quarta-feira, 24 de março de 2010

Vai um gin do Peter's?

Quem diria que pintura do séc. XVII-XVIII podia acumular sentido de humor e sedução? Ainda por cima em naturezas-mortas? Mas vou mais longe, assumindo que é, precisamente, por serem naturezas-mortas!
Experimentem dar um salto até à Gulbenkian para ver «A Perspectiva das Coisas. A Natureza Morta na Europa. Primeira Parte: séc.s XVII e XVIII»(*), e assim obterem a vossa perspectiva… Deixo também o título, em inglês, por corresponder, na perfeição, ao embate real do visitante com as pinturas ali expostas: «In the presence of things»!
O que se pode dizer de uma exposição que junta telas assinadas por Rembrandt, Goya, Meléndez, Oudry, Abraham Brueghel (o da 3ª geração), Chardin ou Josefa de Óbidos (ou Ayala), vindas do Louvre, Prado, The National Gallery, Rijksmuseum de Amesterdão, Museu de Pintura de Berlim, Museu Nacional de Arte Antiga, entre outras colecções? A forma expositiva tem a excelência a que a Gulbenkian nos habituou, com óptimas legendas e grupos temáticos bem sugestivos, para se explorarem: os arranjos florais, as mesas de festa, os troféus de caça, os objectos de valor com ostentação de raridades, além dos espantosos “Gabinetes de Curiosidades”, muito em voga na época, para terminar na reflexão mais filosófica: Questões de Vida e de Morte e na incontornávelVanitas”, evocando um dos livros mais poéticos da Bíblia, o Eclesiastes.
Em números, são 71 pinturas, provenientes de 34 Museus e de 11 colecções privadas, em que apenas uma é património da Gulbenkian. Dos artistas expostos, outra raridade é o facto de haver quatro pintoras: Josefa de Óbidos, Clara Peeters, Louise Moillon e Fede Galizia!
Numa definição à letra, as naturezas-mortas excluiriam a presença explícita do ser humano, dando-se preferência ao mundo inanimado, o que levou à subalternização desta temática, em muitas épocas da história. Mas o virtuosismo de pintores adeptos do tema, assim como o enriquecimento da sua simbologia, a par dos novos gostos sociais, com a descoberta de terras longínquas e de preciosidades exóticas, ou ainda a moda dos inventários e de estudos de ciências naturais nos primórdios do enciclopedismo, parecem ter favorecido as naturezas-mortas, sobretudo a partir do séc. XVI. Aliás, a beleza dos brilhos de muitas delas é hipnótica. São verdadeiros diamantes...

Willem Kalf (1619-1693), Natureza-Morta com Armadura, Armas de Guerra e Objectos de Aparato, 1643-45.

É curioso observar que os pintores de objectos incluem, com mais frequência do que se esperaria, a presença de seres vivos, através de paisagens luxuriantes, animais atentíssimos a cobiçar uma apetitosa presa já morta e até mesmo figuras humanas, de forma mais ou menos velada, em estilo de charada. Ao lado de troféus de caça, que fariam as delícias de qualquer chefe de cozinha, pousa um garboso pavão, ou espreita um gato a assumir a tentação do próprio espectador, além de borboletas, gulosamente, a esvoaçar por entre as flores frescas do jarrão. Ainda assim, a presença humana é a excepção. E nas excepções, Rembrandt destaca-se, com a acutilância que lhe conhecemos a observar a realidade. O tema é forte e contrastante: num primeiro plano, duas pavoas recém-mortas, sob o olhar prazenteiro de uma menina pequena, mais curiosa que intimidada pelo sangue fresco, ainda a escorrer. As pavoas são, assim, duplamente, observadas, de dentro e de fora do quadro, nós em contraponto à menina. Outras excepções, muitíssimo dissimuladas, são as telas de Abraham van Beijeren e de Clara Peeters, com os reflexos dos pintores espelhados nas superfícies curvas de jarros de prata lustrosa, num efeito de dupla assinatura da obra. Há depois mais excepções, por exemplo, nos retratos de pessoas, como se em pintura o retratar de um retrato (um quadro dentro do próprio quadro) pudesse distar do registo “directo” de uma figura na tela? Digamos que resulta numa certa ironia em cadeia!


