sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

O herói *

Texto publicado inicialmente em 29.10.2010

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Em algum momento da vida o inesperado torna-se esperado, o inimaginável real e o inaceitável torna-se, pela força das circunstâncias, aceitável.

Uma neblina intransponível figura o horizonte humano, abate-se a escuridão e o ser humano, enfraquecido, deixa que a sua esperança seja arrastada pelos ventos cortantes, sabe lá ele para onde. A sua habitual posição de lutador, de herói, vacila, ele retrai-se, baixa o olhar e deixa que os seus joelhos enfraqueçam até o derrubarem pelo chão. E assim permanece, deixando que as inúmeras e sucessivas imagens se apoderem da sua mente. Ele teme, teme tanto e é tão legítimo. O fim, seja ele de um capítulo ou de uma história, assusta-o. A noção de ponto final e de parágrafo dá ao nosso (sempre) herói uma perspectiva dura da vida já que não poderá reviver o passado no presente e no futuro. Cada capítulo é um capítulo.

E é perdido nestes pensamentos que o nosso ser humano se mantém ainda abatido sobre a terra, empregando todas as suas forças nas pálpebras de maneira a impossibilitar a abertura dos olhos. Ele deseja ser cego, acredita que a ausência de visão será certamente melhor do que aquela que os seus olhos lhe proporcionam. Domado pelo medo, sim, porque um herói também teme, ele coloca as mãos sobre a face, cerra os dedos, garantindo que nem um raio da vida real trespassa aquela camada. E nesta posição defensiva permanece por mais uns momentos. 

No entanto, o seu coração, inferiorizado até ao momento por todo aquele medo e angústia, reage. Devagar, impõe-se sobre a mente, deixando que as emoções prevaleçam sobre a razão. E o nosso lutador deixa as mãos caírem; timidamente abre os olhos, encara a realidade e surpreende-se. Aos olhos do coração, o céu estava azul brilhante, apenas se sentia uma brisa acariciante. Mas ele via, no horizonte, um cenário escuro, sombrio, aterrorizador. Fechou de novo os olhos e jurou que, daí em diante, poria sempre os sentimentos à frente da razão, faria prevalecer o amor aos vícios.

Abriu os olhos, reergueu-se e seguiu caminho para um futuro longo...

MTM

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