EVANGELHO – Mc 12,38-44
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Marcos
Naquele tempo,
Jesus ensinava a multidão, dizendo:
«Acautelai-vos dos escribas,
que gostam de exibir longas vestes,
de receber cumprimentos nas praças,
de ocupar os primeiros assentos nas sinagogas
e os primeiros lugares nos banquetes.
Devoram as casas das viúvas
com pretexto de fazerem longas rezas.
Estes receberão uma sentença mais severa».
Jesus sentou-Se em frente da arca do tesouro
a observar como a multidão deixava o dinheiro na caixa.
Muitos ricos deitavam quantias avultadas.
Veio uma pobre viúva
e deitou duas pequenas moedas, isto é, um quadrante.
Jesus chamou os discípulos e disse-lhes:
«Em verdade vos digo:
Esta pobre viúva deitou na caixa mais do que todos os outros.
Eles deitaram do que lhes sobrava,
mas ela, na sua pobreza, ofereceu tudo o que tinha,
tudo o que possuía para viver».
As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
08 novembro 2015
07 novembro 2015
Pensamentos impensados
Suinicultura
Quem porco nasce, tarde ou nunca toma banho.
Por linhas tortas
Os animais não têm direitos, o Homem é que tem obrigações.
Sem mãos a medir
Duarte de Almeida, o Decepado, era um handy-capado.
Deus me livro
Haverá alguma edição do Corão em papel bíblia?
Chinesices
Os chineses vão ter de reaprender a fazer o 2º filho.
Prevê-se grande sucesso do Kamasutra..
A estupidez campeia
A lagosta cozida e o salmonete vão ser considerados carnes vermelhas.
Neologismo
A acção de responder a uma gravação, e mail, etc. chama-se fidebecar.
(por favor divulguem).
O carteiro toca sempre 2 vezes
Há vales que vêm por bem.
SdB (I)
06 novembro 2015
O Insuportável dia de Todos-os-Santos *
Caro
sobrinho:
Colocas-me
diante de uma questão essencial do combate à fé cristã.
De
facto, há que evitar por todos os meios possíveis que os humanos tomem para si
o exemplo de outros que passaram, antes deles, por esta terra.
Não
há nada mais abominável que um santo que ilumina essa gentalha, ajudando-a a
atravessar as dificuldades da vida.
Por
isso gostava de partilhar contigo quatro estratégias para destruir a imagem de
todos os santos. Se as aplicares bem, terás resultados imediatos e duradouros.
Aliás, basta aproveitar os exageros desses miseráveis humanos para os afastar
do nosso grande Inimigo.
1ª
Estratégia: OS SANTOS MILAGREIROS
Esta
estratégia talvez seja das mais fáceis de aplicar uma vez que, mesmo sem a
nossa ajuda, já toma proporções escabrosamente saborosas. Há humanos cuja
formação cristã é tão rudimentar que tomam os santos como uma espécie de deuses
aos quais devem adorar. Levam consigo dinheiro, fotografias, velas, papelinhos,
depositando neles a secreta esperança de que tudo mude no dia seguinte.
É
bom acalentar essa esperança e fazer-lhes crer que podem ficar à espera de
braços cruzados. É que, conforme constatam que, uma e outra vez, nada muda,
acabam por ganhar uma tal frustração que, mudarão de santo em santo até à
exaustão; e, se tudo correr em nosso favor, irritar-se-ão com as coisas de Deus
e acabarão por se afastar definitivamente do caminho de fé. Os que me preocupam
são aqueles que, fazendo exactamente os mesmos gestos, se limitam a pedir a
intercessão desses santos para que Deus lhes dê a luz e a força para que
ultrapassem as suas dificuldades. E o mais assustador é quando sabem que tudo
depende também do próprio esforço. Esses são obstinados; muito difíceis de
enganar.
2ª
Estratégia: OS SANTOS PÁLIDOS
Algo
que me diverte é constatar como alguns humanos representam os santos. Uns, num
estilo excessivo cheio de dourados e brilhantes. Outros, no estilo muito
despojado, de cabeça caída, cara pálida e olhar ausente. Uns e outros, fazendo
uma muito pálida ideia do que seriam os próprios santos, como pessoas, no
dia-a-dia. Quando os humanos, através das imagens, são induzidos a crer que os
santos pertencem a um tempo muito antigo – ou melhor ainda, mítico - ou que,
simplesmente, não parecem deste mundo, e que, se passaram por cá, foi quase por
acaso, esse é um grande contributo para a nossa missão.
Um
outro extremo com o qual me regozijo é quando eles representam os santos nos
materiais e na dimensão dos brinquedos das crianças. Não há nada mais agradável
que ver os humanos a acreditar em talismãs que levam na carteira ou no carro.
Os que nos dão verdadeiras dores de cabeça são aqueles que param a rezar nas
igrejas e sabem que aquela imagem é apenas uma representação; ou aqueles que
levam uma medalhinha consigo e sabem que ela não tem poder mágicos, mas - algo
muito mais insidioso – aproveitam-se dela para abrir o coração Àquele que nós
queremos que eles esqueçam.
3ª Estratégia: OS SUPER SANTOS
Sempre
que os humanos - com as suas projecções - idealizam os santos, isso deve
deixar-nos verdadeiramente satisfeitos. Sempre que, em pinturas ou esculturas,
em filmes ou biografias, exageram as qualidades humanas e espirituais dos
santos e omitem todo o tipo de sombras, lutas e dificuldades que tiveram, isso
dá um efeito espantoso! A ingenuidade dos humanos é tal que, ao representar os
santos dessa maneira, não percebem que, em vez de embelezar e oferecer um
modelo a si próprios, estão a inventar alguém que nunca existiu; e essa é a
melhor forma de criar dois mundos aparentemente afastados: o dos santos e o dos
humanos.
Não
é preciso um esforço imenso para que os humanos se convençam de que nada têm a
ver com aquela gente. Aliás, o supra-sumo disto é quando os mantemos na ilusão
de que os santos nasceram santos, ou tiveram uma conversão repentina e nunca
tiveram que subir a longa escada da santidade! Isso é hilariante; e tem efeitos
admiráveis. Qualquer humano fica esmagado pela frustração e pela culpa, ao
pensar que é o único que se bate com aquelas tentações ou limitações; e que
nunca será capaz de chegar a Deus. Pelo contrário, se condescendermos em que
seja mostrada qualquer debilidade ou fragilidade que seja dos santos, é dar
oportunidade a que essa gentinha humana se identifique e encontre neles alguma
pista para o seu crescimento. Isso é arriscado demais: seria catastrófico para
nós!
4ª
Estratégia: OS SANTOS-A-EVITAR-A-TODO-O-CUSTO
Independentemente
do sucesso das estratégias anteriores, vale tudo para fazer com que os humanos
acreditem em santos irreais, santos que nada tenham a ver com as suas vidas. O
pior que nos poderia acontecer era que eles descobrissem os santos que acordam
a meio da noite - várias vezes - para acudir um filho e, de manhã, agarram em
si e ainda vão trabalhar; os santos que passam o dia sentados à secretária,
entregando-se a um trabalho monótono mas que sabem beneficiar tanta gente; os
santos que ninguém vê, porque não têm condições físicas para sair de casa, ou
do hospital, ou do lar; os santos que adormecem no autocarro, apertados e
aquecidos pelo respirar de todos, em dia de chuva, e ainda oferecem o lugar; os
santos que sujam as mãos no mundo da droga, da miséria ou da política, para
limpar a alma da sociedade; os santos, enfim, que arriscam a vida na luta pela
justiça e pelo bem comum. Todos esses são os mais ameaçadores para a nossa
missão.
Neste
ponto, é impreterível que persuadamos os cristãos a continuar a declarar santos
apenas a padres e religiosos, esquecendo esses outros humanos, que vivem
inseridos no mundo. O pior que nos poderia acontecer era que qualquer pessoa na
rua considerasse a santidade como algo que tem a ver consigo. Esperemos que
isso nunca aconteça. Seria o fim da nossa espécie.
