Ela vinha ter comigo todas as noites E eu cozinhava, servia-lhe chá Devia ter então mais de trinta anos Ganhara dinheiro, vivera com homens
Deitávamo-nos para dar e receber Debaixo do mosquiteiro branco E como não começámos a contar
Vivemos mil anos num só As velas ardiam A lua descia A colina polida A cidade leitosa Transparente, ligeira, luminosa Revelando-nos a nós os dois Nesse plano fundamental Em que o amor não tem vontade, controlo, Limites E se encontra metade do mundo perfeito
leonard cohen a chama alerta azul tradução de inês dias relógio d´agua 2019
You know I'm looking at you you know what I'm thinking you know you're interested I am very skillful you will forget that I am old unless you want to remember it unless you want to see what happens to desire how free it becomes how shamelessly involved in love for every woman and her stockings. When desire rests, it is signaled by two people faraway on a green blanket (or is it the flowers of moss); two people waving from a distance stretched out like things that have to dry with tender smiles on their little round faces; waving at desire as it rests in the foreground foothill-shaped, peaceful, devoted as a dog made of tears.
Podemos não gostar de Leonard Cohen, mas temos de reconhecer que estes dois versos There is a crack in everything / That's how the light gets in encerram em si uma grande sabedoria: é pela falha que entra a luz, pelo que devemos desconfiar de quem não tem falhas, de quem não abre uma fragilidade para que a luz entre.
I was always working steady
But I never called it art
I got my shit together
Meeting Christ and reading Marx
It failed my little fire
But it’s bright the dying spark
Go tell the young messiah
What happens to the heart
There’s a mist of summer kisses
Where I tried to double-park
The rivalry was vicious
The women were in charge
It was nothing, it was business
But it left an ugly mark
I’ve come here to revisit
What happens to the heart
I was selling holy trinkets
I was dressing kind of sharp
Had a pussy in the kitchen
And a panther in the yard
In the prison of the gifted
I was friendly with the guards
So I never had to witness
What happens to the heart
I should have seen it coming
After all I knew the chart
Just to look at her was trouble
It was trouble from the start
Sure we played a stunning couple
But I never liked the part
It ain't pretty, it ain't subtle
What happens to the heart
Now the angel’s got a fiddle
The devil’s got a harp
Every soul is like a minnow
Every mind is like a shark
I’ve broken every window
But the house, the house is dark
I care but very little
What happens to the heart
Then I studied with this beggar
He was filthy, he was scarred
By the claws of many women
He had failed to disregard
No fable here no lesson
No singing meadowlark
Just a filthy beggar guessing
What happens to the heart
I was always working steady
But I never called it art
It was just some old convention
Like the horse before the cart
I had no trouble betting
On the flood, against the ark
You see, I knew about the ending
What happens to the heart
I was handy with a rifle
My father’s .303
I fought for something final
Not the right to disagree
Talvez, em bom rigor, a vida só ensine coisas a quem queira aprender. Parece-me isto um raciocínio de uma vulgaridade indiscutível. Mas, de facto, a vida só ensina quem quer aprender. E como se faz esta aprendizagem? Estando atento como um menino numa aula, porque a professora fala na linha do Oeste para todos os meninos, cita os sábios a todos os meninos, fala no fim da monarquia a todos os meninos. O que acontece é que só uns percebem que um comboio ou uma estação são mais do que uma organização de equipamentos e de espaços, só uns vêm na dinastia brigantina a possibilidade de um chiste maldoso ou de uma devassa invejosa da família alheia.
Ouvir o discurso de Leonard Cohen pode ser apenas ouvir o discurso de Leonard Cohen, um cantor que suscita amores e sentimentos inversos em proporções desconhecidas. Mas ouvir este discurso, proferido quando o cantor recebeu o Prémio Príncipe das Astúrias, é ouvir quase doze minutos de uma imensa sabedoria e delicadeza. Não é apenas um discurso de agradecimento, por mais bonitas que fossem as palavras; é ouvir um discurso de gratidão, que é um agradecimento do coração e da alma, mais do que do cérebro ou da educação; e é ouvir um discurso de partilha daquilo que eu disse acima, e que se descobre por volta do meio do discurso.
