terça-feira, 4 de abril de 2017

Vai um gin do Peter’s?

Em entrevista recente, o historiador Rui Ramos considerava Fátima o maior epifenómeno de massas do século XX, em Portugal. No espaço de décadas, ultrapassou fronteiras, internacionalizando-se amplamente. Observava ainda a estranha omissão na análise histórica, comparando-o ao elefante na sala que se teima em ignorar. Talvez o silêncio se deva à sua natureza tão atípica para os manuais de história, que se cingem aos grandes acontecimentos militares, às alterações do regime político e questões afins, além das mega turbulências económico-financeiras. Ora, Fátima não é catalogável em nenhum deles, apesar das tentativas de ingerência política sem impacto relevante.

Basta chegar à Cova de Iria para perceber que naquele lugar as regras são outras. Um pequeno sintoma disso está no comportamento dos próprios peregrinos. Os milhares de pessoas – de todas as idades, raças e as mais remotas proveniências – que ali procuram paz e protecção vêm e permanecem numa atitude de humildade e escuta, que não se encontra em nenhum outro sítio. Aliás, não é desse modo que a maioria das mesmas pessoas se comporta nos sítios de onde vem. A confusão de gentes num espaço tão apertado, em vez de aumentar a tensão e gerar conflitos abertos, inspira antes boa vontade, para lá das incontáveis desorganizações e aselhices. Mesmo nos dias de grande afluência, onde superabundam os encontrões e atropelos, respira-se uma paz profunda. Não há memória de cenas de pancadaria em Fátima, apesar do desconforto que se pode viver nas alturas de enchente, como durante as cerimónias das 6 Aparições aos Pastorinhos.

Há uns anos, recuando às suas memórias de militante comunista do núcleo duro do PCP, Zita Seabra contou a sua experiência in loco, quando Álvaro Cunhal a escalonou para ir até lá investigar o assunto. Algures, entre 1974 e 1977, teve de ir passar o dia à povoação, onde se cruzou com muita gente mas não percebeu nada. Passou um dia chatíssimo sem conseguir extrair elações interessantes, excepto de que ali – embora houvesse quem interessasse, e muito, ao PCP – não havia condições para nenhuma acção política capaz. Era um território perdido do ponto de vista “operativo”. Aquelas gentes teriam, antes, de ser abordadas nas terras de origem, pois em Fátima tornavam-se impermeáveis a outras vozes, para lá da única que ecoa dentro da alma, inconfundível como é sempre a voz da mãe. Rematou Zita: o PCP deu o dossier Fátima por encerrado, concluindo que era para ignorar olimpicamente. Contou  apenas que ficasse confinado à Serra d’Aire. Foi um azar que, passado um par de anos, ganhasse proeminência internacional, precisamente pelo voluntarismo desastrado da URSS. Estávamos a 13 de Maio de 1981, logo após os tiros mortíferos disparados no Vaticano contra o Papa João Paulo II… A história é conhecida, como conhecidas são as ligações do homicida turco à polícia secreta búlgara, obedecendo às ordens do Kremlin.


Às 17h17, dois estampidos ensurdecedores ecoaram no Vaticano. No relato da Rádio Vaticano: «os fiéis aterrorizados choram, ajoelham-se, rezam o terço». A 17 de Maio de 1981, falando para a televisão, a partir da sua cama na Clínica Gemelli, o Papa disse: «Peço pelo irmão que me feriu, a quem perdoei sinceramente». Ao longo do seu pontificado, São João Paulo II repetiu: uma mão disparou a bala e outra a desviou, «Nossa Senhora de Fátima salvou-me a vida».


Segundo um vaticanista italiano: o processo mais extenso escrito sobre Fátima pertence aos arquivos do Kremlin. Fala do que viu, registado em dossiers pousados na secretária de um ministro russo, nos anos 80. Mal se iniciou a Glasnost tentou consultá-los, mas já não estavam acessíveis. A estranha afinidade de datas, entre as Aparições e a Revolução de Outubro, ajudarão a explicar o interesse da URSS pela história de Fátima. Quando, em 2007, a RTP pediu acesso ao arquivo soviético para uma reportagem noticiosa, o pedido foi indeferido, tendo sido adaptado o conteúdo do programa a um conjunto de entrevistas a ex-prisioneiros vítimas de perseguição religiosa, assim como ao testemunho de russos sobre o efeito da mensagem da Cova de Iria durante o tempo da repressão, que perdurou até 1985. O documentário, da autoria da vaticanista portuguesa Aura Miguel, intitulou-se «Fátima na Rússia» e incluiu também os depoimentos da jornalista do Washington Post –  Anne Applebaum, do Cardeal Kasper responsável pela unidade dos cristãos e do ex-director da agência noticiosa soviética Tass.


A 25 de Outubro dá-se a segunda fase da Revolução Russa, iniciada em Fevereiro, quando Lenine destitui pela força o governo provisório, que tinha sido eleito. 


