segunda-feira, 19 de novembro de 2018

Crónicas de um viajante ao Japão (VI)

Kyoto, Japão, Novembro de 2018

Quem visita capitais europeias entra fatalmente em igrejas, seja por uma questão de fé, seja por uma questão estética, para apreciar o estilo arquitectónico, a estatuária, as pinturas, a talha, etc. Estar no Japão significa entrar em pagodes ou em templos, "edifícios" belíssimos, estruturas feitas em madeira e que estão entre as maiores - há uma que é mesmo a maior - do mundo. Na semana passada entrámos num, cujo nome não consegui fixar: o ambiente é simpaticamente escuro, a madeira impressiona, o silêncio nunca é violado, uma ou outra escultura são de rara beleza ou causam grande impressão. As pessoas circulam de volta do altar onde o Buda olha por todos e para todos. Há uma certa reverência das pessoas, semelhante à de um cristão numa igreja cristã. 

Muitos destes pagodes / templos (confesso que não sei a diferença exacta) há uma caixa alta, rectangular e com pés, dotada ranhuras inclinadas, onde os fiéis depositam a sua esmola (socorro-me da nossa expressão). É vulgar ver gente local a deitar moedas, como é vulgar ver turistas a fazê-lo, talvez imaginando que é a sua contribuição para o momento espiritual do dia, ou uma espécie de Fontana di Trevi onde as moedas (já atiradas de longe, dada a profusão de turistas em frente) indicam uma possibilidade de regresso.

Entrámos num desses templos. Na penumbra dominante, três homens vestidos de forma normal, talvez num uniforme discreto. Um deles tem um boné com a pala voltada para trás. O que fazem? Equipados com um balde de plástico, um funil de plástico e sacos de pano, recolhem as moedas que os visitantes depositaram na caixa, talvez desejando dias melhores ou a recuperação de doenças. Não há nada de transcendental nesta actividade: um boné, equipamentos de plástico, sacos, barulho de moedas. 

Podemos ter pensamentos frágeis, esperançosos ou generosos no oferta de uma esmola. Fazemo-lo de forma discreta, não exuberante. Na hora da recolha, nada mais do que plástico, modernidade, cumprimentos de normas de execução permanente. Tudo se resume a algo muito terreno, inevitavelmente terreno.

JdB

1 comentário:

Laurus nobilis disse...

Pois... a recolha é uma espécie de ponto crítico do HACCP, em que o cumprimento das normas tem de ser rigoroso, para que a vida terrena não seja afectada por nenhuma contaminação...

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