Metaforicamente falando, Leonard Cohen começou numa aula com outros meninos. A professora falou disto e daquilo, e alguns meninos escreveram isto e aquilo. Mas ele foi mais longe, e descobriu que isto e aquilo, que para alguns pouco mais eram do que a banalidade da linha do Oeste ou o fim da monarquia eram, para ele, a chave de uma carreira. Melhor dizendo: tinham sido, no seu olhar sobre o passado, a chave de uma vida.
Invistam 12 minutos da vossa vida - juro que não se arrependerão.
Para ouvir uma a seguir à outra. Perceber se têm uma a ver com a outra. Se sim, identificar a que dá mais gosto ouvir. Mudar de blogue. Voltar outro dia, para dias melhores. Errar melhor, no fundo
JdB
En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.
Este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.
Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals de quebrada cintura.
En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados.
Hay frescas guirnaldas de llanto.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals que se muere en mis brazos.
Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.
¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals del "Te quiero siempre".
En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.
¡Mira qué orilla tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.
Aos 82, Leonard Cohen(1) deixou
um legado maravilhoso de poesia vivida e cantada, experiências de vida entre
banhos de multidão e anos de reclusão. Ora numa ilha grega, ora num mosteiro budista na Califórnia (durante cinco anos), ora pelos palcos do mundo para cantar com os fãs,
de preferência ao luar. Nos concertos era generoso, com actuações de duas a
três horas, de fazer inveja aos mais novos e robustos. Ele, ao contrário,
mantinha-se franzino e sóbrio, de ar ascético. Entrava em palco de chapéu, fato
e gravata, como se fosse para um jantar à luz das velas. Educadíssimo, tratava
o público como convidados de casa em dia de festa. Por isso eram tão
indefiníveis os seus concertos, conseguindo um tom intimista, cerimonioso e, simultaneamente,
caloroso e sincero, como um senhor. De olhar directo e límpido, irradiava uma
ternura contagiante.
Percebe-se que a poesia
veio antes da música, pois já andava pelos 30 quando decidiu dedicar-se à segunda.
Nascido em 1956, em Montreal, herdou da família judia, de origem polaca, uma fé
viva, incansavelmente dialogante e ávida de mais horizonte. A sua arte –
literária e musical – alcançou uma dimensão transcendente, a rondar a
eternidade, a transbordar de uma espiritualidade estilizada, que procura o Belo.
Bem que teria honrado o Nobel poder incluí-lo no friso dos premiados. Chamaram-lhe:
the monk, o último dos românticos, o eterno
insatisfeito, o visionário, o poeta do rock n' rol, mas tudo ficou
aquém de Cohen, que se limitou a ser ele
próprio – curiosamente, replicando a singularidade de outros artistas de raízes
judaicas.
Nas letras, o primeiro mestre
foi García Lorca. Depois, deixou que fosse a própria vida, com muitos encontros
e desencontros. Quem teve a sorte de se cruzar com Leonard recorda histórias divertidas
de um homem simples, inteligente, profundo, cheio de humor, lúcido e sem tiques
de vedeta. Daquela humildade pura, que volta a resultar revolucionária de tão
rara em que se tornou. Numa das estadias em Portugal, recusou a suite que lhe
tinham reservado, mudando-se para um quarto igual ao dos outros. Noutra, a
minutos de começar o concerto, no pavilhão de Cascais, descobriram-no a fazer o
pino num ginásio contíguo. Anedótico: de pernas para o ar, já de fato e gravata
e com bastante idade, enquanto o recheio dos bolsos se espalhava pelo chão com algum
estardalhaço. Rindo-se da situação, pôs-se calmamente de pé. Nele, mesmo as
acrobacias inesperadas saíam-lhe com naturalidade.
