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02 abril 2021

Poema para o dia de hoje

Cristo 

À minha cabeceira o Cristo morre 
de puro dó. Silenciosamente,...
da cabeça, caída para a frente
um fio de sangue, ainda vivo, escorre.

Puseram-n'O ali como um remorso.
Não quiseram matá-Lo de uma vez,
pra m'O porem ali como um remorso.
Tem os olhos abertos. Tristes ... tristes ...
E a Sua boca quase que me fala,
como quem repreende meigamente.

Quando me vou deitar, já nem O olho.
Apago a minha vela bruscamente,
pra não ver os Seus olhos que me doem
como um remorso antigo.

Por que não ficou morto no Calvário,
apodrecendo aos Astros indiferentes?
Por que veio acabar para o meu quarto,
com estes olhos suaves que me acusam,
com estes lábios tristes que me pedem
que O não deixe morrer tão sem-razão?

Tem quase dois mil anos o meu quarto.
E em mais de mil das noites destes anos
eu apaguei a vela pra não ver
a agonia do Cristo, que me acusa.

Mas Ele rasga a escuridão da Noite.
Mas Ele rasga o sono em que me oculto
e vem, solto da cruz a que O prendi,
continuar, no fundo da minh'alma.
Seu estertor.
Seus olhos brilham mais, na escuridão ...
Pra de todo morrer,
como que espera apenas o segundo
de eu Lhe pedir perdão. 

Sebastião da Gama

10 abril 2020

6ª Feira Santa

O editor e dono do estabelecimento deseja a todos os colaboradores e visitante uma Santa Páscoa.

JdB


Francisco de Zurbarán (1598-1664), Cristo na Cruz (óleo sobre tela, 1627),
Art Institute of Chicago, Estados Unidos da América 


ORAÇÃO

Ouvi a Tua voz – que Te buscasse,
Que eras vida e caminho ardente e santo,
Aqui me tens, Senhor, beijando-Te na face,
Mordido de vergonha, angústia e pranto.

Cruz, lança, espinhos, pregos, fel, vinagre,
Não são adereços para um corpo humano.
Faze em mim, meu Senhor, o Teu milagre:
Sofrer, morrer e ressurgir em cada ano.

Perdoa à minha carne o desejar sem norte,
Porque vivo no mundo e sou pecado.
E recebe-me puro, quando a morte
Me levar p’ra o Teu lado.

(Um Cristo de perdão,
Sereno como é fria a madrugada,
Veio cravar-me, por amor, no coração,
Uma nova espada.)

António Manuel Couto Viana

19 abril 2019

6ª Feira Santa

Francisco de Zurbarán (1598-1664), Cristo na Cruz (óleo sobre tela, 1627),
Art Institute of Chicago, Estados Unidos da América

Pietà 

Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.

Sobre o golpe sem fundo do meu lado 
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.

Depois, a noite de uma outra vida 
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;

Mas o teu pranto, pela noite além, 
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.

Miguel Torga

14 abril 2017

Sexta-feira Santa



Pietà 


Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.


Sobre o golpe sem fundo do meu lado 
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.


Depois, a noite de uma outra vida 
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;


Mas o teu pranto, pela noite além, 
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.

Miguel Torga


Nota: imagem enviada por mão amiga

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