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17 junho 2024

Poemas dos dias que correm

Dubai, Junho de 2024

QUEM ME QUISER AMAR

Quem me quiser amar,
que me leve
fechado no meu mistério…

Me leve
como um presente imerecido,
vindo não sabe de aonde
– sempre com medo que lhe fuja
da caixinha cor da bruma
em que se esconde.

Quem me quiser amar,
me leve, sem se importar
de perguntar o que eu valho.
– Já lhe basta essa alegria
de saber que me possui
de saber que eu valho mais
que quanto puder pensar.

Sebastião da Gama
(1924 - 1952)
In "Por Mim Fora"
(Antologia)

07 agosto 2023

Poemas dos dias que correm

JMJ (fotografia tirada da net, desconheço o autor)

PELO SONHO É QUE VAMOS

Pelo sonho é que vamos,
Comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não frutos,
Pelo Sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
Que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
Com a mesma alegria,
Ao que desconhecemos
E ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?
-Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama.
(1924 - 1952)

02 abril 2021

Poema para o dia de hoje

Cristo 

À minha cabeceira o Cristo morre 
de puro dó. Silenciosamente,...
da cabeça, caída para a frente
um fio de sangue, ainda vivo, escorre.

Puseram-n'O ali como um remorso.
Não quiseram matá-Lo de uma vez,
pra m'O porem ali como um remorso.
Tem os olhos abertos. Tristes ... tristes ...
E a Sua boca quase que me fala,
como quem repreende meigamente.

Quando me vou deitar, já nem O olho.
Apago a minha vela bruscamente,
pra não ver os Seus olhos que me doem
como um remorso antigo.

Por que não ficou morto no Calvário,
apodrecendo aos Astros indiferentes?
Por que veio acabar para o meu quarto,
com estes olhos suaves que me acusam,
com estes lábios tristes que me pedem
que O não deixe morrer tão sem-razão?

Tem quase dois mil anos o meu quarto.
E em mais de mil das noites destes anos
eu apaguei a vela pra não ver
a agonia do Cristo, que me acusa.

Mas Ele rasga a escuridão da Noite.
Mas Ele rasga o sono em que me oculto
e vem, solto da cruz a que O prendi,
continuar, no fundo da minh'alma.
Seu estertor.
Seus olhos brilham mais, na escuridão ...
Pra de todo morrer,
como que espera apenas o segundo
de eu Lhe pedir perdão. 

Sebastião da Gama

02 agosto 2018

Poemas dos dias que correm

Poesia Depois da Chuva

                         A Maria Guiomar

Depois da chuva o Sol - a graça.
Oh! a terra molhada iluminada!
E os regos de água atravessando a praça
- luz a fluir, num fluir imperceptível quase.

Canta, contente, um pássaro qualquer.
Logo a seguir, nos ramos nus, esvoaça.
O fundo é branco - cal fresquinha no casario da praça.

Guizos, rodas rodando, vozes claras no ar.

Tão alegre este Sol! Há Deus. (Tivera-O eu negado
antes do Sol, não duvidava agora.)
Ó Tarde virgem, Senhora Aparecida! Ó Tarde igual
às manhãs do princípio!

E tu passaste, flor dos olhos pretos que eu admiro.
Grácil, tão grácil!... Pura imagem da Tarde...
Flor levada nas águas, mansamente...

(Fluía a luz, num fluir imperceptível quase...)

Sebastião da Gama, in 'Pelo Sonho é que Vamos'

***

Cai a Chuva Abandonada

Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

26 abril 2017

Da felicidade como recompensa

Já aqui escrevi sobre isso: no casamento de alguém que me é próximo, o padre falou na felicidade como recompensa. Não como objectivo, menos ainda como direito - apenas como recompensa do esforço, da dedicação, da abnegação, da entrega, do sacrifício, talvez mesmo, ou sobretudo, do amor. O conceito é interessante e suscitou uma conversa num destes dias. 

O que é a diferença de se olhar para a felicidade como um objectivo ou como uma recompensa? Para mim, cavalheiro obeso por vezes obcecado com as palavras, os seus significados, as suas nuances, a diferença é total, embora não me ocorra uma argumentação totalmente demolidora - talvez seja do cansaço da mente, talvez seja da limitação do cérebro. 

Para um cristão, a santidade é o objectivo, o céu é a recompensa. Este raciocínio faz sentido? Recorro a outro, já que estou ligado a uma IPSS: ser-se voluntário é o objectivo, a satisfação que se recolhe do voluntariado é a recompensa. Regresso ao casamento: fazer o outro feliz é o objectivo. A felicidade é a recompensa.

Olho para os parágrafos acima e fico satisfeito. Os exemplos parecem-me esclarecedores. Vou descansar, que o 25 de Abril arrasa-me. Mas deixo-vos como Sebastião da Gama.

JdB


Viesses tu, Poesia

Viesses tu, Poesia
e o mais estava certo.
Viesses no deserto,
viesses na tristeza,
viesses com a Morte...

Que alegria mereço, ou que pomar,
se os não justificar,
Poesia,
a tua vara mágica?

Bem sei: antes de ti foi a Mulher,
foi a Flor, foi o Fruto, foi a Água...
Mas tu é que disseste e os apontaste:
- Eis a Mulher, a Água, a Flor, o Fruto.
E logo froam graça, aparição, presença,
sinal...

(Sem ti, sem ti que fora
das rosas?
Mortas, mortas pra sempre na primeira,
mortas à primeira hora.)

Ó Poesia!, viesses
na hora desolada
e regressara tudo
à graça do princípio...

Sebastião da Gama

07 abril 2016

Poemas dos dias que correm

Dias de sorte (fotografia de António Alves Tedim)

Pelo sonho é que vamos

Pelo sonho é que vamos,

comovidos e mudos.

Chegamos? Não chegamos?

Haja ou não haja frutos,

pelo sonho é que vamos.

Basta a fé no que temos.

Basta a esperança naquilo

que talvez não teremos.

Basta que a alma demos,

com a mesma alegria,

ao que desconhecemos

e ao que é do dia a dia.

Chegamos? Não chegamos?

– Partimos. Vamos. Somos.

Sebastião da Gama

***

Sonho

Teria passado a vida
atormentado e sozinho
se os sonhos me não viessem
mostrar qual é o caminho

umas vezes são de noite
outras em pleno de sol
com relâmpagos saltados
ou vagar de caracol

quem os manda não sei eu
se o nada que é tudo à vida
ou se eu os finjo a mim mesmo
para ser sem que decida.

Agostinho da Silva, in 'Poemas'

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