Casa
do Enxofre, no insuportável Dia de Todos Eles
Vorazmente
Teu,
Tio
Escritorpe
(* C. S. Lewis, in Vorazmente Teu)
05 novembro 2015
Duas Últimas
Tenho uma ideia vaga de que a música clássica tem andado arredada do Duas Últimas. Não quis ir confirmar, pelo que a introdução não só não tem interesse como talvez não seja correcta...
Desde sempre que gosto de música triste, tema sobre o qual escrevi amiúde. Gosto de música triste quando está um sol radioso, quando chove, quando a alma se me entristece ou pipila de alegria, como um passarinho. A música alegre não me puxa para cima, como a música triste não me deprime. Para além da dimensão puramente estética (é bonito / não é bonito) ou do gosto pessoal (gosto / não gosto), a música clássica triste (e será que a palavra "triste" é utilizada com propriedade) tem um efeito relaxante. Sossega-me, talvez mesmo me ajude nalguma criatividade. Não sei se é assim, mas gosto de pensar que pode ser.
Ouvir estes pouco mais de dez minutos do Requiem Alemão de Brahms é entrar em contacto com o Sublime, que é um degrau acima da Beleza. Vale a pena ouvir com atenção, em silêncio, sem problemas de volume, que isto não é música de fundo. Estou em crer que todos os Requiem (pelo menos até à fase romântica) são profundamente bonitos. Este não é excepção. Oiçam alto - e entusiasmem-se por ouvir o resto.
JdB
04 novembro 2015
Carta a um anjo
Foi hoje, mas há catorze anos.
Hoje é dia de acalentar a esperança de vivermos dias melhores, de mantermos as boas lembranças e de nos esquecermos das más, de darmos um sentido à vida, de fazer da escuridão de algumas memórias uma luz que se acende para nós, para os outros; é dia de acalentar a esperança de não nos esquecermos de ninguém quando nos lembramos de ti, da esperança de nos encontrarmos todos um dia, mesmo que não saibamos nada, porque tudo é um enigma - o Céu, o amor de Deus, o propósito de sermos ou o mistério de existirmos. Hoje é dia de acalentar a esperança de saber diferençar a matéria do pó, o essencial do transitório, as pessoas dos transeuntes, os desafios dos tropeços, o olhar do ver.
Hoje é dia de acalanto; de aconchegar ao peito uma imagem, uma presença, uma memória, uma saudade, uma mão, uns dedos, uma certeza; é dia de acalmar um incómodo, de consolar um coração que bate tranquilo, não apesar de, mas por causa de. Hoje é dia de acalanto; é dia de aquecer a alma com o pó do Amor, de estender um olhar para além das agruras da vida corriqueira e o depositar na eternidade que não conhecemos, que estranhamos, mas onde já vives para nos ensinar o caminho. Hoje é dia de acalanto para cada um de nós que te conheceu directamente ou de ouvir falar, que estendeu uma mão quando a nossa pendia insegura, que nos falou mansamente para partir o silêncio que doía. Hoje é dia de fitarmos os olhos no Céu onde tudo começa e onde tudo acaba. É dia de dizermos dorme anjo. É dia de acalanto.
JdB, em nome de todos os outros cujos nomes conheces, em cujas almas sopras
03 novembro 2015
Poemas dos dias que correm
felizes
felizes os pacíficos, que suspendem a violência
e reparam as redes de logradas fainas
(ai a guerra, mãe da pobreza e irmã da morte)
felizes os que aos olhos do mundo
passam por inútil carga social ou rendimento zero
e que escondidamente participam da alegria
que aligeira a vida
(ai aqueles que a sede de poder afoga)
felizes os pobres de alguma pobreza boa
felizes os que lavam as feridas e vivem com os cegos
honrando neles o fundo de humanidade
que lhes é comum
felizes os que nas situações-limite
decidem da singularidade do fazer, da urgência
felizes os que, excluídos, despojados de qualquer imagem
no documento mortal pregado na cruz
inscrevem os seus corpos
felizes os que, intacta, guardam a sensibilidade
à injustiça, apegados só à força da Palavra que cura
felizes os que não pactuam com os anjos
escuros da morte total
nem desculpam os «erros humanos»
das nossas sociedades sem olhos
(ai os que no inferno climatizado sobrevivem
ai o terror mole do dia a dia sobre os ombros)
felizes os que, à imagem de Deus, perdoam
alargando o coração às dimensões de um mundo abençoado
José Augusto Mourão
In "O nome e a forma", ed. Pedra Angular
felizes os pacíficos, que suspendem a violência
e reparam as redes de logradas fainas
(ai a guerra, mãe da pobreza e irmã da morte)
felizes os que aos olhos do mundo
passam por inútil carga social ou rendimento zero
e que escondidamente participam da alegria
que aligeira a vida
(ai aqueles que a sede de poder afoga)
felizes os pobres de alguma pobreza boa
felizes os que lavam as feridas e vivem com os cegos
honrando neles o fundo de humanidade
que lhes é comum
felizes os que nas situações-limite
decidem da singularidade do fazer, da urgência
felizes os que, excluídos, despojados de qualquer imagem
no documento mortal pregado na cruz
inscrevem os seus corpos
felizes os que, intacta, guardam a sensibilidade
à injustiça, apegados só à força da Palavra que cura
felizes os que não pactuam com os anjos
escuros da morte total
nem desculpam os «erros humanos»
das nossas sociedades sem olhos
(ai os que no inferno climatizado sobrevivem
ai o terror mole do dia a dia sobre os ombros)
felizes os que, à imagem de Deus, perdoam
alargando o coração às dimensões de um mundo abençoado
José Augusto Mourão
In "O nome e a forma", ed. Pedra Angular
02 novembro 2015
Vai um gin do Peter’s?
Um dos clássicos do cinema, que vale a pena rever de quando em vez, é o lendário «ON THE WATERFRONT»(1), com um título em português pouco sugestivo: «Há lodo no cais». A tradução espanhola até resultou das mais felizes: «La ley del silêncio», a par da brasileira, que vai directa ao ponto quebrando o suspense que os europeus procuraram preservar: «Sindicato de Ladrões».
Assinado pelo realizador americano de ascendência grega ortodoxa, com raízes judaicas e nascido em Istambul, Elia Kazan mudou-se para os EUA aos 4 anos. E foi esta a pátria que amou com todas as suas forças, considerando-a o país da liberdade, por excelência. Considerava que «America is a dream of total freedom in all areas».
Apesar de premiado com 8 Óscares, em 1954 (quando as estatuetas eram atribuídas com mais critério), Globos de Ouro e Baftas dos mais significativos, à época causou enorme polémica por expor a mafia instalada no sindicato do poderoso porto de Nova Iorque. Tinha demasiada qualidade para poder ser ignorado e banido, com banda sonora de Berstein, fotografia a preto-e-branco lindíssima, além da interpretação magistral de Marlon Brando, que não o reconheceu quando viu o filme no estúdio saindo porta fora envergonhado com o seu desempenho. Com o tempo, os ânimos acalmaram e o filme entrou serenamente para o Top 10 das melhores obras da Sétima Arte.
O argumento inspira-se na reportagem jornalística de Malcolm Johnson, premiada com o Pulitzer. A trama, baseada em factos verídicos, começa por ser muito prosaica, acompanhando a existência de um rapaz pobre, igual a tantos outros, treinado para sobreviver a qualquer preço. A violência entranhara-se-lhe na pele, desde tenra idade, regendo o seu dia-a-dia. Percebe-se a atracção pelo ringue e depois a necessidade desse ex-pugilista – Terry, encarnado por M. Brando – fazer biscates para ganhar a vida, no porto de Nova Iorque.
Também faz sentido ser bem acolhido pela máfia sindical, passando a mercenário incumbido de impor à maioria as regras absurdas de um sindicato despótico, onde qualquer assomo de protesto era calado pela força. Chamavam-lhe a lei do D&D (deaf and dumb), na abreviatura inglesa, obrigando todos a funcionar como surdos-mudos.
