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04 fevereiro 2021

Da poesia e do mapa mental

Num ensaio intitulado The Internalization of Quest-Romance, publicado pela primeira vez em 1969, Harold Bloom, talvez o mais famoso crítico literário do séc. XX, afirmou o seguinte (e traduzo livremente):

A maior satisfação em ler Blake or Wordsworth advém da realização de novas escalas de tensão na mente, mas, tanto Blake como Wordsworth acreditavam, ainda que de forma diferente, que os prazeres da poesia eram apenas preliminares, no sentido de que os poemas eram, em última análise, andaimes para uma visão mais imaginativa, não fins em si próprios. Penso que aquilo que Blake e Wordsworth fazem pelos seus leitores, ou podem fazer, aproxima-se do que Freud faz, ou pode fazer, pelos seus, que é prover, quer um mapa mental, quer uma profunda fé de que o mapa pode ter uma utilização salvadora.  

No seu poema Isto, Fernando Pessoa usa esta ideia de "andaime" (sublinhados meus): 

Dizem que finjo ou minto

Tudo que escrevo. Não.

Eu simplesmente sinto

Com a imaginação.

Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,

O que me falha ou finda,

É como que um terraço

Sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio

Do que não está ao pé,

Livre do meu enleio,

Sério do que não é.

Sentir? Sinta quem lê!

Não me interessa tanto a ideia do andaime, mas a ideia de mapa mental, de Freud, de utilização salvadora (também poderia traduzir-se por utilização redentora). Interessa-me a ideia de que fazer ou ler poesia é uma espécie de psicoterapia, de ferramenta com que se pacificam desordens emocionais ou se restabelecem desequilíbrios.  

John Stuart Mill nasceu em 1806. Em 1809 (não 1819), começou a aprender grego. Aos sete anos já tinha lido maior parte dos diálogos de Platão. No ano seguinte começaria com o latim, tendo, entretanto, digerido Heródoto, Xenofonte, Diógenes Laércio, e parte de Luciano. Entre os oito e os doze acabou Virgílio, Horácio, Lívio, Salústio, Ovídio, Terêncio, Lucrécio, Aristóteles, Sófocles e Aristófanes; dominava a geometria, a álgebra e o cálculo diferencial; já tinha escrito uma história romana, um resumo da História Universal Antiga, uma história da Holanda e alguns poemas. Teve uma espécie de esgotamento nervoso aos 20 anos. Diz-se que se curou lendo (também) Wordsworth, um poeta do romantismo inglês que falava do coração de uma forma séria; esse romantismo que se dizia ser uma terapia ilusória ou, segundo Freud, uma ilusão erótica. Para Mill não era: apaixonou-se por Harriet Taylor. A dor, como o amor, são sentimentos que vão enchendo o nosso eu interno. Em última análise, cita Bloom, o homem tem de começar a amar para não adoecer

Termino com Harold Bloom:

Freud pensava que mesmo o romance [leia-se poesia], com seus elementos lúdicos, terá começado provavelmente nalguma experiência real, cuja "forte impressão no escritor havia despertado a memória de uma experiência anterior, geralmente pertencente à infância, que desperta então um desejo que encontra uma realização na obra em questão, e em que elementos do acontecimento recente e da velha memória devem ser perceptíveis."

Nunca tive uma relação óbvia com a poesia; tive sempre um desejo muito grande de elaborar o meu mapa mental, de sossegar as minhas feridas internas. Tivesse eu lido Harold Bloom mais cedo e o meu "affair" com a poesia começaria mais cedo.

JdB 

14 fevereiro 2017

Poemas para o dia de hoje

Namorados do Mirante

ELES ERAM mais antigos que o silêncio 
A perscrutar-se intimamente os sonhos 
Tal como duas súbitas estátuas 
Em que apenas o olhar restasse humano. 
Qualquer toque, por certo, desfaria 
Os seus corpos sem tempo em pura cinza. 
A Remontavam às origens — a realidade 
Neles se fez, de substância, imagem. 
Dela a face era fria, a que o desejo 
Como um hictus, houvesse adormecido 
Dele apenas restava o eterno grito 
Da espécie — tudo mais tinha morrido. 
Caíam lentamente na voragem 
Como duas estrelas que gravitam 
Juntas para, depois, num grande abraço 
Rolarem pelo espaço e se perderem 
Transformadas na magma incandescente 
Que milénios mais tarde explode em amor 
E da matéria reproduz o tempo 
Nas galáxias da vida no infinito. 

Eles eram mais antigos que o silêncio... 

Vinicius de Moraes, in 'O Operário em Construção'

***

Os Namorados Lisboetas

Entre o olival e a vinha 
o Tejo líquido jumento 
sua solar viola afina 
a todo o azul do seu comprimento 

tendo por lânguida bainha 
barcaças de bacia larga 
que possessas de ócio animam 
o sol a possuí-las de ilharga. 

Sua lata de branca tinta 
vai derramando um vapor 
precisando a tela marinha 
debuxada com os lápis de cor 

da liberdade de sermos dois 
a máquina de fazer púrpura 
que em todas as coisas fermenta 
seu tácito sumo de uva. 