Abraham van Beijeren (1620-1690), Natureza-Morta de Aparato, 1655.

O humor nas várias gradações, da graça subtil de uma mesa suculenta… menos alcançável do que gostaríamos, à observação mordaz e crua sobre o tempo de vida a esfumar-se, é um ingrediente expectável numa temática que, frequentemente, intercepta a linha de fronteira entre a vida e a morte, exprimindo a precariedade da existência. Mas não se imagine que a tristeza ou a frustração pela fugacidade da vida impera, porque o tom festivo – ainda que em vários casos haja um misto de sabor agridoce, pelo fim-à-vista – é dos leit-motivs do acervo exposto, como o evidenciam os temas propostos na exposição: Deleite para os Sentidos, Festim para os Olhos, Momentos preciosos, Doçarias, que nos oferecem fantásticos menus degustação, reveladores das diferenças entre o Norte e o Sul da Europa.
No gosto mediterrânico, abundam as frutas, os legumes frescos, o pão, a doçaria caseira a fazer juz a uma ementa saudável, light, de cores suaves. A sobriedade prevalece. Na Flandres e arredores privilegia-se a ementa farta, de aparato, com boas peças de caça, variedades infinitas de queijos e fumados. A superabundância parece ser a mensagem de bom acolhimento aos visitantes da casa onde a tela se exibe.
O simbolismo riquíssimo e quase encriptado(**) dos objectos representados nas telas, acentua-se também com a própria mise-en-scène e com a escolha criteriosa dos elementos retratados. Nada é inocente! O pavão de cores ricas em contraponto ao cisne branco de cabeça pendente, num jardim luxurioso, não se reduz ao virtuosismo do pintor a trabalhar minuciosamente as penas das diferentes aves, numa a opulência dos tons e na outra a textura macia mas monocromática; também os reflexos da luz refractada e multiplicada entre a transparência dos cálices de cristal e o ouro reluzente dos metálicos na «Natureza Morta com um Cesto de Copos» (Sébastien Stoskopf) não se cingem ao mero tecnicismo do jogo de luzes e caracterização dos materiais luminosos, como se depreende do copo partido do lado esquerdo e da tampa de um cálice dourado, triunfal, à nossa direita; o contraste entre a beleza fulgurante da natureza, de um outro nível de criação, a submergir a fragilidade das criações humanas, também possui uma metáfora explícita… Os exemplos são infindáveis. Num dos expoentes da ironia, e também da lucidez, é a própria arte que aparece, não apenas no seu esplendor, mas igualmente no crepúsculo a que está sujeita toda a existência. São disso expressão os instrumentos musicais virados para baixo ou abandonados no chão, os livros em avançado estado de degradação, a escultura de um espinho que atormenta um pobre rapaz. Também as armaduras ou os elmos jazem abandonados, porque todo o poder terreno é de curta longevidade… Enquanto a areia na ampulheta se vai escapando, sem possibilidade de recuo.
Na mesma linha de demonstração clara da efemeridade, várias jarras aparecem tombadas, apesar de lindas, as toalhas arrepanhadas em molho (naturalmente, onde o seu colorido e volumetria surtem melhor efeito cénico), os copos virados ou quebrados ou quase vazios. Parecem a versão pictórica da afirmação de Oscar Wilde sobre o facto de a beleza durar… uns minutos! É claro que o sentido decorativo da disposição das peças parece justificar os objectos caídos e as tapeçarias enroladas assimetricamente num dos cantos, conferindo movimento ao todo, em geral, realçado sob fundo escuro. Estamos em pleno barroco e a gestão muito cuidada da luz e dos reflexos, a exuberância das texturas e das cores, estão na ordem do dia.
Mas vale a pena voltar ao início: numa outra perspectiva, há também a exaltação da intensidade do instante. Da força do presente. Do gozo do prazer imediato. Há uma tela de Meléndez que exprime, espantosamente, a instantaneidade, com a chávena do chocolate quente virada, mas ainda sem o conteúdo ter desabado… apesar da sua liquidez ser evidente nos pingos que sujam a chocolateira prateada. Quase meio século antes da invenção da fotografia, o registo em tela destes instantâneos, que imobilizam centésimos de segundo, é hiper ousado!

