sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Moleskine

João Ferreira Rosa

Inexplicavelmente, passei ao lado da morte de João Ferreira Rosa. Não que tivesse de fazer alguma coisa por alguém - ou mesmo por ele - mas não encontrei nada nos jornais ou nos blogues que fizesse referência ao desaparecimento do fadista militantemente monárquico. Nada soube, até terem passado alguns dias.

Em conversa com amigos falámos dele e, sobretudo, do Embuçado, fado tão do agrado de todos os que, da minha idade e com 18 ou 20 anos, se atiravam a cantar, tantas vezes acompanhados por uma viola a descompasso e / ou vagamente desafinada. Não importava - importante era uma cabeça para trás, uns olhos fechados, e a ideia de que cantar o fado (mesmo que mal, ou muito mal) era uma espécie de rito iniciático. E éramos todos monárquicos, pelo que o beija-mão real fazia sentido e dava-nos pertença. 

Do repertório de João Ferreira Rosa sempre preferi o fado Arraial, aqui sofrivelmente cantado e filmado. Fica a intenção.  



Fernando Quintela

O meu querido amigo fq foi tendo a amabilidade de me mandar um ou outro texto sobre o sobrinho que morreu no decurso de uma pega, e sobre o qual já aqui se escreveu. Textos bonitos, sentidos, de pessoas que eram amigas do Fernando ou, num caso, de uma senhora, mãe de um forcado. Não encontrei, em texto nenhum, heroísmos patetas ou apelos a uma vida máscula, de enfrentamento do perigo, porque só os homens é que... Foram sempre textos elevados a referir o que era importante: a vida plena, a vida com sentido, as qualidades humanas do Fernando, a fé forte e militada. No fundo, o que interessa, o que em cada um de nós é imortal. E a parte espiritual dele foi muito bem descrita pelo Pe. Quintela numa das missas. 

Senti o impulso de escrever para os Pais / sobre os Pais do Fernando, porque é desse drama que sei falar. E tudo se tornou mais nítido quando vi uma fotografia muito actual do rapaz, de perfil e de jaqueta. À minha frente (metaforicamente falando) estava o pai dele, o João, mas há trinta e muitos anos, tal eram as parecenças que detectei. Outros escreveram para o Fernando, porque era dele que se lembravam e era com ele que queriam "conversar". Resta-me a certeza de que os Pais, no seu desgosto, ficam com um acervo (passe a presunção) de textos que foram dirigidos, tanto a eles, como ao Fernando. Textos que, não mitigando as saudades, os confortarão: afinal, tinham muita gente a pensar neles...

Vidas

Ontem alguém me dizia: apesar de tudo a vida foi minha amiga. Sim, concordei, apesar da dose de desgostos que cada um de nós inscreve no seu CV. E reforcei: a vida também foi minha amiga, porque apesar de todos os tropeços ou armadilhas, nunca estive sozinho. Talvez seja isso que mais agradeço à vida: o nunca me ter deixado sozinho. Estou certo de que também colaborei para isso mas, não obstante, agradeço. Talvez agradeça à vida (seguramente a Deus) nunca ter feito nada suficientemente grave para ter ficado sozinho. 

JdB

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