sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Há entre mim...


«Há entre mim e o mundo uma névoa que impede que eu veja as coisas como verdadeiramente são - como são para os outros» - Fernando Pessoa

Já dizia Fernando Pessoa, homem sábio, que a imagem construída à luz dos nossos olhos, não corresponde ao real, àquilo que de facto é e existe. Uma névoa densa, escura, equiparável ao muro de Berlim, separa tais realidades por si só tão distintas. E não há vento que a mova. Nem o vento capaz de levar um veleiro a desafiar furiosamente as leis do mar, ou a simples brisa que me traz o teu perfume são capazes de atenuar tal névoa.

Atrevo-me a híper dimensionar a metáfora utilizada pelo génio que era Fernando Pessoa e assim, arrisco comparar esta distinção entre a realidade real, perdoem-me o pleonasmo, e o cenário imaginário a um grande e profundo abismo de onde emana uma escuridão horripilante.

De um lado, o qual apelido de zona de conforto, estou eu, o Pessoa e a grande maioria dos seres humanos deste mundo que ainda não encontraram a coragem necessária para percorrer as frágeis tábuas de madeira, unidas por dois fios massacrados pelo tempo, a que chamo ponte. Refugiam-se, assim, no lado que já dominam e manipulam, fecham-se no seu porto seguro, evitando a novidade, o desconhecido, a realidade.  Vivem perante uma ilusão viciante, gratificante até, que os afasta cada vez mais da ponte e os embrenha na aliciante floresta que é o imaginário.

Do outro lado, contrastando, temos um universo de pessoas reduzido. Não admira, poucos são aqueles que optam por atravessar a tão frágil ponte que abana com uma ténue rajada. Para além de ser um acto de coragem extrema, é uma opção que envolve, impreterivelmente, choque, sofrimento, dor e lágrimas. Ao passarmos para o outro lado, ao escolhermos encarar a realidade, estamos a deixar para trás algo que já tínhamos como adquirido, um cenário que poderíamos adaptar a qualquer momento de forma a nos agradar. A passagem representa a aceitação do real sem contornos, nu e cru, dos factos como eles são e das consequências que deles advêm sem qualquer hipótese de um ajuste favorável à nossa situação.

Encontro-me do lado ilusório do abismo e por cá vou ficar até armazenar a coragem e a força necessárias para atravessar a ponte e, assim, enfrentar tamanho choque. Criei um mundo imaginário demasiado extenso para ser vivido em apenas 17 anos, porém tenho noção que o dia em que as minhas fantasias já não me saciarão e terei necessidade de passar para o outro lado, para o real, estará perto e quando fizer essa travessia espero que todos já estejam do outro lado, que tenham feito a escolha certa (e que a ponte não se tenha desmoronado!).

MTM

3 comentários:

Ana LA disse...

Bom dia MTM. Parece que esta semana estamos todos focados nos 17 anos e na adolescência. Que bom.
Já PO postou em homenagem à sua afilhada que faz 17 anos e nos relembrou das diversidade de emoções e sentimentos que nos assaltaram a todos.
A ponte que fala está lá, pronta para que se passe. A coragem e vontade também aguardam, o que falta é o momento em que nos deslocamos dessa zona de conforto, sobrevoando, olhando, admirando e dizemos,
É agora e é isto mesmo que eu quero porque não é chocante, é apenas a vida e eu não a posso perder.
Boa semana e belas palavras, como sempre.

Luiza A disse...

Ola' MTM, filosofa e pensadora
Que 17 anos que lhe trouxeram esta maturidade! Pessoalmente eu vou mais pelo filosofo americano Manly Hall que acha que o conhecimento/realidade sao opinioes a um nivel de ilusao.
Boa travessia de pontes, e mais pontes.

Anónimo disse...

MTM, não há crescimento (interior) sem sofrimento. Mas vale a pena passar a ponte e crescer para um novo patamar. Sei que ainda tem muita vida diante de si... aproveite-a, goze-a, viva-a intensamente. Não tenha medo de ter medo. Suplante-o só, tão simplesmente. Vai atravessar desertos, mas vai encontrar oásis. Da interiorização que a vida é isto mesmo - luz e sombra que se intercalam constantemente - nasce a coragem, uma das qualidades mais úteis para a vida (e curiosamente, parece-me, bastante subvalorizada). Bjs. pcp

Acerca de mim

Arquivo do blogue