Seguem três músicas
talvez menos badaladas, que explicam bem a mística de Cohen. A primeira, «In my secret life». A segunda, um dueto
muito conseguido com Sharon Robinson. A terceira, uma homenagem à mítica cantora de blues e souls – Janis
Joplin – dois anos depois de esta ter morrido de overdose, com apenas 27 anos, num vídeo com imagens aos recantos
aconchegantes do Hotel Chelsea de Nova Iorque, que foi residência de
inúmeros artistas, incluindo do próprio Cohen, de Edith Piaf, Dylan, Joplin,
Frida Khalo e Diego Rivera, Cartier-Bresson, Andy Wharhol. Também ali foi
escrito «2001: Odisseia no espaço»,
por Arthur C. Clarke.
Muitos artigos
interessantes inundaram os jornais e os blogs, desde que a sua morte foi
anunciada, a 7 de Novembro. Alguns dos testemunhos(2), que ajudam a
descobrir a personalidade riquíssima de Leonard C., são da autoria de João
Miguel Tavarese de Miguel Esteves Cardoso, seguindo um
mini-aperitivo de um e de outro:
«Chorei como se tivesse morrido alguém da
minha família, porque Leonard Cohen é da minha família. Demasiado importante,
demasiado próximo, demasiado meu. É esse o dom dos génios: estabelecem relações
íntimas com milhões de pessoas. (…) em mais ninguém encontrei tamanha capacidade de iluminar o interior das
coisas e das pessoas, traduzindo por palavras o que não sabíamos sentir.
Não há outro a quem possa dizer: “Dá-me só mais um verso, Leonard, e eu serei
salvo.” Chamar-lhe músico ou poeta é ficar aquém. Era um profeta que nos falava
das únicas duas coisas que realmente importam na vida: Deus e o amor. (…)
A razão porque nos sentimos sempre demasiado novos ao lado de Leonard Cohen
é porque ele pareceu sempre demasiado velho. Já esteve lá, já leu, já viu, já
viveu, já bebeu, já fumou, já sofreu, já meditou – sempre vários anos à nossa
frente. Mas não em distância. Em profundidade. (…) Em
Going Home, fala das aspirações de um certo “Leonard”, e diz: “He wants to
write a love song/ An anthem of forgiving/ A manual for living with defeat.” Cohen não nos ensina o caminho – ele consola-nos o caminhar.»
«Passámos
um fim-de-semana juntos em que me fizeste esquecer que eras o meu herói. Quando
acabou fiquei com dois heróis: com o Leonard Cohen das canções e com o Leonard
Cohen em carne e osso. Embebedámo-nos com Bloody Marys e, a certa altura, tu reparaste
que eu tinha a mania de desdizer o que tinha acabado de dizer. Eu disse-te que
era um tique português. Primeiro afirma-se um disparate ou uma verdade. Depois continua-se “E, no entanto…”“And yet!”, gritaste, “the two greatest words in any language!” (…)
Agora morreste e obrigas-me a escrever estas palavras lavadas em lágrimas.
AND YET… E, no entanto, tiveste uma vida feliz. Fizeste o que querias. Amaste e
foste amado. Trabalhaste nas canções mais bonitas e elevadas do nosso tempo. Já
há mais de 60 anos que andaste a falar com Deus, a preparar o teu caminho.
Foste um pecador de primeira AND YET… E, no entanto, algo me diz que vais ser
muito bem recebido no reino dos céus, se for para aí que combinaste ir. (…)
Toda a vida dançaste com Deus e com a morte (…) Hoje de manhã, quando ouvi
You Want It Darker, como faço todas as manhãs desde que saiu o álbum, pensei
que ia chorar, por ser a primeira vez que o ouvi sabendo que estavas morto. Mas
não chorei. As canções fizeram o que
sempre fizeram: encheram-me de força, abriram-me ao medo e à beleza de estar
vivo. Adeus, Leonard Cohen, dizemos nós como se não soubéssemos que já lá
estás.»
A Partida definitiva não
intimidava Cohen, que pareceu encarar a existência segundo um dito de Saramago:
«Fugir da morte pode tornar-se num modo
de fugir da vida.» Muito recentemente, no lançamento do último álbum, proclamou
alto e bom som: «I’m ready, my Lord».
