terça-feira, 1 de novembro de 2016

Vai um gin do Peter’s?

Tem estado em cartaz o documentário dedicado aos anos fulgurantes da carreira do grupo que inaugurou os mega-concertos em estádios de futebol e a perseguição louca dos fãs, atirou a produção discográfica para uma escala industrial e tornou-se porta-voz de uma juventude que ganhava consciência de classe, nos anos 60: «The Beatles: Eight Days A Week – The Touring Years» (1). Fizeram história e mudaram a história. O realizador promete novidades em primeira mão: the band you know, the story you don´t, pois teve acesso ao arquivo infindo da Apple Corps Ltd., fundada pelos próprios Beatles em 1968, a vídeos de amadores e a entrevistas com famosos, além da consultoria dada por McKartney, Ringo e as viúvas de Lennon e de George Harrison.

Não será demais afirmar que a banda converteu o rock & roll na linguagem da contestação juvenil, popularizando-o e levando-o às quatro partidas do mundo. Introduziram um novo elemento na cultura: o pop. Em entrevista à Rolling Stones americana, o realizador Ron Howard revela também o contributo do Beatles para a mudança de mentalidades: «Aquele período de seis anos (de 1960 a 1966) traz uma impressionante transformação em termos de cultura global e nesses quatro extraordinários indivíduos, que foram ao mesmo tempo génios e seres extremamente fáceis de se identificar».  Um dos editores da Rolling Stone considerou-os o Picasso da música, pela inovação que trouxeram a esta expressão artística(2).



De 1962-63 a 1966, assistimos ao irromper do fenómeno vulcânico conhecido por beatlemania, depois de o manager de quase trinta anos, Brian Epstein, os descobrir nas profundezas do bar nocturno de Liverpool, o Cavern Club, e os trazer para os melhores estúdios e palcos à luz do dia. Começou por lhes tirar os blusões pretos de má qualidade e vesti-los no mais reputado alfaiate da cidade, aplicando-lhes uma farda semelhante à dos profissionais da City. Corte de cabelo à tigela, igual para os quatros, para unificando a imagem do quarteto. Curiosamente, em vez de se sentirem espartilhados no fato e gravata, aqueles miúdos, a rondar os 17 anos, reconhecem que a farda ajudou a selar o grupo. Deu-lhes espírito de corpo, fazendo-os sentir-se um gigante (dizem) com 4 vozes e oito braços à guitarra e à bateria.

Percorremos, com eles, o planeta, para 166 actuações por 90 cidades de 15 países, até à última tournée daqueles anos frenéticos, em Agosto de 1966. Culminou com uma enchente num estádio, pois não havia espaço maior nos EUA para receber todos os que exijam assistir ao concerto. As provas do sucesso são óbvias: foram a banda estrangeira com maior penetração no renhido mercado norte-americano; arrecadaram o grande prémio da música, o Grammy, 10 vezes, além de inúmeros outros galardões internacionais; assinam o maior número de hits no topo das audiências. Ainda por cima, corre contra eles a breve longevidade do grupo.

Para muitos, a canção de amor mais bonita do rock é do seu repertório  – «Something» – composta por George Harrison, também autor da mítica «Let it be»:

https://www.youtube.com/watch?v=3vrnDzOOlCI

O aspecto mais sublinhado pelo realizador é a repercussão sociológica da sua carreira, criando um fenómeno de identificação entre juventudes de geografias bem distantes, mas unidas pela beatlemania, que simboliza também aspirações comuns. Tudo se mistura, entre o gosto pelo rock, uma atitude livre e a partilha de um ideário de tolerância, e     de abertura (acreditava-se)  a todas as raças, credos, convicções. Contado na perspectiva da banda, o documentário acompanha o crescimento de quatro rapazes talentosos e apaixonados por música, capazes de impregnar a sua obra de um novo sentido de liberdade, de consciência individual e de ânimo, acordando na juventude do seu tempo a vontade de desfrutar o presente. Sem limites, sem preocupações. Resultaram, assim, nos detonadores de uma revolução cultural e social, que se espalhou a uma velocidade sem precedentes. Estreava-se a década do power flower. Por junto, a aura dos Beatles suplantou as fronteiras da música para também ter incidência política.

A divertida Whoopi Goldberg conta-nos a sua experiência quando os foi ouvir, ainda em criança, e sentiu orgulho das suas raízes afro, graças àquele grupo aberto a toda a humanidade. Descobrira os primeiros artistas sem cor (chama-lhes), maximamente universais. Sim, foram aqueles miúdos de ar gozão e talvez semi-irresponsável, mas enorme ousadia e talento sem-fim, que vergaram um dos Estados americanos do Sul, arreigadamente racista, ao recusarem cantar num espectáculo interditado aos negros. Resolutos e inabaláveis, obrigaram a organização a abrir a bilheteira a todos. Lennon falou pelos 4, firme e a taxar a discriminação de ridícula, um puro contra-senso. Se não podiam cantar para uns, não cantariam para ninguém. Acabou com negros e brancos a sentar-se lado a lado para entoarem as músicas, a uma só voz, com os seus heróis. Um inédito
naquele Estado. Abriu-se uma página na história americana, erradicando os concertos sujeitos a segregação racial, nos poucos sítios em que ainda eram prática corrente.

