sexta-feira, 1 de abril de 2016

Textos dos dias que correm

Monólogo do Príncipe Segismundo na prisão

Sonha o rei que é rei, e segue
com esse engano, mandando,
resolvendo e governando.
E os  aplausos que recebe
Vazios, no vento escreve;
e em cinzas a sua sorte
a morte, talha de um corte.
E há quem queira reinar
vendo que há-de despertar
no negro sonho da morte?

Sonha o rico sua riqueza,
que trabalhos lhe oferece;
sonha o pobre que padece
sua miséria e pobreza;
sonha o que o triunfo preza,
sonha o que luta e pretende,
sonha o que agrava e ofende,
e no mundo, em conclusão,
todos sonham o que são,
no entanto ninguém entende.

Eu sonho que estou aqui
de correntes carregado,
e sonhei que em outro estado
mais lisonjeiro me vi.
Que é a vida? Um frenesi.
Que é a vida? Uma ilusão,
uma sombra, uma ficção,
e o maior bem é tristonho:
porque toda vida é sonho,
e os sonhos, sonhos são.

da obra A Vida é Sonho (Calderón de la Barca, 1600 - 1681)

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