Mostrar mensagens com a etiqueta Buenos Aires. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Buenos Aires. Mostrar todas as mensagens

29 maio 2017

Irene e Alfonso

Les beaux esprits se rencontrent, disse-lhe Alfonso quando, à porta do Café Tortoni, começaram o acerto do espectáculo das semanas seguintes. Irene sorriu - conhecia a citação de Voltaire, pois antes de se dedicar também à dança dos tangos e milongas tinha feito uma pós-graduação em pensamento europeu. Meditou sobre essa espécie de força gravitacional que, numa urbe pejada de desconhecidos e numa escala de probabilidades que se aproxima do quase impossível, impele duas pessoas determinadas uma para a outra. 

Alfonso era uma homem decididamente bonito - umas pernas altas e esguias, um tronco proporcionado, uma melena negra, muito negra, penteada com esmero e fixador para trás, uns olhos verdes de uma transparência estonteante. Tinha 34 anos e uma vida curta mas intensa dedicada ao estudo de Carlos Gardel, das origens do tango, da influência do clima uruguaio na sensualidade do mestre, da possibilidade de colocar a milonga dançada num trio (dois homens a disputarem a mesma mulher, por exemplo) ao nível de um erotismo marmoreado de infidelidade consentida. Dançar no Tortoni era o sonho de alguém para quem o ambiente vence a quantidade, para quem a pequenez do recinto casa com a grandeza da técnica e com o arrebatamento da alma. Dançar com Irene era o encontro de dois espíritos superiores, como se a brisa porteña só transportasse aquele odor que aproximava os dois amantes da música e da dança.

Irene parava o trânsito, imobilizava uma loja, congelava um assistência. Havia naquele nariz adunco, naqueles olhos negros de azeviche muito abertos, naquele andar de gazela magra e naquela boca quase imperceptível, tal a finura dos lábios, uma mistura milagrosa - ou maldita. Tinha-se formado em literatura sul-americana com uma tese de doutoramento onde defendia que a cegueira de Jorge Luís Borges não era uma fatalidade, mas uma escolha do escritor para se proteger de uma certa barbárie dos costumes e de uma incómoda estética das capas. Aos 31 anos, filha de uma dançarina profissional e de um tocador de bandonéon, optara pela vida nocturna no Tortoni para poder pagar um curso de Verão em Paris sobre o despojamento ao serviço da elevação da alma e da nobreza do carácter.

Les beaux esprits se rencontrent, repetiu-lhe Alfonso, estendendo-lhe uma mão firme, bem tratada e sem as calosidades que ofendem um toque que se quer subtil, ainda que erotizado. Ela sorriu e devolveu-lhe cumprimento, apercebendo-se do impacto que causara o nariz, a boca, a perspectiva do andar de elegância animal. E apercebeu-se ainda, fruto de um sexto sentido que mais não é do que o olhar atento a pormenores específicos, do desejo fortemente sexuado do seu parceiro das próximas semanas. Ele queria-a e ela sabia-o; a certeza foi-se confirmando no decorrer dos ensaios semanais que culminariam na estreia do espectáculo, numa noite amena do final de Abril.

O cantor, de olhos fechados, casaco apertado e gravata desalinhada com o renque de botões da camisa azul celeste com folhos, tremia sem remissão à medida que cantava el dia que me quieras / la rosa que engalana / Se vestirá de fiesta con su mejor color, porque não há, no tango, uma emoção de cantar que se desgarre da emoção das palavras. Alfonso sorriu, estreitou Irene nos braços, sentiu-lhe a perna ágil, a coxa torneada, as nádegas rijas, o desejo à flor da pele, a boca quase imperceptível que se abriria para o beijar. Quiero emborrachar al corazón / Para después poder brindar / Por los fracasos del amor. O artista já mudara de tango mas nada se alterava entre eles: as pernas juntas, os lábios tocados, as mãos apertadas, a tensão erotizante.

