quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Do preço justo

Fotografia de Sebastião Salgado


- E quanto acha que devo pedir pelo trabalho?
- Acho que deve pedir um preço justo...

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Próximo de mim - afinal, próximo de cada um de nós - há gente que trabalha muito a troco de um ordenado reduzido. São números numa folha de cálculo, peças de xadrez, talvez mesmo de monopólio, onde só interessa o volume de facturação, o esmagamento das margens de uns para que as de outros sejam maiores, o trabalho insano sem qualquer respeito pelo equilíbrio das vidas alheias. Por outro lado, dizem-me, no Japão de um futuro próximo os recepcionistas serão substituídos por robots preparados para reconhecimento de voz. Em casas da minha geração, como em casas da geração abaixo da minha, mulheres (no sentido de esposas) queixam-se de maridos que não estão, não participam, não convivem, co-responsabilizam-se em teoria. Se é certo que está por fazer-se um estudo sobre o impacto negativo das multinacionais ou consultoras ou grandes escritórios de advogados nalgumas famílias, é incerta a disponibilidade de algumas famílias terem menos 1/3 de rendimento para terem mais 1/3 de proximidade. 

O trabalho não chegará para todos, porque há as automatizações, os robots que evidenciam um sorriso mecânico feito de peças pneumáticas, a necessidade de cortar custos para se ser mais competitivo do que a concorrência que trabalha 16 horas por dia a troco de uma malga de arroz. A necessidade das empresas ganharem mercados atirará os jovens para vidas onde a selvajaria capitalista é uma constante, onde a diferença entre podes ir gozar as férias a que tens direito ou já não podes ir gozar as férias que te tínhamos prometido é um ponteiro que rodou sessenta segundos. O mundo profissional está a tornar-se perigoso e injusto. O patriarca de um grande grupo da distribuição enchia a boca de auto-elogios, dizendo frases bacocas do tipo no nosso grupo cada pessoa tem uma história ou um nome, e eu sei a forma infame como se despediram altos quadros. Outro grupo tenta aplicar à sua gestão um cunho fortemente cristão, mas também sabemos que quando faltar o dinheiro alguns trabalhadores são apenas linhas numa payroll.         

Após 2001, ano de todos os acontecimentos, fui desafiado a participar nos CPM (cursos de preparação para o matrimónio) da minha paróquia. A minha cabeça era a de uma criança - começava a encher-se de palavras novas que eu tentava ordenar com vista a formar frases inteligíveis: amor, próximo, felicidade, morte, eternidade, Deus, fé.  As palavras já tinham sido inventadas por outros; a mim cabia-me o desafio, que cumpri como soube, de as pôr ao serviço de uma vida que se transformava. E à medida que estas palavras ocupavam espaço, outras - profissão, carreira, indicadores, gráficos, cliente - ficavam acantonadas num espaço excessivamente diminuto. Mas o discurso, já lá vão 13 ou 14 anos, era claro, ainda que potencialmente enviesado: o mundo está cheio de competência - advogados, engenheiros, médicos, arquitectos. O que faz a diferença nas relações laborais não é a competência, mas a forma como tocamos a vida daqueles que trabalham connosco

Retomo o diálogo com que inicio este post excessivamente longo. É real, e resulta de um conselho que pedi para orçamentar um trabalho. O que é o preço justo? O que é o salário justo para quem, em nossa casa, limpa, encera e esfrega? O que é a carga de trabalho justa para quem nos presta um serviço ou para quem pertence ao departamento que chefiamos? Nem sempre saberei. Mas lembro-me de há muitos anos, por alturas da aprendizagem de um novo vocabulário, o Pe. Ricardo, homem que no Céu tenta desesperadamente velar por mim (quero e devo acreditar nisso...), me ter dito: podemos nem sempre saber o que está certo, mas saberemos sempre o que está errado.   

Talvez nem sempre saiba o que é o preço justo, mas saberei quase sempre o que é o preço injusto. Já não me falta tudo.

JdB

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