sexta-feira, 22 de abril de 2016

Do passado e do futuro

Heráclito, grego que viveu e morreu por alturas do Século V a.C., percebeu que a a água do rio que passava por ele nunca era a mesma. Para o filósofo, só a mudança e o movimento são reais. Mais de dois mil anos depois, aparentemente sem nenhuma conexão entre ambos os personagens da cultura mundial, Francisco de Goya, espanhol, desenhava nas paredes de sua casa um quadro terrível, intitulado qualquer coisa como Saturno devorando os seus filhos. De acordo com uma interpretação tradicional, o quadro representa Chronos que, receoso de perder o poder para os seus filhos, os comia à nascença.


O pintor espanhol ter-se-á baseado num quadro de Rubens sobre o mesmo tema 


O que liga Heráclito e Goya (ou Rubens)? Aparentemente nada, a não ser que entendamos que Chronos não devora o futuro mas o passado. Os filhos não representariam o o porvir, o caminho pela frente, mas apenas o passado. Chronos devora o passado para o passado não o devorar a ele. Tal como Heráclito, o tempo flui, só a mudança e o movimento são reais. A água que no rio me banha os pés já não volta a banhar-me.

Os quadros são incomodativos pela sua violência gráfica. Não sei mesmo qual deles incomodará mais. Resta-nos, por isso, uma interpretação mais desafiante que aligeire o sangue que escorre e a carne que é repuxada. Imaginemos Saturno - ou Chronos - não a alimentar-se do que já foi, o que lhes alimentaria a nostalgia, mas a alimentar-se do que está para vir. Algum futuro, como sabemos, só se constrói eliminando o passado. E eliminar pode não significar matar, mas apenas guardá-lo no sítio certo.

JdB

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