Assim deu forma de oração ao que desabafara ao longo dos anos, em momentos
alegres, outros tristes (muitos), quase todos nostálgicos, embora festivos como
um gentleman. Uma das composições mais cristalinas na mensagem, datada de 1984,
é o conhecido Hallelujah, aqui antecedido
pela letra:
«Hallelujah
Now I’ve heard there was a secret chord
That David played, and it pleased the Lord
But you don’t really care for music, do you?
It goes like this
The fourth, the fifth
The minor fall, the major lift
The baffled king composing Hallelujah
Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah
Your faith was strong but you needed proof
You saw her bathing on the roof
Her beauty and the moonlight overthrew you
She tied you to a kitchen chair
She broke your throne, and she cut your hair
And from your lips she drew the Hallelujah
Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah
You say I took the name in vain
I don’t even know the name
But if I did, well really, what’s it to you?
There’s a blaze of light
In every word
It doesn’t matter which you heard
The holy or the broken Hallelujah
Hallelujah, hallelujah, hallelujah, hallelujah
I did my best, it wasn’t much
I couldn’t feel, so I tried to touch
I’ve told the truth, I didn’t come to fool you
And even though it all went wrong I’ll stand before the Lord of Song
With nothing on my tongue but Hallelujah
Hallelujah,
hallelujah, …»
Um caminhante no tempo, Cohen
soube dar voz e preencher de música os pensamentos mais bonitos. Vivera em pleno,
pelo que estava preparado para partir! Inclusive, antevira o Momentum, há mais
de 30 anos, fixando-o no verso final de Hallelujah.
Só nós fomos logo acometidos de um ataque de saudades. Ainda bem que a sua voz
rouca e quente sobrevive em 14 álbuns.
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
Ouvi há dias uma interessante conferência sobre um tema
deveras complexo, de difícil aceitação e por isso tantas e tantas vezes fonte
de inquietação, incompreensão e revolta: “o sofrimento, um mistério que
interpela o homem”.
No dizer da esclarecida conferencista, o sofrimento é a
maior causa de controvérsia e de séria divisão entre crentes e não crentes. Não
é de facto novidade que há nesta questão muitas perguntas de difícil, senão
mesmo impossível, resposta.
Da informação passada, que foi bastante, retive a que me
parece essencial:
- Que Jesus não veio acabar com o sofrimento, nem sequer
explicá-lo. Ao sofrer cruelmente pelo homem, mostrou em causa própria que o
mesmo tem um sentido, que pode abrir portas em nome de um bem maior.
- Que há em tudo uma fresta, uma fenda onde a luz pode
entrar. Se pedirmos e deixarmos, naturalmente.
- Que o sofrimento não é desejável, mas também que o
homem não deve fugir dele a qualquer preço. Se o fizer, está a fugir de si
mesmo, a negar a sua própria condição.
- Que o homem sofre mais e faz sofrer muito mais os
outros quando renega Deus.
Desculpem tema tão pesado em tempo de férias, mas não me
apeteceu falar das estafadas causas para a falta de medalhas (ou para a
abundância de diplomas) nos JO do Rio.
A superior música de Leonard Cohen que acompanha este
texto fez também parte da conferência a que assisti.
Sábado fui ao casamento de alguém que me é particularmente querido. Conhecemo-nos muito de volta dos tachos, prova evidente de que a gastronomia pode ser um forte gerador de empatia entre as pessoas. No caso concreto, estou certo, ajudou, não foi de todo determinante, porque até o crochet ou o modelismo bastariam.
