quinta-feira, 1 de junho de 2017

Dos objectos - uma fábula *

Milly ou la terre natale (I)

Pourquoi le prononcer ce nom de la patrie ?
Dans son brillant exil mon coeur en a frémi ;
Il résonne de loin dans mon âme attendrie,
Comme les pas connus ou la voix d'un ami.

Montagnes que voilait le brouillard de l'automne,
Vallons que tapissait le givre du matin,
Saules dont l'émondeur effeuillait la couronne,
Vieilles tours que le soir dorait dans le lointain,

Murs noircis par les ans, coteaux, sentier rapide,
Fontaine où les pasteurs accroupis tour à tour
Attendaient goutte à goutte une eau rare et limpide,
Et, leur urne à la main, s'entretenaient du jour,

Chaumière où du foyer étincelait la flamme,
Toit que le pèlerin aimait à voir fumer,
Objets inanimés, avez-vous donc une âme
Qui s'attache à notre âme et la force d'aimer ?...

Alphonse de LAMARTINE   (1790-1869)

***

Quatro tristes quadras em francês?, perguntou o cachimbo. Mas o que está a passar-se aqui? Depois, como quem não quer a coisa, mas a quer ao mesmo tempo, olhou em volta e ficou perplexo. Pode parecer estranho alocar uma perplexidade a um objecto inanimado e, por isso mesmo desprovido de alma - esse órgão imaterial que, dentro de nós, é responsável pelas emoções estranhas, mas o facto é que o cachimbo se encheu dessa perplexidade acima mencionada. Ao lado dele, como se fossem mancebos recrutas numa caserna impessoal e simétrica, dezenas de cachimbos alinhados - espanhóis, italianos, em madeiras exóticas, em loiça, mais ou menos usados, com aromas doces, mais frutados, mais intensos, envelhecidos, como se um perfume não fosse mais do que o vinho das fragrâncias que melhora com a idade. Havia cachimbos para todos os gostos e feitios, e o cachimbo - o tal da perplexidade, sentiu-se acompanhado, apoiado, acarinhado, como se houvesse, nesse artigo que exala fumos relaxantes, uma espécie de todos diferentes todos iguais que conforta os sentidos. 

Ao lado dele, o livro suspirou de enfado. Irritava-lhe a parecença entre artefactos fumadores. No fundo no fundo, são todos iguais - um tubo, um recipiente, uma abertura. Varia pouco porque não pode variar muito: para um cego é igual, para alguém sem odor é pouco mais do que igual. Pelo contrário, os livros eram todos diferentes - havia lombadas à inglesa e à francesa, havia cor, havia gramagem de papel, havia tipo de letra e escolha da badanas, texto na contracapa. Para além disso, no interior era um mundo de diferenças - textos sobre dietas, vidas difíceis, comédia, história das nações ou das pessoas, ficção, ciências sociais, esoterismos, poesia, política, corrupção, amor e beijos. O livro era, para o livro, um mundo à parte. Por mais livros que houvessem, todos eles se diferenciavam. Os cachimbos viviam numa caserna; os livros num renque de moradias de autor, todas diferentes, nenhumas iguais. 

O relógio olhou para o lado e assustou-se, não porque estivesse sozinho, mas porque estava acompanhado. Não gostava da companhia, era pela exclusividade. Embora percebesse que havia características que o aproximavam do cachimbo (o livro era apenas um pedante, com um raciocínio fraquíssimo...) o relógio gostava de uma certa ideia de objecto único. Um relógio dá as horas, cem relógios dão as mesmas horas, pese embora o cansaço, a diferença micrométrica num balanço ou o desgaste dos materiais. A existência de vários relógios numa expositor dava-lhe uma dimensão de harém: o sultão entra na sala das concubinas e diz: hoje é a Marília. E por isso o sultão não se afeiçoava a nenhuma e por isso o relógio queria ser único, como se é mordomo numa mansão inglesa - há uma prerrogativa de raridade em número, que lhe confere uma poder único.

***

Nas suas quatro singelas quadras em francês, Lamartine perguntava se os objectos inanimados têm uma alma. Sim, têm; não, não têm. A diferença entre um ajuntador e um coleccionador não está na dimensão ou na variedade: está na identificação de uma alma, e é por isso que a pergunta do poeta só tem uma resposta: ça dépend... Um ajuntador é um funcionário público das finanças: há o utente, que normalmente é devedor. Não há individuação, carinho no trato, atenção no tom de voz, olhar compassivo ou mão estendida, a não ser ao pagamento da coimazinha. O coleccionador é o bom pastor das coisas inanimadas: conhece as suas ovelhas, trata-as pelo nome, identifica a diferença entre as madeiras e os perfumes exalados, entre as capas que envolvem conteúdos, entre mecanismos e ponteiros que só aparentemente rodam a velocidades iguais. 

Cá em casa sou coleccionador de canetas - porque só tenho uma à qual me apeguei; sou coleccionar de cartas desde sempre, que me recuso a destruir; nos livros sou uma espécie de misto, porque ele há dias e ele há livros. Já fui ajuntador de relógios, tornei-me coleccionador de objecto (quase) único. Quando eu os largar, o relógio chorará, a caneta de tinta permanente chorará, os livros sabe-se lá. No fundo, qual a ovelha que não chora quando, ao entrar no aprisco, percebe que o pastor as abandonou? 

JdB  
       
* uma singeleza cansada para o meu amigo ATM 

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