Estranho, mas igualmente verídico, foi, a dada altura, o tal mercenário ponderar uma mudança de vida para se regenerar! Grande revolução os valores maiores entrarem no horizonte mental de um rapaz que vivia imerso no imediatismo, puro e duro. De forma directa, interpelava-o a Justiça. Mas, de forma mais velada, deixara-se tocar pela própria de Verdade, i.e., por aquilo que a realidade é, sem os enviesamentos calculistas com que a acabamos por a achatar segundo os nossos interesses individualistas e autistas. Daqui irrompem sempre histórias muito criativas e factuais, daquelas de carne-e-osso, que entram para a História.
Fluindo com um realismo levado ao fio da navalha, a cena de abertura emite logo um primeiro e ínfimo sinal de dissonância num status-quo que parecia imutável, quando um estivador ainda novo (Joey) é selvaticamente atirado de um terraço abaixo, como se fosse um boneco. Era a sorte que esperava os que ousavam colaborar com as autoridades, rompendo o muro de silencio dos D&D. Ora, Terry servira de isco para a vítima ser encurralada no terraço, mas ficara visivelmente desconfortável com um desfecho tão excessivo. Não tanto pela violência, a que estava habituadíssimo, mas por terem sido atropeladas regras mínimas de lealdade e de bom senso. Curiosamente, Terry era o único criador de pombos no seio das cúpulas sindicais, dominadas por falcões. Aprendera com os seus amigos pombos a fidelidade até à morte, às pessoas e aos princípios, por pouquíssimos que fossem (e eram), uns e outros. No fundo, não alinhava totalmente com o núcleo duro, cujo capo apostava fortemente nele.
![]() |
Mais brechas vão emergindo sub-repticiamente, alterando os comportamentos de alguns. Inspirado pelo alerta da rapariga, o sacerdote adopta o porão dos navios de carga como púlpito dos sermões incisivos, de denúncia frontal e a instigar à sublevação cívica dos estivadores, para se emanciparem do pesado jugo sindical. Não poupava nas comparações mais radicais, que deixavam os chefes sindicais à beira de um ataque de nervos: sim, Cristo voltava a ser crucificado em cada estivador maltratado e injustiçado.
Como se fosse pouco no adensar da trama, Terry fica tocado por uma loira colegial e bondosa, que calha a ser a irmã da vítima, em cujo crime estivera involuntariamente envolvido. Percebemos que o seu temperamento frontal não lhe permite negar tal evidência. Nem essa nem nenhuma. Indomável até à medula, nada o fazia dobrar, nem mesmo a lei marcial dos chefes sindicais, de quem calhava a ser amigo. Só estímulos positivos o influenciavam, provando haver um lado muito benigno na sua natureza rebelde, mas com um fundo de verdade notável. Até porque coragem não lhe faltava. Também do lado da loira, a somar aos outros encantos, havia uma assertividade e bravura que não daria para passar despercebida. E não passou, claro.
Aos poucos, assistimos à viagem de um ser humano em crescimento, revelando as possibilidades inimagináveis de um coração que resolve bater-se pela justiça, com tudo o que isso implica, nomeadamente cortar com a engrenagem do mal a que pertencera.
Previsivelmente, o gang intratável dos sindicatos reage da pior maneira. Considerando-se, afinal, dono dos seus membros, qualquer tentativa de afastamento é taxada de traição, punível com pena de morte. No seu curtíssimo e intolerante modelo de sociedade, não existem dissidentes vivos. Só dois grupos podem e devem coexistir, como em todas as ditaduras: o pequeno núcleo de líderes açambarcadores dos recursos e uma comunidade numerosa de gente à sua mercê, praticamente escravizada.
Imprevisível é a forma como Terry enfrenta a máfia e os vai neutralizando, sem disparar (a contragosto) uma única bala, que se afiguraria a única solução eficaz. Guiado e até atrapalhado pelos insólitos conselhos do padre, demasiado pacifistas e inadequados para uma guerra clandestina, o recém-convertido rebelde acaba por criar uma frente de combate que se revela incrivelmente eficaz, apenas sustentada numa causa Justa.
Quem diria que esgrimir uma arma tão etérea seria suficiente para derrubar o arsenal militar dos mafiosos. Faz para o caso, esta luta ter sido travada nos Estados Unidos, o expoente da democracia, segundo o realizador, onde as instituições – entre a sociedade civil representada pelo sacerdote e pela maioria silenciosa dos trabalhadores que a dada altura despertam, a justiça e as forças policiais (com uma intervenção muito profissional no filme) – são o melhor garante do Estado de Direito. Por isso, os pobres acabam por ficar menos expostos aos exploradores, enquanto os criminosos tendem a ser punidos.
De algum modo, a recomendação de Sophia ecoa abundantemente pelo filme, em especial nas personagens do P.Barry e de Edie – “Vemos, ouvimos e lemos./ Não podemos ignorar.” Confirma-se quanto a resposta ao grito da Justiça franqueia sempre a possibilidade de abrir um caminho melhor para a humanidade, sobretudo em favor dos sem-voz. Terry revela ainda o espectáculo extraordinário de um ser humano que resolve tornar-se boa pessoa. Ainda bem que não ignorou, como sugere a poeta (nunca poetisa).
Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
_________________
(1) FICHA TÉCNICA:
Título original: ON THE WATERFRONT (com Óscar do Melhor Filme)
Título traduzido em Portugal: HÁ LODO NO CAIS
Realização: Elia Kazan (Óscar)
Argumento: Budd Schulberg (Óscar).
A partir da publicação de reportagens jornalísticas de Malcolm Johnson, publicadas no New York Sun e premiadas com o Pulitzer.
Produzido por: Sam Spiegel
Banda Sonora: De Leonard Bernstein
Duração: 108 min.
Ano: 1954
País: EUA
Elenco:
Marlon Brando (Terry Malloy; Óscar do Melhor Actor)
Eva Marie Saint (Edie Doyle; Óscar da Melhor Actriz Secundária)
Lee J. Cobb (Michael J. Skelly, conhecido por "Johnny Friendly")
Karl Malden (Padre Barry)
Rod Steiger (Charley, conhecido por "The Gent" Malloy)
Prémios:
- 8 dos principais Óscares em 1954, nomeadamente de Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Argumento , Melhor Fotografia, Melhor Montagem, Melhor Actor, Melhor Actriz Secundária.
- Bafta em 1954 (Reino Unido) - Venceu na categoria de Melhor Actor Estrangeiro p. Marlon Brando.
- Globos de Ouro 1954 (EUA), nas categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Fotografia.
- Em 1989, a Library of Congress classifica-o como uma obra relevante «cultural, histórica e esteticamente», pelo que é seleccionado para ficar guardado no arquivo do National Film Registry.
- Em 1997, o American Film Institute considerou-o o 8º Melhor Filme de todos os tempos.
- Bafta em 1954 (Reino Unido) - Venceu na categoria de Melhor Actor Estrangeiro p. Marlon Brando.
- Globos de Ouro 1954 (EUA), nas categorias de Melhor Filme, Melhor Realizador e Melhor Fotografia.
- Em 1989, a Library of Congress classifica-o como uma obra relevante «cultural, histórica e esteticamente», pelo que é seleccionado para ficar guardado no arquivo do National Film Registry.
- Em 1997, o American Film Institute considerou-o o 8º Melhor Filme de todos os tempos.
01 novembro 2015
Solenidade de Todos os Santos
EVANGELHO – Mt 5,1-12
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Naquele tempo,
ao ver as multidões, Jesus subiu ao monte e sentou-Se.
Rodearam-n’O os discípulos
e Ele começou a ensiná-los, dizendo:
«Bem-aventurados os pobres em espírito,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados os humildes,
porque possuirão a terra.
Bem-aventurados os que choram,
porque serão consolados.
Bem-aventurados os que têm fome e sede de justiça,
porque serão saciados.
Bem-aventurados os misericordiosos,
porque alcançarão misericórdia.
Bem-aventurados os puros de coração,
porque verão a Deus.
Bem-aventurados os que promovem a paz,
porque serão chamados filhos de Deus.
Bem-aventurados os que sofrem perseguição por amor da justiça,
porque deles é o reino dos Céus.
Bem-aventurados sereis, quando, por minha causa,
vos insultarem, vos perseguirem
e, mentindo, disserem todo o mal contra vós.
