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23 novembro 2009

O diálogo

(...)
- Sabe que mais?
- Diga…
- Há muito tempo que vivo do sexo. E, como deve calcular, não é com o meu marido…
- Quer especificar?
- Sim.
- Diga, então.
- Desde há um ano que trabalho na Lanterna Vermelha…
- Lanterna Vermelha? O que é isso?
- Como posso explicar-lhe… é aquilo que se chamaria uma casa de senhoras.
- Sim, já percebo. Continue.
- Fui contratado para lá trabalhar, como lhe disse.
- E gosta?
- Podemos falar de várias dimensões.
- Quais?
- A financeira, a sociológica.
- Fale-me da segunda.
- Pois muito bem. Sabe, durante muitos meses fui mais do que a pessoa que está aqui a falar consigo, e isso já é, só por si, um aspecto interessante.
- Como assim?
- Olhe, durante vários meses fui a Honória, uma moçambicana que recebera o pai crivado de balas e sem uso para o afecto de que precisava; fui a Joana, cuja simetria física perfeita excitava alguns clientes e a Georgette, que tinha das cartas de amor uma visão própria e carregada de mentira. Fui ainda Esperanza Morales que, vinda de Pipinas, na Argentina, dançava nua ao som de tangos dolentes, e Carmelinda, natural de Bencatel, cujo sotaque cerrado provocava desvairos e olhos revirados num conde falido. Fui ainda a Gervásia, uma beirã que tirava o palhaço do sério, assim como fui a Solange e a Rosário, encantando jogadores de futebol falhados ou homens sombrios de uma qualquer repartição de Finanças. Fui ainda, entre outras, a Yuni Siyu, uma chinesa que fazia do trapézio uma volúpia circense.
- Estou impressionado.
- E pode ficar que não é para menos.
- Quer continuar?
- Claro, porque não quero ficar na explicação de quem fui ao longo destes meses; quero falar-lhe, também, da visão sociológica dos clientes.
- Diga então.
- Podia falar-lhe do tal conde falido que só queria ouvir alentejano cerrado enquanto revirava saudosamente um bocado de cortiça no bolso do casaco; podia falar-lhe no Sr. Marcolino, um anão com desejos de alpinismo e que escalou uma escultura em forma de mulher; talvez valesse a pena referir o Martim Moniz, Miranda da parte da mãe, que se iniciou nas artes do prazer trazido pela mão de um avô; gostava que lhe falasse no Dr. Guimarães e Costa que se encantou, não pelas curvas sensuais de uma rapariga, mas pela sua arte no jogo do crapaud? Ai, havia tanto para lhe contar…
- E diga-me: na verdade, o que a traz por cá?
- A bem dizer não sei. Uma vontade imensa de falar deste assunto, sei lá eu. Foi uma vida muito intensa, sabe? Muitos personagens, muitos clientes, muito erotismo, muito afecto, muito asco, talvez... Muitas vidas dentro da mesma vida. Como será que aguentamos tanto personagem a conviver no mais íntimo de nós?
- Eu percebo.
- Dá-me a absolvição, senhor Padre?
- Está arrependida?

(...)

Conheço-os bem. No fundo, no fundo, somos todos do mesmo bairro.

JdB

20 julho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia mundial da previsão meteorológica,

A menina do boletim meteorológico já tinha alertado, apontando, com um ar sabedor, as isóbaras e os anti-ciclones que se deslocavam no ecrã a uma velocidade perturbadora, enrolando-se sobre si próprios como um bichinho de conta; os jornais enchiam primeiras páginas com títulos a negrito e corpo de letra grande e ameaçador, entrevistando especialistas na matéria e reproduzindo artigos científicos publicados nas maiores universidades; os ministros da tutela afadigavam-se em conferências de imprensa a horas certas, revelando, com orgulho, a acção atempada do governo. O tom era grave, a voz séria, o semblante carregado.

Por todo o país – das grandes empresas à pequena indústria, dos impérios financeiros às lojas de bairro – a preocupação era una e inequívoca. Pela primeira vez desde o Euro de Scolari, a nação irmanava-se num desígnio colectivo, como se entre o Minho e o Algarve (considerando que Timor já pertencia a outro campeonato) se juntasse o povo todo no cais das colunas a soprar na direcção das velas que se enfunam.

De norte a sul, das Câmaras Municipais às paróquias, passando por seitas religiosas, ONG’s, instituições de solidariedade social, clubes desportivos, a linguagem era uma só, com uma gravidade inequívoca, abordando o tema que abria telejornais e provocava o encerramento tardio dos matutinos.

Por aqui e por ali, empreendedores perspicazes reuniam-se para explorar nichos de mercado, oportunidades de negócio, novos canais de distribuição. O país andava e repousava ao ritmo de uma informação forte, pesada, preocupante, tórrida:

Espera-se, nos próximos dias, uma vaga de calor invulgar, que obrigará a cuidados especiais em grupos de maior risco, nomeadamente a camada da população mais sensível e fragilizada, os velhos e as crianças.

Aqui, nesta fábrica da ilusão, o prenúncio de temperaturas raras e profundamente incomodativas também se fez sentir, porque o calor não só dilata os corpos, como preocupa as mentes. As meninas, estas operárias do prazer, deitaram-se mais amiúde aos banhos, como se a transpiração fosse consequência, também, daquilo que se imagina. Reforçou-se o stock de águas e de gelo, escreveram-se normas de execução permanente relativamente à higiene de uma actividade deste género, fizeram-se recomendações várias e precisas. De dentro do seu gabinete, numa labuta avaliadora dos potenciais efeitos da vaga de calor no negócio da Casa, a Dr.ª Clara gritou, num exercício de autoridade e previdência que não deixava margem para dúvidas:

- Amália! Chame-me a empresa do ar condicionado para uma revisão urgente da instalação.

O dia seguinte amanheceu quente, não augurando frescura pela tarde. Talvez já fosse a tal vaga a invadir o país, secando fontes e enchendo praias. A revisão dos aparelhos começou de manhã cedo, desalojando as meninas que se agitavam num frenesim enervado. A Dr.ª Clara distribuía ordens para a esquerda e para a direita, retirando-me do sossego da recepção e obrigando-me a coxear numa maratona dolorosa.

