quarta-feira, 2 de março de 2016

Poemas dos dias que correm

Fotografia de Haya

Pró Pudor

Todas as noites ela me cingia 
Nos braços, com brandura gasalhosa; 
Todas as noites eu adormecia, 
Sentindo-a desleixada a langorosa. 

Todas as noites uma fantasia 
Lhe emanava da fronte imaginosa; 
Todas as noites tinha uma mania, 
Aquela concepção vertiginosa. 

Agora, há quase um mês, modernamente, 
Ela tinha um furor dos mais soturnos, 
Furor original, impertinente... 

Todas as noites ela, ah! sordidez! 
Descalçava-me as botas, os coturnos, 
E fazia-me cócegas nos pés... 

Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde' 

***

Despede Teu Pudor

Despede teu pudor com a camisa 
E deixa alada louca sem memória 
Uma nudez nascida para a glória 
Sofrer de meu olhar que te heroíza 

Tudo teu corpo tem, não te humaniza 
Uma cegueira fácil de vitória 
E como a perfeição não tem história 
São leves teus enredos como a brisa 

Constante vagaroso combinado 
Um anjo em ti se opõe à luta e luto 
E tombo como um sol abandonado 

Enquanto amor se esvai a paz se eleva 
Teus pés roçando nos meus pés escuto 
O respirar da noite que te leva. 

Paulo Mendes Campos, in 'Antologia Poética' 

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