17 janeiro 2015

Pensamentos Impensados

Grupos onomásticos
Não sou Charlie; já Chaplin era.
Não sou de esquerda.
Acho que não se deve fazer troça das crenças religiosas, principalmente monoteístas.
Acho abaixo de tudo a frase publicada: le Coran c'est de la merde.
A manifestação foi publicitada como sendo republicana; sou Monárquico.
 
A meter água
Os submarinos foram encomendados através do Mistério dos Negócios no Estrangeiro.
E foi especificado que não deveriam ter comportas, só com portas.
 
República vs. realeza
Já se fala na corrida a Belém; qual o Rei Mago que chegou primeiro?
 
Adições (não é o que estão a pensar)
PSD e CDS com maioria obsoleta.
 
Ofertas
Nunca faças doações de órgãos a quem for saudável; dôa a quem doer.
 
Vozes do além
Estava Fernando Pessa a assistir à atribuição da Bola de Oiro, quando ao ouvir o nome de um jogador exclamou: Iniesta, heim??!!
 
Perda de tempo
Cão que ladra não come.

SdB (I)

16 janeiro 2015

O herói *

Texto publicado inicialmente em 29.10.2010

***

Em algum momento da vida o inesperado torna-se esperado, o inimaginável real e o inaceitável torna-se, pela força das circunstâncias, aceitável.

Uma neblina intransponível figura o horizonte humano, abate-se a escuridão e o ser humano, enfraquecido, deixa que a sua esperança seja arrastada pelos ventos cortantes, sabe lá ele para onde. A sua habitual posição de lutador, de herói, vacila, ele retrai-se, baixa o olhar e deixa que os seus joelhos enfraqueçam até o derrubarem pelo chão. E assim permanece, deixando que as inúmeras e sucessivas imagens se apoderem da sua mente. Ele teme, teme tanto e é tão legítimo. O fim, seja ele de um capítulo ou de uma história, assusta-o. A noção de ponto final e de parágrafo dá ao nosso (sempre) herói uma perspectiva dura da vida já que não poderá reviver o passado no presente e no futuro. Cada capítulo é um capítulo.

E é perdido nestes pensamentos que o nosso ser humano se mantém ainda abatido sobre a terra, empregando todas as suas forças nas pálpebras de maneira a impossibilitar a abertura dos olhos. Ele deseja ser cego, acredita que a ausência de visão será certamente melhor do que aquela que os seus olhos lhe proporcionam. Domado pelo medo, sim, porque um herói também teme, ele coloca as mãos sobre a face, cerra os dedos, garantindo que nem um raio da vida real trespassa aquela camada. E nesta posição defensiva permanece por mais uns momentos. 

No entanto, o seu coração, inferiorizado até ao momento por todo aquele medo e angústia, reage. Devagar, impõe-se sobre a mente, deixando que as emoções prevaleçam sobre a razão. E o nosso lutador deixa as mãos caírem; timidamente abre os olhos, encara a realidade e surpreende-se. Aos olhos do coração, o céu estava azul brilhante, apenas se sentia uma brisa acariciante. Mas ele via, no horizonte, um cenário escuro, sombrio, aterrorizador. Fechou de novo os olhos e jurou que, daí em diante, poria sempre os sentimentos à frente da razão, faria prevalecer o amor aos vícios.

Abriu os olhos, reergueu-se e seguiu caminho para um futuro longo...

MTM

15 janeiro 2015

As escolhas do gi

Lá fora, chove; cá dentro, não está melhor. Precisamos de algo que nos embale, que nos mostre que há quem nos conheça (ou, pelo menos, queremos acreditar nisso..).

gi.


***

Dean Wareham, "Heartless People"



Amen Dunes, "Lonely Richard"


Slow Club, "Tears of Joy"


Morrissey, "Kiss Me A Lot"

14 janeiro 2015

Diário de uma astróloga – [95] – 14 de Janeiro de 2015


Saturno em Sagitário descodificado

A astronomia – Saturno completa uma órbita à volta do Sol em 29 anos. Passa aproximadamente dois anos e meio em cada signo. Na maioria dos casos, entra no novo signo, em movimento retrógrado volta temporariamente ao signo anterior e depois continua o seu caminho. Saturno entrou em Sagitário em 23 de Dezembro de 2014, volta a estar em Escorpião de 15 de Junho a 18 de Setembro de 2015, e depois permanece em Sagitário até 20 de Dezembro de 2017.

Saturno na astrologia tradicional é considerado como o “Grande Maléfico” , porque representa dificuldades e restrições em termos materiais. Era temido e associado a desgraças tais como destruição de colheitas e a consequente escassez alimentar e fome. 

