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22 abril 2021

Duas Últimas

Estou certo de que dancei Sylvia's Mother cantado pelo Dr. Hook. É uma música de 1972, e eu estava na fase de pedir para dançar, de dançar, e de agradecer a dança. Entre o pedir e o agradecer, um slow de quatro minutos com uma rapariga da minha idade, do meu grupo de amigos, com o cabelo a cheirar a Timotei, talvez, a ser mais ou menos comedida no aperto de dois corpos juvenis. Não havia nunca maldade, apenas um gosto (ou uma necessidade) de sentir um corpo próximo, quase imóvel, uma perspectiva de qualquer coisa ou de coisa nenhuma. Talvez fosse apenas uma música de que se gostava, numa altura em que dançar muito junto era uma emoção que não se consegue descrever à luz do vocabulário de hoje. 

Algumas músicas sei com quem dancei; esta não me lembro. Mas que dancei, estou certo que dancei. E Também cantei, porque cantávamos o que dançávamos, embora nem sempre percebêssemos o que cantávamos. A frase Sylvia's Mother, permanentemente repetida, está bem presente na minha memória, juntamente com a melodia.

Ler o poema - e coloco-o a seguir ao youtube - dá uma ideia precisa do que cantávamos: a mediação de uma mãe entre a sua filha e um pretendente. Nunca saberemos se a mãe de Sylvia a protegia ou se protegia a si própria; nunca saberemos se Sylvia foi feliz com o homem de Galveston, ou se preferia aquele que se quer despedir dela e de quem a mãe a afasta. Nunca saberemos isso, como nunca saberemos muitas coisas que se passaram no passado, porque foi assim e como teria sido se fosse diferente. 

Nota: como explicamos à gente de agora o que era um período de telefone, o que era por moedas numa máquina para podermos falar mais três minutos?

JdB

Sylvia's mother says Sylvia's busy
Too busy to come to the phone
Sylvia's mother says Sylvia's trying
To start a new life of her own
Sylvia's mother says Sylvia's happy
So why don't you leave her alone?
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
Please, Mrs. Avery, I just gotta talk to her
I'll only keep her awhile
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
Sylvia's mother says Sylvia's packing
She's gonna be leaving today
Sylvia's mother says Sylvia's marrying
A fella down Galveston way
Sylvia's mother says please don't say nothing
To make her start crying and stay
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
Please, Mrs. Avery, I just gotta talk to her
I'll only keep her awhile
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
Sylvia's mother says Sylvia's hurrying
She's catching the nine o'clock train
Sylvia's mother says take your umbrella
'Cause, Sylvie, it's starting to rain
And Sylvia's mother says thank you for calling
And, sir, won't you call back again?
And the operator says forty cents more
For the next three minutes
Please, Mrs. Avery, I just gotta talk to her
I'll only keep her a while
Please, Mrs. Avery, I just want to tell her goodbye
Tell her goodbye
Please, tell her goodbye

19 janeiro 2021

Da rua da minha infância

 


Sou um revivalista. Talvez seja, no fundo, um pragmático - e um revivalista é, num certo sentido, um pragmático, porque se atém àquilo que existe - o passado - olhando menos para o que não se sabe se existe, isto é, o futuro. 

Por razões que não interessam, dei por mim, neste fim de semana, numa certa zona de S. Pedro do Estoril. Quando tentei orientar-me, já que ali vivi alguns anos enquanto jovem, percebi que estava a 500 metros da rua da minha infância, mais precisamente entre os 11 e os 16 anos - há 50 anos, mais ano menos ano. Naquele troço de rua desenvolvi dotes tardios de ciclista (descer uma rua e fazer uma curva sem mãos foi a minha proeza), ajudei a fabricar um carrinho de rolamentos que levava três rapazes, joguei futebol, saltei à fogueira e aprendi as delícias das batatas assadas na brasa. No fim da rua - a minha casa era a penúltima - no descampado onde agora são os Jardins da Parede, fumei e beijei clandestinamente.

Passado meio século nada tem a mesma dimensão - e normalmente tudo é mais pequeno. Curiosamente - e não ia àquela rua há mais de 45 anos - as casas têm a mesma dimensão face ao que era a minha memória. Algumas estão retocadas, outras pintadas de outra cor, uma ou outra meia abandonada. O que me surpreendeu foi o tamanho da rua, que está muito mais pequena. 50 anos afectaram a minha visão da estrada, não das casas.

Já aqui postei o título deste livro - e foi por causa do título que o li. Parte substantiva do meu mundo é aquela rua da minha infância. Ali fui imensamente feliz: vivi na rua, ganhei amigos novos, tive sentimentos de pertença a um grupo, namorei e alarguei horizontes. Tenho memórias frescas: nomes completos, cheiros, ambientes, vozes, hábitos. 

Nos 5 minutos em que deambulei por aquele troço de 6 ou 7 casas da minha infância cruzei-me com um homem que, dizem-me no momento, era o irmão do meio de uns vizinhos com quem convivi. Hesitei se o cumprimentaria; não o fiz porque temi ser detentor de um revivalismo deslocado e não recíproco. Afinal, há gente que encontra mais encanto em olhar para o futuro imaginado do que para o passado vivido.

JdB

13 setembro 2019

Do passado e da felicidade

No ano passado, num casamento, fui abordado por uma sorridente senhora da minha idade: 

não se lembra de mim? 