Alegrai-vos e exultai,
porque é grande nos Céus a vossa recompensa».
31 outubro 2015
Pensamentos Impensados
Copianço
Pelágio acusado de plágio quando disse "bons dias"; a frase já estava registada.
Emigração
Quem sai de Braga é um desbragado.
Descasado
O plural de sem-abrigo é cem abrigos.
Cantos marcados
Terra, 4
Lusíadas, 10
Odores
Quando se muda a fralda a uma criança, as expectativas não saem desfraldadas.
Trio
Espírito, Santo, Salgado, diabólica trindade.
Gramáticas
Se há o verbo investir, tem de haver o verbo indespir.
Ora abóbora
Ferro Rodrigues antecipa Halloween.
SdB (I)
30 outubro 2015
Discursos dos dias que correm
DISCURSO DO PAPA FRANCISCO
NA CONCLUSÃO DA XIV ASSEMBLEIA GERAL
ORDINÁRIA
DO
SÍNODO DOS BISPOS
Sala do Sínodo
Sábado, 24 de Outubro de 2015
Amadas Beatitudes, Eminências,
Excelências,
Queridos irmãos e irmãs!
Quero, antes de mais, agradecer ao Senhor
por ter guiado o nosso caminho sinodal nestes anos através do Espírito Santo,
que nunca deixa faltar à Igreja o seu apoio.
Agradeço de todo o coração ao Cardeal
Lorenzo Baldisseri, Secretário-Geral do Sínodo, a D. Fabio Fabene,
Subsecretário e, juntamente com eles, agradeço ao Relator, o Cardeal Peter
Erdö, e ao Secretário Especial, D. Bruno Forte, aos presidentes delegados, aos
secretários, consultores, tradutores e todos aqueles que trabalharam de forma
incansável e com total dedicação à Igreja: um cordial obrigado! E quero
agradecer também à Comissão que fez a Relação; alguns passaram a noite em
branco.
Agradeço a todos vós, amados padres
sinodais, delegados fraternos, auditores, auditoras e conselheiros, párocos e
famílias pela vossa activa e frutuosa participação.
Agradeço ainda a todas as pessoas que se
empenharam, de forma anónima e em silêncio, prestando a sua generosa
contribuição para os trabalhos deste Sínodo.
Estai certos de que a todos recordo na
minha oração ao Senhor para que vos recompense com a abundância dos seus dons e
graças!
Enquanto acompanhava os trabalhos do
Sínodo, pus-me esta pergunta: Que há-de significar, para a Igreja, encerrar
este Sínodo dedicado à família?
Certamente não significa que esgotámos
todos os temas inerentes à família, mas que procurámos iluminá-los com a luz do
Evangelho, da tradição e da história bimilenária da Igreja, infundindo neles a
alegria da esperança, sem cair na fácil repetição do que é indiscutível ou já
se disse.
Seguramente não significa que encontrámos
soluções exaustivas para todas as dificuldades e dúvidas que desafiam e ameaçam
a família, mas que colocámos tais dificuldades e dúvidas sob a luz da Fé,
examinámo-las cuidadosamente, abordámo-las sem medo e sem esconder a cabeça na
areia.
Significa que solicitámos todos a
compreender a importância da instituição da família e do Matrimónio entre homem
e mulher, fundado sobre a unidade e a indissolubilidade e a apreciá-la como
base fundamental da sociedade e da vida humana.
Significa que escutámos e fizemos escutar
as vozes das famílias e dos pastores da Igreja que vieram a Roma carregando
sobre os ombros os fardos e as esperanças, as riquezas e os desafios das
famílias do mundo inteiro.
Significa que demos provas da vitalidade
da Igreja Católica, que não tem medo de abalar as consciências anestesiadas ou
sujar as mãos discutindo, animada e francamente, sobre a família.
Significa que procurámos olhar e ler a
realidade, melhor dito as realidades, de hoje com os olhos de Deus, para
acender e iluminar, com a chama da fé, os corações dos homens, num período
histórico de desânimo e de crise social, económica, moral e de prevalecente
negatividade.
Significa que testemunhámos a todos que o
Evangelho continua a ser, para a Igreja, a fonte viva de novidade eterna,
contra aqueles que querem «endoutriná-lo» como pedras mortas para as jogar
contra os outros.
Significa também que espoliámos os
corações fechados que, frequentemente, se escondem mesmo por detrás dos
ensinamentos da Igreja ou das boas intenções para se sentar na cátedra de
Moisés e julgar, às vezes com superioridade e superficialidade, os casos
difíceis e as famílias feridas.
Significa que afirmámos que a Igreja é
Igreja dos pobres em espírito e dos pecadores à procura do perdão e não apenas
dos justos e dos santos, ou melhor dos justos e dos santos quando se sentem
pobres e pecadores.
Significa que procurámos abrir os
horizontes para superar toda a hermenêutica conspiradora ou perspectiva
fechada, para defender e difundir a liberdade dos filhos de Deus, para
transmitir a beleza da Novidade cristã, por vezes coberta pela ferrugem duma
linguagem arcaica ou simplesmente incompreensível.
No caminho deste Sínodo, as diferentes
opiniões que se expressaram livremente – e às vezes, infelizmente, com métodos
não inteiramente benévolos – enriqueceram e animaram certamente o diálogo,
proporcionando a imagem viva duma Igreja que não usa «impressos prontos», mas
que, da fonte inexaurível da sua fé, tira água viva para saciar os corações
ressequidos.
E vimos também – sem entrar nas questões
dogmáticas, bem definidas pelo Magistério da Igreja – que aquilo que parece
normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um
escândalo – quase! –, para o bispo doutro continente; aquilo que se considera
violação de um direito numa sociedade, pode ser preceito óbvio e intocável
noutra; aquilo que para alguns é liberdade de consciência, para outros pode ser
só confusão. Na realidade, as culturas são muito diferentes entre si e cada
princípio geral – como disse, as questões dogmáticas bem definidas pelo
Magistério da Igreja – cada princípio geral, se quiser ser observado e aplicado,
precisa de ser inculturado. O Sínodo de 1985, que comemorava o vigésimo
aniversário do encerramento do Concílio Vaticano II, falou da inculturação como
da «íntima transformação dos autênticos valores culturais mediante a integração
no cristianismo e a encarnação do cristianismo nas várias culturas humanas». A
inculturação não debilita os valores verdadeiros, mas demonstra a sua
verdadeira força e a sua autenticidade, já que eles adaptam-se sem se alterar,
antes transformam pacífica e gradualmente as várias culturas.
Vimos, inclusive através da riqueza da
nossa diversidade, que o desafio que temos pela frente é sempre o mesmo:
anunciar o Evangelho ao homem de hoje, defendendo a família de todos os ataques
ideológicos e individualistas.
E, sem nunca cair no perigo do relativismo
ou de demonizar os outros, procurámos abraçar plena e corajosamente a bondade e
a misericórdia de Deus, que ultrapassa os nossos cálculos humanos e nada mais
quer senão que «todos os homens sejam salvos» (1 Tim 2, 4), para integrar e
viver este Sínodo no contexto do Ano Extraordinário da Misericórdia que a
Igreja está chamada a viver.
Amados irmãos!
A experiência do Sínodo fez-nos
compreender melhor também que os verdadeiros defensores da doutrina não são os
que defendem a letra, mas o espírito; não as ideias, mas o homem; não as
fórmulas, mas a gratuidade do amor de Deus e do seu perdão. Isto não significa
de forma alguma diminuir a importância das fórmulas – são necessárias –, a
importância das leis e dos mandamentos divinos, mas exaltar a grandeza do
verdadeiro Deus, que não nos trata segundo os nossos méritos nem segundo as
nossas obras, mas unicamente segundo a generosidade sem limites da sua
Misericórdia (cf. Rm 3, 21-30; Sal 129/130; Lc 11, 47-54). Significa vencer as
tentações constantes do irmão mais velho (cf. Lc 15, 25-32) e dos trabalhadores
invejosos (cf. Mt 20, 1-16). Antes, significa valorizar ainda mais as leis e os
mandamentos, criados para o homem e não vice-versa (cf. Mc 2, 27).
