segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Moleskine

Transcendência em três actos
1) Almoço 6ªfeira, entre outros, com um amigo que esteve de férias em Bali. Fala maravilhado dos dias que lá passou, do que viu e, acima de tudo, do que sentiu: um povo (maioritariamente hindus) que aproveita todas as ocasiões para demonstrar a sua espiritualidade, a sua pequenez perante a natureza, o universo, o transcendente.

2) Dias antes falara com alguém que conhece bem a Índia, até porque lá vive. Falámos da minha não devoção aos santos - tema sobre o qual já aqui escrevi. Disse-me (e espero reproduzir bem o raciocínio) que a nossa devoção aos santos lhe parecia semelhante à devoção dos hindus pela enorme diversidade de deuses - um deus para isto, outro para aquilo...

3) No ano de todos os anos, pessoa de uma geração acima da minha, e que eu muito estimava (a estima era recíproca) perguntou-me se eu não queria organizar uma novena (ou uma corrente de oração) a S. Judas Tadeu pela recuperação de uma determinada pessoa. Crente que sou, acredito no poder da oração, que fará mais pela saúde da alma do que pela saúde do corpo, pois me parece que os milagres se manifestam mais no intangível. Se eu quisesse ser desagradável talvez perguntasse: quem é S. Judas Tadeu? E porquê a ele e não a S. Higino, ou a S. Francisco de Assis, ou a S. Vito?    

"Guichet de reclamação"
Há uma semana escrevi, de forma algo irónica, sobre o que fazer face à loucura do norte-coreano, à tontaria de Trump ou à audácia de Putin, mais aos nacionalismos exacerbados de alguns países do leste. O post pretendia ter um ar ligeiro, mas, dados os comentários que foram e não foram publicados, dei por mim a pensar: o que podemos fazer, de facto, relativamente a estes comportamentos? De que forma é que o alerta por whatsapp para os perigos que potencialmente se avizinham tem alguma relevância? E o que vemos nós, numa cadeira de esplanada com vista para a praia da Poça, que os outros não vêem? Na realidade, internacionalmente nada podemos fazer. Individualmente, cada um de nós não é nada e, mesmo votando para o governo de Portugal, nenhuma influência teremos nestes domínios. Não nos é dado encontrar, e cito ATM, o "guichet de reclamação". O que podemos então fazer pela paz mundial? Lutar pela paz no nosso círculo, estar atento ao nosso próximo mais próximo. Conseguiremos com isso destituir o Trump? Não, mas deixaremos o mundo um pouco melhor.

Trânsito
Em 1975 quando comecei a viajar de avião, não se embarcava com uma farpela qualquer. Lembro-me de ter ido a Nova Iorque em 1980 (81?) com dois amigos. A fotografia icónica dessa viagem foi tirada à porta do YMCA, onde nos albergámos remediadamente durante os dias da estadia. Três jovens, com 20 ou 22 anos, de calças de fazenda e blazer, como se tivéssemos viajado num paquete cheio de nobreza europeia. Naquela altura, um aeroporto e uma gare de comboios eram muito diferentes - o comboio não solicitava indumentária especial. Hoje muda só o meio de transporte, que a frequência já não é tão diferenciável, a não ser, talvez, pelas mochilas.

As ideias acima são uma visão muito curta, a análise sociologicamente mais básica de ambas as realidades. De facto, uma estação de comboio ou um aeroporto poderão ser, tal como uma fábrica, um microcosmos de gente que circula, que tem vidas, segredos, que se organiza de forma própria, que parte e regressa. Ver isto é ver mais além.

A este propósito vale a pena ler o texto de Rentes de Carvalho no seu blogue. Um texto interessante, para quem gosta de encontrar uma dinâmica diferente nas coisas aparentemente corriqueiras.

Efemérides
O chamado 11 de Setembro faz hoje 16 anos. O mundo nunca mais foi o mesmo.

JdB   

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