segunda-feira, 11 de abril de 2016

Da exortação



Qual a diferença entre Miguel Strogoff e Madre Teresa de Calcutá? Qual a diferença entre Jean Valjean e o Padre Maximiliano Kolbe? Ou entre o Major Alvega e Thomas Moore? Não é, seguramente, o facto de uns serem franceses, outro ser luso-britânico, uns serem consagrados e outro um inglês. A diferença é apenas esta - independentemente da valentia ou dos actos de heroísmo de pendor diferente, uns existiram e outros não. Miguel Strogoff, Jean Valjean e o Major Alvega são personagens de ficção, a que se poderiam juntar tantos outros. Madre Teresa, Maximiliano Kolbe e Thomas Moore existiram de facto. De uns poderemos tirar lições de ética, valentia, despojamento, defesa das suas convicções. Os outros, porque nunca existiram, podem suscitar-nos momentos de emoção, apenas. Mas não nos podem dar lições.

Ler um romance pode implicar, como disse na semana passada, a suspensão da incredulidade. Fazemo-lo quando lemos os actos de heroísmo de quem não existiu. Quando lemos a vida de quem viveu a vida numa entrega ao próximo, de quem morreu por amor ao próximo ou na defesa dos seus princípios,  não suspendemos nada. 

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Durante os últimos dias segui a conferência de imprensa e li o capítulo IV (O Amor no Matrimónio) da exortação Amoris Laetitia do Papa Francisco. E dei por mim a pensar, ao terminar a leitura desse capítulo, que é preciso, de alguma forma, suspender uma espécie de incredulidade. Podemos ler a exortação como um texto bonito, cheio de ideias fantásticas e correctas, que abre as portas para a correcção de uma situação que diminuía tantos e tantos divorciados recasados. Mas podemos ler a exortação com uma suspensão da racionalidade e da lógica e, nesse sentido, abraçá-la como algo que tivesse sido escrito exclusivamente para nós. O Capítulo IV foi escrito só para mim? Sim, se eu suspender essa espécie de incredulidade (porque de facto não foi) e o ler como uma conversa entre duas pessoas que se conhecem tão bem que não têm segredos uma da outra, identificando-se como mais ninguém se identifica no mundo.

Ler a exortação (ou pelo menos o capítulo IV) só faz sentido (sim, sim, tenho consciência da dimensão da afirmação) se for lida como um documento que nos é dirigido de forma pessoal e intransmissível. Porque só assim poderemos dizer: olha isto sou eu, ou então olha, isto é ela ou mesmo olha, isto somos nós os dois ou talvez eu já fui tudo isto.  Repito: o Capítulo IV (porque só li esse) foi escrito individualmente para cada um dos seus leitores. Quando o Manel o lê, lê algo que se refere a ele, que podia ter sido escrita na segunda pessoa do singular; quando a Maria o faz é a mesma coisa. Suspender a incredulidade na leitura desta exortação é abraçar a personalização do que é geral, é crer no impossível e, como isso, repito, deixar entrar o Sublime.

Talvez a suspensão total da incredulidade seja colocarmos todos no mesmo saco - Miguel Strogoff, o Major Alvega e a Madre Teresa, Jean Valjean juntamente com o Pe. Maximilano Kolbe e com Thomas Moore. Porque todos foram heróis e nos ensinaram alguma coisa. Mesmo os que não existiram.

JdB

   

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