Neste sentido, o necessário
arrependimento, as obras e os esforços humanos ganham um sentido mais profundo,
não como preço da Salvação – que não se pode adquirir – realizada por Cristo
gratuitamente na Cruz, mas como resposta Àquele que nos amou primeiro e salvou
com o preço do seu sangue inocente, quando ainda éramos pecadores (cf. Rm 5,
6).
O primeiro dever da Igreja não é aplicar
condenações ou anátemas, mas proclamar a misericórdia de Deus, chamar à
conversão e conduzir todos os homens à salvação do Senhor (cf. Jo 12, 44-50).
Do Beato Paulo VI temos estas palavras
estupendas: «Por conseguinte podemos pensar que cada um dos nossos pecados ou
fugas de Deus acende n’Ele uma chama de amor mais intenso, um desejo de nos
reaver e inserir de novo no seu plano de salvação (...). Deus, em Cristo,
revela-Se infinitamente bom (...). Deus é bom. E não apenas em Si mesmo; Deus –
dizemo-lo chorando – é bom para nós. Ele nos ama, procura, pensa, conhece,
inspira e espera… Ele – se tal se pode dizer – será feliz no dia em que
regressarmos e Lhe dissermos: Senhor, na vossa bondade, perdoai-me. Vemos,
assim, o nosso arrependimento tornar-se a alegria de Deus».
Por sua vez São João Paulo II afirmava que
«a Igreja vive uma vida autêntica, quando professa e proclama a misericórdia,
(...) e quando aproxima os homens das fontes da misericórdia do Salvador das quais
ela é depositária e dispensadora».[6]
Também o Papa Bento XVI disse: «Na
realidade, a misericórdia é o núcleo da mensagem evangélica, é o próprio nome
de Deus (...). Tudo o que a Igreja diz e realiza, manifesta a misericórdia que
Deus sente pelo homem, portanto, por nós. Quando a Igreja deve reafirmar uma
verdade menosprezada, ou um bem traído, fá-lo sempre estimulada pelo amor
misericordioso, para que os homens tenham vida e a tenham em abundância (cf. Jo
10, 10)».
Sob esta luz e graça, neste tempo de graça
que a Igreja viveu dialogando e discutindo sobre a família, sentimo-nos
enriquecidos mutuamente; e muitos de nós experimentaram a acção do Espírito
Santo, que é o verdadeiro protagonista e artífice do Sínodo. Para todos nós, a
palavra «família» já não soa como antes do Sínodo, a ponto de encontrarmos nela
o resumo da sua vocação e o significado de todo o caminho sinodal.
Na verdade, para a Igreja, encerrar o
Sínodo significa voltar realmente a «caminhar juntos» para levar a toda a parte
do mundo, a cada diocese, a cada comunidade e a cada situação a luz do
Evangelho, o abraço da Igreja e o apoio da misericórdia Deus!
Obrigado!
29 outubro 2015
Dos talentos
Será também como um homem que, ao partir para fora, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos, a outro dois e a outro um, a cada qual conforme a sua capacidade; e depois partiu.
Aquele que recebeu cinco talentos negociou com eles e ganhou outros cinco. Da mesma forma, aquele que recebeu dois ganhou outros dois. Mas aquele que apenas recebeu um foi fazer um buraco na terra e escondeu o dinheiro do seu senhor.
Passado muito tempo, voltou o senhor daqueles servos e pediu-lhes contas. Aquele que tinha recebido cinco talentos aproximou-se e entregou-lhe outros cinco, dizendo: 'Senhor, confiaste-me cinco talentos; aqui estão outros cinco que eu ganhei.' O senhor disse-lhe: 'Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.'
Veio, em seguida, o que tinha recebido dois talentos: 'Senhor, disse ele, confiaste-me dois talentos; aqui estão outros dois que eu ganhei.' O senhor disse-lhe: 'Muito bem, servo bom e fiel, foste fiel em coisas de pouca monta, muito te confiarei. Entra no gozo do teu senhor.'
Veio, finalmente, o que tinha recebido um só talento: 'Senhor, disse ele, sempre te conheci como homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo, fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence.' O senhor respondeu-lhe: 'Servo mau e preguiçoso! Sabias que eu ceifo onde não semeei e recolho onde não espalhei. Pois bem, devias ter levado o meu dinheiro aos banqueiros e, no meu regresso, teria levantado o meu dinheiro com juros.' 'Tirai-lhe, pois, o talento, e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas, ao que não tem, até o que tem lhe será tirado. A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes.'»
(Lc 19,12-27)
***
Há muito que contava receber este trecho de Lucas no Evangelho Quotidiano que me chega todos os dias ao correio electrónico. Contava reencaminhá-lo para quem entendo não poder nem dever desperdiçar os talentos que tem. Tardou, e entretanto fui pensando e trocando impressões sobre o tema.
Recuo alguns anos. 15, talvez. Numa conversa intergeracional em casa falava-se sobre um parente que, tendo dois cursos superiores (música e Direito, parece-me) matava o seu tempo de uma forma algo ociosa. Tocou piano com o Rubinstein (não afianço a história mas parece-me que é assim), formou-se como excelentes notas na Faculdade de Direito e, mesmo assim, ócio com ele!
A argumentação que usei há 15 anos foi a mesma que usei há 15 dias - e, do lado de lá, duas pessoas de gerações diferentes discordaram de mim. Sinal de que se calhar não estou certo - ou terei encontrado os interlocutores errados...
Então é assim: pode alguém, a quem Deus ou a genética presenteou com talentos desperdiçá-los quase por completo? Tem alguém o direito, face ao facto de tantos lutarem por uma oportunidade e se empenharem de forma tão sacrificada por serem mais num certo mister, de não usar por esses talentos ao seu serviço ou, melhor ainda, ao serviço dos outros?
No outro dia, pessoa de quem sou amigo recente dizia-me: não tenho jeito para nada; tudo o que consegui foi com muito esforço. E conseguiu muito, reconheço. Por outro lado, vou-me cruzando com pessoas com talentos natos para isto ou para aquilo (e falo de casos concretos, nada de abstracções) que se deixam enredar pelas dúvidas, pelas inseguranças, pelas preguiças, pelas frustrações, pelos erros de análise quanto ao caminho a seguir.
Tenho ou não alguma obrigação de usar os meus talentos? Tenho ou não o direito de fazer com eles o que me apetecer, inclusivamente deixá-los quietos? Devo ou não equacionar o facto de tantos se esforçarem tanto para atingir qualquer coisa que eu, face ao meu talento, não atinjo porque simplesmente não quero?
Em bom rigor, o que devemos fazer com os talentos que nos foram confiados?
JdB
28 outubro 2015
A dactilógrafa *
Há quem chore de tristeza, há quem chore de alegria. Por vezes é a visão de algo superiormente bonito que nos provoca lágrimas corridas; outras vezes é uma ternura, um encantamento muito próprio, sei lá eu, que nos embacia os olhos. Foi este enternecimento, inexplicável à luz de uma lógica impessoal, que fez Gonçalo chorar, com a boca muito aberta para que lhe entrasse o ar que faltava. Porque Filomena, no quarto ao lado, se despia para ele com um vagar perturbador.
É normal o desejo carnal perante uma nudez que se revela gradualmente – e pela primeira vez - numa proximidade inquietante. Mas o homem, professor de filosofia num liceu dos arredores, não o sentiu em exclusivo. O amor que devotava a Filomena, administrativa no mesmo estabelecimento de ensino, era de uma intensidade tão própria, que chorou. Muitos não perceberiam esta sensação de exaltação que esmaga um coração que teima em bater a descompasso.
Filomena sentia-se observada através de espelhos de portas, algo que não a incomodava. Devagar, como se o mundo dependesse disso, desapertou os botões da camisa. A lentidão era devoradora, mas ela acreditava no cerimonial, no tempo próprio, na habituação dos sentidos à transcendência de uma mulher, jovem e bonita, despojada dos artefactos que cobrem o seu corpo nu.