Já nos camarins Alfonso, afastando uma melena negra que tapava uns olhos verdes, como se houvesse um prenúncio de luto, pegou-lhe nas mãos e sussurrou-lhe: desejo-te como nunca desejei ninguém. Estou certo de que também me desejas. Fica comigo esta noite. Os olhos de Irene abriram-se, a boca desapareceu numa finura rara e o nariz permaneceu adunco e sensual: Sabes Alfonso, o sexo é uma concessão que as pessoas vulgares fazem ao burguesismo conjugal. Danças muito bem, mas não me verás desnuda. Passa bem. Amanhã começamos com a Milonga del Angel? 

10 minutos depois Alfonso observava Irene a sair do estabelecimento de braço dado com um senhor mais velho, que ele vira a servir à mesa no café Tortoni. Imaginou que seria o pai, tocador de bandonéon atirado para o olvido por via da idade, das técnicas modernas e da ausência de artroses. Só percebeu que não era quando a mão do acompanhante se agitou num movimento de vaivém erótico e pecaminoso, detendo-se aberta na nádega rija de Irene, doutorada em cegueira borgeana e adepta do despojamento e das carícias idosas.

JdB     
                

22 maio 2017

Marinela Muñoz Balducci

Atenhamo-nos numa parcela da estante de Marinela Muñoz Balducci, uma porteña de 67 anos, pernas finas e curtas, braços com tendência para o grosso, peito proeminente, olhos verdes e uma cara considerada de uma beleza rara e surpreendente. Digamos, ainda antes de nos fixarmos nos livros que são sua compra e sua herança, que à D. Marinela faz sentido vê-la de baixo a alto, porque se dá início à viagem com ligeiro desinteresse e se termina a mesma viagem com espanto. 

Livros, então:

- Gymnopedies: há um Richard Strauss por trás de um Eric Satie?
- Música rock - um estudo comparado entre o movimento e o crime organizado;
- A ópera bufa: dos primórdios ao rap, sempre a descer;
- 100 librettos de óperas que tem de ler antes de morrer;
- Wagner - a intemporalidade de um homem para todas as ocasiões;
- A prevalência dos meios tons nas óperas alemãs, russa e italiana;
- Música clássica como auto-ajuda: uma visão holística e terapêutica.

Se uma estante fala mais de um indivíduo do que o seu cônjuge, de D. Marinela está tudo dito: é a ópera, a música clássica, o ódio ao rock e à modernidade e às atonias dos cantautores, o fascínio evidente - e algo maçador, porque imposto a quem a visita - pelo belcanto, pelos românticos, pelo minimalismo de Satie ou pela gravidade de Mussorgsky. Entre os livros há pequenos nadas, bibelots que confirmam, mas não se impõem: um postal de Bayreuth e de Salzburgo, uma dedicatória da Schwarzkopf, um busto de Beethoven em marfinite, uma fotografia com Jacqueline du Pré ou da sua récita no conservatório antes de uma variz, persistente e demolidora, a ter atirado para uma cama com vista de esguelha para o cemitério da Recolecta e, com isso, ter visto a cremação da sua própria carreira. 

D. Marinela tem rotinas: de manhã são as óperas italianas, pela alegria; em dias de chuva e ventania conforta-se com os russos, cuja gravidade da voz lhe dá segurança e conforto perante a natureza em exibição. De tarde, nas tardes muito alegres, vai a um Lehar, não sem antes informar a empregada, uma índia da Bolívia que sorri numa vacuidade de dentes: é opereta, percebe a diferença? Nos dias certos de luto e saudade, corre os Requiem - ou música semelhante - por ordem alfabética: Berlioz, Brahms, onde se demora chorosa, Mahler, Mozart, durante o qual debica um alfajorre de maicena com os lábios espetados e os olhos a piscarem muito num ritmo de gula pecaminosa. Raramente, porque a arrogância é uma constante citadina não assumida, embora exibida, chama a boliviana e explica-lhe com acinte: está a escutar este Confuntatis? Notou a declinação latina? Sabe quem é o paráclito? 