Claro que a histeria também superabundou. Aqueles concertos correspondiam a uma experiência novíssima, galvanizante, que atraia uma combinação explosiva e divertida de emoções. Momentos vividos ao rubro. Também com um lado meio assustador nos gritos descontrolados da multidão de miúdas alucinadas. Alguns desmaios, muita euforia, berraria desenfreada e uma turba-multa disposta a tudo para se aproximar dos seus heróis. Um excesso, que McCartney conta como foi encarado pelo grupo: «Éramos crianças e estávamos todos bastante assustados». Os finais eram uma dor de cabeça, com saídas atribuladas, escoltados pela polícia para os proteger do público. Sem se ouvirem capazmente entre si, à conta da barulheira ensurdecedora dos espectadores, tocam sempre afinados e 100% sintonizados, comprovando o seu profissionalismo. Sim, a alegria esfusiante da sua presença em palco não fazia perceber as horas de trabalho árduo, a ensaiar incansavelmente. Aliás, Paul relata a quantidade de horas que passam em treinos e em gravações no estúdio. Estiveram vários anos sem poder tirar férias. Valia darem-se tão bem uns com os outros, divertindo-se à grande, a quatro. A boa sintonia perpassa nas cenas filmadas nos bastidores e até nos olhares cúmplices em palco. São os primeiros a curtir o bom momento. Talvez os únicos a conseguir fazê-lo de forma saudável, com arte e gosto pela vida a fundir-se harmoniosamente.

A boa relação do quarteto é das facetas mais interessantes do filme. Em concreto, o sentido de humor é um poderoso elo de ligação entre Lennon, McCartney, Harrison e Ringo Starr, aliviando-lhes a vida estafada que o sucesso lhes vai impondo. Numa das viagens aos Estados Unidos, mal aterram, são atacados por hordas de jornalistas com idade para serem seus pais. Interpelam um deles com ar inquisitivo, a perguntar pelo nome. Calhou ser Lennon que, com a maior desfaçatez e naturalidade, respondeu: Eric, my name is Eric. Quando um dos jornalistas o volta a abordar, já a chamar de Eric, corrigiu logo: John, o meu nome é John. Estava só a gozar. Isto sem se desmanchar e só para fazer rir os amigos, deixando os media atordoados e desconfiados, a antever que iriam ser bastante gozados (como foram), sempre em versão educada.

Interrogam-nos também sobre temas candentes, curiosos de perceber, através dos Beatles, a mentalidade da juventude. Com uma espontaneidade agradável, a medida certa de auto-confiança e manifesta sagacidade, surpreendem os entrevistadores com opiniões despretensiosas, mas muito atentas à realidade. Nos bastidores, é interessante ver o olhar cuidadoso e até embevecido do manager, que lhes dá todo o espaço para protagonizarem o novo espírito que despontava. Percebera que o mediatismo ganho pela música e um carisma irresistível lhes granjeara uma autoridade inigualável, que só a eles caberia gerir. Zona sagrada dos quatro, com direito a tempo de antena para falarem ao mundo, sequioso por ouvi-los. Apesar de tão novos, souberam não abusar do estatuto.

https://youtu.be/0fFyZzqPDws?t=33

No filme, há ainda um salto para 1969: quando, num invernoso 30 de Janeiro, o grupo quis surpreender a capital mais cool da Europa com um concerto não anunciado. Muito civicamente, como só os britânicos, os transeuntes foram-se reunindo na esquina do prédio para assistir a uma actuação insólita, literalmente caída do céu. Outros conseguiram melhor vista, subindo para os telhados da zona. Batidos pelo vento das alturas, mergulham na música dedicada por Lennon a Yoko Ono: «Don’t let me down», seguindo-se outros êxitos:

https://www.youtube.com/watch?v=NCtzkaL2t_Y

Com esta experiência no topo de um prédio, queriam emancipar-se do estúdio e explorar novas linguagens. Tinham começado por projectar hipóteses mais fulgurantes, até porque nunca sofriam de falta de imaginação. Cantar no deserto, ou num antigo anfiteatro romano tunisino, ou a bordo de um barco estavam na calha. Acabaram por se ficar pela opção mais próxima e caseira, ainda q.b. original. Mas nem assim resistiram à desintegração, que se adivinhava. Resistiram, no entanto, ao esquecimento. Mais: nunca pararam de somar fãs. Muitos já só os conhecem de imagens e sons de arquivo. Mesmo no teste do tempo continuam em grande, demonstrando enorme actualidade.

Maria Zarco
(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
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(1) FICHA TÉCNICA
Título original:
«The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years»
Título traduzido em Portugal:
«The Beatles: Eight Days a Week – The Touring Years»
Realização:
Ron Howard
Argumento:
Mark Monroe e P.G. Morgan (como consultor), com o apoio das 2 viúvas dos Beatles: Yoko Ono Lennon e Olivia Harrison
Produtores:
Nigel Sinclair, Brian Grazer e Scott Pascucci, com apoio do vasto arquivo da Apple Corps.
Banda Sonora:
Beatles, Ric Markmann, Dan Pinnella e Chris Wagner
Duração:
2h17
Ano:
2016
País
Reino Unido e EUA
Elenco:
Paul McCartney (também à data de hoje)
Ringo Starr (também à data de hoje)
John Lennon (só em registos de arquivo)
George Harrison (só em registos de arquivo)
Larry Kane
Whoopi Goldberg
Elvis Costello
Sigourney Weaver,
etc.

Local das filmagens:

O mundo, nos locais reais das tournées.
Site official (nos EUA):
http://thebeatleseightdaysaweek.com/us/

Consultar outros vídeos e dados interessantes no artigo do Observador:
http://observador.pt/2016/09/15/the-beatles- eight-days- a-week- os-anos- loucos-dos- fab-four/

(2)  Citação original de Robert Greenfield: «(comparing) the Beatles to Picasso, as “artists who broke through the constraints of their time period to come up with something that was unique and original ... [I]n the form of popular music, no one will ever be more revolutionary, more creative and more distinctive”.»

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