Natália Correia, in "O Vinho e a Lira"

19 janeiro 2017

Eventos dos dias que correm


Foi ontem. Perante uma plateia bem composta de colegas de faculdade e outras pessoas que não conhecia, declamei, a meias com um rapaz actor de teatro e com quem também me cruzei nas aulas, quatro poemas de João de Deus, um dos quais reproduzido abaixo juntamente com uma versão declamada que encontrei na net. Foi uma experiência interessante, ainda que com alguns nervos à mistura. E lembro-me de um post que escrevi há algumas semanas sobre o que nos tinha dado a idade. A mim deu-me, entre outras, esta capacidade de vencer uma vergonha e uma dificuldade de exposição.

Agradeço à Helena Miranda e ao Tomás Castro o desafio. Que tenham gostado, é o que me interessa mais.

JdB

***

O DINHEIRO

O dinheiro é tão bonito, 
Tão bonito, o maganão! 
Tem tanta graça, o maldito, 
Tem tanto chiste, o ladrão! 
O falar, fala de um modo... 
Todo ele, aquele todo... 
E elas acham-no tão guapo! 
Velhinha ou moça que veja, 
Por mais esquiva que seja, 
                            Tlim! 
                            Papo. 

E a cegueira da justiça 
Como ele a tira num ai! 
Sem lhe tocar com a pinça; 
E só dizer-lhe: «Aí vai...» 
Operação melindrosa, 
Que não é lá qualquer coisa; 
Catarata, tome conta! 
Pois não faz mais do que isto, 
Diz-me um juiz que o tem visto: 
                            Tlim! 
                            Pronta. 

Nessas espécies de exames 
Que a gente faz em rapaz, 
São milagres aos enxames 
O que aquele demo faz! 
Sem saber nem patavina 
De gramática latina, 
Quer-se um rapaz dali fora? 
Vai ele com tais falinhas, 
Tais gaifonas, tais coisinhas... 
                            Tlim! 
                            Ora... 

Aquela fisionomia 
É lábia que o demo tem! 
Mas numa secretaria 
Aí é que é vê-lo bem! 
Quando ele de grande gala, 
Entra o ministro na sala, 
Aproveita a ocasião: 
«Conhece este amigo antigo?» 
— Oh, meu tão antigo amigo! 
                            (Tlim!) 
                            Pois não! 

João de Deus


13 janeiro 2017

Imagem e textos dos dias que correm



A Humildade é a Base da Sociedade

A humildade oferece a todos, mesmo ao que se desespera na solidão, a relação mais forte com o semelhante, e, na realidade, imediatamente, mas, com certeza, só no caso da humildade completa e duradoura. Ela é capaz disso por ser ao mesmo tempo a verdadeira linguagem da oração e a mais sólida das ligações. A relação com o semelhante é a relação da prece; a relação consigo mesmo, a relação do esforço para alcançar algo; a energia para esse esforço é extraída da oração. 

Podes conhecer outra coisa que não seja a fraude? Fosse ela um dia obstruída, tu de modo nenhum poderias olhar para lá a não ser que quisesses tranformar-te numa estátua de sal. 

Franz Kafka, in 'Os Aforismos de Zurau ou Reflexões no Pecado, Esperança, Sofrimento, e o Caminho da Verdade (106)'

***
Exercício Espiritual

Ouço-os de todo o lado. 
Eu é que sou assim. 
Eu é que sou assado, 
Eu é que sou o anjo revoltado, 
Eu é que não tenho santidade... 

Quando, afinal, ninguém 
Põe nos ombros a capa da humildade, 
E vem. 

Miguel Torga, in 'Diário (1939)'

05 janeiro 2017

Poema dos dias que correm

Catedral maronita | Alepo, Síria | 25.12.2016 - foto tirada daqui

De amor

despede-te de mim, bate devagar à porta:
tenho vontade de recomeçar, reerguer escombros,
ruínas, tarefas de pão e linho, não dar
nome às coisas senão o de um vago esquecimento,

abandono. despede-te de mim como se a vida
recomeçasse agora, não me procures onde
a memória arde e o destino se ausenta.

tudo são banalidades, afinal, quando assim
se recomeça e a vida falha como um material
solar e ilhéu. levamos poucas coisas, basta
um pouco de ar, os objectos fixos, em repouso,

os muros brancos de uma casa, o espaço
de uma mão. arrumo as malas e os sinais,
aquilo que nos adormece em plena tempestade.

Francisco José Viegas (in 366 Poemas que Falam de Amor, antologia de Vasco Graça Moura)



02 janeiro 2017

Textos dos dias que correm

In my end is my beginning 

Home is where one starts from. As we grow older
The world becomes stranger, the pattern more complicated
Of dead and living. Not the intense moment
Isolated, with no before and after,
But a lifetime burning in every moment
And not the lifetime of one man only
But of old stones that cannot be deciphered.
There is a time for the evening under starlight,
A time for the evening under lamplight
(The evening with the photograph album).
Love is most nearly itself
When here and now cease to matter.
Old men ought to be explorers
Here or there does not matter
We must be still and still moving
Into another intensity
For a further union, a deeper communion
Through the dark cold and the empty desolation,
The wave cry, the wind cry, the vast waters
Of the petrel and the porpoise. In my end is my beginning.

