segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Crónicas de um viajante ao Japão (I)

Num sentido arquitectónico, e salvaguardadas as proporções, estar em Tóquio é o mesmo que estar em Toronto ou em Nova Iorque, cidades de certa forma iguais: edifícios modernos e diferentes entre si, a constituírem um conjunto harmonioso numa diversidade grande. Distinguem-se radicalmente de Paris, Londres, Viena ou mesmo Buenos Aires. Como sabemos onde estamos? Pelo escrita que é diferente e pela quantidade imensa de japoneses nas ruas. Fora isso poderíamos estar noutro país.

Alguns aspectos que marcaram a atenção  (elencados sem grande grau de prioridade):

- "velhos" fardados que servem, talvez não de polícia de segurança pública, mas de apoio ao cidadão, ao trânsito, a quem tem uma dúvida; gente mais sénior (muito acima dos 65 anos) nos museus ou em gabinetes de informação. Percebe-se o respeito e a consideração pelos mais idosos, o aproveitamento de características válidas em gente que ainda é muito válida, muito ao contrário da nossa cultura ocidental, de total descarte dos menos jovens.  

- a delicadeza não uniforme das pessoas: os mais velhos fazem jus a uma ideia que tinha de uma certa delicadeza oriental (seguramente japonesa). Nos mais novos não se sente tanto isso, andam pelas ruas (sobretudo num bairro de que falarei mais adiante) como se a vida fosse a deles, a caminhada fosse a deles, o espaço fosse o deles. Mas há também uma delicadeza, que é muito diferente de servilismo, das pessoas no comércio. Como exemplo, a abertura das portas da loja da Seiko em Ginza (um bairro de lojas boas) é seguida da vénia de duas jovens que recebem o cliente. A vénia é um cerimonial, uma atitude de respeito, uma delicadeza na relação humana. Muito diferente, também, de uma espécie de horror ocidental a estas manifestações de consideração, como se isto impedisse a ideia de que somos todos obsessivamente iguais.

- o inglês, muito menos do que básico, de quase todas as pessoas com quem falámos: nas lojas, no aeroporto, no hotel, nos restaurantes, no metro, numa informação na rua. É muito vulgar explicarem-nos qualquer coisa num mapa falando apenas japonês, como se o meio de comunicação fosse um dedo que percorre ruas representadas numa folha de papel.

- a quantidade, dizem-me, de rapaziada ostensivamente efeminada. 

- o silêncio e fluidez do trânsito verificados no sábado e domingo, mas também nesta segunda-feira, dia normal de trabalho. Há um civismo óbvio, que é consolidado por uma ausência total de lixo nas ruas, no asseio dos passeios.

Shibuya (Japão) Novembro de 2018

- a multidão de jovens em Shibuya. Reproduzo a informação que me foi dada por um português casado com uma japonesa: em Shibuya, para ver o crossing, suba ao Starbucks - é a melhor vista numa rua lateral está o edifício circular 109, onde nasce a moda louca jovem. vale mesmo a pena. Mais bizarro não existe. Estão lá as meninas vestidas de negro, as de cor de rosa e caras prateadas. Comece do ultimo andar e vá descendo... perca-se nas ruas traseiras de Shibuya pelo por de sol, quando as tribos começam a emergir para a noite. A descrição não é exagerada. Vi quase tudo isto, numa circulação de pessoas em quantidade nunca vista. 

- o culto do estar-se descalço. Promove-se essa higiene (e o itálico significa que talvez não seja apenas asseio) no hotel onde estamos e num restaurante onde fomos. 

Tóquio, Novembro de 2018

- a comida, saudável, de digestão fácil. Almoçámos uma espécie de sopa com legumes cozidos, cujo caldo se aproveitou para aquecer um arroz e cozer um ovo mexido. Tudo isto servido (e explicado em japonês) por uma empregada vestida de quimono, de delicadeza e de tempo.

- a curiosidade de se encontrar um conterrâneo numa rua bonita de Ginza (bairro bom onde estamos), como se o solo pátrio nos acompanhasse sempre. Paramos numa montra a olhar para uns bolos: parecem ovos cozidos, digo eu. A dois metros um cavalheiro ocidental olha-nos, sorri e pergunta na língua que é a nossa pátria comum: portugueses? Conversámos cinco minutos, como velhos conhecidos e só não fizemos a pergunta que move todo o lusitano em terras estrangeiras: onde podemos comer um bom bacalhau?

- a dimensão do quarto de hotel: talvez 11 metros quadrados, o que transforma a palavra proxémia (dos dicionários: estudo das distâncias físicas que os indivíduos estabelecem entre si quando interagem socialmente e do significado e possíveis razões da variação dessas distâncias) numa inutilidade, e torna a gestão da circulação humana uma actividade particularmente desafiante...

JdB

2 comentários:

Laurus nobilis disse...

É um país e uma sociedade que sempre me fez alguma confusão; por um lado, muito tradicionalistas e, por outro, completamente aderentes a comportamentos públicos algo bizarros, tal como é descrito. Sempre tive o Japão e os japoneses em consideração, talvez pelas narrativas dos descobrimentos... Penso que eles nos têm também em conta...

"Percebe-se o respeito e a consideração pelos mais idosos, o aproveitamento de características válidas em gente que ainda é muito válida, muito ao contrário da nossa cultura ocidental, de total descarte dos menos jovens." Fantástico! São estas pequenas coisas que tornam uma sociedade mais equilibrada.

JdB disse...

Diz muito bem: algumas coisas fazem confusão. Uma sociedade muito hierarquizada, muito tradicionalista, com valores muito arreigados, que depois quer copiar o mundo ocidental (e talvez seguramente os americanos) naquilo que temos de menos interessante, nomeadamente a forma de vestir, de estar em público, do tipo de comida.

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