quinta-feira, 30 de julho de 2009

Quem és tu, ó Morte ?


Falar da morte não é fácil, por várias razões. É um tema ainda tabu, na nossa sociedade e levianamente associado a bruxarias, espiritismos e afins. É uma realidade que todos sabem existir, mas ninguém conhece de facto, uma realidade da qual ninguém pode falar com conhecimento de causa. É um tema triste, inquietante, profundo, sobre o qual se fazem inúmeras conjecturas. É um tema que desperta raivas e revoltas, quando a morte surge inesperadamente, extemporânea. Paradoxalmente, a mesma morte pode trazer alívio e libertação.

É algo para o qual o ser humano, simplesmente, nunca estará preparado. A nossa essência é viver, é dar e receber vida, é mantermo-nos agarrados ao sopro da vida, mesmo quando esse sopro balança, trémulo, como uma fina teia de aranha.

Dizemos, repetidamente, tenho medo de morrer, não quero morrer.

Esvaziamo-nos com a noticia de uma morte próxima. Rezamos, choramos, imploramos para que a morte de um ente querido não chegue e, quando chega, todo o nosso mundo desaba, como se tudo o que houvesse estivesse dependente dessa vida que agora parte.

Revoltamo-nos contra Deus, contra os políticos, contra os médicos e contra a natureza sempre que a morte nos aparece de forma injusta, imposta, sofrida ou violenta. Revoltamo-nos contra nós próprios porque não previmos a sua chegada. Revoltamo-nos contra a própria morte, pelo simples facto de existir. Sempre este sentimento de revolta, de não aceitação, de espanto, de knock-out, Será que, alguma vez, o ser humano conseguirá olhar para a morte e aceitá-la sem qualquer revolta ?

Quem és tu ó Morte, que tanto poder trazes em ti ? Nos atormentas, nos desinstalas, nos intoxicas, nos violentas, nos atravessas as entranhas, sem dó, sem piedade. Vens cheia de ti própria, convicta da tua autoridade, destrois sonhos, divides famílias, espezinhas esperanças ... e afinal, quando te queremos ver, quando te queremos palpar, quando te queremos cheirar... que encontramos? Um grande NADA. Um buraco negro. Um vazio. Algo que realmente não existe. A morte, por si só, não existe. Se a morte é o oposto da vida e a vida é para nós tudo, então, aquela é nada.

Enquanto que a vida, por si só, existe e é real - podemos ver, palpar, cheirar uma criança que acaba de nascer - a morte não tem cor, não tem rosto, não tem cheiro; em última instância, podemos afirmar que o poder da morte revela-se na medida da importância que lhe dermos. Podemos olhá-la e deixá-la apoderar-se de nós, das nossas emoções, da nossa sanidade, da nossa espiritualidade ou podemos enfrentá-la, numa atitude sobranceira e distante, e dizer-lhe: reduz-te à tua insignificância, o teu poder vem de mim, só és forte se eu te der importância.

Ao longo da minha vida, vivi a partida de cinco ou 6 familiares, três dos quais muito chegados a mim. A forma como vivenciei essas mortes, desde os meus 17 anos aos actuais 50, ilustra bem aquilo que acabo de escrever e quem, nos dias de hoje, me conhece, sabe bem que consigo dizer à morte “reduz-te à tua insignificância”, porque, afinal, aquilo que eu julgava ser um Adeus é, antes, um Até Breve.

maf

1 comentário:

DaLheGas disse...

Já tinha lido este texto ontem Maf, mas sem tempo para comentar.
É bom haver quem nos dê esta sensação, esta visão da morte, mas quando ela parece estar perto ou anda a rondar a porta, este sentir, esta visão lúcida (que é) não deve ser fácil de manter vibrante, acesa, coesa!
E a Fé, poupará uns e atraiçoará outros.
Saudades!

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