quinta-feira, 29 de junho de 2017

Do silêncio

Tenho a certeza de que neste estabelecimento  já falei e voltei a falar sobre o tema do silêncio. O tema interessa-me sobremaneira, e tenho de encontrar uma forma de o abordar na minha tese de doutoramento. Afinal, a procura do silêncio pode ser uma forma de despojamento. Para além disso, ontem, no Observador, um psiquiatra escrevia sobre a escravatura do ruído moderno. 



O ambiente que envolve a casa onde estou de férias em França é de enorme silêncio. Não silêncio absoluto, tal como o senti em casa destes meus amigos, mas no campo inglês. Ali não se ouvia uma cigarra, uma cão a ladrar à noite, um comboio ao fundo ou uma motoreta. O silêncio era absoluto - e vagamente incomodativo. Aqui há, repito, um enorme silêncio: há cigarras, um carro a passar esporádico, o bater de asas de um pássaro. 



Entre o silêncio e o som não há incompatibilidade. Há sons que nos são familiares e agradáveis e que, por isso, não são ruído: a música que apreciamos, o vento a bater nas árvores ou as ondas alterosas a esmagarem-se contra um paredão, o lenha que arde numa lareira num contraponto ao temporal fora de casa, sons de passos nos claustros de um convento. Há sons, por mais pequenos que sejam, que não são mais do que ruído e que perturbam o silêncio em que queremos viver: as crianças dos outros que gritam, as pessoas que falam alto nas esplanadas, os murmúrios patetas face a um quadro bonito.



Não há silêncio sem som. E mesmo que se entenda que não há silêncio absoluto a não ser numa câmara anecóica, há um silêncio "humanamente" absoluto, que é o silêncio que eu encontrei no campo inglês de que falei. Todo o outro silêncio implica um som, para não se tornar cansativo como uma casa que só tem vista de mar - é preciso vista de terra para contrabalançar. 

Aqui, nestas terras de França, encontrei o mesmo silêncio confortável que consigo por vezes encontrar na zona onde vivo: um silêncio com som, que é o contrário do que o mundo moderno nos dá, e que é um constante ruído entremeado vagamente de silêncio; o tempo, no fundo, que o DJ precisa para mudar o disco com a música má que escolheu...

JdB 

Nota: fotografias da catedral de Condom, Gasconha, França    

1 comentário:

Anónimo disse...

No silêncio tumular do campo inglês ouve-se a tristeza , no silêncio bulicioso da campagne ouve-se o sonho, o primeiro empalidece a alma, o segundo emociona o coração.
Que belas são as violettes,


C'est si bom
Ces petites sensations
Ça vaut mieux qu'un million
C'est tellement, tellement bom.

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