Quando cheguei ao fim do dia, exausta da cabeça e do corpo, olhei para a rua onde estava a carrinha da empresa de manutenção. Não consegui deixar de sorrir perante o anúncio que enfeitava a lateral da viatura. Numa associação mental excepcionalmente rápida para o cansaço em que me encontrava, fui à procura do técnico. Vi então um homem novo, invulgarmente bonito, com um corpo que faria inveja a qualquer atleta, e um cabelo impecavelmente penteado para o lado. Sorriu-me e despediu-se, estendendo-me uma mão forte, mas bem tratada. Olhei para o corredor que dava acesso aos quartos e tenho a certeza de ter visto algumas raparigas com um ar particularmente bem-disposto. Riam, cochichavam, empurravam-se umas às outras. Talvez fosse do calor, não sei.

Lá fora, a carrinha desaparecia numa curva, revelando, ainda, uma frase no mínimo curiosa – ou elucidativa.

Na ar condicionado Baptista, cada técnico é um artista

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

13 julho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, data irrelevante,

Meu querido Fábio,

Embora tenhas acesso ao meu diário, estou certo de que não lerás esta carta, porque o respeito que me tens to impede. Gostas de mais de mim para ocupares a tua mente com perguntas do género: o que faz ela num estabelecimento chamado Lanterna Vermelha e que oferece ilusão a troco de dinheiro?

Começo esta página do meu diário sob o signo da interrogação. Escreverei sobre o quê? Quem será, das raparigas ou dos clientes, que me reterá a atenção neste dia. Que pormenor mais sórdido, que passado mais misterioso ou que presente mais triste me iluminará a inspiração, me atirará com furor criativo para uma página de um caderno? De facto, meu querido Fábio, companheiro de alegrias e tristezas, nada me inspira neste momento.

Perguntarás se tenho falta de assunto. De todo! Tenho muito por onde escrever, mas pouca paciência para o fazer. Sabes, ele há dias assim, em que o nosso horizonte visual é o que é, mas também poderia ser outra coisa. Tanto faz ser um deserto ou um mar encapelado; poderia ser uma vista de África ou do Árctico. Tudo é indiferente, porque não há, aparentemente, ligação estabelecida entre mente e braço. À parte do corpo humano que é responsável pela escrita - na sua forma física - não chega estímulo. Quando isso acontece, faz-se o quê? Nada. Deita-se a caneta na secretária e volta-se a vontade para outras coisas.

Graças a Deus não tenho ninguém que me leia regularmente. Felizmente não tenho leitores que me perguntam religiosamente à 2ªfeira: então, não se escreveu nada hoje? Se os tivesse sentiria que os defraudo. Mas escrevo para mim, principalmente, e para ti, querido Fábio, que me lês sempre, mesmo quando não há nada para ler.

Não estou demasiadamente triste nem excessivamente alegre. Sinto apenas um vazio criativo, como se o estabelecimento onde trabalho tivesse encerrado para férias, para descanso do pessoal, para mudança de um ramo qualquer, para auditorias ou inspecções. Como se as operárias que aqui trabalham estivessem todas fora, a banhos.

Olha, Fábio, não sei o que te diga. Fica o meu beijo, na certeza de que gostarás de mim na mesma.

Amália

Lanterna Vermelha

O que seria a Lanterna Vermelha em versão chinesa?

MTS

29 junho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de S. Bernardo de Mentone, padroeiro dos alpinistas.

Relembro páginas do meu diário:

Georgette, uma das nossas operárias, é uma francesa lindíssima e elegante. Com mais de 1,80m, tem uma pele clara, muito clara, por vezes tão transparente que se lhe vêem as veias. Podia facilmente ter sido modelo, encantando as passerelles com vestidos bizarros de tules transparentes, uns cabelos pretos e longos, um nariz fino, duas maçãs do rosto ligeiramente salientes e um corpo de fazer inveja aos mais sadios. Optara, no entanto, por terminar os seus estudos na Sorbonne com um trabalho intitulado “A prostituição na epistolografia Portuguesa”, e decidira vir a Portugal fazer aquilo a que chamou, metaforicamente, um estágio.

Ao início mostrou-se algo relutante em diversificar a clientela mas, fosse por questões económicas ou desejo de levar a sua aventura para lá do Cabo das Tormentas, o facto é que foi preenchendo o seu carnet com marcações variadas. Confiava em absoluto na Dra. Clara para lhe escolher o cliente mais interessante – ou o mais aventuroso.

- Tu sais, Amalie, l’ aventure c’est tout. Il n’y a rien que celá. Et je crois que le mot aventure est français...

Recebeu o cavalheiro ao fim da noite de uma 4ªfeira gelada e chuvosa, filha de uma meteorologia própria da geografia montanhosa. Encostou-se ao meu balcão – fui confrontada, mais uma vez, com a sua altura - e, num português ainda afrancesado, revirando uns olhos de gozo e espanto, contou-me a sua hora.

- Sabes, Amália, o Sr. Marcolino é um homem extraordinário. Pediu-me para me deitar e deixar que fosse ele a agir sempre. Assim fiz. Recostei-me vestida na cama e fechei os olhos. O cliente pediu-me que não abandonasse nunca aquela posição. Acedi, sem saber se era uma espécie de fetiche, ou qualquer coisa do género. O Sr. Marcolino beijou-me longamente, ao início com ternura, avançando depois num crescendo de erotismo. Entreabriu-me os lábios e ali se demorou uma eternidade. E que bem que ele beijava... Oh, la la!

Seguidamente começou a despir-me. Peça a peça, fecho a fecho, botão a botão. Com vagar, como se não houvesse necessidade de cumprir uma hora de marcação, como um alpinista que sabe que a montanha está ali, e que só o prazer da lentidão lhe proporcionará o gozo final. Volta e meia perguntava-lhe se ele não queria que eu fizesse alguma coisa. Respondeu-me sempre que não, que o chefe da equipa era ele (e ria, quando dizia isto), que ele faria tudo, e que eu o seguisse, confiante da sua experiência de escalador. Sorria, e era mais uma peça que desaparecia; piscava os olhos e era uma mão a percorrer-me o corpo, encontrando nas neves altas, em que eu me tornei metaforicamente, um prazer ilimitado e próprio.

