As melhores viagens são, por vezes, aquelas em que partimos ontem e regressamos muitos anos antes
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03 abril 2025
23 julho 2019
Música e poema para os dias de hoje
Lugares da Infância
Lugares da infância onde
sem palavras e sem memória
alguém, talvez eu, brincou
já lá não estão nem lá estou.
Onde? Diante
de que mistério
em que, como num espelho hesitante,
o meu rosto, outro rosto, se reflecte?
Venderam a casa, as flores
do jardim, se lhes toco, põem-se hirtas
e geladas, e sob os meus passos
desfazem-se imateriais as rosas e as recordações.
O quarto eu não o via
porque era ele os meus olhos;
e eu não o sabia
e essa era a sabedoria.
Agora sei estas coisas
de um modo que não me pertence,
como se as tivesse roubado.
A casa já não cresce
à volta da sala,
puseram a mesa para quatro
e o coração só para três.
Falta alguém, não sei quem,
foi cortar o cabelo e só voltou
oito dias depois,
já o jantar tinha arrefecido.
E fico de novo sozinho,
na cama vazia, no quarto vazio.
Lá fora é de noite, ladram os cães;
e eu cubro a cabeça com os lençóis.
Manuel Pina, in 'Um Sítio onde Pousar a Cabeça'
21 setembro 2018
Duas Últimas com cheiro de revivalismo
Hesitei se poria este post, escrito pelo MTS há um bom par de anos, neste estabelecimento. Quem chega aqui pela primeira vez, ou seja visita relativamente recente, talvez não saiba que Amália era recepcionista numa casa menos bem afamada, chamada Lanterna Vermelha, e que é dona de uma perna manca. Dra Clara é a dona e Esperanza uma das raparigas que por ali prestam serviço. Mas há alturas de nostalgia: visitei o blog Milhas Náuticas onde escreve um cavalheiro de quem sou amigo. Laurus Nobilis, de seu pseudónimo, esteve recentemente com a família (de um dos elementos da qual também sou amigo há muitos anos) em África e tirou fotografias que me remetem para o Zimbabwe. Há algumas semanas, uma colega de blog deste cavalheiro escreveu sobre Victoria Falls, onde estive há dez anos. Hoje, mais coisa menos coisa, mas também há dez anos, estava pela Beira (Moçambique) e conhecia realidades que vieram a ser importantes para mim. Por último, last but not the least, tango é sempre tango - e este é um dos mais bonitos que foram compostos.
JdB
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Diário de Amália, dia da morte de Carlos Gardel
A entrada do cliente foi antecipada por um aroma forte e quente, talvez sândalo. Alguns instantes depois chegou o portador daquele perfume. Aproximou-se do balcão, cumprimentou-me educadamente e estendeu-me um cartão-de-visita onde um itálico de estilo duvidoso identificava o cavalheiro:
JdB
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Diário de Amália, dia da morte de Carlos Gardel
A entrada do cliente foi antecipada por um aroma forte e quente, talvez sândalo. Alguns instantes depois chegou o portador daquele perfume. Aproximou-se do balcão, cumprimentou-me educadamente e estendeu-me um cartão-de-visita onde um itálico de estilo duvidoso identificava o cavalheiro:
Adalberto Barbosa. Tricampeão regional de danças de salão. Estabelecimento próprio. Aulas por marcação, faço domicílios.
O Sr. Barbosa é um homem de estatura média, magro, com um bigode fininho aparado sem erros, e um cabelo liso, cinzento e penteado para trás, composto por um fixador que lhe dá um ligeiríssimo brilho. Quando se aprochegou de mim, pressuroso, assomaram-lhe à boca as palavras com que enceta, provavelmente, a sua aproximação comercial.
- Talvez a menina esteja interessada. Milongas? Quickstep?
Olhando para a minha perna, percebeu que os requisitos para se ser boa dançarina não se cumpririam com a eficácia desejada. Compôs uma madeixa que julgou vaguíssimamente desarrumada e corrigiu:
- Eventualmente uma valsa inglesa…
A Dra. Clara veio à porta do escritório e, com aquela perspicácia sempre surpreendente, não hesitou na indicação:
- Amália: chame a Esperanza, se faz favor.