T S Eliot , "East Coker", "Four Quartets"

***

«"Os homens avançados em idade devem ser exploradores./ O lugar e a hora não são importantes./ Devemos mover-nos sem cessar para uma outra intensidade,/ para uma união mais completa e uma comunhão mais profunda (...)/ No meu fim está o meu princípio." 

"In my end is my beginning": é o último verso do segundo (1940) dos "Quatro quartetos" desse grande, árduo e fascinante poeta que foi Thomas Stearns Eliot. Era o moto da rainha Maria Stuart da Escócia, e é uma espécie de divisa que podemos assumir para meditar sobre as últimas horas deste ano.

Regressemos aos versos precedentes, dirigidos àqueles que já viveram muitos finais de ano. Não se deve ceder à tentação de que nada mais nos espera, de que já vimos tudo, que tudo já experimentámos suficientemente e, sobretudo, de que só nos espera uma fria lápide funerária sobre a qual estará idealmente gravado "The end".

O poeta, ao contrário, recorda-nos que devemos sempre peregrinar na vida, à procura de um "outro", de "uma união mais completa e de uma comunhão mais profunda". É o que também o islão crente chama ao encontro por excelência com o Criador, que nos aguarda uma vez transposto o umbral da morte.

É igualmente, por excelência, o anúncio cristão que abre uma fenda de luz entre a obscura galeria da agonia: "estaremos sempre com o Senhor", como diz S. Paulo, isto é, no eterno e no infinito do Deus de cujas mãos saímos e cujas mãos, no fim, nos recolherão. Sim, "in my end is my beginning", no meu fim há um novo início.» 

(Card. Gianfranco Ravasi, in "Avvenire")

29 dezembro 2016

Espectáculos (eventualmente tristes) de dias que correrão

Colegas de faculdade desafiaram-me para uma das sessões referidas no poster abaixo. Como pode ver-se, não vou falar de ninguém. O que farei, então, para além de poder segurar um candeeiro? Declamar alguém, neste caso João de Deus. Nunca declamei na vida, aleguei, menos ainda em público. Ambos foram solícitos no elogio: o João tem uma voz óptima... E eu, mais vencido pelo desafio do que pela vaidade, acedi. 

Quando dei por mim, percebi que não conhecia nada de João de Deus. Podia ser como algumas pessoas que afirmam não conhecer nada de Augusto Gil, e contudo, quando se lhes fala no batem leve, levemente / como quem chama por mim..., já o identificam; mas de facto não era: fui ler alguns poemas de João de Deus e nada de nada de nada.  

Ao dia de hoje não faço ideia dos poemas que lerei. Neste momento acho graça ao desafio. Nas vésperas preferiria ter emigrado, pelo que vaidade é apenas uma palavra começada por 'v'... 

Sinopse da Sessão (por Miguel Tamen): 'João de Deus (1830-1896) foi o primeiro de uma longa linhagem de poetas portugueses a quem se poderia aplicar o título, em Portugal inexistente, de Poeta Laureado. Está, como os herdeiros desse título, sepultado no Panteão Nacional. Foi autor de uma Cartilha que representou para várias gerações a ideia de literacia. Fragmentos dessa cartilha e de poemas seus são ainda lembrados, às vezes de forma truncada. Irá ser tratado como poeta por mérito próprio: serão lidos vários poemas seus que mostram esse mérito.'

Alea jact est...

JdB


Melancolia

Oh dôce luz! oh lua! 
Que luz suave a tua, 
E como se insinua 
Em alma que fluctua 
De engano em desengano! 
   Oh creação sublime! 
A tua luz reprime 
As tentações do crime, 
E á dôr que nos opprime 
Abres-lhe um oceano! 

É esse céo um lago, 
E tu, reflexo vago 
D'um sol, como o que eu trago 
No seio, onde o afago, 
No seio, onde o aperto? 
   Oh luz orphã do dia! 
Que mystica harmonia 
Ha n'essa luz tão fria, 
E a sombra que me guia 
N'este areal deserto! 

Embora as nuvens trajem 
De dia outra roupagem, 
O sol, de que és imagem, 
Não tem essa linguagem 
Que encanta, que namora! 
   Fita-te a gente, estuda, 
(Sem mêdo que se illuda) 
Essa linguagem muda... 
O teu olhar ajuda... 
E a gente sente e chora! 

Ah! sempre que descrevas 
A orbita que levas, 
Confia-me o que escrevas 
De quanto vês nas trevas, 
Que a luz do sol encobre! 
   As victimas, que escutas, 
De traças mais astutas 
Que as d'essas féras brutas... 
E as lastimas, as luctas 
Da orphã e do pobre! 