Gonçalo espiava, sufocado, a mulher por quem se apaixonara. E via mais uma peça de roupa que tombava no chão. E Filomena desnudava-se, rodando o corpo num misto de pudor e provocação para atrasar a revelação total. O professor passara a fase da lágrima de ternura, explodindo por dentro num vulcão de desejos ardentes. Fechou os olhos, no desespero da criança que tem de esperar pela guloseima longínqua. Quando os abriu, Filomena tinha um cabelo longo e ruivo que lhe tapava o peito, e sentara-se de lado numa cadeira, revelando umas costas tentadoras.
Passados alguns minutos, a rapariga levantou-se de forma calculada e ergueu os braços para apanhar o cabelo. Olhou para o namorado, que lhe revelara Platão e Espinosa, e numa voz…
Podemos ficar por aqui, D. Odete? Estou cansado.
Vítor Guilherme olhou para as mãos, deformadas por artroses que o impediam, há anos, de exercer autonomamente o seu trabalho de escritor, e recostou-se. Ao seu lado, Odete Ramires, que casara como costureira para enviuvar como dactilógrafa, cobriu a máquina de escrever eléctrica com um oleado acinzentado. Arrumou a cadeira com cuidado e silêncio e despediu-se numa voz que revelava educação e ódio:
Até amanhã, Sr. Guilherme. Estimo as suas melhoras.
Já na rua, enfrentando um fim de tarde tristemente frio, Odete Ramires, reformada de emoções, sentou-se numa pastelaria para um bolo seco e um galão escuro. A artrose do autor debilitado era-lhe indiferente; os dedos carcomidos pela dor, também; invejou-lhe, com raiva, a imaginação e o facto de o escritor ter outra vida dentro da própria vida. Quando pensou no Gonçalo e na Filomena, em corpos desnudos amando-se no remanso de uma meia-luz, levou a mão ao pescoço, escondendo um camafeu e sufocando um desejo.
Conheço-a bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.
JdB
(* publicado neste estabelecimento a 26.10.2009)
27 outubro 2015
Duas Últimas
Estou certo do enorme lugar-comum da frase: há músicas diferentes para ambientes diferentes. Melhor, talvez: géneros musicais diferentes para tempos diferentes, ambientes diferentes, locais diferentes. Não me convidem para ouvir Quim Barreiros de volta de uma lareira acesa com um chá quente, artista que não me importo de ouvir numa viagem de carro para a província enquanto rio e canto alto. Numa festa de crianças não ponham Amália. Em bom rigor, não ponham nada numa festa de crianças, a não ser uma venda nos olhos e uns protectores auriculares. Não quero ouvir Beethoven numa esplanada, de volta de uma imperial e de um prato de tremoços ou melhor ainda, favas torradas.
Junto segue Grant Green, no seu álbum "Idle Moments" - traduzido livremente por tempos livres. Um género musical que, dei por mim a pensar, se ouve em qualquer espaço, em qualquer momento, em qualquer ambiente - uma lareira, um elevador, uma esplanada, um fim de tarde ameno. Ouvi-o pela primeira vez em casa de amigos. Éramos oito a jantar: o dono da casa a querer mostrar a excelente qualidade da aparelhagem de som; um outro amigo a querer que ele pusesse o volume no máximo; a dona da casa com um sorriso cândido, a desejar carregar no off. Como sempre, vencem as senhoras...
Enjoy - if possible.
JdB
26 outubro 2015
Das boas pessoas
Há dois ou três anos, numa missa de finados, o padre, amigo óbvio do desaparecido, elogiou-lhe fortemente as virtudes humanas. Ao meu lado, alguém me diz ironicamente, sem um minuto de hesitação: "ouvi dizer que era insuportável em casa". 6ªfeira passado recebo um elogio fúnebre sobre alguém que desapareceu recentemente e que conheci relativamente bem. O nome masculino "elogio" está correcto, independentemente de ser uma expressão vulgar quando ligado ao adjectivo "fúnebre". Era de facto um elogio, e para o caso pouco interessa saber se merecido ou não. Para mim basta-me que contivesse muita verdade.
O parágrafo acima deriva de uma pergunta que me fazem e que suscita uma conversa toda feita de interrogações: o que faz de nós boas pessoas? Isto é, o que nos leva a dizer que o manel ou a maria são boas pessoas, ou que nem o manel nem a maria são boas pessoas? A conversa assenta numa pergunta inicial mais incisiva: uma pessoa generosa é uma boa pessoa? Tendo a dizer que é uma condição necessária, mas não é suficiente. Um mafioso, pelo menos segundo o paradigma dos filmes, pode ser um homem generoso: num minuto empresta dinheiro a um amigo ou proporciona-lhe uma viagem a Las Vegas para jogar e beber e, no minuto seguinte, calça uns sapatos de betão a um traidor e atira-o ao rio, ou manda dizimar uma quantidade imensa de inimigos que, à saída de uma missa, sonham com um prato de spaghetti alla putanesca com os filhos e sobrinhos vestidos de ver a deus.
O que faz de nós boas pessoas? A generosidade sobrepõe-se à ira? O sentido de justiça é mais forte do que o orgulho? Uma índole pacificadora tem mais impacto do que um comodismo exacerbado? As virtudes são sempre melhores do que os defeitos, diria La Palice. Coexistindo na mesma pessoa, que critérios utilizamos para aferir a contabilidade entre uns e outros? Não sei. Só sei - e isso sei - que de algumas pessoas afirmo que são muito boas pessoas e que de outras pessoas elogio as qualidades, por vezes bastantes. O que diferencia umas das outras? Na minha cabeça é de tal forma intangível que não sei dizer com exactidão. Talvez seja um conjunto de virtudes humanas com impacto no próximo que as leva a serem promovidas a "boas pessoas". Ou será a ausência de alguns defeitos? Vemos os outros pela positiva ou também pela ausência de negativa? Há defeitos que nos impedem de sermos boas pessoas, mesmo que tenhamos um bom punhado de qualidades?
Regresso aos mortos. Em O Primo Basílio, há o seguinte diálogo:
- Até já fiz construir, sem vacilar, no Alto de S. João, a minha última morada. Modesta, mas decente. É ao entrar, no arruamento à direita, num lugar abrigado, ao pé da choça dos Veríssimos amigos.
- E já compôs o seu epitáfio, Sr. Conselheiro? — perguntou Julião, do canto, irónico.
- Não o quero, Sr. Zusarte. Na minha sepultura não quero elogios. Se os meus amigos, os meus patrícios, entenderem que eu fiz alguns serviços, têm outros meios para os comemorar; lá têm a imprensa, o comunicado, o necrológio, a poesia mesmo! Por minha vontade, quero apenas sobre a lápide lisa, em letras negras, o meu nome - com a minha designação de conselheiro -, a data do meu nascimento e a data do meu óbito.
E com um tom demorado, de reflexão:
E com um tom demorado, de reflexão:
- Não me oponho todavia a que inscrevam por baixo, em letras menores: «Orai por ele.»
O elogio fúnebre, sobretudo se for em sentido único, pode surtir um efeito contrário. Isto é, à conta de tantos encómios - como se qualquer finado não fosse um caldo onde viveu a luz e a escuridão, o bem e o mal - é normal que nos lembremos rapidamente de alguns defeitos que equilibrem o epitáfio tirando-lhe um pendor excessivamente elogioso. Nem todos somos boas pessoas porque nem sempre o queremos, ou nem sempre o conseguimos, ou talvez estejamos iludidos quanto à bondade do nosso caminho. Morrer com essa certeza - relativamente a nós ou aos outros - é morrer com a noção reconfortante de que partimos humanos, incompletos, mas sempre filhos de um Deus que nos recebe por igual.
Quando chegar a minha hora serei lembrado pelos amigos e familiares que me sobreviverem. Não haverá imprensa, necrológio - menos ainda poesia. Em tudo sendo justo não haverá elogio fúnebre ou homilias laudatórias. Talvez não me oponha, como diria o Conselheiro Acácio, a que inscrevam uma singeleza por baixo das memórias que terão de mim: tentou imperfeitamente. Mais do que isso não, não vá alguém afirmar ironicamente: "ouvi dizer que era insuportável em casa".