Saturno na astrologia arquetípica moderna é mais abrangente: é Senhor do Karma (cá se fazem, cá se pagam), é o Senhor do Tempo (envelhecimento e maturidade), é o Grande Mestre que através da disciplina, da estrutura, da organização ensina as lições da vida. Nada disto é maléfico, mas digamos que não é divertido. A astrologia ensina é que todas as energias planetárias podem ser expressas de uma forma positiva ou negativa. Saturno pode ser o mentor que com método e sabedoria nos mostra o caminho a seguir, ou o rígido, intransigente e implacável “enforcer” (palavra inglesa difícil de traduzir que significa aquele que aplica e executa). Nos EUA a polícia é “law enforcement” . Saturno é sempre uma autoridade, podendo ser equacionado com o Governo em interpretações de astrologia mundana.

Sagitário é o signo que está relacionado com a lei, com a moralidade, com a filosofia e com princípios religiosos. Representa tudo o que nos leva mais longe, as viagens físicas ao estrangeiro e as viagens intelectuais que são explorações de assuntos que não conhecemos e procura de respostas. 

Acontecimentos – Na semana passada em Paris, Saturno em Sagitário mostrou uma das suas faces mais negras.  Said e Cherif Kouachi foram os “enforcers” assassinos de intransigentes princípios religiosos extraviados de qualquer moralidade. Queriam calar a voz da livre expressão. 

Eu não sou Charlie, não acho graça a imagens religiosamente ofensivas sejam elas de que religiões forem, mas também não aprovo a censura. Cada um deve ser livre de se exprimir como quer.

Praticamente no mesmo dia, noutra parte do mundo, o governo da Arábia Saudita aplica intransigente e cruelmente a lei da censura ao chicotear, em público, um blogger liberal que se batia pela liberdade de expressão. Eu sou muito mais Raif Badawi. Outra face negra de Saturno em Sagitário mas como é um assunto interno de um país que fornece petróleo ….

Os Governos ocidentais vão, sem dúvida, responder com uma outra face de Saturno em Sagitário, com leis que restringem os estrangeiros, os imigrantes. Os partidos de extrema-direita, como o partido francês de Le Pen, vão ganhar mais eleições explorando o medo que a população tem dos fanáticos muçulmanos. Em Inglaterra o UKIP, novo partido de direita anti UE, está a crescer e nos EUA,  o partido conservador ganhou recentemente o controle dos dois órgãos legislativos: congresso e senado.

Como astróloga sei que Saturno seguirá o seu caminho: depois de Sagitário percorrerá os signos de Capricórnio e de Aquário. Posso fazer a comparação com uma outra passagem de Saturno por estes signos que ocorreu de 1927 a 1934. Foram os anos da solidificação do fascismo hitleriano onde a peça fundamental era o medo do estrangeiro, neste caso do Judeu.

Como astróloga sei que é o medo que nos paralisa, nos auto limita e que nos auto censura. Por isso Saturno é também medo. Não sou jornalista, nem comentadora política, mas como astróloga sei que colectivamente temos que vencer o medo, porque senão, a censura que os fanáticos fascistas islâmicos impõem nos seus países e querem impor nos nossos, será imposta pelos fascistas eleitos por nós.


Luiza Azancot

13 janeiro 2015

Duas Últimas

João é nome dominante entre os meus maiores amigos. E também tenho um filho e um irmão que respondem pelo dito.

Em homenagem a eles, e muito em especial aos que são aniversariantes neste mês, segue esta musiquinha de uma cantora da nova geração, com um tom de voz que às vezes faz supor que está a gozar com o pessoal, mas nos vamos acostumando a apreciar. E que tem um refinado gosto musical.


Espero que concordem, sobretudo os Joões deste mundo.

fq

12 janeiro 2015

Pensamentos impensados (última hora)

 
Mensalinho
 Cá no burgo foram robalos. No Brasil são lulas.
Parece que deram lulas ao Sr. Luvas da Silva.

SdB (I)

Vai um gin do Peter’s?