Às primeiras terças feiras do mês, qualquer que seja o clima, Marinela Muñoz Balducci sai de casa pela escuridão da noite, demorando-se na porta de entrada, perscrutando o horizonte silencioso de uma cidade que vai adormecendo. Apanha um táxi e o destino sai-lhe com um misto de tremor e convicção, porque em ambos os sentimentos não há incompatibilidade. Volta duas horas depois, chorosa e nostálgica, coxeando levemente porque a variz não lhe dá tréguas, muito pelo contrário. Olha para a estante: acerta o postal de Salzburgo com a esquadria da biografia de Mozart, ajeita o busto de Beethoven para que não tape a dedicatória da Schwartzkopf. Depois deita-se, rememorando tudo: os sons, os movimentos, o palco com a fotografia reconfortante ao fundo, a decoração do recinto e a memória do contacto com quem ainda sabe ensinar. Por fim, já de camisa de noite cor de rosa, muito abotoada e até aos pés, enrosca-se na cama abraçada à fotografia de Gardel e chora copiosamente, não porque a variz a incomode sobremaneira e a aula de tango e de milonga tenha sido exigente, mas porque o mestre já partiu, levando para o túmulo a sensualidade que a Lacrimosa não lhe dá. Reza uma avé-Maria sentida, lembra os seus mortos, as crianças que sofrem e os velhos abandonados e, antes ainda de adormecer, tem lucidez para cantar el dia que me quieras, sabendo que uma letra de música pode ser um prenúncio de desejo.    

JdB   

19 maio 2017

Mi Buenos Aires Querido (V) - a música


Com este post interrompo a minha série de apontamentos sobre Buenos Aires. Voltarei, que devemos voltar aos sítios onde fomos felizes - e eu fui feliz em Buenos Aires, apesar do roubo, e sou feliz a escrever ou a falar sobre Buenos Aires, como fiz ontem com uma voluntária da Acreditar que por acaso é argentina e me deu dicas locais. 


Como já devo ter dito neste estabelecimento, há dois tipos de música que me prendem durante horas a fio. Apesar de gostar de música clássica, de algum jazz, de música tipo crooners, das melodias de sempre ou de alguma música étnica, o fado e a música sul-americana estão no topo dos topos. Se quanto ao fado a explicação é simples, há uma certa estranheza no facto de me perder horas a fio a escutar milongas, tangos, boleros e ritmos semelhantes. De tal forma é que, no café Tortoni, companhia ao meu lado me olhou com um misto de ternura e espanto, tal era o gozo com que ouvia e via o mini-espectáculo que se desenrolava a poucos passos de mim.


Não sei explicar o meu gosto pelo tango. Tenho com muitas músicas - ou géneros musicais - uma relação de memória. Isto é, faço uma associação imediata a pessoas, a locais, a sentimentos, a épocas. No fado são as letras, que fixo com facilidade e encanto, mesmo - ou sobretudo - as que falam em freiras absortas. E o tango? E a milonga ou o bolero? Nada me liga a nada - não sei dançar, não é música do meu tempo, estive este mês em Buenos Aires pela primeira vez, em minha casa de menino ou de jovem ouvia-se tanto este género musical como outros. Talvez o meu encanto, no que se refere ao tango, esteja relacionado com o meu gosto por músicas tristes e o tango, como alguém o definiu, es un sentimiento triste que se baila


Em 2019, já o disse particularmente, regressarei à América Latina, desta vez para ir ao Chile e ao Perú. E voltarei, gostava eu, a Buenos Aires. Para ouvir tangos, para me emocionar com o Mi Buenos Aires Querido ou com o El Dia Que Me Quieras.    



