segunda-feira, 19 de junho de 2017

Das épocas e dos refúgios

Sábado jantei em casa de amigos. Em conversa com alguém, vimos uma criança, de 8 anos, talvez, a brincar num baloiço: impulso de pernas para cá e para lá, e o baloiço cada vez mais alto. Esteve ali dez minutos, seguramente, naquele vaivém ligeiramente monótono, mas seguramente gerador de uma qualquer adrenalina infantil. Ao lado, num trampolim, outras crianças saltavam e brincavam. Mas foi na criança no baloiço que focámos a nossa atenção. 

"Sabes, tenho inveja daquela criança. E quase me apetecia dizer-lhe a ela, e às outras crianças, que percebo bem o gozo que elas estão a ter.". 

Já aqui escrevi o que me lembro da frase e já aqui redigi ideias sobre o tema em apreço: em momentos de maior tensão / preocupação / angústia / desgosto / apreensão, o refúgio de um Homem são as suas memórias. O meu interlocutor, face à pergunta sobre se era esta a idade na qual ele se "refugiaria", porque os 8 anos não me dizem nada em termos de memórias, disse que sim, que era aquela idade - e explicou porque não eram os 16, 17, 18 anos que são o meu refúgio. 

Não será, seguramente, um assunto de grande interesse para o comum dos mortais, mas a mim, que me interessam estas coisas do passado e das explicações sobre emoções, suscita-me interesse. Gosto de saber porque é a minha adolescência tão importante para mim, e gostei de perceber porque não era para este meu interlocutor, que por volta dessa idade já vivia bastante sozinho, qualquer que tenha sido o impacto disso na sua vida. 

Os tempos das memórias felizes dizem muito de nós. Só falta quem se interesse pelo tema...

JdB

PS: hoje seria dia de escrever sobre a tragédia que assola Pedrogão Grande. Falam-me de mensagens com apelos à oferta de bens, falam-se me mensagens com apelos à oração de Avé-Marias. Embora crente, sou mais levado, neste caso, pelo pragmatismo: os bombeiros precisam de água ou de compressas; as populações precisam de roupa, de comida, de ajuda financeira. Se ninguém der nada ninguém terá nada. Quanto ao apoio divino, ele é dado a cada pessoa individualmente, sendo que cabe a cada pessoa, na forma como encara a tragédia, "perceber" esse apoio. Admito que neste momento ninguém o perceba, porque talvez as energias estejam voltadas para o desespero e para a revolta. Tudo tem o seu tempo. Rezemos para que o tempo da bonança chegue o mais cedo possível ao coração de todas aquelas famílias dizimadas.    

1 comentário:

Anónimo disse...

Creio que fez a opção correcta e que ainda a justificou.
Abraço do eao

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