A par das notícias repugnantes que estão a acontecer de Paris sobre ataques terroristas em cadeia, também há atitudes bondosas em palco de guerra que, infelizmente, nem sempre são publicadas, porque não vendem tão bem quanto as más notícias. Mas, como é hoje assumido pelos próprios media tradicionais, o fluxo de informação circula mais pelos blogs e redes sociais do que através da imprensa escrita. Por isso, pode ser um bom começo para 2015, começar por postar este episódio tão humano, que resgata alguma da maldade e violência destruidora do conflito onde ocorreu, no Iraque:
  

Num hospital de campanha norte-americano, algures no Iraque, o sargento-enfermeiro John Gebhardt é o único capaz de acalmar a criança que as enfermeiras entregaram ao seu cuidado, depois de ter ficado sozinha no mundo, quando lhe mataram a família e a balearam na cabeça. Foi uma sorte ter sido descoberta e resgatada, mais tarde, por uma patrulha ocidental, que incluía o oficial Gebhardt. Ao colo do sargento-enfermeiro, seu salvador, a criança tem conseguido parar de chorar e adormecer. Por isso, o oficial tem passado as noites no cadeirão do hospital a embalar a sua protegida, que assim tem vindo a recuperar física e psicologicamente.

Não há dúvida de que as pessoas podem fazer toda a diferença e tornar menos cruéis, até as circunstâncias mais sangrentas. Como reza o adágio: não podemos orientar o vento, mas podemos ajustar a nossa vela

Ainda na onda das boas notícias, três portugueses com menos de 30 anos foram incluídos na selecção dos jovens de sucesso ‘30 under 30’, da conceituada revista norte-americana Forbes. Entre 20 áreas diferentes, os 3 eleitos são: na “Art and Style”, o artista de murais urbanos Alexandre Farto, que assina como Vhils; no desporto, o futebolista Cristiano Ronaldo; em “Healthcare” a investigadora Maria Nunes Pereira, pelo seu contributo para a descoberta de um adesivo apto a corrigir os defeitos cardiovasculares que afectam 6 bebés em cada mil nascimentos.


Por fim, duas sugestões musicais de brinde ao Novo Ano, com coros espantosamente bem sincronizados. O primeiro foi o ponto alto de um concerto em céu aberto, na capital da Estónia, com 15000 mil vozes em palco:


O segundo é uma interpretação da ária do Pai-Nosso, musicada pelo compositor norte-americano Albert Hay Mallote (1895-1964), conhecido em Hollywood por ter acompanhado, ao piano, inúmeros filmes mudos e composto várias bandas sonoras de filmes da Disney. Nesta gravação, Andrea Bocelli é acompanhado por um coro de Salt Lake City: 



Que no Novo Ano o tempo jogue a nossa favor e nos faça mais felizes e livres, em crescendo.


Maria Zarco

(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

11 janeiro 2015

Domingo do Baptismo do Senhor

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos (Mc 1, 7-11)
Naquele tempo, João começou a pregar, dizendo: «Vai chegar depois de mim quem é mais forte do que eu, diante do qual eu não sou digno de me inclinar para desatar as correias das suas sandálias. Eu baptizo na água, mas Ele baptizar-vos-á no Espírito Santo». Sucedeu que, naqueles dias, Jesus veio de Nazaré da Galileia e foi baptizado por João no rio Jordão. Ao subir da água, viu os céus rasgarem-se e o Espírito, como uma pomba, descer sobre Ele. E dos céus ouviu-se uma voz: «Tu és o meu Filho muito amado, em Ti pus toda a minha complacência».

***

O Batismo como continuação do Evangelho

Complacência, enlevo ou encanto, conforme as traduções, mas tudo palavras coincidentes. Esta voz do Céu, a voz do Pai, declara que Jesus é o Filho e apresenta-O como o seu filho muito amado, no qual pôs todo o seu enlevo. Em Jesus Cristo está todo o encanto do Pai e todo o amor do Espírito. E é esta amizade relação de amizade profunda entre jesus e o Pai que nos mostra ou que nos entreabre o mistério infinito de Deus que nos é oferecido em Jesus Cristo e na força do seu Espírito. O Batismo de Jesus, a apresentação de Jesus por parte de Deus para começar a sua missão salvadora, já não é o baptismo de João, é muito mais! E este Espírito que desce sobre Jesus é o Espírito que desce sobre nós no nosso próprio Batismo. Isto significa que o Espírito de Deus, o Espírito de Cristo, atua também em nós. Não há nada tão bonito como vermos um batizado ou uma batizada, sobre os quais desceu e atua o espírito de Jesus Cristo, para que o Evangelho continue também. Isso é a salvação do mundo, esse é o enlevo de Deus; e o mais importante e o segredo que cada batizado e cada batizada no Espírito de Jesus Cristo deve ter e manter é este mesmo de se sentir amado pelo Pai, de ouvir como dirigidas a si estas palavras: “Tu és o Meu filho muito amado, em ti pus o meu enlevo”.

D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 50-52

10 janeiro 2015

Pensamentos Impensados

Representações
Era um actor tão primário que era pior que o actor secundário.
 