Nota: no estabelecimento fotografado acima, que o meu filho disse chamar-se La Catedral, tive a primeira e única aula de tango. 1 hora a treinar passos insípidos, dançando com uma senhora ou até com o instrutor, um rapaz que apreciou sentir os meus braços sobre os seus braços. Na mesa onde depois nos sentámos, baratas percorriam o labirinto entre copos e garrafas, indiferentes ao retrato do grande mestre que, ao fundo, nos sorria de forma bondosa e compreensiva. Acho que até apanhei uma dentro do meu copo que continha vinho tinto mau. Como era escuro achei que era rolha...

JdB 

18 maio 2017

Mi Buenos Aires Querido (IV) - o cemitério


Não tenho o culto de cemitérios: isto é, não os frequento para visitar, rezar ou apenas conversar com os meus mais próximos - num caso específico, muito próximo. Por outro lado, gosto de visitar cemitérios, porque são espaços de silêncio e onde a arquitectura urbana (pode dizer-se assim?) diz muito das pessoas, do culto dos mortos, da importância que os vivos querem dar a si próprios enquanto futuros habitantes daquele espaço. A esse propósito, sugiro sempre, a quem vai a Salzburgo, que visite o cemitério local: jazigos escavados na rocha, árvores lindíssimas que não o já característico cupressus sempervirens que iguala os cemitérios um pouco por todo o mundo. 

O cemitério da Recolecta, em Buenos Aires, é local de visita obrigatória. Um parte substantiva das romarias destinam-se a ver o jazigo onde está Eva Perón, mas acontece que este jazigo específico está muito longe de ser um dos mais bonitos daquela profusão de últimas moradas. 



Hoje em dia muitos de nós queremos ser cremados - não sei se é uma questão de higiene mental ou da memória, de horror ao cemitério ou de dimensão prática da vida. Em minha casa havia quem tivesse horror às gavetas, havia quem tivesse horror a uma agência específica (já desaparecida) porque vira um funcionário a puxar a manga do casaco e, com ela, polir uma canto do caixão - com o finado lá dentro, é claro... Coisas calistas, no fundo. No meu entendimento a cremação não é para todos, mas esta frase requer uma explicação lógica que não existe, porque radica na emoção mais funda e mais difícil de explicar à luz de uma razão.

Na morte somos todos iguais. No caixão somos todos iguais, apesar de todas as diferenças que nos caracterizaram em vida. Lázaro vale tanto como o Rei David; o poderoso Salazar, sobre cuja boca inerte assentou uma mosca desrespeitosa, tem o mesmo peso específico que o indigente encontrado sem vida por baixo de uma camada ingrata de cartão canelado. Na eternidade para os crentes, ou no vazio para os que o não são, todos valemos o mesmo, sendo que para os primeiros há o ajuste de contas com Criador quanto ao que fizemos e fomos em vida. Mas a morada celeste é igual para os bons ricos e poderosos e para os bons pobres e sem abrigo. 


No entanto, apesar desta igualdade das cinzas ou do caixão onde jaz um cadáver, constroem-se jazigos com homenagens, com arquitectura cuidada, com requinte e estética, com pompa e circunstância. Lá dentro está um morto que, no Céu em que acredito, se reveste de uma bondade de dimensão superior, indiferente ao mármore que o rodeou. Mesmo em mortos os estatuto é importante.

JdB

      

16 maio 2017

Mi Buenos Aires Querido (III) - Corrientes 348 (só para gente com um lado nostálgico-kitsch forte)


Para o meu Pai. 

Qual a diferença entre a minha augusta pessoa e tantas outras pessoas que andam pelo mundo? Não é a minha bondade ou a deles, seguramente superior à minha, que nos separa; não é o índice de massa corporal, em mim muito superior ao que seria desejado; não é o meu beatério ou a minha tentativa de esmerada educação; não é, tão pouco, o meu jeito para as letras, apesar do curso de engenharia. O que me distingue também não são as fixações, obsessões e coisas de igual jaez que todos têm. O que me distingue da turba alucinada (vejo a turba judaica alucinada, frase pascal de autor que desconheço) é o facto de eu as revelar e os outros não, porque acham que é sinal de doença mental ou desequilíbrio dos humores internos, e o mundo é feito para os sãos, porque só os outros têm problemas sociais, de (in)estabilidade psíquica, de manias desconformes... A diferença está, tão somente, na candura com que exponho as minhas estranhezas.