Esperanza Morales é uma argentina de Pipinas, junto ao Rio de la Plata. Integrou durante alguns anos um clube nocturno em Buenos Aires, uma cave escura inundada do som erótico do bandonéon, de fotografias de Gardel e de fumo de cigarro. Veio para Portugal atrás de um industrial nortenho que a seduziu com promessas de uma casa de praia na Póvoa do Varzim, um negócio emergente no ramo têxtil - e um Ferrari arrumado numa vivenda do Vale do Ave.
Percebeu o logro ao fim de poucos meses, e foi contratada pela Dra. Clara que soube desta rapariga através de uma rede de contactos fortes, seguros e eficazes, uma espécie de olheiros futebolísticos em versão contratação feminina. Esperanza tinha duas lágrimas fortes que lhe escorriam pela cara e uma figura esguia, insinuante e arruivada, além de uma fotografia do seu clube nocturno, debruada a branco e azul-celeste, com uma inscrição saudosa: Mi Buenos Aires Querido…
Esperanza Morales e Adalberto Barbosa dirigiram-se para o quarto, deixando para trás o aroma forte do sândalo e do fixador à base de óleo de castor. Com a porta fechada, o professor de música revela uma dimensão pragmática e optimizadora do dinheiro dispendido. Tem uma hora, como quem ensina o foxtrot a uma iniciada entre as seis e as sete da tarde. Reduz a luz do quarto até ao nível da escuridão lasciva e acende um cigarro, que deixa a consumir lentamente num cinzeiro, enquanto o fumo sobe num bailado voluptuoso.
Esperanza e Adalberto estão nus, integralmente nus, quando das colunas de som se começa a ouvir a voz inconfundível de Carlos Gardel
Acaricia mi ensueño
el suave murmullo
de tu suspirar.
Cómo ríe la vida
si tus ojos negros
me quieren mirar.
Na Fábrica das Ilusões dança-se o tango – dolente, erotizante, lascivo, sem as roupas que tolhem os movimentos e impedem o contacto da pele. Dois corpos desnudos envolvidos no silêncio de quem tem uma ideia superior da dança de salão. Um quarto, uma voz imorredoura, passos estudados e executados com a precisão de quem respira em uníssono.
Quando Gardel, o imortal, canta a estrofe
El día que me quieras
la rosa que engalana
se vestirá de fiesta
con su mejor color
Esperanza deita lágrimas nostálgicas que lhe escorrem pelo peito pequeno e trigueiro; Adalberto Barbosa, o professor que foi tricampeão e faz domicílios, beija-o, como quem oscula uma rosa sem espinhos. Deitam-se depois na cama, onde se amam com um sincronismo intuído, quais parceiros com décadas de pista num rodopiar perfeito. Têm no coração os recuerdos de Pipinas, Buenos Aires, clubes nocturnos, taças que se erguem na vitória de mais um campeonato regional.
- O que é para ti o tango, Esperanza?
- El tango, Adalberto de mi corazón, es un pensamiento triste que se baila.
O mestre da valsa, do jive, da rumba, acende um cigarro e retém uma emoção. A definição que já conhecia, dita por aquela operária espojada numa nudez vertiginosa e sul-americana, ganha foros comoventes. Ao seu lado, Esperanza sonha com Abasto, o bairro onde morou Gardel, e suspira a lonjura. Sentado na cama, o professor solta uma baforada de fumo e cantarola num dueto impossível com o grande mestre do tango:
El día que me quieras
no habrá más que armonía
Quando passa por mim na recepção oferece um sorriso amável, sincero, aberto sem cerimónia por debaixo de um bigode fininho e aparado sem erros.
- Eventualmente uma valsa inglesa, menina Amália…
Cumpriu-se mais um dia.
MTS
19 maio 2017
Mi Buenos Aires Querido (V) - a música
Com este post interrompo a minha série de apontamentos sobre Buenos Aires. Voltarei, que devemos voltar aos sítios onde fomos felizes - e eu fui feliz em Buenos Aires, apesar do roubo, e sou feliz a escrever ou a falar sobre Buenos Aires, como fiz ontem com uma voluntária da Acreditar que por acaso é argentina e me deu dicas locais.