João de Deus, in 'Ramo de Flores' 


12 dezembro 2016

Poeta (sugerido) para o dia de hoje

Ainda Não

Ainda não 
não há dinheiro para partir de vez 
não há espaço de mais para ficar 
ainda não se pode abrir uma veia 
e morrer antes de alguém chegar 

ainda não há uma flor na boca 
para os poetas que estão aqui de passagem 
e outra escarlate na alma 
para os postos à margem 

ainda não há nada no pulmão direito 
ainda não se respira como devia ser 
ainda não é por isso que choramos às vezes 
e que outras somos heróis a valer 

ainda não é a pátria que é uma maçada 
nem estar deste lado que custa a cabeça 
ainda não há uma escada e outra escada depois 
para descer à frente de quem quer que desça 

ainda não há camas só para pesadelos 
ainda não se ama só no chão 
ainda não há uma granada 
ainda não há um coração 

António José Forte, in 'Uma Faca nos Dentes'

***

Retrato do Artista em Cão Jovem

Com o focinho entre dois olhos muito grandes 
por trás de lágrimas maiores 
este é de todos o teu melhor retrato 
o de cão jovem a que só falta falar 
o de cão através da cidade 
com uma dor adolescente 
de esquina para esquina cada vez maior 
latindo docemente a cada lua 
voltando o focinho a cada esperança 
ainda sem dentes para as piores surpresas 
mas avançando a passo firme 
ao encontro dos alimentos 

aqui estás tal qual 
és bem tu o cão jovem que ninguém esperava 
o cão de circo para os domingos da família 
o cão vadio dos outros dias da semana 
o cão de sempre 
cada vez que há um cão jovem 
neste local da terra 

António José Forte, in '40 Noites de Insónia de Fogo de Dentes numa Girándola Implacável e Outros Poemas'

***

Um Homem

De repente 
como uma flor violenta 
um homem com uma bomba à altura do peito 
e que chora convulsivamente 
um homem belo minúsculo 
como uma estrela cadente 
e que sangra 
como uma estátua jacente 
esmagada sob as asas do crepúsculo 
um homem com uma bomba 
como uma rosa na boca 
negra surpreendente 
e à espera da festa louca 
onde o coração lhe rebente 
um homem de face aguda 
e uma bomba 
cega 
surda 
muda 

António José Forte, in 'Uma Faca nos Dentes'

07 dezembro 2016

Poemas dos dias que correm

Litania do Natal

A noite fora longa, escura, fria.
Ai noites de Natal que dáveis luz,
Que sombra dessa luz nos alumia?
Vim a mim dum mau sono, e disse: «Meu Jesus...»
Sem bem saber, sequer, porque o dizia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Na cama em que jazia,
De joelhos me pus
E as mãos erguia.
Comigo repetia: «Meu Jesus...»
Que então me recordei do santo dia.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

Ai dias de Natal a transbordar de luz,
Onde a vossa alegria?
Todo o dia eu gemia: «Meu Jesus...»
E a tarde descaiu, lenta e sombria.

E o Anjo do Senhor: «Ave, Maria!»

De novo a noite, longa, escura, fria,
Sobre a terra caiu, como um capuz
Que a engolia.
Deitando-me de novo, eu disse: «Meu Jesus...»

E assim, mais uma vez, Jesus nascia.

José Régio, in 'Antologia Poética' 

***

Ladainha dos Póstumos Natais

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que se veja à mesa o meu lugar vazio

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que hão-de me lembrar de modo menos nítido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que só uma voz me evoque a sós consigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que não viva já ninguém meu conhecido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem vivo esteja um verso deste livro

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que terei de novo o Nada a sós comigo

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que nem o Natal terá qualquer sentido

Há-de vir um Natal e será o primeiro
em que o Nada retome a cor do Infinito


David Mourão-Ferreira, in 'Cancioneiro de Natal' 

30 novembro 2016

Poemas dos dias que correm

O Sentimento dum Ocidental


               I

           Avé-Maria

    Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

    O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

    Batem carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

    Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

    Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

    E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

    E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar alguns hotéis da moda.

    Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

    Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

    Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

    Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!



               II

          Noite Fechada

    Toca-se às grades, nas cadeias. Som
Que mortifica e deixa umas loucuras mansas!
O Aljube, em que hoje estão velhinhas e crianças,
Bem raramente encerra uma mulher de <>!

    E eu desconfio, até, de um aneurisma
Tão mórbido me sinto, ao acender das luzes;
À vista das prisões, da velha Sé, das Cruzes,
Chora-me o coração que se enche e que se abisma.

    A espaços, iluminam-se os andares,
E as tascas, os cafés, as tendas, os estancos
Alastram em lençol os seus reflexos brancos;
E a Lua lembra o circo e os jogos malabares.

    Duas igrejas, num saudoso largo,
Lançam a nódoa negra e fúnebre do clero:
Nelas esfumo um ermo inquisidor severo,
Assim que pela História eu me aventuro e alargo.

    Na parte que abateu no terremoto,
Muram-me as construções rectas, iguais, crescidas;
Afrontam-me, no resto, as íngremes subidas,
E os sinos dum tanger monástico e devoto.

    Mas, num recinto público e vulgar,
Com bancos de namoro e exíguas pimenteiras,
Brônzeo, monumental, de proporções guerreiras,
Um épico doutrora ascende, num pilar!

    E eu sonho o Cólera, imagino a Febre,
Nesta acumulação de corpos enfezados;
Sombrios e espectrais recolhem os soldados;
Inflama-se um palácio em face de um casebre.

    Partem patrulhas de cavalaria
Dos arcos dos quartéis que foram já conventos:
Idade Média! A pé, outras, a passos lentos, 
Derramam-se por toda a capital, que esfria.

