segunda-feira, 4 de abril de 2016

Vai um gin do Peter’s?

O termo ícone, derivado do grego eikon  a significar simplesmente imagem, remete-nos, de imediato, para Bizâncio e para a arte sacra ortodoxa, onde a pintura segue um código artístico e de exigência humana exigentíssimos. O talento está longe de ser suficiente para se obter o privilégio de pintar ícone – um serviço maior destinado a franquear os Evangelhos à comunidade. Desde os primórdios que a prioridade são os mais frágeis, i.e. os iletrados para quem esta imagética permite o acesso à Palavra. Assim o instou S.Gregório Magno, contando que seja sempre uma extensão gráfica das Sagradas Escrituras. Por isso, a prática da fé e o esforço de conversão entram nos mínimos olímpicos exigidos ao artista.

Além disso, envolve uma aprendizagem demorada e meticulosa para se dominar o seu complexo código de cores, os materiais utilizáveis partindo de uma placa de madeira (normalmente, de abeto) aplanada, a simbologia das inscrições, a sequência recomendada (começando pela aplicação do dourado no fundo e em partes do traje, para acabar no branco do rosto e das mãos), trabalhar rezando e muitos outros preceitos. O espaço para improvisar depende, sobretudo, da riqueza espiritual do autor. 

Após florescer em Constantinopla, que foi a sucessora da magnífica cidade de Bizâncio convertida ao cristianismo, a tradição dos ícones chegou à Rússia via Kiev. No Ocidente, ficou-se por Veneza, onde a influência oriental teve enorme impacto nas artes.  

Sustentada por este nexo intenso entre arte e um caminho de maturação interior, percebe-se que a história do ícone venha mesclada do itinerário do pintor, que usa os talentos e a sabedoria de vida para plasmar a mensagem divina na obra, cuidando apenas de salvaguardar a pureza da Palavra. Ostentar méritos próprios nunca vem a propósito.

Significativamente, os iconologistas de referência foram também considerados santos. O mais emblemático foi o célebre monge russo Andrei Rublev (1360?-1427), que inspirou uma das obras-primas do realizador igualmente russo – Tarkovski. Filmado em 1966, explica o despontar da arte de Rublev a partir da sua biografia ímpar. 

Ícone da SSma.Trindade, de Rublev (c. 1410),
Hoje na Tretyakov Gallery – Moscovo 

Acompanhamos os avanços e recuos de uma vocação artística a emergir e consolidar-se através das várias encruzilhadas que se lhe deparam no caminho. Uma vida aventurosa e atribulada mostra-nos quanto a arte também depende das escolhas do dia-a-dia, da capacidade de reacertar passos mal andados e, sobretudo, da vontade de melhorar constantemente o olhar. Pesa ainda o modo de interagir com os outros, além da forma de viver as circunstâncias específicas da sua época. Nascido no principado de Moscovo, Rublev sofre a crueldade das invasões tártaras, sofre a pobreza extrema dos camponeses sujeitos a uma servidão indigna, sofre com a quantidade de gente perdida que vai conhecendo ao longo dos tempos. Percorremos com o monge poeta um país de estepes gigantescas sulcado de cavaleiros errantes, frades mendicantes, e pequenos povoados protegidos nas muralhas dos castelos. Tudo decorre sob um horizonte grandioso e infinito, que marca a alma russa, tantas vezes traída e camuflada. 

Com Tarkovski, a vitalidade e a beleza da arte de Rublev tornam-se autoexplicativas e transparentes. Não é demais considerar o filme como o ícone de Tarkovski. 


Rublev no filme de Tarkovski

No século XXI, a fidelidade ao carisma sagrado da iconografia tende a persistir. Há apenas 6 anos, nos voltefaces curiosos da vida, um actor e professor de teatro ucraniano – Vladimir Denshchikov  –  teve um AVC que o deixou parcialmente imobilizado. Logo que iniciou a convalescença, empenhou-se em tentar, ao menos, acabar o ícone que estava a fazer para a igreja da sua aldeia, dando préstimo ao seu hobby preferido. Foi nesta luta para concluir a obra que sentiu, de repente, a mão semi-paralisada recuperar a mobilidade de uma assentada. Ficou tão agradecido e impressionado com aquela cura imprevista e inexplicável, a seus olhos, que passou a consagrar mais tempo à iconografia, produzindo obras de uma simplicidade e espiritualidade invulgares. Respiram imensa tranquilidade e até uma misteriosa humildade, talvez pela extrema sobriedade dos materiais e dos únicos apetrechos utilizados, entre o linho natural monocromático e as mãos: 


À parte do rosto e das mãos pintadas, tudo o mais é tecido por Denshchikov, que compõe e cruza diferentes encadeamentos de nós em macramé, para multiplicar a variedade de texturas. Pode demorar entre um trimestre a pouco menos de um ano para urdir (no seu caso) ícones com dimensões médias de 50cm X 40cm, profusamente elaborados. 


Sem recurso a ferramentas,  assume por inteiro todos os passos do processo, a partir de uma tela de linho puro – tecido importante no culto ortodoxo – para extrair os fios, um a um, e depois os entrançar em laçadas contínuas, de modo a formar rendilhados originais, que personaliza segundo a figura recriada. Um labor muito exaustivo, inteiramente manual, que o leva a desencantar soluções habilidosas para obter efeitos bem diversos, jogando só com uma simples trama de entrelaçados de linho:



É uma verdadeira expressão do engenho humano, que esconde um esforço árduo de enorme entrega e paciência, para além da óbvia criatividade. Também aqui se cumpre em pleno o sentido de serviço que envolve a feitura de um ícone, propondo-se falar mais do representado do que do seu autor. Talvez um mistério de arte humilde, onde haverá muito a aprender com os nossos irmãos ortodoxos... Que bom o mundo estar povoado de gente com legados tão diferentes e enriquecedores.

Maria Zarco
(a  preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)

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