Percebi que os pés lhe diziam alguma coisa, porque foi lá que o Sr. Marcolino iniciou aquela subida de prazer. Massajou-os, beijou-os, sei lá mais o que fez. Depois foi por ali acima, lentamente, muito lentamente, como quem sobe a um pico de montanha consciente do cansaço - ou da estratégia. Demorou-se em todos os pontos, estabelecendo uma espécie de campos intermédios antes da arrancada final. Assim se passaram 50 minutos, porque, de facto, sempre tenho mais de 1,80 m, tu comprends… Beijos, afagos, mãos, língua, dedos. Uma técnica irrepreensível ao serviço do erotismo, da sensualidade, da atenção ao pormenor. Um verdadeiro alpinista com quilómetros de prazer nas suas botas fiáveis.

Os últimos 10 minutos… Enfim, acho que não preciso descrever-te o que foram, pois não? O Sr. Marcolino tinha terminado a sua escalada e respirava um oxigénio puro, abundante, revigorante, cravando o seu estandarte no ponto mais alto. Sentou-se ao meu lado na cama e voltou a mirar-me de alto a baixo, um verdadeiro sherpa que atenta na cordilheira que acaba de transpor. E sorriu.

Ai, Amalie, Amalie…

Georgette regressou ao quarto derramando, do alto de uma altura verdadeiramente obscena, uma elegância que esmagava. Da obra em frente, que teima em persistir até às calendas - ou até às próximas eleições - as melodias de sempre davam um ar da sua graça.

Lisboa não sejas francesa
Com toda a certeza
Não vais ser feliz
Lisboa, que idéia daninha
Vaidosa, alfacinha,
Casar com Paris
Lisboa, tens cá namorados
Que dizem, coitados,
Com as almas na voz
Lisboa, não sejas francesa
Tu és portuguesa
Tu és só pra nós

Cumpriu-se mais um dia. Mas é importante referir que o Sr. Marcolino, alpinista de uma montanha chamada Georgette, é anão.

MTS

22 junho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de todos os encontros.

Pouco passava do meio-dia quando a Joana Maria me veio entregar uma carta para ser posta no correio.

- Importas-te, Amália? É para o meu Pai...

Naquele preciso instante entrou o carteiro com uma carta para a Joana Maria.

- Sabes, Amália? É do meu Pai...

A minha espinha foi percorrida por um frio. O meu balcão, onde recebo clientes e os entrego nas mãos das raparigas para horas de volúpia e luxúria, foi palco de uma coincidência extraordinária – duas cartas entre um pai e uma filha, mandadas e recebidas sem que receptor e emissor, que eram, em simultâneo, receptor e emissor, o soubessem. Tremi e circulei os envelopes, como quem circula energias de efeitos desconhecidos e imprevisíveis.

Meu querido Pai,

Dificilmente poderei explicar o choque que foi ver-te nesta casa. Mais a mais sabendo que não vinhas à procura de prazer, mas de mim. Não querias uma rapariga, não te querias divertir durante uma hora entregando-te aos prazeres do sexo com uma aparente desconhecida. Querias, apenas, ver a tua filha, enfrentar o demónio que é constatar a vida dupla de quem tem o nosso sangue, de alguém por quem estamos dispostos enfrentar todos os inimigos.

Durante uma hora choraste copiosamente no meu quarto, depois de teres rondado uns olhos espantados pela cama, pela cómoda, pelos quadros, pela música, como quem entra num mundo que tem tanto de extraordinário como de mau. Eu encostei-me a um canto, enroscada e transida, como um cão que é vítima de maus tratos que ninguém lhe infligiu, como um desgraçado que se envergonha de um insulto que ninguém lhe dirigiu. Nunca na minha vida me senti tão mal, tão conspurcada, mesmo sabendo que há pessoas que dignificam o trabalho que executam, por mais baixo que pareça. A tua presença no meu quarto foi como um espelho onde revi toda a minha iniquidade – não tanto por aquilo que faço, mas pela desilusão que fui para ti.

Já hoje pedi para falar com a Dra. Clara, para manifestar a minha vontade de sair desta casa. Não conseguirei estar aqui nem mais um dia, não saberei receber nem mais um cliente. Não sei para onde vou, mas estou certa de que encontrarei quem me albergue durante algum tempo. Perceberás que tenho dificuldade em enfrentar-te nos tempos mais próximos. Como te olharei, tu que estavas disposto a tudo pela minha felicidade, depois de te ter visto dobrado num choro confrangedor, num luto prematuro por uma filha viva? A vergonha e o amor afastar-me-ão da casa que foi minha e que espero volte a ser quando tivermos distância suficiente.

Um beijo da tua filha que te ama mais do que tudo,

Joana Maria

***

Minha querida Joana Maria, querida filha,

Abriu-se no meu coração de Pai uma ferida do tamanho do mundo. Todo eu urrei por dentro, como um lobo raivoso, ou como uma mãe a quem arrancam as crias. Tudo dentro de mim se desfez na visão de uma filha linda, com um futuro brilhante pela frente, entregue a uma indignidade. Ver-te naquela casa, naquela vida, com aquelas raparigas, despedaçou-me a alma, e tudo me passou pela cabeça. Enquanto eu chorava de raiva e dor só me apeteceu bater-te, castigar-te por uma coisa que não se faz a um pai que se deu na totalidade a quem era carne da sua carne.

Vi-te enroscada a um canto, esmagada pela vergonha de me encontrares, sem saberes, ao princípio, se aparecia como um cliente ou como um pai. Parecias um cão acossado, um farrapo de mulher, um quadro de miséria. Fui, naquela hora, o lugar geométrico da cólera, do desespero, da irritação, da desonra. Quis escorraçar-te da face da Terra, ver-te morta, longe da minha vista, caída numa valeta a subsistir da caridade alheia. Quando me despedi da D. Amália, e revelei o nosso parentesco, já não era um homem, mas um farrapo; já não era teu pai, mas alguém a quem arrancaram o fio de dignidade que nos permite manter sempre uma coluna direita. Quando me despedi dela, garanto-te, tudo me era indiferente na vida – até a forma de morrer naquele instante.

