sexta-feira, 26 de março de 2010

polaroids de figuras extintas

#4 - luís

'estás aqui estás a levar, rais'parta este diabo!'
deve ter sido o lindo cartão de visita que te ofereci,
enquanto as pernas ganhavam balanço para
o massacre que se seguiria - botas de caçador, minhas,
contra pernas de sedutor em formação, tuas.
há amizades assim, nascidas de um duelo.

das amizades mais fortes, a nossa não foi a mais
improvável, mas talvez a mais estranha, naquele
sentido em que se a amizade tem algo de amor,
bem posso dizer que te odiei por te amar, sem o saber,
amei-te enquanto e porque te tive, como nos livros de psicologia,
e de novo te odiei, quando enfim te perdi - coisas da vida.

mas não vamos ficar por aqui, só memória e tristeza,
quando tanto houve de primavera nesses invernos juvenis,
tanta lenha e tanto verão, dias lentos e lânguidos,
mesmo quando chuvosos - que a juventude tudo embala,
brasa que incendeia palha, água, tudo o que passa,
matéria transitória que contudo, e contra tudo, permanece.

la dolce vita, filmada com os meios que havia, poderia
bem ser o guião desses dias esplêndidos, noites de folia
e rapina, embriagados de nós próprios e de imaginação,
todo um filme que só nós - e mais um ou outro - víamos,
alheios à suave despressurização dos bosques em volta,
ausentes da corrosão do tempo, essa gangrena em combustão.

éramos felizes, e imaginávamos mil aventuras, que eram
na realidade trinta e duas (mas quantas são, hoje em dia?),
éramos alegres, e beberricávamos cem gê-tê-is, que eram
na verdade quatro ou cinco (quantos são, hoje em dia?),
éramos jovens, e namoriscávamos vinte miúdas, que eram,
há que dizer, uma ou duas (são quantas, hoje em dia?).

felizes, alegres, jovens - com saúde, e era mais do que
a santíssima trindade (que me desculpem os leitores).
assim eram os dias, sublimes, envoltos em perfeição,
mergulhados em possibilidades, abertos ao mundo,
sem traumas, passados, mágoas, revoltas, náuseas,
- dois felizes rapazes, segurando a mão dos seus amores.

hoje, perdi-te. hoje, perdeste-me. complicadíssima operação
esta, que não se ensina em universidade nenhuma da vida,
por ciência ou arte - um nada gentil mecanismo de subtracção.
ambos navegamos agora em mar alto picado, coisa suicida,
deixando para trás juventude, beleza e um naco de coração,
resta a memória rasgada na ardósia e na pele, a traço de giz.

(ai, luís, luís. que foi isso que tu me fizeste? que foi isto que eu te fiz?)

gi.

1 comentário:

Ana CC disse...

Mais um quadro engrandecedor (mistura de grande com enternecedor). Go on.

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