo teórico literário búlgaro Todorov, inscrevendo-se Tolkien no género Maravilhoso, uma vez que as suas narrativas se situam num universo regido por regras próprias, diversas das da realidade percepcionada.

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