Pensei muito no assunto, nas tuas opções, no que te empurrou para essa escolha. Mais do que questionar ou criticar, forcei-me a pensar onde tinha eu falhado, qual tinha sido o gesto, a palavra, a frase, o olhar que tinham fechado uma porta entre nós para se abrir a porta da ignomínia. Estes exercícios são terríveis, mas libertadores. É como se algo dentro de nós nos empurrasse teimosamente para a luz, quando o nosso íntimo solicita a escuridão que se alimenta da danação. Vou imaginar que fiz uma espécie de desintoxicação, ao impor, ao meu próprio corpo, o desaparecimento das drogas que corroem o espírito e contaminam o coração.

Eis-me aqui, Joana Maria, o teu pai que te deseja mais do que tudo. O meu coração morre enquanto te imaginar nessa casa. Mas no dia em que entenderes sair, encontrarás um par de braços que se abrem para ti, um coração que rejuvenesce de alegria, uns olhos que chorarão num misto de soluço e riso, um amor que é eterno e tão incondicional quanto permite a minha fraqueza.

Perdoo-te, na esperança de que serei perdoado.

Um beijo muito grande do teu Pai

Cumpriu-se mais um dia, emoldurado por esta certeza do Amor e do Perdão.

MTS

15 junho 2009

Lanterna Vermelha (que pode ser Red Light, em inglês)

Diário de Amália, dia de descanso suplementar.

A dra. Clara, no gozo de uma generosidade que a caracteriza, decidiu dar esta 2ª feira. Alegou Santos Populares, dois feriados, calor, cansaço acumulado, para prever que haveria necessidade de dar arejamento às raparigas desta Fábrica da Ilusão.
- Voltem na 3ª feira fresquinhas que nem uma alface. Não quero cheiros a sardinha nem escaldões que revelem sol a mais.
E elas lá foram, cada uma para os seus destinos. Em casa ficou apenas Mary Jo, a americana que se prestou ao desafio da simultaneidade com dois clientes.
- Sabes, Amália? Aquilo que se passou com a Joana Maria na semana passada fez-me pensar na vida. Um encontro com o próprio pai nesta casa deve ser dramático.
- Nem quero imaginar...
- Conheces o Sting e os Police?
- Sim, conheço.
- Ouve esta música e toma atenção à letra. Todas as noites, antes de me deitar, oiço um bocado e imagino que alguém me diz que não tenho de acender a lanterna vermelha, que não tenho de me vestir para a noite nem de partilhar o meu corpo com outra pessoa. Talvez um dia mude de nome e me chame Roxanne...
Soltou uma gargalhada antes de colocar o disco na aparelhagem.




Roxanne, you don't have to put on the red light
Those days are over
You don't have to sell your body to the night
Roxanne, you don't have to wear that dress tonight
Walk the streets for money
You don't care if it's wrong or if it's right

Roxanne, you don't have to put on the red light
Roxanne, you don't have to put on the red light
Put on the red light, put on the red light
Put on the red light, put on the red light
Put on the red light, oh

I loved you since I knew ya
I wouldn't talk down to ya
I have to tell you just how I feel
I won't share you with another boy
I know my mind is made up
So put away your make up
Told you once I won't tell you again it's a bad way

Roxanne, you don't have to put on the red light
Roxanne, you don't have to put on the red light
You don't have to put on the red light
Put on the red light, put on the red light


Quando enfrentei Mary Jo, no final desta música, percebi que os olhos dela me atravessavam, embora aparentemente me fitassem. Tudo nela deambulava por outro lado - pela sua vida presente e, sobretudo, futura, pelo desejo de não acender a lanterna vermelha, de não partilhar o seu corpo com homens de ocasião, de não se vestir para a noite. Senti-lhe um estremecimento frio, que a agitou de cima a baixo. Compôs o cabelo, retirou o disco e perguntou-me, decidida:

- Sabes quando volta a Dra. Clara?

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

08 junho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de todos os encontros.

Quando marcámos o encontro pelo telefone, num fim de tarde chuvoso e frio, o Sr. Jerónimo Antunes não manifestou disponibilidade para revelar a sua profissão. Foi de tal forma peremptório que imagino, até, que me tenha dado um nome saído da sua própria imaginação. De facto, nada obriga o cliente a revelar a sua verdadeira identidade nem a disponibilizar a actividade profissional. Há informações que não são obrigatórias e que cada um gere da forma que melhor entende.

O Sr. Antunes revelou-se um homem trivial: estatura média, cabelo grisalho a revelar entradas fortes, alguma barriga a denunciar sedentarismo, e uma idade que se situaria próxima dos sessenta anos. Vestia um fato cinzento-escuro, camisa branca e uma gravata azul-clara. De facto, as modas podem transformar em quase uniformes tudo aquilo que se veste.

No instante em que entrou no estabelecimento pressenti-lhe algum incómodo – ou seria apenas mistério? Olhou muito à volta, numa mistura de espanto e curiosidade, atentou fortemente nas raparigas que iam e vinham. Presumo que se tenha surpreendido com as roupas das nossas operárias, porque me perguntou com um ar de ligeira incredulidade:

- Elas estão sempre vestidas desta forma, digamos… normal? Não sabia.

Estou certo de que o Sr. Antunes imaginou saias demasiado curtas, botas demasiado altas, caras demasiado pintadas, cabelos demasiado ressequidos, figuras provocantes e muito próximas de uma vulgaridade pouco estética. Preconceitos, ou proximidade do que é real?

Ao telefone tinha solicitado a Joana Maria, tendo adaptado a sua agenda à disponibilidade da rapariga. Não resisto a relembrar parte da descrição que fiz dela:

A Joana Maria, uma rapariga lisboeta, bonita, alta e esguia, dona de uma elegância natural revelada pela forma de andar, de se sentar, de afastar os cabelos dos olhos, de conversar com os clientes. Apesar da sua licenciatura em Farmácia tinha concorrido ao Corpo Diplomático depois de meses insanos de estudo e pesquisa, persistindo contra uns pais que teimavam em deixar-lhe um estabelecimento nas avenidas novas.