    Triste cidade! Eu temo que me avives
Uma paixão defunta! Aos lampiões distantes,
Enlutam-me, alvejando, as tuas elegantes,
Curvadas a sorrir às montras dos ourives.

    E mais: as costureiras, as floristas
Descem dos magasins, causam-me sobressaltos;
Custa-lhes a elevar os seus pescoços altos
E muitas delas são comparsas ou coristas.

    E eu, de luneta de uma lente só,
Eu acho sempre assunto a quadros revoltados:
Entro na brasserie; às mesas de emigrados,
Ao riso e à crua luz joga-se o dominó.




               III

             Ao gás

    E saio. A noite pesa, esmaga. Nos
Passeios de lajedo arrastam-se as impuras.
Ó moles hospitais! Sai das embocaduras
Um sopro que arripia os ombros quase nus.

    Cercam-me as lojas, tépidas. Eu penso
Ver círios laterais, ver filas de capelas,
Com santos e fiéis, andores, ramos, velas,
Em uma catedral de um comprimento imenso.

    As burguesinhas do Catolicismo
Resvalam pelo chão minado pelos canos;
E lembram-me, ao chorar doente dos pianos,
As freiras que os jejuns matavam de histerismo.

    Num cutileiro, de avental, ao torno,
Um forjador maneja um malho, rubramente;
E de uma padaria exala-se, inda quente,
Um cheiro salutar e honesto a pão no forno.

    E eu que medito um livro que exacerbe,
Quisera que o real e a análise mo dessem;
Casas de confecções e modas resplandecem;
Pelas vitrines olha um ratoneiro imberbe.

    Longas descidas! Não poder pintar
Com versos magistrais, salubres e sinceros,
A esguia difusão dos vossos reverberos,
E a vossa palidez romântica e lunar!

    Que grande cobra, a lúbrica pessoa,
Que espartilhada escolhe uns xales com debuxo!
Sua excelência atrai, magnética, entre luxo,
Que ao longo dos balcões de mogno se amontoa.

    E aquela velha, de bandós! Por vezes,
A sua trai^ne imita um leque antigo, aberto,
Nas barras verticais, a duas tintas. Perto,
Escarvam, à vitória, os seus mecklemburgueses.

    Desdobram-se tecidos estrangeiros;
Plantas ornamentais secam nos mostradores;
Flocos de pós-de-arroz pairam sufocadores,
E em nuvens de cetins requebram-se os caixeiros.

    Mas tudo cansa! Apagam-se nas frentes
Os candelabros, como estrelas, pouco a pouco;
Da solidão regouga um cauteleiro rouco;
Tornam-se mausoléus as armações fulgentes.

    <>
E, nas esquinas, calvo, eterno, sem repouso,
Pede-me esmola um homenzinho idoso,
Meu velho professor nas aulas de Latim!



               III

           Horas mortas

    O tecto fundo de oxigénio, de ar,
Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;
Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,
Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

    Por baixo, que portões! Que arruamentos!
Um parafuso cai nas lajes, às escuras:
Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,
E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

    E eu sigo, como as linhas de uma pauta
A dupla correnteza augusta das fachadas;
Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,
As notas pastoris de uma longínqua flauta.

    Se eu não morresse, nunca! E eternamente
Buscasse e conseguisse a perfeição das cousas!
Esqueço-me a prever castíssimas esposas,
Que aninhem em mansões de vidro transparente!

    Ó nossos filhoes! Que de sonhos ágeis,
Pousando, vos trarão a nitidez às vidas!
Eu quero as vossas mães e irmãs estremecidas,
Numas habitações translúcidas e frágeis.

    Ah! Como a raça ruiva do porvir,
E as frotas dos avós, e os nómadas ardentes,
Nós vamos explorar todos os continentes
E pelas vastidões aquáticas seguir!

    Mas se vivemos, os emparedados,
Sem árvores, no vale escuro das muralhas!...
Julgo avistar, na treva, as folhas das navalhas
E os gritos de socorro ouvir, estrangulados.

    E nestes nebulosos corredores
Nauseiam-me, surgindo, os ventres das tabernas;
Na volta, com saudade, e aos bordos sobre as pernas,
Cantam, de braço dado, uns tristes bebedores.

    Eu não receio, todavia, os roubos;
Afastam-se, a distância, os dúbios caminhantes;
E sujos, sem ladrar, ósseos, febris, errantes,
Amareladamente, os cães parecem lobos.

    E os guardas, que revistam as escadas,
Caminham de lanterna e servem de chaveiros;
Por cima, as imorais, nos seus roupões ligeiros,
Tossem, fumando sobre a pedra das sacadas.

    E, enorme, nesta massa irregular
De prédios sepulcrais, com dimensões de montes,
A Dor humana busca os amplos horizontes,
E tem marés, de fel, como um sinistro mar!

                                Cesário Verde

23 novembro 2016

Poemas dos dias que correm

O Homem que Contempla

Vejo que as tempestades vêm aí
pelas árvores que, à medida que os dias se tomam mornos,
batem nas minhas janelas assustadas
e ouço as distâncias dizerem coisas
que não sei suportar sem um amigo,
que não posso amar sem uma irmã.