Nouvelle cuisine
... e para entrada, supositórios de glicerina.
 
INEM
Quando morrer, se tiver direito a notícia de jornal, dirão: esteve 90 anos à espera de assistência.
 
Daltonismo
Em casa tenho uma passadeira verde, mas para alimentar o ego chamo-lhe red carpet.
 
Dislexia
Fui condenado: frutei uma furta.
 
Ataques
Só falta descobrir que as filhas de Adão e Eva foram assediadas sexualmente pelos irmãos.

Estória
Os Estados Unidos, que metem o nariz em tudo, não se aperceberam das Cruzadas.

SdB (I)

09 janeiro 2015

Largo da Boa-Hora (republicado)*

* publicado originalmente em 9 de Julho de 2009

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“Eu e Tu”, “Tu e Eu”.

ser e acontecer de cada um é, do ponto de vista da relação com o outro, confrontado com distintas atitudes e posturas desse outro, cuja natureza e consequências julgo merecerem alguma reflexão.
Nas acções ou omissões do outro temos vários graus de intersecção e / ou comparticipação que formam um largo espectro que me proponho evidenciar. (Aplicável, como todo o texto que segue, desde a relação amorosa à familiar, incluindo a de amizade e as de mero conhecimento ou de índole profissional).
Percorramos, pois, um breve itinerário das atitudes distintas perante o “ser e acontecer “ do outro.
Instrumentalmenteficciono esse itinerário como uma escada cujos degraus ascendem da indiferença à cumplicidade, que são os extremos do espectro considerado.
No primeiro degrau da ligação ao ser e acontecer do outro, temos a ignorância, a indiferença, o alheamento. É ser-se cego, surdo e mudo.
No segundo degrau, assume-se a postura de mirone. Espreitamos o que acontece, de relance, com um ânimo de olhar sem registar, sem querer recordar, recusando outro efeito em nós que não distrair, apenas como paisagem banal e irrelevante que vai desfilando na estrada que vamos percorrendo, e que se apaga pela sucessão da próxima curiosidade.
No terceiro degrau, consideramo-nos testemunhas. Presenciamos o desenrolar do outro, com observação, com atenção, com interesse em ver e registar. Não somos neutros perante o acontecimento, queremos percepcioná-lo e aplicamos as nossas faculdades cognitivas a essa aquisição de conhecimento. No final, sentimo-nos habilitados e autorizados a discorrer e contraditar sobre os factos sucedidos, legitimados pelo “trunfo” de termos fotografado o evento.
No quarto degrau, entramos no ser e acontecer de outrem como conhecedores. Neste patamar interagimos com o outro, porque acresce, à qualidade de testemunha, a disponibilidade, interesse, vivência do acesso e conhecimento concreto das motivações, causas, efeitos, circunstâncias que são inerentes ao sucedido. Aceitamos a partilha de todo o mundo subjacente ao evento material. Passamos aos bastidores da obra apresentada, acedendo a todas as vicissitudes ocultadas do público em geral. Quando falarmos, poderemos narrar, tanto o “quê”, como o “porquê” do evento.
No quinto degrau, a atitude passa a ser de comparticipação. Deixa, pois, de ser acrítica, como nos degraus anteriores. Neste patamar assumimo-nos como tolerantes. Acresce, relativamente ao quarto degrau, uma reacção nossa de aceitação, de admissão, de conformismo, com o ser e acontecer do outro. Passamos de um "non facere" para um “facere”, que importa uma reacção nossa perante a acção do outro, ou seja, além de conhecer o acto, facto ou omissão, conferimos-lhe a nossa bênção, o nosso acolhimento.
No sexto degrau, a nossa intervenção sobre o outro cresce de importância, passamos a apoiantes. Neste estádio, afirmamos a nossa adesão, concordância, beneplácito ao ser e acontecer do outro. Sustentamos o seu devir com toda a disponibilidade para ajudar, auxiliar, viabilizar, concorrer para o evento. “Fazemos figas” para o sucesso, lançamos os foguetes, e, muito importante, estamos igualmente irmanados para a eventualidade do fracasso, da derrota, do infortúnio que ocorra no final. Estamos, para o bem e para o mal, companheiros de caminho, solidários e indefectíveis.