JdB
25 outubro 2015
30° Domingo do Tempo Comum
EVANGELHO - Mc 10,46-52
Naquele tempo,
quando Jesus ia a sair de Jericó
com os discípulos e uma grande multidão,
estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho.
Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar:
«Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais:
«Filho de David, tem piedade de mim».
Jesus parou e disse: «Chamai-O».
Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te».
O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe:
«Que queres que Eu te faça?» O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja».
Jesus disse-lhe:
«Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista
e seguiu Jesus pelo caminho.
Naquele tempo,
quando Jesus ia a sair de Jericó
com os discípulos e uma grande multidão,
estava um cego, chamado Bartimeu, filho de Timeu, a pedir esmola à beira do caminho.
Ao ouvir dizer que era Jesus de Nazaré que passava, começou a gritar:
«Jesus, Filho de David, tem piedade de mim». Muitos repreendiam-no para que se calasse. Mas ele gritava cada vez mais:
«Filho de David, tem piedade de mim».
Jesus parou e disse: «Chamai-O».
Chamaram então o cego e disseram-lhe: «Coragem! Levanta-te, que Ele está a chamar-te».
O cego atirou fora a capa, deu um salto e foi ter com Jesus. Jesus perguntou-lhe:
«Que queres que Eu te faça?» O cego respondeu-Lhe: «Mestre, que eu veja».
Jesus disse-lhe:
«Vai: a tua fé te salvou». Logo ele recuperou a vista
e seguiu Jesus pelo caminho.
24 outubro 2015
Pensamentos Impensados
Pesca milagrosa
Na Serra da Estrela pesca-se?
Então, apanhas douradas.
Repasto
A comida no Inferno é monótona: é sempre carne assada ou churrasco.
Cadeiras
Os deputados têm assento parlamentar.
Salazar teve um assento para lamentar.
Bola
Oiço na televisão: Ronaldo assiste. Pergunto: Ronaldo estava a jogar ou a assistir?
2 em 1
Uma bala que mate 2 pessoas é uma bala comum.
Ajudas
As Cruzadas foram patrocinadas pelos jogos da Santa Causa sem Misericórdia.
Primos?
Canto e Castro, Vale e Azevedo, Marinho e Pinto serão parentes? Têm um apelido comum.
Latrocínios
Ladrão que rouba as Finanças, tem 100 anos de cobranças.
SdB (I)
23 outubro 2015
Poemas dos dias que correm
Esta Palavra Saudade
Junto de um catre vil, grosseiro e feio,
por uma noite de luar saudoso,
Camões, pendida a fronte sobre o seio,
cisma, embebido num pesar lutuoso...
Eis que na rua um cântico amoroso
subitâneo se ouviu da noite em meio:
Já se abrem as adufas com receio...
Noites de amores! Que trovar mimoso!
Camões acorda e à gelosia assoma;
e aquele canto, como um antigo aroma,
ressuscita-lhe os risos do passado.
Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
no azul viu perpassar, claro e distante,
de Natércia gentil o vulto amado...
Gonçalves Crespo, in 'Nocturnos'
Regresso ao Lar
Ai, há quantos anos que eu parti chorando
deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!...
Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh, a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida.
canta-me cantigas de me adormentar!...
Trago de amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
canta-me cantigas para me embalar!...
Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...
Como antigamente, no regaço amado
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...
Canta-me cantigas manso, muito manso...
tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!
Guerra Junqueiro, in 'Os Simples'
Junto de um catre vil, grosseiro e feio,
por uma noite de luar saudoso,
Camões, pendida a fronte sobre o seio,
cisma, embebido num pesar lutuoso...
Eis que na rua um cântico amoroso
subitâneo se ouviu da noite em meio:
Já se abrem as adufas com receio...
Noites de amores! Que trovar mimoso!
Camões acorda e à gelosia assoma;
e aquele canto, como um antigo aroma,
ressuscita-lhe os risos do passado.
Viu-se moço e feliz, e ah! nesse instante,
no azul viu perpassar, claro e distante,
de Natércia gentil o vulto amado...
Gonçalves Crespo, in 'Nocturnos'
***
Regresso ao Lar
Ai, há quantos anos que eu parti chorando
deste meu saudoso, carinhoso lar!...
Foi há vinte?... Há trinta?... Nem eu sei já quando!...
Minha velha ama, que me estás fitando,
canta-me cantigas para me eu lembrar!...
Dei a volta ao mundo, dei a volta à vida...
Só achei enganos, decepções, pesar...
Oh, a ingénua alma tão desiludida!...
Minha velha ama, com a voz dorida.
canta-me cantigas de me adormentar!...
Trago de amargura o coração desfeito...
Vê que fundas mágoas no embaciado olhar!
Nunca eu saíra do meu ninho estreito!...
Minha velha ama, que me deste o peito,
canta-me cantigas para me embalar!...
Pôs-me Deus outrora no frouxel do ninho
pedrarias de astros, gemas de luar...
Tudo me roubaram, vê, pelo caminho!...
Minha velha ama, sou um pobrezinho...
Canta-me cantigas de fazer chorar!...
Como antigamente, no regaço amado
(Venho morto, morto!...), deixa-me deitar!
Ai o teu menino como está mudado!
Minha velha ama, como está mudado!
Canta-lhe cantigas de dormir, sonhar!...
Canta-me cantigas manso, muito manso...
tristes, muito tristes, como à noite o mar...
Canta-me cantigas para ver se alcanço
que a minha alma durma, tenha paz, descanso,
quando a morte, em breve, ma vier buscar!
Guerra Junqueiro, in 'Os Simples'
22 outubro 2015
Debates dos dias que correm
Famílias gay. Ter dois pais ou duas mães divide opiniões
CATARINA CORREIA ROCHA E MELISSA LOPES 17/10/2015 21:29
http://www.ionline.pt/artigo/417520/familias-gay-ter-dois-pais-ou-duas-maes-divide-opinioes?seccao=Portugal_i
CATARINA CORREIA ROCHA E MELISSA LOPES 17/10/2015 21:29
Famílias que juntam dois pais ou duas mães estão em minoria. E quando o tema envolve crianças, as opiniões dividem-se: de um lado estão os que consideram não ser benéfico, do outro, os que defendem que na base de tudo está o amor, independentemente do género.
Há cinco anos, Portugal juntou-se ao conjunto de países que permitem casamentos civis entre pessoas do mesmo sexo. Mais de 1500 uniões depois, a adopção e co-adopção de crianças por casais gay ainda não é uma realidade legislativa no nosso país. Quando o assunto é discutido, os argumentos dividem-se entre os que acreditam que uma criança educada por duas pessoas do mesmo sexo pode desenvolver problemas relacionados com a sua personalidade e os que defendem exactamente o oposto: que não existe qualquer diferença no seu crescimento.
Socorrendo-se dos mais de 700 estudos realizados na Europa e nos Estados Unidos, o pediatra Mário Cordeiro está convencido de que “viver numa família em que o casal é do mesmo sexo não traz, por si, qualquer problema para a criança”. Já a psicóloga infantil Rita Jonet duvida da veracidade dessas investigações: “Há muitos estudos contraditórios. Em termos científicos, há muito poucos fidedignos e acabam por ser enviesados consoante as pessoas que os estão a fazer.” A psicóloga defende ainda que, do ponto de vista da criança, “não é natural” ter dois pais ou duas mães. Na escola, ter uma família diferente pode gerar alguns problemas: “Trabalho num colégio e a experiência que tenho é que é muito complicado para as crianças explicarem esta parentalidade”, afirma.
Mário Cordeiro acredita que os problemas estão na mente dos adultos e não na das crianças. As questões que “eventualmente surjam têm a ver com a sociedade e os pseudovalores que esta queira definir, estigmatizando pessoas”, defende, acrescentando que há muitos factores a condicionar a infância e a juventude, “desde a escola onde se anda, os professores que se têm, a casa onde se mora e os valores que são transmitidos”. Em contraponto, Rita Jonet considera que, no desenvolvimento da personalidade, a diferença, seja ela qual for, traz insegurança à criança. Esta é uma fase em que não gostam de ser diferentes dos outros: “Para assumirem isso, é preciso trabalhar com eles de uma forma consistente e sistemática.” Quanto à dialéctica pai/mãe, a psicóloga explica que as crianças têm de ter estes papéis na cabeça e esta questão “é tão importante” que mesmo quando “não têm, fantasiam com isso”.