E a tempestade rodopia, e transforma tudo,
atravessa a floresta e o tempo
e tudo parece sem idade:
a paisagem, como um verso do saltério,
é pujança, ardor, eternidade.

Que pequeno é aquilo contra que lutamos,
como é imenso, o que contra nós luta;
se nos deixássemos, como fazem as coisas,
assaltar assim pela grande tempestade, —
chegaríamos longe e seríamos anónimos.

Triunfamos sobre o que é Pequeno
e o próprio êxito torna-nos pequenos.
Nem o Eterno nem o Extraordinário
serão derrotados por nós.
Este é o anjo que aparecia
aos lutadores do Antigo Testamento:
quando os nervos dos seus adversários
na luta ficavam tensos e como metal,
sentia-os ele debaixo dos seus dedos
como cordas tocando profundas melodias.

Aquele que venceu este anjo
que tantas vezes renunciou à luta.
esse caminha erecto, justificado,
e sai grande daquela dura mão
que, como se o esculpisse, se estreitou à sua volta.
Os triunfos já não o tentam.
O seu crescimento é: ser o profundamente vencido
por algo cada vez maior.

Rainer Maria Rilke, in "O Livro das Imagens"
Tradução de Maria João Costa Pereira

***

Contemplação

Sonho de olhos abertos, caminhando
Não entre as formas já e as aparências,
Mas vendo a face imóvel das essências,
Entre idéias e espíritos pairando...

Que é o mundo ante mim? fumo ondeando,
Visões sem ser, fragmentos de existências...
Uma névoa de enganos e impotências
Sobre vácuo insondável rastejando...

E d'entre a névoa e a sombra universais
Só me chega um murmúrio, feito de ais...
É a queixa, o profundíssimo gemido

Das coisas, que procuram cegamente
Na sua noite e dolorosamente
Outra luz, outro fim só presentido...

Antero de Quental, in "Sonetos"

02 setembro 2016

Poemas dos dias que correm

Um Beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,
ou talvez o pior...Glória e tormento,
contigo à luz subi do firmamento,
contigo fui pela infernal descida!
Morreste, e o meu desejo não te olvida:
queimas-me o sangue, enches-me o pensamento,
e do teu gosto amargo me alimento,
e rolo-te na boca malferida.
Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,
batismo e extrema-unção, naquele instante
por que, feliz, eu não morri contigo?
Sinto-me o ardor, e o crepitar te escuto,
beijo divino! e anseio delirante,
na perpétua saudade de um minuto....

Olavo Bilac, in "Poesias"

***

Il Bacio

O Beijo! malva-rosa em jardim de carícias!
Vivo acompanhamento no piano dos dentes
Dos refrãos que Amor canta nas almas ardentes
Com a sua voz de arcanjo em lânguidas delícias!

Divino e gracioso Beijo, tão sonoro!
Volúpia singular, álcool inenarrável!
O homem, debruçado na taça adorável,
Deleita-se em venturas que nunca se esgotam.

Como o vinho do Reno e a música, embalas
E consolas a mágoa, que expira em conjunto
Com os lábios amuados na prega purpúrea...
Que um maior, Goethe ou Will, te erga um verso clássico.

Quanto a mim, trovador franzino de Paris,
Só te ofereço um bouquet de estrofes infantis:
Sê benévolo e desce aos lábios insubmissos
De Uma que eu bem conheço, Beijo, e neles ri.

Paul Verlaine, in "Caprichos"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

25 agosto 2016

Poemas dos dias que correm

insinceridade

quis-nos aos dois enlaçados
meu amor ao lusco-fusco
mas sem saber o que busco:
há poentes desolados
e o vento às vezes é brusco

nem o cheiro a maresia
a rebate nas marés
na costa de lés a lés
mais tempo nos duraria
do que a espuma a nossos pés

a vida no sol-poente
fica assim num triste enleio
entre melindre e receio
de que a sombra se acrescente
e nós perdidos no meio

sem perdão e sem disfarce,
sem deixar uma pegada
por sobre a areia molhada,
a ver o dia apagar-se
e a noite feita de nada

por isso afinal não quero
ir contigo ao lusco-fusco,
meu amor, nem é sincero
fingir eu que assim te espero,
sem saber bem o que busco.

Vasco Graça Moura, in "Antologia dos Sessenta Anos"

***

Escavação

Numa ânsia de ter alguma cousa,
Divago por mim mesmo a procurar,
Desço-me todo, em vão, sem nada achar,
E a minh'alma perdida não repousa.

Nada tendo, decido-me a criar:
Brando a espada: sou luz harmoniosa
E chama genial que tudo ousa
Unicamente à fôrça de sonhar...

Mas a vitória fulva esvai-se logo...
E cinzas, cinzas só, em vez do fogo...
- Onde existo que não existo em mim?

. . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . .

Um cemitério falso sem ossadas,
Noites d'amor sem bôcas esmagadas -
Tudo outro espasmo que princípio ou fim...

Mário de Sá-Carneiro, in 'Dispersão'

18 agosto 2016

Poemas dos dias que correm

Poeminha sobre o Trabalho

Chego sempre à hora certa,
contam comigo, não falho,
pois adoro o meu emprego:
o que detesto é o trabalho.

