Mostrar mensagens com a etiqueta Cesário Verde. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cesário Verde. Mostrar todas as mensagens

26 junho 2026

Poemas dos dias que correm



Manhãs brumosas   
 
Aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, bucólica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.
 
Que línguas fala? A ouvir-lhe as inflexões inglesas,
- Na névoa, a caça, as pescas, os rebanhos! -
Sigo-lhe os altos pés por estas asperezas;
E o meu desejo nada em época e banhos,
E, ave de arribação, ele enche de surpresas
Seus olhos de perdiz, redondos e castanhos.
 
As irlandesas têm soberbos desmazelos!
Ela descobre assim, com lentidões ufanas,
Alta, escorrida, abstrata, os grossos tornozelos;
E como aquelas são marítimas, serranas,
Sugere-se o naufrágio, as músicas, os gelos
E as redes, a manteiga, os queijos, as choupanas.
 
Parece um rural boy! Sem brincos nas orelhas,
Traz um vestido claro a comprimir-lhe os flancos,
Botões a tiracolo e aplicações vermelhas;
E à roda, num país de prados e barrancos,
Se as minhas mágoas vão, mansíssimas ovelhas,
Correm os seus desdéns, como vitelos brancos.
 
E aquela, cujo amor me causa alguma pena,
Põe o chapéu ao lado, abre o cabelo à banda,
E com a forte voz cantada com que ordena,
Lembra-me, de manhã, quando nas praias anda,
Por entre o campo e o mar, católica, morena,
Uma pastora audaz da religiosa Irlanda.  
 
cesário verde
o livro de cesário verde e outros poemas
penguin clássicos
2024

22 fevereiro 2024

Da morte como oportunidade de promoção

No próximo Domingo fará anos que nasceu Cesário Verde (25 de Fevereiro de 1855 - 19 de Julho de 1886). Entre nascer, ser empregado de comércio e morrer, passar-se-iam uns escassos 31 anos. Numa carta dessa altura para o seu grande amigo Silva Pinto, diz-lhe Cesário:

O Dr. Sousa Martins perguntou-me qual era a minha ocupação habitual. Eu respondi-lhe naturalmente: empregado de comércio. Depois ele referiu-se à minha vida trabalhosa, que me distraía. Ora meu querido amigo o que te peço é que conversando com o Dr. Sousa Martins lhe dês a perceber que eu não sou o Sr. Verde, empregado de comércio. Eu não posso bem explicar-te, mas a tua amizade compreende os meus escrúpulos. Sim?  

Em O Livro do Desassossego, escreve Bernardo Soares:

Vivemos pela acção, isto é, pela vontade. Aos que não sabemos querer — sejamos génios ou mendigos — irmana-nos a impotência. De que me serve citar-me génio se resulto ajudante de guarda-livros? Quando Cesário Verde fez dizer ao médico que era, não o Sr. Verde empregado no comércio, mas o poeta Cesário Verde, usou de um daqueles verbalismos do orgulho inútil que suam o cheiro da vaidade. O que ele foi sempre, coitado, foi o Sr. Verde empregado no comércio. O poeta nasceu depois de ele morrer, porque foi depois de ele morrer que nasceu a apreciação do poeta.

Tal como digo no primeiro parágrafo, entre nascer, ser empregado de comércio e morrer passar-se-iam uns escassos 31 anos. Embora o Sr. Verde tenha escrito todos os versos antes do fatídico dia 19 de Julho de 1886, só depois de ter dito ao irmão não quero nada. Deixa-me dormir e ter exalado o último suspiro é que ele se transformou em Cesário Verde, o poeta de O Sentimento de um Ocidental. Ser-se empregado de comércio é comum; já ser-se poeta é singular. Foi preciso a morte - como para tanta gente, em tantos momentos e em tantos lugares - para que ele se alcandorasse e passasse de uma vulgaridade para um destaque. 

Se o mundo fosse imperfeitamente perfeito, ou permitisse todas as imaginações, talvez pudéssemos pensar que Cesário Verde, se tivesse vivido 100 anos, teria sido sempre, e fatalmente, o Sr. Verde. A morte salvou-o, porque o que ele queria era ser Cesário Verde

JdB    

15 junho 2022

Moleskine

Aeroporto de Lisboa (I)

Tem causado furor e indignação as horas de espera a que os turistas de fora da Europa são submetidos no Aeroporto de Lisboa. As fotografias são explicativas. Sim, é indigno, como me parece indigno ouvir um governante dizer que não há solução. Como também me parece indigno alguém responsável dizer que a situação se deve a um pico de chegadas. Vou imaginar que há uma série de aviões que chegam inesperadamente, sem que ninguém saiba, perante o espanto dos controladores áereos de voo - olha mais um! e olha outro ali... ena pá, tantos!  