A comparação dos casamentos de hoje em dia com os do meu tempo, celebrados na sua grande maioria no início/meados da década de 80, é um exercício déjá vu, sem grande originalidade. Hoje, os convidados dos copos-de-água são maioritariamente os amigos dos noivos, o que me parece algo da mais elementar justiça. Recuo 30 anos e os casamentos eram ao fim da manhã/princípio da tarde, o que propiciava o uso do protocolar fraque. Hoje essa fatiota está reservada para os noivos, pais e padrinhos, estes últimos numa profusão generosa Os casamentos de hoje sugerem fato escuro, saias por vezes curtas - e dança. Porque há música, retomou-se (embora não saiba, de facto, se algum dia foi hábito e quando terminou...) o costume da abertura do baile. A generalidade dos noivos cede à tentação, ao gosto, ou ao facilitismo do Danúbio Azul. Em boa verdade, sou muito pouco apreciador de valsa e, gostando de dançar - pese embora uma qualidade duvidosa - detesto dançar a valsa, mais ainda aquela específica.
Os noivos de sábado, mesmo havendo quem quisesse cortar as veias de neurose, arrojaram-se numa criatividade de se lhes tirar o chapéu. Apreciei a audácia - e aplaudi. Poucos foram os minutos que dancei, porque os costumes e a educação mandam que se guarde o início para a família mais próxima: este com aquela, depois aquela com o outro, e ainda aqueles dois. Mesmo assim arrastei comigo uma jovem que teimava em afirmar que não sabia dançar, o que era obviamente mentira, porque houve ligeireza suficiente e ninguém se queixou de pisões.
Deixo-vos, por isso, com a abertura do baile de sábado. Leonard Cohen, em Dance Me To The End of Love. Dança-se bem melhor do que o Danúbio Azul, digo-vos. E direi aos noivos, quando regressarem do sol nascente.
Volto a um tema querido: o revivalismo saudoso (será um pleonasmo?), característica que me habita em permanência, pois que quando eu nasci já era velho.
A juventude de hoje tem iphone, ipad, ipod. Olha para o CD - uma revolução tecnológica para quem, como eu, cresceu com o vinil - e encontra-lhe uma obsolescência óbvia. Faz downloads de filmes, de músicas, de aulas de metafísica, de jogos galácticos ou de testes de código da estrada com a mesma facilidade e desenvoltura com que eu, na idade deles, fotografava paisagens com uma Kodak de plástico.
A juventude de hoje circula de carro para todo o lado, olhando para os transportes públicos como uma fatalidade a evitar, e também porque fazer três quilómetros a pé é uma peregrinação reservada para a altura certa e a devoção possível. As casas têm aquecimento generalizado, as mesadas são boas, as férias passam-se em países estrangeiros que a rapaziada do meu tempo conhecia dos filmes ou da cultura geral (quem é que em 1980 tinha ido ao Quénia ou à República Dominicana?).
A juventude de hoje pode estar à rasca, mas tem fortes comodidades. Pode ter um futuro mais interrogado, mas tem um presente mais exclamativo. Porém, tal como Filipe II, que tinha tudo o que queria exceptuando um fecho éclair (poema completo aqui), a juventude de hoje pode deter todas as mordomias mas, no fundo no fundo, não sabe o que é dançar um slow.
Há muito tempo, ainda o verão português não era quente, entusiasmei-me por uma rapariga. Era um julho algarvio, talvez. No dia em que me iria declarar, revelando um arrojo que me é errático, dois amigos - um dos quais habitué deste espaço - deixaram-me dormir, e a jovem zarpou para Lisboa. Nunca mais a vi, mas ficou a lembrança de uma música com uma toada repetida, quiçá monótona, que eu dançava com ela amiúde.
Vem-me desse tempo, provavelmente, a convicção de que dançar não é a agitação frenética de um corpo que anseia por soltar os seus demónios. Dançar é um acto afectivo que se faz a dois - de preferência agarrado - porque um corpo que se estreita nos nossos braços, um cabelo cheiroso que nos roça a cara, um ritmo que o par domina, nem sempre com desenvoltura, mas seguramente com gosto, é algo demasiadamente prazeroso para ser feito na base de um parceria amigável ou, pior ainda, integrado numa multidão anárquica - ainda que perfumada.