Millôr Fernandes, in "Pif-Paf" 


***

Poema dum Funcionário Cansado

A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita

estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos,
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só

Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Porque não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Porque me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço?

Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música

São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo uma noite só comprida
num quarto só

António Ramos Rosa, in 'O Grito Claro'




11 agosto 2016

Poemas dos dias que correm

A Angústia

Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
Nem pastorais do Sul, com o seu eco tão rubro,
A solene dolência dos poentes, além.

Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções,
Da poesia, dos templos e das espirais
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.

Já farta de existir, com medo de morrer,
Como um brigue perdido entre as ondas do mar,
A minha alma persegue um naufrágio maior.

Paul Verlaine, in "Melancolia"
Tradução de Fernando Pinto do Amaral

***

Bicarbonato de Soda

Súbita, uma angústia...
Ah, que angústia, que náusea do estômago à alma!
Que amigos que tenho tido!
Que vazias de tudo as cidades que tenho percorrido!
Que esterco metafísico os meus propósitos todos!

Uma angústia,
Uma desconsolação da epiderme da alma,
Um deixar cair os braços ao sol-pôr do esforço...
Renego.
Renego tudo.
Renego mais do que tudo.
Renego a gládio e fim todos os Deuses e a negação deles.
Mas o que é que me falta, que o sinto faltar-me no estômago e na
circulação do sangue?
Que atordoamento vazio me esfalfa no cérebro?

Devo tomar qualquer coisa ou suicidar-me?
Não: vou existir. Arre! Vou existir.
E-xis-tir...
E--xis--tir ...

Meu Deus! Que budismo me esfria no sangue!
Renunciar de portas todas abertas,
Perante a paisagem todas as paisagens,

Sem esperança, em liberdade,
Sem nexo,
Acidente da inconsequência da superfície das coisas,
Monótono mas dorminhoco,
E que brisas quando as portas e as janelas estão todas abertas!
Que verão agradável dos outros!

Dêem-me de beber, que não tenho sede!

Álvaro de Campos, in "Poemas"
Heterónimo de Fernando Pessoa

28 julho 2016

Poemas dos dias que correm

O Mar é Longe, mas Somos Nós o Vento

O mar é longe, mas somos nós o vento;
e a lembrança que tira, até ser ele,
é doutro e mesmo, é ar da tua boca
onde o silêncio pasce e a noite aceita.
Donde estás, que névoa me perturba
mais que não ver os olhos da manhã
com que tu mesma a vês e te convém?
Cabelos, dedos, sal e a longa pele,
onde se escondem a tua vida os dá;
e é com mãos solenes, fugitivas,
que te recolho viva e me concedo
a hora em que as ondas se confundem
e nada é necessário ao pé do mar.

Pedro Tamen, in "Daniel na Cova dos Leões"

***

Desencontro

Só quem procura sabe como há dias
de imensa paz deserta; pelas ruas
a luz perpassa dividida em duas:
a luz que pousa nas paredes frias,
outra que oscila desenhando estrias
nos corpos ascendentes como luas
suspensas, vagas, deslizantes, nuas,
alheias, recortadas e sombrias.

E nada coexiste. Nenhum gesto
a um gesto corresponde; olhar nenhum
perfura a placidez, como de incesto,

de procurar em vão; em vão desponta
a solidão sem fim, sem nome algum -
- que mesmo o que se encontra não se encontra.

Jorge de Sena, in 'Post-Scriptum'

14 julho 2016

Poemas dos dias que correm

Não Choreis os Mortos

Não choreis nunca os mortos esquecidos
Na funda escuridão das sepulturas.
Deixai crescer, à solta, as ervas duras
Sobre os seus corpos vãos adormecidos.

E quando, à tarde, o Sol, entre brasidos,
Agonizar... guardai, longe, as doçuras
Das vossas orações, calmas e puras,
Para os que vivem, nudos e vencidos.

Lembrai-vos dos aflitos, dos cativos,
Da multidão sem fim dos que são vivos,
Dos tristes que não podem esquecer.

E, ao meditar, então, na paz da Morte,
Vereis, talvez, como é suave a sorte
Daqueles que deixaram de sofrer.

Pedro Homem de Mello, in "Caravela ao Mar"

***

Ao Meu Maior Amigo

Quando eu morrer, eu sei, tu escreverás
Triste soneto à morte prematura;
Dirás que a vida cansa em amargura
E, pálido e frio, tu me cantarás.

Nas quadras, reflectido se lerá
De como, vã e breve, a vida expira
E como em terra funda, dura e fria,
A vida, má ou boa, acabará.

A seguir, nos tercetos, tu dirás
Que a morte é mistério, tudo fugaz,
Verdadeira, talvez, a vida além.

Por fim porás a data, assinarás.
E, relido o soneto, ficarás
Contente por tê-lo escrito bem.

Alexander Search, in "Poesia"

07 julho 2016

Poemas dos dias que correm

Os Dois Horizontes

Dois horizontes fecham nossa vida:

          Um horizonte, — a saudade
          Do que não há de voltar;
          Outro horizonte, — a esperança
          Dos tempos que hão de chegar;
          No presente, — sempre escuro,—
          Vive a alma ambiciosa
          Na ilusão voluptuosa
          Do passado e do futuro.