Sofro, hoje em dia, de uma falha incomodativa: não fixo caras e, se "desenquadro" a pessoa em questão, não há hipótese de a reconhecer. Porém, estava certo de que nunca a tinha visto. Sorriu mais abertamente e elucidou:

sou fulana...

Abri a cara num sorriso grande e estivemos na iminência de um abraço. Não via fulana há 45 anos, talvez. Rimo-nos, contámos coisas, relembrámos pessoas e épocas. Agradeci-lhe muito o facto de, impulsionada pela irmã a quem eu tinha perguntado por ela, me ter vindo falar.

Tive um gosto enorme em ter revisto fulana? Nem por isso: o gosto adveio, muito simplesmente, de naquele sorriso que trocámos eu ter revivido uma época feliz. Fulana foi o veículo que permitiu o regresso a um passado que me deu muito prazer. Em bom rigor não troquei nenhum sorriso ou nenhum beijo com fulana. O meu sorriso, o meu sinal de afecto, foi para uma época que dista 45 anos - ou mais. Beijei o intangível através do beijo ao tangível. 

A felicidade é sempre um movimento do corpo sobre o passado, porque não podemos sorrir para o futuro, que não sabemos se existe. Sorrimos para o nascimento de um neto, para a alegria de um filho, para a amabilidade de um amigo: esse sorriso é sempre, decorrido um nanossegundo, sobre o passado, porque o presente é terreno de passagem. Tudo em nós já foi, nunca será, escassamente é.  

Olhar sobre o passado - mesmo que o passado seja a semana anterior à presente - é olhar sobre o certo, o conhecido, o existente. A nossa felicidade (ou o seu contrário) é sempre um exercício de memória, de recordação. A ideia de felicidade do professor Zandinga, que previa o futuro, é uma arma para iludir néscios. Somos felizes porque lembramos, não porque prevemos. Somos felizes porque temos passado, não porque desejamos futuro.

JdB   

20 junho 2016

Do passado

É diferente... O sol feito de luz ardente
Do mesmo sol poente 
Que arrasta consigo um dia passado
Já basta saber... Que há em nós a saudade a doer
Se afinal recordar é sofrer
Rasga o passdo

Rasga o passado (letra de Álvaro Duarte Simões)

***

Um destes dias, pessoa jovem ainda e que me é recém-próxima, dizia-me mais ou menos isto: mas porque se há-de querer matar um passado? A frase podia ter sido dita por mim, que tenho o hábito estranho, e também criticado, de olhar muito para trás, apesar de tudo o que vejo tirar algo: uma saudade, uma lembrança, uma aprendizagem, um remorso ou um arrependimento, um factor de imobilidade. Mas não fui eu que disse a frase, repito. Foi uma pessoa décadas mais nova do que eu, para quem, estatisticamente falando, o futuro é ainda maior do que o passado. Foi na ressaca da frase, totalmente apropriada à conversa em curso, que me apercebi deste senso comum absolutamente la paliciano: todos, em certo momento, olhamos para trás; e é isso que transforma o passado numa espécie de faca que nos serve ou nos corta, tudo dependendo se lhe pegamos pela lâmina ou pelo cabo.

Seja sempre, seja em momentos específicos (não sei bem...) dentro de nós trava-se uma estranha batalha: o passado, feito de factos palpáveis e mensuráveis, mas também de sentimentos existentes, memórias e saudades, trava uma luta com o futuro, essa coisa que não existe a não ser na nossa imaginação ou no nosso desejo. O resultado desta contenda é sempre um presente que muda a todo o instante, resultado dinâmico desse combate interno entre dois tempos, um existente e o outro por existir.

Olhar para o passado não é olhar para o que foi, como se esta conjugação pretérita conferisse ao exercício uma conotação negativa, ou apenas desinteressante, porque para a frente é que é caminho. O passado é a única coisa que, de facto, existe dentro de nós e em nosso redor. Não é uma criação, um caminho que vamos definindo momento a momento, um desejo ou uma projecção. O passado é a nossa única realidade, é o único activo da nossa existência, o curriculum vitae com que nos candidatamos ao mundo, porque ninguém se apresenta com o que irá fazer, mas com o que fez. 

A frase que me foi dita é representativa da mais simples realidade: olhar para o passado não é uma actividade de velho de espírito ou de velho de corpo, de criatura imobilizada e cristalizada naquilo que existiu. Falar no passado pode ser um exercício de enorme lucidez porque, com a existência posta em perigo, não há nada que seja mais parecido com uma bóia de salvação, nem que seja para rejeitar o que houve, para construir um que , talvez ainda um que haverá. Na sua música Solsbury Hill, Peter Gabriel canta: my heart going boom, boom, boom / son, he said, grab your things, I've come to take you home. Onde é - ou o que é - a nossa casa? É o passado, porque é a única realidade. Por isso a jovem me perguntava, mais duvidosa do que inquieta, porque se havia de matar um passado, já que isso (digo eu...) equivaleria a deixá-la sem abrigo. 

O presente é sempre o resultado de uma luta entre o passado e o futuro. Quem nunca olhar para trás - achando ingenuamente que é um campeão do optimismo e do avanço - terá sempre uma vitória por falta de comparência, que é a pior vitória de todas. A vitória nunca é certa, que por vezes o futuro agiganta-se.

JdB 

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