terça-feira, 23 de março de 2010

Se não fossem eles, não chegava ao chão...

Os meus pés não têm lugar definitivo. É regra. Eventualmente, acabo por os arrecadar da melhor forma que me ocorre, convencido que é perfeita e definitiva, mas dois minutos bastam para me provar o quão enganado eu posso estar em relação aos ângulos certos. São grandes demais, as certezas e os pés.
Vezes há em que são pontadas irracionais e persistentes que me perturbam o conforto, outras é um formigueiro fininho que se impõe, meio dormente meio latejante, e me obriga a rever prioridades de arrumação que antes me tinham parecido irrefutáveis. Podias dormir em pé.
Ninguém consegue dormir aqui, independentemente da verticalidade adoptada.
O segundo dedo é magro e comprido como o indicador de uma mão de gente, ou pelo menos de uma que, nascida inteira, se tenha aguentado assim até ser usada para qualquer comparação. É maior que o primeiro, uma raridade anatómica que exibo com orgulho sempre que o calor pede uns chinelos de enfiar. Segundo não me lembro quem, é sinal que sou bom a tomar decisões, parvoíce, portanto, que eu nem sequer acerto no assentar dos pés. Ao menos é engraçado.
Ao menos que sirva para alegrar alguém.
Gosto de estar sossegado, não me apoquento facilmente e até sei esperar as demoras sem impaciência, mas nunca sei onde meter os pés. Escolho sempre mal e acabo invariavelmente por ter de aguentar um qualquer desconforto, por vezes durante pequenas eternidades, o que resulta em protestos físicos visíveis, vermelhidões e suores estranhos, rapidamente atendidos ou firmemente ignorados, dependendo da evolução das circunstâncias. Pára quieto com os pés! Tens de ir fazer xixi?
Desde pequenino que é assim.
É costume, como se sabe, arranjar às regras uma ou outra excepção, e neste meu caso podológico não é diferente. Se foi ou não o acaso que os fez encontrarem-se, isso é matéria para outra noite qualquer, a verdade é que o descanso do guerreiro está no enrolar instintivo, numa fuga ao desamparo e num anúncio certo do fim da jornada, dos teus pés nos meus. Aquece-me os pezinhos.
São tão bonitos os diminutivos, assim ao ouvido.

ZdT

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