No sétimo degrau somos mais interventivos. Agimos a nível prévio da acção do outro, somos instigadores. Incitamos, estimulamos, induzimos o outro a ser e acontecer de certa e específica forma, premeditada também por nós. Queremos que as coisas sejam assim, e intervimos para a resolução do outro que seja necessária. A decisão é também nossa e, consequentemente, a acção, porque intencionalmente o determinámos ou concorremos para essa determinação. O evento que aconteça neste quadro de instigação é da autoria dele, mas tem a marca indelével da nossa força motriz que o animou.
Por fim, no oitavo degrau somos cúmplices do outro. A cumplicidade é ser-se co-autor do sucedido, é ter-se tomada como própria a acção do outro, é a fusão de vontades e de execuções que tornam o evento numa amálgama em que é impossível distinguir, entre ambos, quem fez, porque fez e como fez.
Trata-se da unicidade de vontades e agires que anulam a distinção das individualidades que antes se destrinçavam. O que está feito não foi feito por ambos, mas feito por um ente que é a soma, melhor, a fusão dos dois.
cumplicidade é a hábil transformação dos “laços” em “nós górdios
cumplicidade transforma egoísmos compatíveis em altruísmos abnegados.
cumplicidade é, pois, a linha no horizonte que sucede no crepúsculo, e em que é impossível saber que parte da claridade vem do sol que nasce, e que parte vem da lua que adormece, ou vice-versa. É, pois, o abraço dos astros, que nem as estrelas deslindam, quanto mais os homens.
Temos assim identificados, pelo menos, oito degraus de acção e reacção, perante o ser e o acontecer do outro, todos eles enunciados pelo respectivo verso, quando podiam (deviam) também ter sido feitos pela referência ao respectivo inverso, o que só tornaria este texto inaceitavelmente longo, já que o contrário de cada degrau enunciado também é, evidentemente, uma opção e, pelo que a seguir direi, crítica e fundamental.
Conhecidos os degraus, reputo de fundamental para uma relação consciente, séria, construtiva, verdadeira, e com futuro, que cada um, em todas as ocasiões, em que o outro “é” e “acontece” lhe comunique, o faça interiorizarconsciencializar, sem dúvidas ou incertezas, qual é a acção / reacção com que conta e que lhe dá.
Sem erros nem equívocos, no nosso ser e agir todos temos o direito de saber com o que contamos do outro, se com o degrau um se com o dois o três… ou o oito.
É um dever de quem nos partilha e, na iminência do suceder a nossa opção e vivência, ou até nesse sucedimento, sabermos qual o papel (degrau) que o outro quer desempenhar nesse tempo, espaço e acontecimento, sem reservas, nem cautelas, com verdade, lealdade e coragem.
A tripulação de cada viagem conta-se à largada do navio.
É pois egoísmo, cobardia, má-fé, desamor e desinteresse por pessoas e projectos, não intimar o outro com a afirmação do degrau em que nos posicionamos à largada do navio: somos adeus no cais, visita de desembarque antes da partida, privilegiados com barco de apoio para fuga, passageiros de bilhete comprado e salvação assegurada, tripulantes, ou companheiros de campanha até ao fim, se for o caso.
Entenda-se aqui o direito / dever à oposição, que deve ser exercido no tempo e modo convenientes, com franqueza, firmeza, e fiabilidade. Dizer não, se é não. Quantos Alcácer -Quibir colectivos e pessoais teriam sido evitados…
Mas, e como corolário, se ousámos, livre e conscientemente, firmar-nos nos degraus mais elevados da comparticipação (quinto, sexto, sétimo, oitavo) então, em caso de borrasca e até de naufrágio, é pura indignidade abandonar o navio, como os ratos o fazem na iminência da desdita.
Tudo visto, numa relação temos o direito e o dever de nos posicionarmos no degrau que entendermos mais adequado, justo, possível, desejado, conveniente, e tudo o mais, numa perspectiva do interesse próprio, do interesse do outro e do interesse comum.
Mas, concluído esse posicionamento, é de honra transmiti-lo.
E de dever sagrado cumpri-lo.
O mais é desdenho e traição.