Sorri, imaginando-a, com uma regularidade de relógio, a fazer companhia ao Dr. Guimarães e Costa, o gestor elegante que se interessara por esta jovem que jogava o crapaud suíço como ninguém. Agora, tocava-lhe em sorte o Sr. Jerónimo Antunes com quem travei um diálogo algo estranho, porque feito de interrupções, de suores frios que imaginei no cliente, de palavras gaguejadas, de silêncios incomodativos:

- Já conhecia a Joana Maria?
- Não, de todo. Não! Porque havia de conhecer?
- Como soube dela?
- Por um amigo… Se já lhe disse que não a conhecia.
- O Sr. Antunes joga crapaud suíço?
- Como? Crapaud suíço?

Não reproduzo mais do que esta pequena troca de frases, porque seria difícil descrever em palavras aquilo que só é visível pelos olhos e decifrável por uma intuição que, mesmo assim, tem falhas.

- E agora, o que faço?
- Se quiser ter a amabilidade de se dirigir ao quarto nº 3, a Joana Maria está à sua espera. Pede desculpa por não o vir buscar, mas está a arrumar umas coisas. Satisfação do cliente, sabe…

Vi o Sr. Jerónimo Antunes a desaparecer no corredor, abrindo um botão da camisa que de certo o sufocaria. Por momentos pensei que talvez ele próprio se desvanecesse quieto ao balcão. Não era, confesso, uma visão inédita. O nervosismo de alguns clientes sempre fora patente e compreensível. Há o medo de não estar à altura, a vergonha de se cruzar com uma cara conhecida, o enervamento de uma primeira vez independentemente da experiência que se tem.

Uma hora depois o cliente saía com um olhar vago, uns lábios perlados de suor, uma testa húmida, umas mãos que não disfarçavam o tremor. Sorriu-me envergonhadamente, e senti-lhe educação, mais do que amabilidade. Talvez o sorriso não fosse mais do que um esgar. Encostou-se ao balcão, e solicitou um copo de água. Hesitei, por um instante apenas, na motivação menos imediata do rogo: pedido de último condenado ou primeira alegria de um liberto?

- Então Sr. Jerónimo Antunes, sente-se bem?
- Sim… Obrigado.
- E o que tem a dizer-me da Joana Maria? Uma rapariga lindíssima, não acha? Espero vê-lo cá mais vezes. E estou certo de que ela também o desejará. Gostou dela?

O cliente abriu a boca e voltou a fechá-la. Uma intuição levou-me os olhos para o fundo do corredor, onde vi a Joana Maria - que fugira ao sufoco de herdar uma farmácia - linda e elegante como sempre. Num instante olhou para mim, no segundo imediato dobrava o corpo num soluço.

- Há muitos anos que gosto da Joana Maria e sabia que a encontraria aqui. Sabe, ela é minha filha.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

01 junho 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia da tomada de Lisboa aos mouros

O rapaz aproximou-se do balcão e travámos o seguinte diálogo inicial:

- Boa tarde. Sra. D. Amália?
- Sim, sou eu.
- Sou o Martim.
- Martim Miranda?
- Martim Moniz, de facto. Miranda é da minha mãe…
- O seu avô…
- Sim, esteve cá a semana passada, já sei. Estas coisas do avô…
- Pois. Percebo…
- Posso ir entrando?
- Faça favor, Martim. É o quarto nº 6.
- Tem graça. É o número da minha camisola de râguebi.

O rapaz tem o seu quê de interessante. Alto, levemente aloirado e com os olhos azuis do avô, é bem constituído fisicamente, resultado provável de um jogo ao qual nunca achei particular graça, por o imaginar demasiado violento. Como será que um rapaz, habituado a correr atrás de uma bola oval, que parece saltar sem regra nem previsão, e a agarrar-se às pernas dos adversários, caindo todos amontoados, dará ternura e atenção a uma rapariga mais velha? Como se comportará ele? Se calhar uma hora será demasiado…

Martim Moniz, o rapaz de 16 anos que foi iniciado nestas artes do amor a convite do seu avô, que mais não fez do que prosseguir uma tradição antiga – para ele, talvez, tão importante como manter um negócio ou respeitar nomes de família – saiu do quarto nº 6 passado uma hora. Exactamente uma hora. Vinha com uma cara sorridente, levemente corado, e com os botões da camisa mal abotoados. Agradeceu o reparo que lhe fiz a esse facto e corrigiu-o imediatamente.

Travámos o seguinte diálogo final:

- Então Martim, correu tudo bem?
- Acho que sim, não sei…
- Diga lá o que apreciou mais. Gostamos de fazer estas perguntas para satisfazer os nossos clientes…
- Posso dizer-lhe uma coisa?
- Claro, diga…
- Não vou contar nada. Nem a si, nem ao avô, nem aos meus amigos.
- Mas porquê? Não gostou de alguma coisa?
- Não, não é isso.
- Então?
- Sabe, eu gosto muito do meu avô. Um dia ouvi-o dizer, não sei a quem, que um cavalheiro não fala das suas conquistas. Talvez ele se referisse a si próprio, não sei... A minha mãe não concorda nada com a minha vinda cá, mas o meu avô disse que era uma espécie de iniciação para me tornar um homem - e mais tarde um cavalheiro. E como um cavalheiro não fala das suas conquistas...
- Respeito. E quer explicar-me, ao menos, porquê a Honória, uma moçambicana? Confesso que a minha previsão saí enganada.
- É muito simples. Quando o avô me falou nas raparigas, para usar a expressão dele, fixei logo esse nome.
- Mas porquê?
- Porque quando acabar o 12º ano quero ir para Moçambique fazer voluntariado, e sempre perguntava algumas coisas... Ela diz que talvez vá comigo, que tem saudades da Beira e da praia do Macuti.
- Pois...

A Honória aproximou-se de nós e ofereceu um abraço ao Martim, que retribuiu corando até à raiz dos cabelos. Deu-lhe um beijo ao de leve nos lábios e desejou-lhe uma boa tarde, agradecendo a hora que tinham passado juntos.

- Conta-me, Honória, conta-me como foi. Como é que se portou o rapaz?
- Não ouviste o que ele disse, Amália? Há gente que não fala das suas conquistas. E para um cavalheiro - para um verdadeiro cavalheiro - qualquer acompanhante é sempre uma senhora. E, agora, se não te importas, vou recolher umas informações para o Martim. Sabes se a internet ainda está em baixo?