Desde o minuto zero que todo o fenómeno de Fátima foi surpreendente e inusitado, para dizer o menos. Por exemplo, no episódio da prisão, planeado pelo presidente da Câmara de Ourém para acabar com o estranho sururu causado por três criancinhas ignorantes e umas alegadas aparições do Céu, tudo lhe correu da pior maneira. Nem sequer vergou os pequeninos, apesar da violenta pressão exercida sobre eles, com interrogatórios um a um, ameaças de torturas terríveis como fritá-los em óleo a ferver. Também não demoveu as multidões, que continuaram a afluir ao local, apesar de os Pastorinhos faltarem a 13 de Agosto, por estarem encarcerados.  Mas, pior de tudo: em vez de erradicar aquela devoção popular, angariou, inadvertidamente, mais devotos. E logo os mais improváveis e à margem da sociedade em todos os sentidos: os presos. Conseguiu esse inédito de, pela primeira vez na história das múltiplas aparições marianas, os pobres presos receberem a notícia em primeira mão, dada pelos videntes. Um privilégio, por erro de cálculo do tal presidente anti-clerical, conhecido pela sua virulência sem limites. Ao fim da tarde, na cadeia, instituiu-se o hábito de se congregarem junto aos miúdos e, de joelhos, rezarem o terço conduzido pela voz mansa dos 3 mini-prisioneiros. Entretanto, em redor dos Pastorinhos, instalou-se um rodopio na cadeia: uns a chorar de arrependimento, outros a querer aprender a rezar, outros apenas a consolá-los. O ambiente punitivo e repressivo eclipsou-se em favor de uma relação fraternal. Volvida uma semana, a força dos factos não deixou margem para mais veleidades, pelo que as crianças foram rapidamente retiradas da prisão. No dia 19 deu-se a Aparição de Agosto, assistida por uma multidão que crescia de dia para dia. 

Num flash-back bem narrado sobre o «dossier Fátima», segue um excerto de um artigo de 26 de Março, gentilmente cedido pelo autor: 



«Este ano do centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima é uma boa ocasião para perceber o que aconteceu. Uma fonte são as «memórias da Irmã Lúcia», uns cadernos que ela escreveu, cada vez que o Bispo lhe pedia um relatório mais específico sobre algum aspecto. Em geral, não lhe apetecia pegar na caneta, mas acabava sempre por escrever páginas cheias de pormenor. Encarava aquele exercício como longas cartas de resposta ao Bispo ou ao Reitor do Santuário, sem pensar que, no final, poderiam ser publicadas. Talvez porque as comunicações não eram fáceis naquele tempo, as «memórias» saíram em livro antes de lhe pedirem a opinião. Paciência! Não era bem a intenção da autora, mas já não havia nada a fazer.

Um dos pontos notáveis da história de Fátima é a reacção dos dois pastorinhos. Sendo ainda tão novos (a Jacinta tinha 7 anos e o Francisco 9), eles confiaram totalmente em Deus, com uma intensidade heróica. Fizeram-nos sofrer muito, suportaram ameaças gravíssimas, mas, em vez de ficarem abatidos, cada vez confiavam mais, com uma serenidade que contagiou multidões.

Um dia, o Administrador de Ourém, anti-clerical furioso, fechou as crianças num quarto prometendo que, a seguir, as ia queimar vivas. No momento em que estavam à espera do destino fatal, umas lágrimas correram pelas faces da Jacinta, de 7 anos: «Eu queria sequer ver a minha mãe!». «Então tu não queres oferecer este sacrifício pela conversão dos pecadores?», pergunta-lhe a prima. «Quero, quero!» e, com as lágrimas ainda a banharem-lhe as faces, faz o oferecimento. Os outros presos, que presenciaram a cena, comoveram-se. Quando os três pastorinhos começam a rezar o Terço, todos ajoelharam e alguns, que sabiam a oração, rezaram também. No final, para distrair as crianças ameaçadas de morte, os presos começaram a tocar harmónica, a cantar e a dançar. A Jacinta foi então o par de um pobre ladrão que, vendo-a tão pequenina, terminou a bailar com ela ao colo. A história de Fátima é um nunca mais acabar de emoções e de ternura.

A propósito de ajoelhar, ouvi várias testemunhas presenciais contarem que, em Outubro (de 1917), quando se deu o milagre, os mais devotos fecharam os guarda-chuvas e ajoelharam, apesar de o chão estar coberto de lama. No final, os que tinham ajoelhado estavam limpos e enxutos e os que se tinham protegido da chuva estavam encharcados…

Fotografia tirada em Fátima, a 13 de Outubro de 1917

Graças a Fátima, ajoelharam os peregrinos com fé, os ladrões de Ourém e até os intelectuais ateus. Quando se deu o milagre do Sol, Afonso Lopes Vieira saboreava o vento e o mar em S. Pedro de Moel, sem o mínimo interesse pelo que pudesse acontecer na Cova da Iria, a 40 km de distância. De repente, viu o Sol mudar de cor e mexer-se. Depois, veio a saber que o mesmo tinha acontecido em Fátima e converteu-se. Foi ele quem escreveu a letra do conhecido hino de Fátima.»
José Maria C.S. André

Publicado a 26-III-2017 in ABC Portuguese Canadian Newspaper, 
Correio dos Açores, Verdadeiro Olhar, Spe Deus, Clarim, O Alcoa


 Maria Zarco

(a preparar o próximo gin tónico, para daqui a 2 semanas)
Hino de Fátima composto por Afonso Lopes Vieira:



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