José López Enguídanos (1760-1812), Natureza-Morta com Serviço de Chocolate, 1807.

Outra das ironias das naturezas-mortas – ainda que nem sempre intencional – é o suposto realismo, a camuflar, afinal, um artificialismo notável e até um estilo onírico, de forte carga simbólica, que só pelo hábil jogo de verosimilhança com a realidade se confundem com a sua representação directa. Puro ilusionismo! Quantas das flores que posam, lado-a-lado, nas jarras, são de épocas do ano incompatíveis e distâncias geográficas inconciliáveis, à época! A exuberância das raridades e de jóias exibidas em Gabinetes de Curiosidades não passam de realidades virtuais… só acessíveis em tela! Mas seria a peça do ourives mais preciosa que o seu duplo, na tela? Goethe considerou que não, formulando o expoente máximo que a pintura pode atingir, ao comentar uma natureza-morta atribuída a Willem Kalf (com obras em exposição): «Se tivesse de escolher entre os vasos dourados e a imagem, escolheria a imagem


Willem Kalf (1619-1693), Natureza-Morta com Náutilo, Taça Chinesa e Outros Objectos, 1662.

Bom, não sei se resultará numa boa ou numa má notícia dizer que cada quadro conta uma história, transmite uma mensagem, pressupõe uma mundividência própria. Diria que se avançarem para o estilo de investigação Poirot ainda se divertem mais… com cada tela. Boas descobertas!

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
__________________
(*) Patente ao público até 2 de Maio, na Galeria de Exposições Temporárias da Sede. Horário de Terça a Domingo:
10h00 às 18h00. Preço: 5€. Óptima documentação: folheto gratuito e catálogo a 40€, na livraria.
(**) O significado simbólico difere conforme o nível de leitura a privilegiar, entre o político, moral, religioso ou
social. Dois exemplos muito comuns: a
rosa evoca as duas principais famílias inglesas: Lancaster (púrpura) e York (branca), ou o amor e a paixão com conotações diversas dependendo da cor, além de ser um símbolo mariano; a flor-de-lis representa a monarquia francesa, estando ainda associada à nobreza de carácter e , simbolicamente, indica o Norte, além de estar associada à pureza de espírito , à virtude e de ser a principal insígnia do escutismo mundial. Não só as flores, como os frutos, os animais e as próprias cores estão associados a uma simbologia complexa.

5 comentários:

Anónimo disse...

Querida MZ, belíssimo texto, como já seria de esperar. Rico em conteúdo, em interpretações, em fotografias, em informação. Adorei a exposição e maravilhei-me com alguns quadros (nomeadamente a Natureza Morta com um Cesto de Copos, do Sébastien Stoskopf). Curiosamente, em muitas das composições, ocorre-me que o captar detalhes do conjunto seria um exercício interessantíssimo. Os detalhes, riquíssimos, por vezes perdem-se no conjunto (às vezes quase excessivo, quase cansativo - a meu ver). A captação de detalhes, ou seja, o "imobilizar" pormenores dos quadros, é qualquer coisa que adoro, que me interessa imenso. Já me estava a imaginar a utilizar o Photoshop para o fazer. Gostei muito de um quadro muito simples, de um espanhol, que retratava um conjunto de frutos secos e um cone de papel amachucado. Gostei imenso da sua simplicidade no meio de tanta opulência. Uma exposição de nível europeu, absolutamente! Viva a Gulbenkian em tudo o que faz! Obrigada e bjs. pcp

Anónimo disse...

Obrigada Maria! Fez-me sentir que não estava em Portugal. Vou lá. Definitivamente, t

Anónimo disse...

Obrigado pelos comentários - tantos e tão bons - serão úteis para a próxima vez que for. Talvez a melhor exposição de nível internacional dos últimos 10 anos...já me estou a preparar para outra longa espera...
deA

Anónimo disse...

O seu texto é em si mesmo uma pérola. Mutísimos parabéns.
Acho que vou esperar o seu regresso e organizar uma sequência de visitas guiadas por si.
j

Anónimo disse...

Belissimo texto!
fq

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