Vi a Honória, a moçambicana apaziguada com o seu passado, a partir dengosa de volta para o seu quarto, deixando um rasto de África. Ao longe, já a entrar no carro conduzido pelo avô, o jovem Martim Moniz, Miranda por parte da mãe, seguia apressado para mais um treino de râguebi. Talvez fosse, de facto, um cavalheiro a praticar um desporto de selvagens.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

25 maio 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, talvez 1 de Outubro, dia internacional do idoso

Aparentava ter quase oitenta anos, embora dele o povo pudesse dizer que era enxuto de carnes. Tinha um cabelo grisalho ondulado e pequeno a cobrir-lhe uma cabeça bonita, direita, que nos mirava de frente, sem vergonhas nem sobrancerias. Uns óculos discretos, com aros finos de metal, interpunham-se entre nós e uns olhos azuis muito claros, da cor da água. Duas alianças de ouro no anelar esquerdo revelavam viuvez ou casamento duradoiro. Vestia umas calças castanhas claras com um corte bonito, uma camisa com quadrados pequenos e um casaco aprimorado de camurça. Quando quis ver as horas mostrou um relógio clássico, sóbrio, redondo, e que lhe assentava elegantemente no pulso. Tudo no engenheiro António Miranda (que se tinha apresentado sem título profissional) revelava distinção, riqueza discreta, educação. Uma das raparigas, mais dada a coisas do desporto - ou das memórias -, afiançou que ele tinha alcançado posições de destaque no ténis e na vela.

Cumprimentou-me amavelmente, e só uma pessoa muito experimentada como eu se podia ter apercebido do pequeníssimo espanto perante a minha cicatriz no olho e a minha deficiência no andar. Disfarçou imediatamente, revelando que tinha aprendido uma lição importante quando era pequeno: não se olha para as pessoas que são diferentes.

As raparigas entravam e saíam, cumprimentavam o cliente e faziam-lhe um sorriso. Estou certa de que entre todas perpassou uma ideia que as dividia: estar com um cavalheiro daquela idade – mas também daquela elegância -, era uma aventura ou o cumprimento exclusivo de um trabalho? Tenho ainda a certeza de que algumas pensariam, num misto de susto e piada menos própria: e se ele nos morre em cima?

A todas o engenheiro António Miranda cumprimentou com um sorriso, um levíssimo baixar de cabeça ou um aperto de mão suave mas firme. Elas viravam as costas, e sentiam que aqueles olhos azuis muito claros, que outrora se tinham fixado no topspin adversário de um court de ténis, ou no perigo de um refrega traiçoeira quando se navega numa bolina cerrada, as percorria de cima a baixo tirando medidas, calculando formas, adivinhando fantasias e desempenhos. Elas não resistiam e voltavam-se para trás para lhe lançar um sorriso, um piscar de olhos, um beijo assoprado. E talvez suspirassem por ele, para que lhes coubesse em sorte um cavalheiro rico que as poderia presentear com um regalo, além da experiência, ternura - e pouca exigência física.

Enquanto bebia um café fraquinho temperado com meio pacote de açúcar, o engenheiro António Miranda viajou comigo pela equipa de raparigas que anima esta Fábrica da Ilusão: quem eram, de onde vinham, o que faziam, que aspirações tinham, quais as características físicas mais dominantes, uma ou outra habilidade que as diferenciasse das outras.

Assim, nos quinze minutos seguintes entreguei-me a um exercício de guia turístico especialista em geografia humana, descrevendo pormenores que me pareciam importantes para uma decisão do cavalheiro. Falei-lhe da Eduarda que era invisual e se encantara com o homem mais feio que ali passara, da Joana que jogava o crapaud com mestria rara e da Olga que, licenciada em Literatura russa, encantava os clientes com citações perturbantes; descrevi características da Mary Jo, a americana que se dispunha à simultaneidade de dois clientes, da minhota Laura, da Carmen, a sevilhana que encantara um cego com umas mãos mágicas e da Gabriela, uma cadete da Academia Militar que, nuns exercícios teóricos, acabara derrotada pela mulher e pela filha de um oficial francês de marinha.

As raparigas iam e vinham, e eu questionava-me mentalmente sobre a escolha ideal. Descrevi a Honória, a moçambicana que recebera o pai crivado de balas e sem uso para o afecto de que precisava, a Joana, cuja simetria física perfeita excitava alguns clientes e a Georgette, que tinha das cartas de amor uma visão própria e carregada de mentira. O cliente sorriu à menção da Esperanza Morales que, vinda de Pipinas, na Argentina, dançava nua ao som de tangos dolentes, e de Carmelinda, natural de Bencatel, cujo sotaque cerrado provocava desvairos e olhos revirados num conde falido. Interessou-se por Gervásia, a beirã que tirava o palhaço do sério, e pela Solange e Rosário, que encantavam jogadores de futebol falhados ou homens sombrios de uma qualquer repartição de Finanças. Soltou uma gargalhada quando lhe falei de Yuni Siyu, a chinesa que fazia do trapézio uma volúpia circense.

Acabei a descrição e senti-me como alguém que sugere a outrem que faça uma escolha única, tendo como base uma quantidade imensa de opções boas e de recusa difícil.

- Quem quer que chame, senhor engenheiro? Quem é a rapariga com quem gostaria de passar a próxima hora? Estou ciente do embaraço da sua escolha, se me permite a expressão...

Aqueles olhos azuis muito claros, treinados no ténis e na vela, sorriram abertamente. Na minha intimidade não havia dúvidas quanto ao nome que ia sair daquela tômbola elegante.

- Gostaria de levar todas, se me fosse possível. Mas este inquérito algo deselegante tem um motivo importante. Estou a escolher uma rapariga para o meu neto Martim, com 16 anos, que está ali fora no carro. Já o meu avô fizera isso por mim, há mais de 60 anos. É uma tradição, sabe...

