sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Sobre a poesia (para o meu amigo ATM)

Pressupostos:

1) Tenha por favor a gentileza de devolver a mixórdia de letras assinadas Herberto à petulância "caviar" onde pertencem e, no futuro, lançar apenas poesia contra poesia e não poeira contra luz, como fez com a invocação deste Herberto. (ATM)

2) Je sais que la poésie est indispensable, mais je ne sais pas a quoi. (Jean Cocteau)

***

Vou presumir que tanto o meu amigo ATM como o Jean Cocteau me darão o gosto de encimar este post em que tentarei, num exercício intelectual de raro arrojo, explicar e / ou defender uma certa espécie de poesia. Não o farei, em concreto, relativamente à poesia do Herberto Helder, que suscitou uma indignação tão feroz de um dos citados.

No que toca à poesia, não cometerei o desplante de achar, como os gregos antigos, que ela tem uma origem divina, nem aceitarei, sem questionar, que a utilidade da inspiração era, para alguns deles, a transmissão de conhecimentos. Mas talvez conceda a ideia - e mantenho-me na Grécia antiga - de que a poesia tinha a grande virtude de amenizar a vida miserável dos homens (e voltarei a este adjectivo) .

A grande solução para este aparente imbróglio de explicar uma poesia que nem sempre percebo e da qual nem sempre gosto foi-me dada pelo poeta grego Simónides (séc. V a.C.)  a quem, segundo a tradição, se deve a mnemotécnica. Cito: A pintura é poesia silenciosa, a poesia é pintura que fala. Foi ao ler esta frase que percebi tudo o que tinha a perceber: o herberto helder é, em sentido lato, o miró das letras. Não pretendo identificar semelhanças nem a sua inversa, não pretendo comparar qualidades artísticas ou valor de mercado. Assim como nem sempre percebo Herberto, nem sempre percebo Miró. 

Mantenhamo-nos na frase de Simónides. Num quadro de Rembrandt podemos ver tudo: um cão é um cão e parece-se com um cão; uma casa é uma casa e parece-se com uma casa; um conjunto de pessoas é um conjunto de pessoas que se parece com um conjunto de pessoas. Admiramos a precisão, o jogo de luzes, o pormenor de uma renda num colarinho ou a exactidão de um bigode aparado. O quadro conta uma história, revela uma mestria, denota uma criatividade. Se quisermos ver mais quadros de Rembrandt podemos descortinar a evolução da técnica com o tempo, mas aquele quadro já é, só por si, revelador. Lemos José Régio (sem comparações de mestria) e é o mesmo: um marinheiro a bordo de um veleiro é um marinheiro a bordo de um veleiro. Aquele poema (como aquele quadro) conta uma história. A moldura ou a página do livro são os limites temporais ou geográficos ou humanos da interpretação possível. O que é, está ali.

Herberto Helder e Miró (como representantes de um certo estilo) jogam com palavras, com emoções próprias, com tonalidades, com a firmeza dos traços ou das frases, com as arritmias sonoras ou pictóricas, com a imaginação e com a perspectiva, com os silêncios que se descortinam na recitação. Não se pode ver um quadro de Miró, como não se pode ler um poema de Herberto. É preciso ler mais do que um e ver mais do que um para percebermos a coerência, a (ir)regularidade da mensagem, a homogeneidade e o estilo que se mantêm, as obsessões, as constâncias. Aquele poema (como aquele quadro) suscitam uma história, não contam uma história. Dão-nos espaço, não nos delimitam o espaço. Abrem portas, mesmo que não as queiramos franquear.

Gosto de Rembrandt e gosto de Régio. Não sei, sequer, se gosto de Herberto ou de Miró porque nem sempre percebo o que lá está. Falta-me a história que começa e acaba, o limite físico da moldura que me deixa confortável, como se fossem as paredes de uma casa que é minha ou a mão que alguém me dá para vencer o medo. São factores de segurança, ao passo que a ilimitação do espaço e da imaginação podem ser informação a mais. Ou perturbação, sei lá eu.

Para que serve a poesia que não conta uma história? Será indispensável a quê? Talvez, como qualquer criação artística, para amenizar a vida miserável dos homens que a ela se dedicam, seja como obreiros seja como usufrutuários. E miserável não deve ser lido em sentido restrito - o contrário de miséria é libertação, elevação, desprendimento, gestão de tensões internas, iluminação das negritudes da alma.  

JdB

Nota: sempre ouvi muito fado. Como é normal, acontece gostar deste fadista e não gostar daquele. Mas agora que oiço, talvez, com outros ouvidos, dou por mim a fixar algo que me ensinaram de forma implícita: há fadistas que são bons porque criaram um estilo; a qualidade deles não está numa pujança da voz ou numa elegância da dicção. A qualidade deles está numa certa coerência. E por isso, como certos poetas ou pintores, têm de se muito ouvidos.  


1 comentário:

Anónimo disse...

JdB
Louvo este seu magnifico texto , recolho-me perante a sua erudição. A invocação desse patamar de saber é um elogio maior.Não concordo nem discordo do qeu afirma, pois sei bem quando não é banca para o meu regateio... passo.
JdB, já sinto saudades suas neste mundo da minha ignorância.
ATM

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