Ultima nota, que o post vai comprido e há quem não tenha paciência: gosto sempre de relembrar que a nossa vida se pode decidir numa fracção de instante, por motivos fortuitos e prosaicos. Se não me têm deixado dormir, talvez eu viesse a ter namoro (e casar, who knows?) com aquela rapariga e, fruto das suas influências precoces, cursasse outras matérias e fosse, agora, o CEO de uma multinacional. Supor que posso ser hoje tradutor em regime liberal porque há mais de trinta e cinco anos dois amigos fizeram o que fizeram é algo de aterrador. Um jovem adormece no sono dos justos e pode acabar nos recibos verdes...
"Imagine... a warm summer's evening, by a dark flowing river, under a magical moonlit sky. A stage bathed in purple light. The audience in hushed anticipation, some awaiting the return at last of a cherished hero, others curious to experience for the first time, like me... And then The Man appears, forever stylish in his tailored suit and tie and fedora hat. His band of musicians look equally chic.
This was the scene last summer by Lisbon's river Tejo. And I had the opportunity to re-live this experience once more this summer. No warm evening. No moon. Lots of rain. Well, this was England. But it did not matter.
He performs with the same grace and humility and charisma and humour, and respect for his audience and for his fellow musicians.
His band are exceptionally artistic instrumentalists, the arrangements rhythmic, spanish, cabaret, waltz...
Not everyone likes Leonard Cohen. At least, they think they don't, or they would not, happy to accept the stereotypical belief that his poetic music sounds and therefore must be depressing. Well, he is not a pop singer. But his deep and mellow voice carries the wisdom and sensibilities of a lifetime's experiences. When he speaks he is quiet, understated, the audience captivated in his presence, clinging to his every word, like a congregation to their bishop's sermon.
LC himself makes fun of his mournful image by skipping onto and off the stage and dancing during his band's instrumental solos. He jokes that it is 14 years since he last gave concerts, when he was 60 years old, just a kid with a crazy dream. In that time he tells us that he studied the religions and philosophies of the world, but cheerfulness, cheerfulness kept breaking through.
I think these worldwide concerts have opened the ears and eyes of some sceptical people. And of a new younger generation.
If you are converted, or maybe you too were present, LC has released a new double cd, Live In London, which captures perfectly the aural magic of LC and his band. I hope there will one day be a dvd to capture the visual magic.
But if you still find his voice hard to listen to, I here offer you a compromise:
one of the most magical moments of all; one of the greatest in LC's Tower of Songs, introduced by The Man as a spoken prayer before taking heavenly flight on the wings of the angelic harmonies of his backing singers. Accompanied by a harp. Spell-binding. Sublime.
The Webb Sisters are just two of many wonderful backing singers employed through the years by LC. They are English; how LC discovered them I do not know; but I imagine and hope that they will find their own solo success. I suggest you find and listen also to one of their own compositions, Baroque Thoughts.
No momento de maior dificuldade da minha vida pessoal e profissional, um amigo de longa data escrevia-me, referindo a tranquilidade dos nossos 18 anos, quando os grandes dramas passavam pela ignorância do que faríamos naquela noite. Era uma altura idílica de inexistência de sofrimentos sérios, compromissos difíceis, prazos apertados, responsabilidades incómodas.
Sem que houvesse uma justificação especial - ou se calhar há, muito lá no fundo de mim mesmo - recuei ainda mais na vida e vi-me numa garagem de amigos, no Algarve ou no Estoril, numa altura em que se pedia às amigas para dançar. Alguém punha um slow e nós, rapazes ingénuos, precipitavamo-nos para a rapariga dos nossos encantos, num frémito de emoção porque ela se deixava apertar (o que quer que isso significasse), encostava a sua cabeça ao nosso ombro, deixava que passássemos uma mão pelo cabelo. Era a idade da inocência.
Deixo-vos com o Leonard Cohen, estático e igual a si próprio. No fundo, no fundo, não é ele que está a cantar - é o desejo que cada um tem de repor as condições iniciais, de regressar a uma juventude tranquila, sem problemas de maior a não ser o que fazer à noite.
Bons slows - com a vossa mulher, marido, namorado /a, companheiro/a, amigo/a. Ou com a vossa lembrança.