Como já devo ter dito neste estabelecimento, há dois tipos de música que me prendem durante horas a fio. Apesar de gostar de música clássica, de algum jazz, de música tipo crooners, das melodias de sempre ou de alguma música étnica, o fado e a música sul-americana estão no topo dos topos. Se quanto ao fado a explicação é simples, há uma certa estranheza no facto de me perder horas a fio a escutar milongas, tangos, boleros e ritmos semelhantes. De tal forma é que, no café Tortoni, companhia ao meu lado me olhou com um misto de ternura e espanto, tal era o gozo com que ouvia e via o mini-espectáculo que se desenrolava a poucos passos de mim.
Não sei explicar o meu gosto pelo tango. Tenho com muitas músicas - ou géneros musicais - uma relação de memória. Isto é, faço uma associação imediata a pessoas, a locais, a sentimentos, a épocas. No fado são as letras, que fixo com facilidade e encanto, mesmo - ou sobretudo - as que falam em freiras absortas. E o tango? E a milonga ou o bolero? Nada me liga a nada - não sei dançar, não é música do meu tempo, estive este mês em Buenos Aires pela primeira vez, em minha casa de menino ou de jovem ouvia-se tanto este género musical como outros. Talvez o meu encanto, no que se refere ao tango, esteja relacionado com o meu gosto por músicas tristes e o tango, como alguém o definiu, es un sentimiento triste que se baila.
Em 2019, já o disse particularmente, regressarei à América Latina, desta vez para ir ao Chile e ao Perú. E voltarei, gostava eu, a Buenos Aires. Para ouvir tangos, para me emocionar com o Mi Buenos Aires Querido ou com o El Dia Que Me Quieras.
Nota: no estabelecimento fotografado acima, que o meu filho disse chamar-se La Catedral, tive a primeira e única aula de tango. 1 hora a treinar passos insípidos, dançando com uma senhora ou até com o instrutor, um rapaz que apreciou sentir os meus braços sobre os seus braços. Na mesa onde depois nos sentámos, baratas percorriam o labirinto entre copos e garrafas, indiferentes ao retrato do grande mestre que, ao fundo, nos sorria de forma bondosa e compreensiva. Acho que até apanhei uma dentro do meu copo que continha vinho tinto mau. Como era escuro achei que era rolha...
JdB
24 junho 2016
Músicas dos dias que correm
Lagrimas negras
Aunque tú me has echado en el abandono.
Aunque tú has muerto mis ilusiones.
En vez de maldecirte con justo encono
En mis sueños te colmo,
en mis sueños te colmo
de bendiciones
Sufro la inmensa pena de tu extravio
Siento, dolor profundo de tu partida.
Y lloro sin que tu sepas que el llanto mio
Tiene lagrimas negras,
Tiene lagrimas negras como mi vida.
Viendo el Guadalquivir
Las gitanas lavan
Los ninos en la orilla
Viendo los barcos pasar.
Agua de limonero
Agua de limonero
Si te acaricio la cara
Tienes que darme un beso
En el Guadalquivir
Mi Gitana lavaba
Panuelo de blanco y oro
Que yo te daba, que yo te daba
Tu me quieres dejar
Yo no quiero sufrir
Contigo me voy, gitana,
Aunque me cueste morir.
Contigo me voy, gitana,
Aunque me cueste morir.
***
El dia que me quieras
Acaricia mi ensueño
El suave murmullo
De tu suspirar.
Como ríe la vida
Si tus ojos negros
Me quieren mirar.
Y si es mío el amparo
De tu risa leve
Que es como un cantar,
Ella aquieta mi herida,
Todo, todo se olvida.
El día que me quieras
La rosa que engalana,
Se vestirá de fiesta
Con su mejor color.
Y al viento las campanas
Dirán que ya eres mía,
Y locas las fontanas
Se contarán su amor.
La noche que me quieras
Desde el azul del cielo,
Las estrellas celosas
Nos mirarán pasar.
Y un rayo misterioso
Hará nido en tu pelo,
Luciernagas curiosas que verán
Que eres mi consuelo.