ATM

08 janeiro 2015

Dos propósitos de Ano Novo

Fotografia de JMAC, o homem de Azeitão

A escrita é um exercício de vaidade oca se não tiver um propósito elevado, se não se destinar a mudar consciências, a orientar acções, a conformar comportamentos. 

***

Dois factores contribuem para o post de hoje: a leitura da frase acima, apanhada num dos blogues que visito regularmente, e o facto de estarmos nos primeiros dias de Janeiro, momento peculiar em que dardejamos votos de bom ano a torto e a direito. 

Abandonadas as minhas funções profissionais como funcionário de uma multinacional, não mais estabeleci objectivos e metas para o ano que se aproximava, não mais defini estratégias para atingir o que me propunha atingir. Afastado que estou, também, de movimentos católicos, não mais pensei de forma estruturada no ano que vinha chegando, o que pensava alterar no meu comportamento para me tornar um homem melhor. Por outro lado, nada em mim é propício a definir horizontes para o ano, do tipo emagrecer, deixar de fumar, escalar o Monte Branco ou comprar um Porsche. 

Um destes dias li o que alguém escrevera num boletim paroquiano relativamente ao que deveríamos / poderíamos desejar aos outros quando dizemos Bom Ano. E cito: (...) Escutar com atenção, ver com atenção, tocar com atenção. A atenção é uma dimensão fina das nossas relações. A atenção é o amor posto ao serviço dos mais desfavorecidos, dos mais abandonados, dos mais sozinhos. A atenção é a aquilo que separa um braço esticado de uma mão estendida, a diferença entre ver e olhar, o que distingue o ouvir do escutar. A atenção é o elemento cristão do exercício dos sentidos.    

Face à frase demolidora com que inicio o post de hoje, a escrita daquele trecho paroquiano teria sido um exercício de vaidade oca caso fosse eu a escrevê-lo. Não tenho propósitos definidos, não tomei banhos de mar no dia 1, comi passas de forma errática ainda o ano não terminara. E no entanto talvez deseje ter mais atenção para dar aos outros; talvez deseje, de forma muito simples, a reposição de algumas coisas que dentro de mim foram alimento de paz nos últimos anos; talvez deseje o que algumas paisagens me oferecem - um coração que escuta o silêncio e uma alma que se perde na lonjura. Por fim, o que peço sempre, mesmo quando não formulo o pedido: discernimento e força.

JdB   
  

07 janeiro 2015

Notícias dos dias que correm *

Novos cardeais nomeados pelo papa Francisco: Periferia e imprevisibilidade

Antes das estatísticas e das análises sobre as percentagens, o sinal de mudança que se verificará no próximo consistório foi claríssimo durante a leitura dos nomes dos novos cardeais, a maior parte absolutamente imprevistos e imprevisíveis. Pastores das periferias do mundo, em muitos casos bispos de dioceses que nunca tinham tido um cardeal. 

É o sinal de que o papa Francisco pretende prosseguir o caminho iniciado há um ano: diminuir os purpurados da Cúria do Vaticano (descerão de 30 para 27% a 14 de fevereiro, dia em que serão criados os novos cardeais), pôr fim aos automatismos no que diz respeito às sedes ditas “cardinalícias”, cujo titular receberia o barrete, por tradição não escrita. E sobretudo dar espaço ao Sul do planeta, manifestando cada vez mais a universalidade da Igreja.

A lista surge como uma escolha pessoalíssima do papa: novos cardeais souberam da sua designação pela televisão; o italiano Edoardo Menichelli foi avisado por um amigo e pensou que era uma partida. O antigo arcebispo Luigi de Magistris estava na catedral de Cagliari a confessar os fiéis. Outros só acreditaram, a custo, quando os jornalistas lhes pediam um comentário. Não houve fugas de informação.

É evidente que Francisco deseja redesenhar o futuro conclave, assembleia para a eleição do próximo papa, associando ao colégio cardinalício eleitores que sejam pastores na primeira linha de situações difíceis, em terras de fronteira como Tonga e Myanmar, em regiões atingidas pela violência, como Morelia, no México, em Igrejas pequenas ou que vivem em situação de minoria.

Em Itália, mais uma vez, foram preferidos aos bispos das maiores dioceses, como Turim ou Veneza, os pastores de Igrejas mais periféricas: Menichelli, de Ancona, e Francesco Montenegro, de Agrigento. O primeiro percorreu a diocese ao volante de um velho Fiat Panda e começou, há anos, caminhos de proximidade com situações de fragilidade matrimonial; o segundo é o bispo de Lampedusa, destino da primeira visita do papa Francisco, ilha que se confronta com o drama das imigrações.

Há pouco mais de um ano, Francisco disse a superiores de congregações religiosas: «Estou convencido de uma coisa: as grandes mudanças da história realizaram-se quando a realidade foi vista não do centro, mas da periferia». As novas criações cardinalícias parecem dar corpo a essa convicção.

Os novos 15 cardeais eleitores, com menos de 80 anos, são provenientes de 14 países, que se tornam 18 se se acrescentarem os cinco que, por causa da idade, não têm direito a entrar no conclave. Em caso de eleição de um novo papa, o colégio eleitoral terá menos membros da Cúria do Vaticano e será menos europeu.

A maior parte das novas nomeações pertencem ao hemisfério Sul. Duas em África (Etiópia e Cabo Verde), três na Ásia (Vietname, Myanmar e Tailândia), três na América Latina (México, Uruguai e Panamá) e duas na Oceânia (Nova Zelândia e Tonga). Três destes países terão um cardeal pela primeira vez na história: Cabo Verde, Myanmar e Tonga. O bispo destas ilhas, com 53 anos, será o mais jovem do colégio. 

