quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Moleskine

Ontem, na sequência do Setembro Dourado que, como já aqui referi, é o mês dedicado mundialmente à sensibilização para a oncologia pediátrica, a Acreditar foi à Assembleia da República, para uma sessão aberta a funcionários, deputados, comunicação social. Estavam três deputados do PSD e três deputados de CDS. Não havia nenhum do PS, do BE e do PCP. O cavalheiro do PAN deveria estar a pensar no sofrimento das vacas em tempo de sequeiro. 

No mesmo dia em que sensibilizámos os deputados para o drama das famílias afectadas pela oncologia pediátrica - perda de rendimento, aumento das despesas, dificuldades de baixa, dias de nojo claramente curtos, ausência de apoio escolar especial ou de consultas de psicologia - o BE achava que um jovem, confrontado com a discordância dos Pais no que se refere ao desejo de mudança de sexo, os pode por em tribunal. 

A oncologia pediátrica afecta 400 novos casos por ano, sensivelmente, com uma taxa de crescimento de 1% ao ano. Uma minoria, seguramente, muito mais minoria do que o número de jovens que, por ano, desejam mudar de sexo. Só assim se justifica a iniciativa legislativa que me parece totalmente aberrante.

Pelas escadas que desaguam no átrio de entrada onde nos encontrávamos na AR, vi descerem três deputados: um do CDS, cujo nome não me ocorre, a Mariana Mortágua e a Isabel Moreira.  Não desejo mal a ninguém, mas a ideia de um tropeção num degrau que degenera numa queda que humilha passou-me pela cabeça. 

***

Fui ontem à missa de corpo presente do Fernando Quintela. Igreja do Monte da Caparica cheia de amigos, familiares, paroquianos desconhecidos, que o rapaz era sobrinho do Pe. Pedro, prior da paróquia. Cada um sabe de si, das suas angústias, inquietudes, dúvidas ou convicções. Mas estes momentos de dor e consternação são, estou certo, momentos de reforço da fé, por mais paradoxal que possa parecer. A imperfeição não é incompatível com nada, a não ser com a recusa da procura de um caminho luminoso.

Olhei à volta, vi caras que fazem parte de uma época feliz da minha vida. Gente que vejo nos enterros, nas missas, mas que me trazem à memória tempos em que as dúvidas nem sequer eram o que fazer à noite. A dúvida talvez fosse, apenas, o destino certo da paixão daquele momento. Para pessoas como eu, as memórias são preciosidades.

JdB   

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