Disse aos meus companheiros de viagem a Buenos Aires: quero ir a Corrientes, 348. Quero forçosamente ir a Corrientes 348. A explicação, afirmei-lhes eu perante a perplexidade evidente com que escutaram a minha fixação repetida ad nauseam, é simples: trata-se de um tango que ouvi pela primeira vez há muitas décadas (quatro? cinco?), quando o meu pai trouxe um LP de um conjunto chamado Los Cinco Latinos. Passados tantos anos - e tantos anos sem ouvir este tango específico - sabia-o quase todo de cor e cantava-o com denodo e desafinação. Depois da primeira quadra, que não se percebe o que lá está a fazer, surge a frase mágica: Corrientes, 348, segundo piso ascensor...  

O número 348 da Avenida Corrientes, uma das principais artérias de Buenos Aires, era, há 40 ou 50 anos, um local, uma pastelaria, parece-me, frequentada pela alta sociedade porteña. As senhoras e os senhores iam de chapéu, de luvas, de elegância no traje e de educação na conduta. Pela noite as senhoras recolhiam ao remanso do seu lar, talvez comendo dulce de leche e dando bife de chorizo aos filhos, enquanto os cavalheiros subiam ao segundo andar onde outras senhoras - menos elegantes, quiçá... - trocavam favores de índole sexual por pesos argentinos e entusiasmos frustrados. A história foi-me contada por um taxista apreciador de Saramago; um homem, dizia ele, comprometido com o movimento social. 

Deixo-vos com um toque nostálgico-kitsch. Para gente forte como eu, que tem fixações delicadas e de entendimento difícil fora do âmbito de um divã de psiquiatra. 

Olvidou-me dizer que estive em Corrientes 348. É, desgraçadamente, uma entrada de garagem, mas o desejo de memória manteve duas portas originais a ladear o portão moderno, portas essas conspurcadas pelo movimento poluidor de viaturas que entram e saem. No segundo piso, imagino eu, os amanuenses locais sonham com cocktail y amor que já não há, substituído pelos objectivos do mês e pelas avaliações de desempenho. O mundo não se tornou um lugar melhor.

JdB


15 maio 2017

Mi Buenos Aires Querido (II) - a máquina fotográfica




Nunca seria escolhido para fotógrafo num grupo excursionista. Não fotografo o grupo, não quero ser fotografado, a geografia humana só me interessa se for local, dificilmente, a não ser que seja através de uma selfie, quem vai comigo consegue provar que esteve naquele sítio. 

Como sempre faço nas minhas últimas viagens, tiro dezenas, talvez mesmo algumas poucas centenas de fotografias: uma praça, uma fiada de prédios, pessoas pitorescas, uma curiosidade aborígene, um contraste de cores ou algo que ilustre um futuro texto. Em Buenos Aires - e comprovei-o pelas fotografias que agora vi, fotografei quase sempre para cima, porque é ao nível dos prédios, da arquitectura urbana, que a capital argentina se distingue. As pessoas têm feições europeias, usam roupas europeias, circulam em meios de transporte europeus. Quem aterrar na cidade, e não se ativer a mais nada, está na Europa. E talvez seja isso, também, que dá ao argentino uma certa dimensão arrogante. 




Circular por Buenos Aires é circular pelo hemisfério norte ocidental: podemos estar em Paris, em Viena, em Londres ou Madrid, em Nova Iorque. As ruas são rasgadas, as esplanadas abundantes, os espaços verdes em profusão. Acima de tudo, a arquitectura é europeia, no que essa arquitectura tem de bonito. Mas, acima desse tudo, há uma misturada muito grande, mas uma misturada equilibrada, harmónica, bonita ao olhar. Na mesma correnteza de prédios vemos várias capitais europeias.



