01 agosto 2019

Dos discursos



Talvez, em bom rigor, a vida só ensine coisas a quem queira aprender. Parece-me isto um raciocínio de uma vulgaridade indiscutível. Mas, de facto, a vida só ensina quem quer aprender. E como se faz esta aprendizagem? Estando atento como um menino numa aula, porque a professora fala na linha do Oeste para todos os meninos, cita os sábios a todos os meninos, fala no fim da monarquia a todos os meninos. O que acontece é que só uns percebem que um comboio ou uma estação são mais do que uma organização de equipamentos e de espaços, só uns vêm na dinastia brigantina a possibilidade de um chiste maldoso ou de uma devassa invejosa da família alheia.

Ouvir o discurso de Leonard Cohen pode ser apenas ouvir o discurso de Leonard Cohen, um cantor que suscita amores e sentimentos inversos em proporções desconhecidas. Mas ouvir este discurso, proferido quando o cantor recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias, é ouvir quase doze minutos de uma imensa sabedoria e delicadeza. Não é apenas um discurso de agradecimento, por mais bonitas que fossem as palavras; é ouvir um discurso de gratidão, que é um agradecimento do coração e da alma, mais do que do cérebro ou da educação; e é ouvir um discurso de partilha daquilo que eu disse acima, e que se descobre por volta do meio do discurso. 

Metaforicamente falando, Leonard Cohen começou numa aula com outros meninos. A professora falou disto e daquilo, e alguns meninos escreveram isto e aquilo. Mas ele foi mais longe, e descobriu que isto e aquilo, que para alguns pouco mais eram do que a banalidade da linha do Oeste ou o fim da monarquia eram, para ele, a chave de uma carreira. Melhor dizendo: tinham sido, no seu olhar sobre o passado, a chave de uma vida. 

Invistam 12 minutos da vossa vida - juro que não se arrependerão.

JdB   

1 comentário:

Anónimo disse...

Não sei se foram 12 minutos.
Mas sei o que é ser velho e ainda não tonto.
O que ele disse foi como se me ouvisse numa tarde pacífica. A sua voz vestiu-me como ele se terá sentido revestido pelos sons que o rapaz tocou.

Ser-se velho, idoso, vetusto, sénior, geronte (mas não senil, em que serei o último a sabê-lo...) tem inúmeras desvantagens e muitas mais vantagens.

Cohen apurou o Ser. O Ser-se.

Obrigado pela gravação.
ao

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