quarta-feira, 11 de maio de 2011

Na Patagónia

Volto à Patagónia para escrever um texto cujo formato é descaradamente roubado daqui. Livro que aconselho vivamente. Para quem foi, está a pensar em ir, ou mesmo para os que não caem em nenhuma das categorias anteriores.

15.

No dia seguinte acordei antes do sol. Perguntei onde era o miradouro e como chegava lá.

- Segue as luzes e vai sempre para cima -, respondeu alguém que também ia fazer o mesmo percurso que eu.

E, realmente, as indicações eram essas. O caminho era sempre a subir e não havia o perigo de me enganar, porque havia sempre um carreiro de pirilampos à minha frente. As luzes das lanternas vistas de longe têm uma estranha parecença com os insectos. A subida era feita em fila e num silêncio tão cerrado como a noite. Durante o dia fazem-se caminhadas, mas antes do sol nascer são procissões.

Quando cheguei ao topo o sol já se anunciava com uma risca mais clara que o preto cerrado do céu. Dessa faixa azul-petróleo mais clara que o resto saiu uma mancha verde, sem se notar onde começava uma e acabava a outra, que acabou por desaguar num amarelo-alaranjado (ou será laranja-amarelado?) que caracteriza o princípio do dia.

No dia anterior tinha feito um caminho de curva-depois-de-curva num autocarro velho e desconfortável, e quando o percurso finalmente acabou consegui sair e parar o tempo suficiente para a poeira assentar. Vi pela primeira vez, ainda ao longe, as torres que hoje tenho à distância de um braço.

Torres que, durante o nascer do sol, passaram por uma transformação cromática igual à do céu. Começaram pretas como a noite. Tão escuras, pesadas, carregadas e invisíveis que quase não se notavam que lá estavam. Depois passaram para um azul menos intenso, já eram distinguíveis a contra-luz. Antes de ficarem da cor da pedra passaram por um cor-de-laranja brilhante, que quase parecia que estavam a arder.

Percebi que eram horas de descer quando as pessoas começaram a conversar. Tinha acabado a procissão, estava na altura de começar a caminhada. Agora já não havia luzes para seguir e o caminho era sempre para baixo.

SdB (III)

1 comentário:

Ana LA disse...

Belíssimo.
bom dia SdBIII

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