sexta-feira, 4 de janeiro de 2019

Textos dos dias que correm *

Patrício, amo-te

«Um dia da minha vida, ao passar por uma estrada de Buenos Aires, vi uma frase numa parede. Tinta colorida numa superfície sem alma. Três palavras: "Patrício, amo-te. Papá". Nunca me tinha acontecido, em quase 50 anos, ter visto um grafito dedicado por um pai a um filho.»

Também gosto, quando caminho pelas ruas da minha cidade, de capturar um fragmento dos diálogos de pessoas, e das frases suspensas imaginar uma história que a elas seja subentendida.

Foi o que fez Walter Veltroni com o seu livro “Senza Patricio”, que partiu daquele curioso escrito mural. O político, escritor, jornalista, realizador e antigo presidente da Câmara Municipal de Roma imaginou cinco histórias que poderiam explicar aquela declaração.

Não querendo falar dessas histórias, mesmo se a sugestão que aquelas páginas oferecem é muito forte, gostaria, no entanto, de sublinhar um aspeto que vale para todas as relações humanas, ou seja, a necessidade de superar mais vezes o implícito.

Quantas vezes deixamos no coração sentimentos que não expressamos, quantas vezes detemos um gesto de ternura e bloqueamos na garganta uma palavra doce e sincera.

Talvez o pudor, ou a suspeita de nos excedermos e de sermos mal compreendidos, ou ainda a promessa de o fazermos ou dizermos noutra ocasião façam com que se extingam em nós muitos dons que poderiam tornar mais viva, fresca e jubilosa a nossa ligação com quem está junto de nós.

E assim pode acontecer que, após a morte da pessoa que nos é querida ou quando se consuma o afastamento, se lamente o ter ficado calado, o ter negado aquela pequena alegria ao outro, o não lhe ter confessado quanto era importante para nós.


* P. (Card.) Gianfranco Ravasi
In Avvenire
Trad.: Rui Jorge Martins
Publicado em 03.01.2019

1 comentário:

ACC disse...

Um desafio que todos resistimos. Será por pudor ou apenas por termos sido educados para a perfeição e para a procura incessante do que está errado?

Quantos de nós reprimiram as emoções porque sim....
Uma pessoa não chora, uma pessoa não pode mostrar o que sente, uma pessoa não tem gestos de afecto porque parece mal, uma pessoa não pode dizer que ama. Uma pessoa não pode existir muito.

Uma pessoa tem de passar discreta entre os pingos da chuva. porque no elevador, na rua ou em qualquer espaço público ninguém tem de saber o que sentimos, ninguém tem de saber que somos pessoas.

Foi assim entre espartilhos emocionais que se criou a ausência da manifestação do afecto.

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