El día que me quieras
No habrá más que armonía.
Será clara la aurora
Y alegre el manantial.
Traerá quieta la brisa
Rumor de melodía.
Y nos darán las fuentes
Su canto de cristal.
El día que me quieras
Endulzará sus cuerdas
El pájaro cantor.
Florecerá la vida
No existirá el dolor.
La noche que me quieras
15 julho 2015
Duas últimas
Já aqui postei uma definição de tango: un pensamiento triste que se baila. Nada me parece mais esteticamente verdadeiro. Gosto de tango e a tristeza não me provoca urticária. Faz parte da vida, como a alegria. Fugir com horror daquela, para só pensarmos nesta, parece-me descuidado. Afinal, precisamos da tristeza para apreciar a alegria, como precisamos da escuridão para apreciar a luz ou o silêncio para apreciar alguns sons. Por isso precisamos de una tarde gris para apreciar a outra que vier a cores.
Diego el Cigala já foi visitante deste estabelecimento, seja sozinho ou acompanhado por Bebo (ou Chucho) Valdes. Neste caso específico, a fazer algo que faz bem - cantar tango. Para os mais arrojados, segue também uma versão bem mais antiga, cantada por Julio Sosa.
JdB (lamentavelmente com pouca inspiração...)
Diego el Cigala já foi visitante deste estabelecimento, seja sozinho ou acompanhado por Bebo (ou Chucho) Valdes. Neste caso específico, a fazer algo que faz bem - cantar tango. Para os mais arrojados, segue também uma versão bem mais antiga, cantada por Julio Sosa.
JdB (lamentavelmente com pouca inspiração...)
16 maio 2014
Duas Últimas
Diego Ramón Jiménez Salazar, cigano, nasceu em Madrid em 1968. Mais conhecido pelo nome de Diego el Cigala, já passou por este estabelecimento, acompanhado pelo falecido Bebo Valdes. Decidi convidá-lo de novo, agora a cantar uma música de que gosto muito - Alfonsina y el Mar.
Conheci esta música na bonita voz da Simone (brasileira). A letra é de Mercedes Sosa e tem por trás uma tragédia, porque são os dramas que inspiram as coisas mais bonitas que o ouvido humano pode escutar.
Alfonsina Storni nasceu na Suíça, a 29 de Maio de 1892. Chamaram-lhe Alfonsina, que quer dizer "disposta a tudo". Aos quatro anos emigra para a Argentina, onde leva uma vida de dificuldades económicas. Escreve poemas incisivos e eficazes, sendo considerada, para a época em que viveu, uma feminista. Suicida-se em 1938, três anos depois de lhe ser diagnosticado um cancro.
Por la blanda arena
Que lame el mar
Su pequeña huella
No vuelve más
Un sendero solo
De pena y silencio llegó
Hasta el agua profunda
Un sendero solo
De penas mudas llegó
Hasta la espuma.
Sabe Dios qué angustia
Te acompañó
Qué dolores viejos
Calló tu voz
Para recostarte
Arrullada en el canto
De las caracolas marinas
La canción que canta
En el fondo oscuro del mar
La caracola.
Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.
Cinco sirenitas
Te llevarán
Por caminos de algas
Y de coral
Y fosforescentes
Caballos marinos harán
Una ronda a tu lado
Y los habitantes
Del agua van a jugar
Pronto a tu lado.
Bájame la lámpara
Un poco más
Déjame que duerma
Nodriza, en paz
Y si llama él
No le digas que estoy
Dile que Alfonsina no vuelve
Y si llama él
No le digas nunca que estoy
Di que me he ido.
Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fueste a buscar?
Una voz antigua
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.
Conheci esta música na bonita voz da Simone (brasileira). A letra é de Mercedes Sosa e tem por trás uma tragédia, porque são os dramas que inspiram as coisas mais bonitas que o ouvido humano pode escutar.
Alfonsina Storni nasceu na Suíça, a 29 de Maio de 1892. Chamaram-lhe Alfonsina, que quer dizer "disposta a tudo". Aos quatro anos emigra para a Argentina, onde leva uma vida de dificuldades económicas. Escreve poemas incisivos e eficazes, sendo considerada, para a época em que viveu, uma feminista. Suicida-se em 1938, três anos depois de lhe ser diagnosticado um cancro.