PAI E MÃE. Em termos teóricos, defende Rita Jonet, a criança precisa sempre, para um desenvolvimento adequado, de ter as facetas feminina e masculina: “O feminino como gerador de vida e o masculino como aquele que vai mais à luta.” O mesmo é dizer que uma criança precisa de um pólo maternal e de um paternal, representando o primeiro a regressão e segurança, e o segundo o crescimento e a ousadia. Em casais heterossexuais, nos tempos correntes, homens e mulheres desempenham esses dois papéis: “Um pai que embala um filho ou lhe dá banho está a fazer de mãe. Uma mãe que leva ao infantário ou estuda com a criança está a fazer de pai”, sustenta Mário Cordeiro. Assim, “interessa é que a criança possa contar com esse triângulo psicológico pai-mãe-ela, mas não importa se, em termos de pessoas, elas são do mesmo sexo ou de sexos diferentes.”
A psicóloga infantil critica esta posição, explicando que “se está a menosprezar a dualidade pai/mãe com a quantidade de famílias diversificadas”, mas não necessariamente apenas com as famílias arco--íris. Para Rita Jonet, “a família tradicional, com as suas características mais naturais, dá mais equilíbrio à criança”. A mãe e o pai têm características completamente diferentes: “No dia-a-dia, a mãe até pode estar a trabalhar e o pai em casa, mas isso não quer dizer que a característica maternal não exista na mesma”, justifica.
Um dos argumentos que têm sido mais usados e que é “cientificamente errado”, sublinha Mário Cordeiro, é o do impacto que um ambiente familiar composto por duas pessoas do mesmo sexo poderá ter na relação e descoberta da própria sexualidade dos filhos. “Se uma pessoa, para ter uma orientação sexual homo, tivesse de viver com pais do mesmo sexo, então não haveria homossexuais”, sustenta o especialista.
Sexualidade e amor. Na opinião do pediatra, não há relação entre o percurso da sexualidade de uma pessoa e a dos seus pais. Aliás, Mário Cordeiro está convencido de que “uma criança ou adolescente nem quer nem deve saber nada sobre a vida sexual dos pais”.
As manifestações de amor, “sejam de um casal hetero ou homo, sê-lo-ão sempre de amor”, explica, lembrando que a orientação sexual não é adquirida ao longo das vivências, mas é sim um processo inato e biológico que não faz “de um gay menos homem” nem transforma uma lésbica num homem. “Trata-se apenas de ter, como objecto de desejo sexual e de paixão e amor, uma pessoa do mesmo sexo”, resume o pedopsiquiatra. E poderão estas crianças desenvolver comportamentos homofóbicos por lidarem com o preconceito? Sim, “mas tanto como a população em geral”, responde Mário Cordeiro.
Sobre a possibilidade de adopção por casais do mesmo sexo, Rita Jonet está reticente: “Do ponto de vista das crianças, não acho, à partida, bem. Mas cada caso é um caso.”
Já Mário Cordeiro usa a ironia para reforçar a sua posição. Para o pediatra, o argumento de que “não é natural” é tão “estúpido como usarmos roupas porque está frio, óculos quando não vemos bem ou deslocarmo-nos a 100 km/h quando o natural é deslocarmo-nos a 4 km/h ou, no máximo, 36 km se formos o Usain Bolt e, mesmo assim, só por 100 metros”.
http://www.ionline.pt/artigo/417520/familias-gay-ter-dois-pais-ou-duas-maes-divide-opinioes?seccao=Portugal_i
21 outubro 2015
Dos duques
(Dos dicionários): Duque, título nobiliárquico, imediatamente superior ao de marquês.
***
Na semana passada, por ocasião de um jantar de aniversário, recebemos em casa o 7º duque de L., convidado na condição de primo e amigo, não de titular. Puxo pela memória e olho em redor: era tudo família e, ainda que a nota seguinte pareça bizarra, gente com o liceu apenas, licenciaturas antigas ou modernas, mestrados feitos ou em vias de, hipóteses de doutoramentos. No meio de todos um duque, também com uma licenciatura que data do tempo em que Bolonha era apenas uma cidade italiana.
O que significa ser-se duque em 2015? Do ponto de vista legal, nada. Do ponto de vista histórico, já pouco. Do ponto de vista do mérito também nada, pois limitou-se a herdar, sem esforço, o que deixará a outros, até que tudo se perca na voragem de tempos diferentes. Do ponto de vista familiar alguma coisa, pois é o representante do ramo onde vou buscar o meu apelido; é, por assim dizer, o nosso "chefe".
A frase "recebemos em casa o duque de L." pode ser lida como um exibicionismo pateta, uma snobice ridícula, um pretensiosismo deslocado. Mas a mesma frase pode ser uma bandeira que combate a ideia demolidora do "já não faz sentido nos dias que correm..." que eliminou tradições e nos condicionou a viver irremediavelmente no momento presente, como se não houvesse ontem e a beleza das coisas não persistisse para além das modas.
Adquirir um grau académico é a persistência do esforço: requer trabalho continuado, por vezes doloroso e isolado dos outros. É um sinal de alguma excelência ou, pelo menos, de labor. Estuda-se para se ser mais, para se ter mais, para se ir mais longe na satisfação própria ou na carreira e, com isso, ganhar estatuto ou qualidade de vida. Por outro lado, os títulos nobiliárquicos já não garantem prebendas nem significam particular mérito. Bem usados, são apenas uma responsabilidade, o dever de honrar um nome antigo ao qual foi acrescido um título também já antigo. Ser-se duque ou marquês é, por isso, a persistência da memória.
O mundo de hoje é utilitário, eficiente, prático, ao qual a memória humana não faz falta. Não precisamos de nos lembrar de nada porque está tudo no infinito google ou na imperfeita wikipédia. O que quisermos saber do passado está no éter, não no nosso cérebro; está numa peça de equipamento made in china, não num espaço do corpo que que estabelece sinapses e se comove. A nossa lembrança das coisas antigas (relativamente às quais já não temos interlocutores vivos) é uma artificialidade tecnológica, não um saber que se transmitia oralmente.
A existência de um duque, que já só tem, aparentemente, uma valência vagamente estética, é uma arma empunhada, não contra a cultura do mérito e do esforço, mas contra a ideia do presente absoluto. Um duque ou um marquês ou um dom antes do nome são a evidência de que todos nós somos uma História que já existia antes dos pais dos nossos pais, História essa que é contemporânea de um tempo que se media em séculos, não em velocidade do sinal ou em largura da banda. A existência de um duque não configura um revivalismo, apenas um fio condutor que se pretende intacto. Infelizmente o combate está irremediavelmente perdido, pois a memória de hoje serve o imediato, o comando informático, a programação de dispositivos, a vida vivida ao ritmo de um aparelho de cozinha alemão.
A persistência da memória é uma arma contra a ditadura do instante imediato. Um duque não é mais nem menos do que ninguém. É apenas alguém que nos liga ao que passou de moda, ao que faz ainda sentido, apesar de já não parecer fazer sentido.
JdB
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Acerca de mim
- JdB
- Estoril, Portugal
Arquivo do blogue
-
▼
2026
(285)
-
▼
outubro
(17)
- Pensamentos Impensados
- Poemas dos dias que correm
- Em memória de Netinho (1966 - 2026)
- Um dia um homem também chora *
- Textos dos dias que correm
- Para um começo de semana sereno (LXXII)
- XXVIII Domingo do Tempo Comum
- Pensamentos Impensados
- Poemas dos dias que correm
- Lembranças (1977) dos dias que correm
- Vai um gin do Peter’s ?
- Moleskine *
- Para um começo de semana sereno (LXXI)
- XXVII Domingo do Tempo Comum
- Pensamentos Impensados
- Poemas dos dias que correm *
- Lembranças (1978) dos dias que correm
-
▼
outubro
(17)