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

11 maio 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de todos os sonhos

É educado e simpático, mas talvez seja das pessoas mais feias que tenho visto. O Sr. Pompeu da Silva, dono de uma cadeiazita de tabacarias em vários centros comerciais, obedecendo todas ao lema

à tabacaria Pompeu, quem lá vai sou eu

é profundamente inestético. Eu explico: altura média, cabelo preto pintado, uma testa baixíssima quase integralmente tapada com uma gaforina que lhe nasce na intersecção das duas sobrancelhas, que são pouco mais do que um tufo corrido de lado a lado dos olhos, praticamente sem separação. Vítima provável daquilo que o povo chamaria bexigas doidas, tem a face marcada por pequenos sulcos, que lhe ampliam a fealdade. Porque o adágio popular

não há bem que sempre dure nem mal que nunca acabe

está longe de ser uma verdade permanente, tem um olho de cada cor. Os meus dois - castanhos escuros e que a terra há-de comer - ainda lhe viram duas orelhas grandes, com tufos de pilosidade que se projectam negros e compactos dos ouvidos. De facto, não é vulgar um homem concitar, em si, uma dose tão grande de feiura.

Há pessoas cuja entrada nos sítios se não faz anonimamente, mas que provocam, pelo contrário, uma onda qualquer – seja de espanto, de fascínio, ou de repulsa. O Sr. Pompeu da Silva levou, seguramente, a primeira e a terceira hipóteses: ao pasmo seguiu-se a aversão. Estou certo de que na mente de todas as raparigas perpassou uma ideia:

independente dos prémios associados à satisfação do cliente, que não me caiba a mim…

A Dra. Clara, ao contrário do que é costume, pediu-me logo:

- Amália; importa-se de encaminhar o Sr. Pompeu da Silva ao meu gabinete? E traga-me dois cafés, se não se importa. Traga também um pratinho com pastéis de nata.

Ainda não tinham passado dez minutos e já ambos saíam sorridentes, como quem encetou uma negociação curta, porque as partes se entenderam numa cordialidade que se antevia improvável. O Sr. Pompeu sacudia um pedaço de massa folhada de um casaco roxo, com fios de um doirado quase imperceptível, e sorriu à indicação que me foi dada num tom de voz afável, mas que não admitia discórdias:

- A Eduarda, se faz favor.

Vi o cliente seguir para o quarto indicado, deixando um rasto de roxo e dourado, o que não deixava de ser estranho. Uma hora depois saía de braço dado com esta operária da Fábrica da Ilusão a quem ofereceu dois beijos ternurentos e um desejo:

- Se calhar até daqui a um mês…

A Eduarda encostou-se ao balcão, passou a mão pelo cabelo e pelos lábios e percebi que se recolhia numa recordação breve.

- Digo-te, Amália. Há muito tempo que não tinha uma hora de prazer tão boa, tão desafiante, tão sensual. O Sr. Pompeu é um amante como nunca vi. Não quero entrar em pormenores, como perceberás, mas tem umas mãos mágicas, se me é permitida a expressão. Não houve sítio do meu corpo que não me tivessem afagado, não houve local que os seus dedos não tivessem percorrido, como se fossem um explorador que quer conhecer tudo de um terra desconhecida. Alternou a ternura mais suave com o desejo quase violento; as suas mãos afagaram o cristal delicado mas agarraram a rocha dura. A sua boca. Ai, Amália, nem te digo. Nunca vi nada assim, podes crer. Ainda estou a tremer… Sabes qual é o mal?

- Diz, Eduarda.

- Gostei tanto que temo achar que os outros são de menor qualidade. Vou ficar um mês desesperada à espera do cavalheiro. Será que aguento? E tu, diz-me, o que achaste dele?

Tive dois segundos para tomar uma decisão. Ou lhe emitia a minha opinião sincera - que era demolidora -, ou reforçava a convicção da rapariga. Porquê desiludi-la com um juizo cru, pouco motivador – talvez mesmo desmoralizador? A franqueza é uma qualidade ou uma característica? É para se exercer sempre, ou com parcimónia, como uma erva aromática forte e dominante?

- Olha Eduarda, deixa-me dizer-te o que penso. O Sr. Pompeu da Silva é um homem muito bonito, com charme, dono de alguma sensualidade misteriosa. De facto, olhei para a boca dele, bem desenhada, e para as mãos, que aliam a delicadeza à força, e não tive uma dúvida de que te irias encantar. Na realidade a Dra. Clara acerta quase sempre. Há nela um sexto sentido que é fundamental - para além de invejável.

- Obrigado, Amália. Foste muito simpática.

Olhei para a rapariga e pensei que nuns olhos que não vêem pode haver um coração que se fascina. Foi isso que aconteceu com a Eduarda, a única invisual a trabalhar nesta Fábrica da Ilusão.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

04 maio 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia do nascimento de Stanley Ho, o grande mecenas do jogo

O Dr. Guimarães e Costa é um homem educado, bonito, com uma figura que deixa marcas por onde passa: alto, relativamente magro, um cabelo castanho penteado para o lado, umas mãos esguias e finas em cujo dedo anelar desponta um anel de brasão discreto. Veste-se de uma forma impecável – não de acordo com a ditadura da moda, mas segundo um padrão clássico e intemporal.

Desde que surgiu, pela primeira vez, na Fábrica da Ilusão, que foi cobiçado pelas raparigas, que suspiraram desejos umas às outras. Dirigiu-se àquelas com quem se cruzou num cumprimento simples, despreconceituado, convicto de que por vezes é a pessoa que dignifica o trabalho. Levantou-se do sofá para saudar a Dra. Clara, não sem antes ter abotoado um casaco espinhado verde-seco que lhe assentava particularmente bem. Deu-lhe um aperto de mão forte, sorridente e genuíno.

Ao contrário do que é habitual, a Dra. Clara não indicou nenhuma rapariga. Conversaram ambos no gabinete ao som de uma música suave e de um gin tónico, enquanto o sol se punha, grande e alaranjado, com um vagar de câmara lenta.

- O Sr. Doutor volta cá para a semana. Depois falamos, Amália.

Nos corredores, pelos cantos, no resguardo dos quartos, cada uma das raparigas imaginava-se com o Dr. Guimarães e Costa, administrador de um banco privado, que ainda não chegara aos 60 anos e que descendia de uma nobreza relativamente recente, mas que lhe dera mais ensinamentos do que privilégios.