          Os doces brincos da infância
          Sob as asas maternais,
          O vôo das andorinhas,
          A onda viva e os rosais;
          O gozo do amor, sonhado
          Num olhar profundo e ardente,
          Tal é na hora presente
          O horizonte do passado.

          Ou ambição de grandeza
          Que no espírito calou,
          Desejo de amor sincero
          Que o coração não gozou;
          Ou um viver calmo e puro
          À alma convalescente,
          Tal é na hora presente
          O horizonte do futuro.

          No breve correr dos dias
          Sob o azul do céu, — tais são
          Limites no mar da vida:
          Saudade ou aspiração;
          Ao nosso espírito ardente,
          Na avidez do bem sonhado,
          Nunca o presente é passado,
          Nunca o futuro é presente.

          Que cismas, homem? – Perdido
          No mar das recordações,
          Escuto um eco sentido
          Das passadas ilusões.
          Que buscas, homem? – Procuro,
          Através da imensidade,
          Ler a doce realidade
          Das ilusões do futuro.
       
          Dois horizontes fecham nossa vida.

Machado de Assis, in 'Crisálidas'

***

Como Podemos Esperar

Como podemos esperar.
Aguardar o que nossas mãos possam reter.
Uma palavra. O olhar cúmplice. Se as coisas
têm já o estado do vento
o que nas ruas fica das vozes ao fim do dia.

Aguardar mais aguardar nada
quanto mais se repete uma palavra
«estou sentado virado para a parede desta casa»
baixo, mais baixo ainda,
«estou sentado virado para a parede desta casa».

Fazer que não haja sucedido o sucedido.
O prazer de sentir chegar as coisas
o riso sob a chuva
o frio que faz. Aqui

como podemos esperar uma noite de lua e vento?

João Miguel Fernandes Jorge, in "Direito de Mentir"

01 julho 2016

Poemas dos dias que correm

Fotografia de Fan Ho, tirada daqui

Depois da Luta e Depois da Conquista

Depois da luta e depois da conquista
Fiquei só! Fora um ato antipático!
Deserta a Ilha, e no lençol aquático
Tudo verde, verde, a perder de vista.
Porque vos fostes, minhas caravelas,
Carregadas de todo o meu tesoiro?
_ Longas teias de luar de lhama de oiro,
Legendas a diamantes das estrelas!

Quem vos desfez, formas inconsistentes,
Por cujo amor escalei a muralha,
_ Leão armado, uma espada nos dentes?
Felizes vós, ó mortos da batalha!
Sonhais, de costas, nos olhos abertos
Refletindo as estrelas, boquiabertos...

Camilo Pessanha, in 'Clepsidra'

***

Aos Vencedores

Visto que tudo passa e as épicas memorias
Dos fortes, dos heroes, se vão cada vez mais,
Que tudo é luto e pó! ó vós que triumphaes
Não turbeis a razão nos vinhos das vãas glorias!

Não ergais alto a taça, á hora dos gemidos,
Esquecidos talvez nos gosos, nos regallos;
E não façaes jámais pastar vossos cavallos
Na herva que cobrir os ossos dos vencidos!

Não celebreis jámais as festas dos noivados,
Não encontreis na volta os lugubres cortejos!
- E se amardes, olhae que ao som dos vossos beijos
Não respondam da praça os ais dos fusilados!

Sim! - se venceste emfim, folgae todas as horas,
Mas deixae lastimar-se os orphãos, as amantes,
Nem façaes, junto a nós, altivos, triumphantes,
Pelas ruas demais tinir vossas esporas!

Pois toda a gloria é pó! toda a fortuna vã! -
- E nós lassos emfim dos prantos dolorosos,
Regámos já demais a terra--ó gloriosos
Vencedores! talvez, - vencidos d'amanhã!

António Gomes Leal, in 'Claridades do Sul'

23 junho 2016

Poemas dos dias que correm

Cai a Chuva Abandonada

Cai a chuva abandonada
à minha melancolia,
a melancolia do nada
que é tudo o que em nós se cria.

Memória estranha de outrora
não a sei e está presente.
Em mim por si se demora
e nada em mim a consente

do que me fala à razão.
Mas a razão é limite
do que tem ocasião

de negar o que me fite
de onde é a minha mansão
que é mansão no sem-limite.
Ao longe e ao alto é que estou
e só daí é que sou.

Vergílio Ferreira, in 'Conta-Corrente 1'

***

Meados de Maio

Chuvoso maio!

Deste lado oiço gotejar
sobre as pedras.
Som da cidade ...
Do outro via a chuva no ar.
Perpendicular, fina,
Tomava cor,
distinguia-se
contra o fundo das trepadeiras
do jardim.
No chão, quando caía,
abria círculos
nas pocinhas brilhantes,
já formadas?
Há lá coisa mais linda

que este bater de água
na outra água?
Um pingo cai
E forma uma rosa...
um movimento circular,
que se espraia.
Vem outro pingo
E nasce outra rosa...
e sempre assim!

Os nossos olhos desconsolados,
sem alegria nem tristeza,
tranquilamente
vão vendo formar-se as rosas,
brilhar
e mover-se a água...  

Irene Lisboa, in 'Antologia Poética'

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