segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Das viagens

“Le véritable voyage de découverte ne consiste pas à chercher de nouveaux paysages, mais à avoir de nouveaux yeux. ” (Marcel Proust)

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A frase acima suscita-me lembranças de uma ideia que já aqui aflorei, não sei quando, nem a que propósito, nem com que interesse: a da forma como olhamos para uma cidade em função do estado de espírito que vivemos no momento. Nesse sentido, num período particularmente feliz, Badajoz pode ter uma beleza inesperada, enquanto no extremo oposto desse contínuo Roma pode ser apenas barulhenta e enganadora. Ora, a frase acima não se limita às viagens de turismo, esse sucedâneo do grand tour que, num dada fase da história da Europa, estava vedada aos pobres e que servia para enriquecimento da pessoa, mais do que para exibição da selfie. A viagem de descoberta de que fala Proust aplica-se aos países, aos livros, aos museus - e às pessoas. Um olhar diferente - um olhar novo - permite descobrir coisas novas num poema, na luz de uma aldeia de província, na beleza triste de um stabat mater, no olhar aparentemente feliz de uma rapariga de olhos verdes.    

No entanto, e de certa forma, a frase de Proust colide com o diálogo que Ilsa mantém com Rick em Casablanca, o filme de todos os filmes:

- what about us?
- we'll always have Paris. 

O Paris que eles sempre terão não está aberto a novas descobertas, não é visível desta ou daquela forma em função dos olhos que cada um tem na altura. Dez anos depois, se pudéssemos supor dez anos depois para o casal que se juntou em nome do romance e se separou em nome da liberdade, os olhos de Ilsa são diferentes e os olhos de Rick são diferentes. A guerra acabou, ganharam os bons, algumas lutas não param porque isso significa o desemprego dos heróis. Regressarão ambos a Paris, ao café onde estiveram juntos, à estação de caminho de ferro onde nunca mais se viram, à imagem da cidade luz povoada de tanques pelos nazis. Paris não mudou. Melhor dizendo, mudou para todos, menos para eles. Há viagens que se devem fazer com os olhos de sempre.

JdB 

1 comentário:

Anónimo disse...

O 'lema' deste blog tem mais espírito do que M. Proust.
Abraço

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