Os Estados Unidos e o Canadá estão fora do elenco, mas a América do Norte já está bem representada e o número dos seus eleitores permanece estável. Permanecem à margem do cardinalato os arcebispos de Chicago e de Madrid, ambos recentemente nomeados pelo papa e considerados próximos da sua sensibilidade. Francisco quis fazer valer para todos, novamente, a regra não escrita de fazer esperar aqueles que têm o predecessor emérito com menos de 80 anos, e portanto ainda votante em caso de conclave. 

No conjunto das nomeações, apenas duas emergem em linha com a tradição: a do patriarca de Lisboa, Manuel Clemente, e Dominique Mamberti, que recentemente ocupou o cargo de prefeito do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica, órgão da Cúria da Santa Sé. Esta foi, aliás, a única novidade curial. Os prelados que dentro da estrutura do Vaticano têm direito ao cardinalato obtiveram-no até agora. Todavia, ficaram de fora os titulares dos conselhos pontifícios, que serão objeto de reforma. De fora, contrariamente a uma prática multissecular, ficou o arquivista e bibliotecário da Santa Igreja Romana.

No que diz respeito à presença de congregações religiosas, há um lazarista, um agostiniano e dois salesianos, que passam a ser cinco no colégio cardinalício com direito a voto no conclave.

Seis dos 15 novos cardeais eleitores – Lisboa, Wellington, Ancona, Adis Abeba, Valladolid e Tonga – participaram em outubro no sínodo extraordinário sobre a família. Entre estes, o neozelandês Dew e o italiano Menichelli manifestaram apoio à comunhão das pessoas divorciadas recasadas e ao reconhecimento das uniões homossexuais.

Com estas nomeações, o número de eleitores passa a 125, mais cinco do que o número máximo estabelecido até agora. Mas até fevereiro de 2016 haverá cinco cardeais a completarem 80 anos. Em todo o caso, o papa Francisco pode sempre alterar a norma que impõe o limite de 120 cardeais eleitores de um novo papa.

Os cardeais eleitores criados pelo papa Francisco passarão, a 14 de fevereiro, a ser 31, menos três do que os 34 nomeados por S. João Paulo II, e menos 29 do que as seis dezenas que entraram no colégio cardinalício com Bento XVI. 

Andrea Tornielli (in "Vatican Insider"), Sandro Magister (in "L'Espresso") 
Trad. / edição: Rui Jorge Martins 

Publicado em 05.01.2015

* notícia retirada daqui

06 janeiro 2015

Duas Últimas

Já aqui contei a história, estou certo: várias vezes me cruzei no paredão do Estoril com uma pessoa de quem sou muito amigo. De auscultadores no sítio certo (eu, nos meus ouvidos), mantinha este diálogo:

- O que estás a ouvir?
- Fado.
- Estás triste?

A primeira nota é de espanto. Apesar de na generalidade dos casos o fado ser considerado uma música triste, onde está o racional da pergunta? Estou triste porque oiço fado ou oiço fado porque estou triste? Sempre achei que a lógica da dúvida (toda apoiada na enorme amizade que esta pessoa me tinha) assentava na primeira hipótese - tristeza gera tristeza.

Anteontem, parece-me, o jornal Observador publicava uma notícia interessante, subordinada ao título: A música triste deixa as pessoas mais felizes. Sabe porquê?  Aparentemente, um estudo de uma universidade alemã chegou à conclusão que as canções tristes têm um efeito positivo no humor e na sensação de bem-estar de pessoas que passam por momentos de alguma infelicidade.

Percebi então que a pergunta que a minha amiga proferia, toda feita de ternura e interesse, se ancorava numa visão premonitória e percursora que realçava a segunda hipótese: oiço fado porque estou triste. Isto é, a música triste tinha um efeito positivo numa fase bem menos feliz da minha vida. Uma vez que sou um feroz adepto de música triste, temo levar um excesso de vitamina de bem-estar que me deixe contente e folião o que, a bem dizer, me é profundamente detestável...

Deixo-vos com algo triste (que podem e devem ouvir alto, se bem que muita gente gritasse "deprimente!!!!"). Porquê? Em Fevereiro tenho de pagar o IVA e assim vou aforrando boa-disposição...