Aeroporto de Lisboa (II)

No espaço de três ou quatro semanas embarquei numa low cost para Viena de Áustria - Terminal 2, portanto.  O espectáculo é de vergonha: uma sala apinhada de gente que não se consegue mexer, uma sanduíche a custar os olhos da cara e, para terminar, uma casa de banho cujo cheiro me fez lembrar a tasca mais tasca de província há 40 anos. O cheiro era - e perdoem-me o grafismo - a mijo. Que imagem damos de Portugal?

TAP

Querer viajar na TAP é como ir a Toronto e querer comer um pastel de nata - é uma decisão sem grande racionalidade por detrás. Vim na TAP de Viena para Lisboa: o voo atrasado, como é costume nestes voos de fim de dia; monitores na sala de embarque a informarem a obrigatoriedade de um procedimento que já não é obrigatório há mais de um mês; por fim, uma assistente de terra que, à pergunta se aquele procedimento era para cumprir, respondeu secamente: não sei. À chegada a Lisboa, o avião a estacionar - como de costume - no ponto mais afastado do edifício; 15 minutos de espera dentro de um autocarro porque um outro autocarro que embarcava passageiros em trânsito para o Funchal não se desviou 5 metros. Respondi a um questionário habitual: fui demolidor.

Frase ouvida por aí

"o turismo vai matar o turismo".

O que somos depois de mortos

O Sr. Verde, como foi conhecido, viveu uns escassos 31 anos, tendo morrido de tuberculose pulmonar. Na sua adultez dedicou-se a algumas actividades comerciais herdadas de um pai, pessoa abastada. Era conhecido, repito, por Sr. Verde. Quando morreu passou a ser conhecido como Cesário Verde. Tiraram-lhe o título de senhor, colaram-lhe o apelido que já tinha e nascia o poeta. Embora a mesma pessoa, o Sr. Verde não era o Cesário Verde. São dele, de Cesário Verde, e não do Sr. Verde, os versos seguintes. 

Merina

Rosto comprido, airosa, angelical, macia,
Por vezes, a alemã que eu sigo e que me agrada,
Mais alva que o luar de inverno que me esfria,
Nas ruas a que o gás dá noites de balada;

Sob os abafos bons que o Norte escolheria,
Com seu passinho curto e em suas lãs forrada,
Recorda-me a elegância, a graça, a galhardia
De uma ovelhinha branca, ingénua e delicada.

JdB  

30 novembro 2016

Poemas dos dias que correm

O Sentimento dum Ocidental


               I

           Avé-Maria

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

    O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

    Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

    E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

    Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

    Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

    Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!



               II

          Noite Fechada

    Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de <>!

    E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

    A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

    Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

    Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

    Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

    E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

    Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos, 
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

    Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

    E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

    E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.




               III

             Ao gás

    E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

    Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

    As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

    Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

    E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

    Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

    Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

    E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua trai^ne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

    Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

    Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

    <>
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!



               III

           Horas mortas

    O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

    Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

    E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

    Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

    Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

    Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

    Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

    E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

    Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

    E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

    E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

                                Cesário Verde

02 março 2016

Poemas dos dias que correm

Fotografia de Haya

Pró Pudor

Todas as noites ela me cingia 
Nos braços, com brandura gasalhosa; 
Todas as noites eu adormecia, 
Sentindo-a desleixada a langorosa. 

Todas as noites uma fantasia 
Lhe emanava da fronte imaginosa; 
Todas as noites tinha uma mania, 
Aquela concepção vertiginosa. 

Agora, há quase um mês, modernamente, 
Ela tinha um furor dos mais soturnos, 
Furor original, impertinente... 

Todas as noites ela, ah! sordidez! 
Descalçava-me as botas, os coturnos, 
E fazia-me cócegas nos pés... 

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde' 

***

Despede Teu Pudor

Despede teu pudor com a camisa 
E deixa alada louca sem memória 
Uma nudez nascida para a glória 
Sofrer de meu olhar que te heroíza 

Tudo teu corpo tem, não te humaniza 
Uma cegueira fácil de vitória 
E como a perfeição não tem história 
São leves teus enredos como a brisa 

Constante vagaroso combinado 
Um anjo em ti se opõe à luta e luto 
E tombo como um sol abandonado 

Enquanto amor se esvai a paz se eleva 
Teus pés roçando nos meus pés escuto 
O respirar da noite que te leva. 

Paulo Mendes Campos, in 'Antologia Poética' 

Acerca de mim

Arquivo do blogue