Para já, a arquitectura urbana é um dos grandes motivos para se querer regressar a Buenos Aires. É a cidade mais bonita que vi? Não, mas está entre as mais bonitas, mais globalmente bonitas. A série de fotografias que irei pondo é apenas uma pequeníssima amostra...

JdB

    

11 maio 2017

Mi Buenos Aires Querido (I) - o roubo



Cheguei a Buenos Aires no sábado dia 29 de Março, após uma tirada directa e cansativa de 12 horas dentro de um avião, algo que, para uma pessoa com o meu físico, é uma prova dura e difícil. Não há filmes, almofadas, livros ou boa companhia que nos salvem. É penoso - e é aguentar!

Quando chegámos ao hotel, percebi que tinha deixado o telemóvel dentro do carro, o que seria um começo de viagem auspicioso. Fruto de uma decisão racional, rápida e eficiente de alguém que não eu, telefonou-se para o meu próprio número de telefone: uma, duas, três vezes - uma eternidade... O motorista de táxi atendeu à quarta tentativa, e prontificou-se a deixar-me o equipamento no hotel dentro de 30 minutos. Assim foi. A viagem começava bem, depois de ter começado mal.

No dia seguinte fomos para a feira de San Telmo, uma espécie de feira da Ladra, feira de Sintra, mercado de antiguidades, onde comprei, por bom preço, dois artigos para uma colecção. De mochila bem protegida, já que havíamos sido alertados para os roubos, ando por ali, vendo, observando, ziguezagueando entre a multidão compacta. Sentamo-nos no interior de um café a beber uma "tirada" (a "imperial" dos argentinos) e a comer uns amendoins. Coloco a mochila debaixo da mesa, entre as minhas pernas. Há gente que entra e sai, que o dia é de movimento. Atendo uma chamada telefónica de Portugal que me ocupa exactamente 29 segundos. É nessa altura, estou certo, que a mochila me é roubada - há alguém que viu uma rapariga nova com uma criança de 8 ou 9 anos pela mão, a deambular por ali, junto às mesas. A minha mente estava formatada para me proteger de tentativas de roubo no exterior, onde há encontrões e apertos, não no interior de um estabelecimento de restauração. 

Na esquadra da polícia, onde participo o roubo de várias coisas entre valioso e importante, mas de quase nenhum afecto, juntam-se na hora seguinte mais 6 ou 7 casais / famílias / agregados familiares vítimas de roubos semelhantes, ardilosos, em locais diversos da mesma feira. Depois, na meia hora seguinte, é a correria conjunta de pessoas disponíveis para bloquear cartões bancários, iniciar contactos para substituição do passaporte, minimizar a devassa dos meus ficheiros informáticos.

Há 40 anos que viajo e nunca fui roubado. Neste episódio não há só azar; há descuido da minha parte, excesso de confiança, pouca atenção naquilo com que se deve andar na rua. Também por isso os sentimentos que nos atravessam após um roubo desta dimensão são vários: desespero, irritação, ódio, frustração, fúria, esperança vã, sensação de impotência e de devassa da vida pessoal e profissional. Perdi coisas caras, coisas de que gostava, coisas que me fazem falta, coisas irrecuperáveis. 

Como se mantém a alegria numa viagem que, ao segundo dia, já estava tingida desta forma? A companhia ajudou, é claro, como ajudou o exercício que consiste em transformar tudo em dinheiro, o que, por mais paradoxo que possa parecer, relativiza as coisas: é como se tudo se resumisse a uma linha num orçamento. Não há desespero, tristeza, frustração sentimento de perda: é apenas dinheiro. Dramas é outro campeonato.

Como se mantém a alegria numa viagem que começou assim? Trauteando com gosto o o tango cujo título encima este post. Tudo o resto, repito, é apenas dinheiro. 

Mi Buenos Aires Querido
Cuando yo te vuelva a ver
No habrá más penas ni olvido

JdB

     

Acerca de mim

Arquivo do blogue