JdB
    

05 janeiro 2015

As escolhas de gi

Nas semanas que seguem, com uma periodicidade inexistente, publicarei algumas escolhas literárias / musicais / cinéfilas / do meu querido amigo gi. Num exercício que os destinatários só têm de agradecer, fez-nos chegar às mãos uma lista exaustiva - e suportada - daquilo que mais o impressionou no ano que passou. Começo com Daniel Jonas, curiosamente meu colega de seminários de mestrado (ele já no caminho para o doutoramento).

***

Lobo solitário, anti-poeta de certa maneira, DJ vem, ao longo dos anos, trilhando um caminho cada vez mais radical de afastamento do artifício, do efeito, da facilidade. Não se gosta da sua escrita, à primeira. Mas "Passageiro Frequente" não é um livro de circunstância, escrito só porque sim. Dir-se-ia que o autor repele, com uma certa frieza cartesiana, para melhor seleccionar "os leitores que valem a pena".

gi.



CANTONEIROS

A pura simetria dos cantoneiros

concordes na sintonia clássica

da sua dança, no modo como desmantelam

a embriaguez, induzem o vómito a caixotes

ou dispõem de bolas de plástico

e as lançam para a baliza ruminativa

sem tempo para comemorarem os golos.

Pulgas da quietude,
industriosos entre o mar de detritos,
fosforescentes noctilucos,
espectros a céu aberto,
ídolos de montureiros,
aclarando das margens as nuvens rentes
sob aguaceiros desabridos.

Acrobatas da morosidade

fúnebre do seu curso,

a cidade ignora-os

ou execra aquele féretro deletério

se apanhada no cortejo de ocasião.

[Daniel Jonas in Passageiro frequente, Língua Morta, 2013]

04 janeiro 2015

Epifania do Senhor

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt. 2, 1-12)

Tinha Jesus nascido em Belém da Judeia, nos dias do rei Herodes, quando chegaram a Jerusalém uns Magos vindos do Oriente. «Onde está – perguntaram eles – o rei dos judeus que acaba de nascer? Nós vimos a sua estrela no Oriente e viemos adorá-l’O». Ao ouvir tal notícia, o rei Herodes ficou perturbado e, com ele, toda a cidade de Jerusalém. Reuniu todos os príncipes dos sacerdotes e escribas do povo e perguntou-lhes onde devia nascer o Messias. Eles responderam: «Em Belém da Judeia, porque assim está escrito pelo Profeta: ‘Tu, Belém, terra de Judá, não és de modo nenhum a menor entre as principais cidades de Judá, pois de ti sairá um chefe, que será o Pastor de Israel, meu povo’». Então Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em que lhes tinha aparecido a estrela. Depois enviou-os a Belém e disse-lhes: «Ide informar-vos cuidadosamente acerca do Menino; e, quando O encontrardes, avisai-me, para que também eu vá adorá-l’O». Ouvido o rei, puseram-se a caminho. E eis que a estrela que tinham visto no Oriente seguia à sua frente e parou sobre o lugar onde estava o Menino. Ao ver a estrela, sentiram grande alegria. Entraram na casa, viram o Menino com Maria, sua Mãe, e, prostrando-se diante d’Ele, adoraram-n’O. Depois, abrindo os seus tesouros, ofereceram-Lhe presentes: ouro, incenso e mirra. E, avisados em sonhos para não voltarem à presença de Herodes, regressaram à sua terra por outro caminho.

***

Epifania: fusão do divino com o humano

A Epifania maior nesta solenidade é que a humanidade e a divindade se fundem numa realidade só. A atitude de adoração, de prostração, que os Magos têm diante daquele Menino ao colo de sua Mãe alarga-se agora necessariamente a uma atitude de profundo respeito para com toda a humanidade, sobretudo perante os mais frágeis e os mais pequenos. “Viram o Menino com Maria, sua Mãe”: que verdade imensa! Só isto é uma Epifania que nós nunca conseguiríamos prever. As epifanias dos reis do Oriente eram sobretudo grandes entradas públicas, manifestações com pompa dos reis que entravam nas cidades ou, então, que começavam os seus reinados. No presépio, não há pompa nenhuma: há uma criança ao colo de sua Mãe. Essa é a epifania de Deus! Depois de se prostrarem e adorarem o Menino-Deus – a melhor atitude é este silêncio, com uma admiração profunda –, “abrindo os seus tesouros, ofereceram-lhe presentes: ouro, incenso e mirra. O essencial é que saibamos prostrar-nos diante do Menino que é Deus e adorá-Lo, porque é no silêncio e no acolhimento dos corações que estas verdades se revelam.


D. Manuel Clemente (2014), O Evangelho e a Vida. Conversas na rádio no Dia do Senhor. Ano B. Cascais: Lucerna, 46-48

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