Por la blanda arena
Que lame el mar
Su pequeña huella
No vuelve más
Un sendero solo
De pena y silencio llegó
Hasta el agua profunda
Un sendero solo
De penas mudas llegó
Hasta la espuma.
Sabe Dios qué angustia
Te acompañó
Qué dolores viejos
Calló tu voz
Para recostarte
Arrullada en el canto
De las caracolas marinas
La canción que canta
En el fondo oscuro del mar
La caracola.
Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fuíste a buscar?
Una voz antigüa
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.
Cinco sirenitas
Te llevarán
Por caminos de algas
Y de coral
Y fosforescentes
Caballos marinos harán
Una ronda a tu lado
Y los habitantes
Del agua van a jugar
Pronto a tu lado.
Bájame la lámpara
Un poco más
Déjame que duerma
Nodriza, en paz
Y si llama él
No le digas que estoy
Dile que Alfonsina no vuelve
Y si llama él
No le digas nunca que estoy
Di que me he ido.
Te vas Alfonsina
Con tu soledad
¿Qué poemas nuevos
Fueste a buscar?
Una voz antigua
De viento y de sal
Te requiebra el alma
Y la está llevando
Y te vas hacia allá
Como en sueños
Dormida, Alfonsina
Vestida de mar.
JdB
11 junho 2013
Duas últimas
Aqui há algumas semanas escrevi sobre confiança, num post que incluía outras minudências, farrapos da minha vida quotidiana que por vezes só eu entendo, ou que nem eu entendo porque tudo fica a pairar na minha cabeça sem grande nexo, sem um molde que lhe dê forma. Fazia-me falta recordar uma frase que ouvi na penúltima aula da minha pós-graduação: a escrita tem uma função reparadora. Mas sinto, e não vou reclamar um sentimento que me seja específico e exclusivo, que tenho muito mais pensamentos na cabeça do que capacidade para os processar. Nada disto terá a ver com inteligência, cultura, intelectualidade. Talvez seja apenas uma curiosidade ingénua ou, como me dizia alguém próximo, uns olhos que não param quietos.
Caminho para a última aula da pós-graduação a que me desafiaram há um ano. Guardarei alguns pormenores mais prosaicos para outras núpcias. Agora penso no que aprendi, no que não sabia e já sei; penso naquilo que achava que sabia e que confirmei desconhecer por completo. Se me pedirem uma palavra para caracterizar este ano hesito e recuso o pedido, por incapacidade de sintetizar. Ocorre-me desafio, inquietação, desinstalação, amplitude, expansão. Os que não me conhecem imaginarão uma presunção na escolha das palavras, um novo-riquismo de vocabulário. Os que me conhecem bem perceberão que não é isso. Os que me pressagiam olhos permanentemente peregrinos intuirão que há aqui uma ligeiríssima angústia: o que faço com tudo isto de que me falaram nas aulas e que me abriu os olhos para tantas coisas? O que faço com tudo isto que que oiço e leio, que percebo que existe mas que eu não sei agarrar, moldar com as mãos, conferir-lhe um formato que se possa por numa estante da sala ou numa mesa de cabeceira, porque cada lugar tem a sua beleza e a sua importância metafóricas na vida de um homem?
Comecei este post pela ideia de confiança e perdi-me nos caminhos que trilhei. Mas perdi-me confiado, confesso, porque sei, a cada dia que passa, da importância de se ter confiança. Há o saber porque se acha que é assim que tem de ser; mas há o saber que advém das evidências, das sensações, dos acasos, dos sinais, da experiência. Há alguns anos, um homem com quem converso amiúde dizia-me que não é o tempo que cura o que quer que seja, mas a qualidade do tempo. Talvez eu tenha usado o meu tempo com qualidade. E só isso seja motivo de confiança.
Deixo-vos com Obsesion, dos senhores Bebo Valdes e Diego El Cigala. Porque também de obsessões se constrói a beleza da vida.
JdB
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