O cavalheiro regressou na data aprazada e tinha à sua espera a Joana Maria, uma rapariga lisboeta, bonita, alta e esguia, dona de uma elegância natural revelada pela forma de andar, de se sentar, de afastar os cabelos dos olhos, de conversar com os clientes. Apesar da sua licenciatura em Farmácia tinha concorrido ao Corpo Diplomático depois de meses insanos de estudo e pesquisa, persistindo contra uns pais que teimavam em deixar-lhe um estabelecimento nas avenidas novas.

- Quero conhecer o mundo, não vender aspirinas -, respondera-lhes, determinada numa independência e vontade de voar que eram incompatíveis com uma placa na qual o seu nome apareceria por baixo de uma designação importante mas limitadora: directora técnica.

O gestor chegou-se ao balcão e perguntou se podia fazer alguma coisa pelas minhas deficiências físicas – a cicatriz no olho e o defeito na perna. Fê-lo por uma mistura de educação, simpatia, vontade genuína de ajudar o próximo. Quando lhe agradeci, declinando a oferta, não insistiu, e pediu com uma voz suave e grossa:

- A Sra. D. Amália não tem por acaso cartas de jogar? Esqueci-me das minhas em casa e faziam-me falta.

Entreguei-lhe uma caixa com dois baralhos e, à medida que o via desaparecer de braço dado com a futura diplomata, dei por mim a fantasiar aquele casal, algo que nunca tinha feito. Em primeiro lugar, imaginei-os juntos, na caminhada de uma vida conjugal, a rondarem entre instituições bancárias e embaixadas asiáticas, impressionando quem os visse pela beleza do conjunto, o ar distinto de ambos, a diferença de idades a acrescentar um ar misterioso àquela relação.

Acordei deste devaneio e fixei-me naquilo que seria mais provável, e que se passaria quarto adentro entre a Joana Maria e o Dr. Guimarães e Costa. Algumas cartas numa mesa, regras bem definidas para um strip poker: quem perde a mão vai-se despindo com uma lentidão lasciva e perturbadora. Uma trinca vence dois pares e é uma camisa de que alguém se despoja, revelando a quem ali está um tronco ainda forte, resultado de jogos de ténis duas vezes por semana; uma sequência ao rei derrota uma asa de mosca e há um peito firme que se desnuda, mostrando uma pele escura que contrasta com marcas eróticas de uma brancura nívea. Mais uma mão, mais cartas que se revelam, mais vencedores e vencidos, mais risos, mais não sei o quê atirado com uma gargalhada para um canto do quarto. Um beijo aqui, um afago ali, um bluff desmascarado, dois corpos que se unem e que se agitam, sensuais, ao ritmo do desejo. Um rei, um ás, um oito, cartas alinhadas numa mesa em que o erotismo vence tudo, devora tudo, desde a dimensão da diplomacia económica ao crescimento do crédito mal parado. Mais cartas, mais mãos, mais surpresas, e uma nudez que caminha sem retorno na direcção da apoteose.

Acordei desta fantasia para receber, das mãos do distinto Dr. Guimarães e Costa, uma caixa de plástico duro com dois baralhos de cartas Kem. Sorriu-me, amável e educado como sempre, o casaco espinhado verde-seco abotoado, como mandam as regras quando um cavalheiro conversa com uma senhora:

- Sabe, Sra. D. Amália, digo isto sem qualquer espécie de vaidade pateta por quem sou, mas o facto é que não tenho dificuldade em encontrar parceiras para estas aventuras do sexo. Para um homem descomprometido e com algumas características há, de facto, algum embarras du choix. Mas a verdade é que não encontro ninguém com quem jogar crapaud suíço. A Joana Maria, para além de uma beleza elegante e sem rival, joga magistralmente. Confesso que não sei onde aprendeu. Talvez para a semana me veja obrigado a reservar duas horas, para irmos à desforra e ao desempate, se for caso disso.

Sorri-lhe e despedi-me. Senti a frustração natural de uma fantasia própria que se desfaz num vendaval de realidade. E o strip poker? E a magia da roupa que se tira ao ritmo das cartas que se voltam? E a nudez crescente, a imaginação, o fullen revestido com um aroma de volúpia?

- Está lá, Marco? Sim, sou eu, Amália. Jantas em casa esta noite? Óptimo! Levo um baralho de cartas. Vais ver que te divertes.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS


27 abril 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de S. Gabriel, padroeiro dos correios.

Meu querido Igor, amor do meu coração,

Levantei-me descrente da previsão meteorológica. Do apartamento onde vivo ouvem-se, ao longe, rumores de ondas a bater nas rochas, respira-se um ar de maresia que encanta, tão diferente do que temos em Moscovo.

Tinha algum tempo antes da aula seguinte neste instituto onde ensino os poetas russos - a sua profundidade, o seu patriotismo e devoção à Mãe Rússia. Assim, fui dar uma volta rápida até à praia, sorver o ar salgado, senti-lo na pele e nos cabelos, deixar-me envolver por uma qualquer inspiração que me leve a escrever esta carta, e que ela te revela a felicidade em que vivo, apesar da tua ausência.

O mar estava batido, fruto do mau tempo que tem assolado esta área do país. A praia, completamente deserta, era varrida por ondas que iam e vinham com uma cadência própria, indiferentes à minha vontade. Soprava um vento forte, mas, mesmo assim, virei a cara para o enfrentar. Fechei os olhos e, por momentos, estavas ali comigo: as tuas mãos delicadas de pianista, os teus cabelos desgrenhados tão característicos de qualquer artista, os teus olhos oscilando entre o vivo de quem apanha tudo à volta e o absorto de quem se refugia num mundo próprio. Sentei-me numa rocha e observei a tonalidade do mar, entre o azul claro e o azul-escuro, com manchas esverdeadas salpicadas de espuma branca. Senti-te ao meu lado.

Não sou escritora, não te saberia descrever poeticamente o ambiente que me rodeava. Há uma sensação difícil de partilhar na visão de um temporal. Haverá quem se atemorize, quem seja vencido por tristezas, quem se refugie na segurança e conforto de um lar. Eu quis vivê-lo, porque é no vento forte, na ameaça de chuva, no presságio de trovoadas que me elevo e vivo, sigo em frente, me confronto com as dificuldades, encontro criatividade e força para ultrapassar obstáculos.

Não deixei de sorrir. Tudo parece conjugar-se para levar a bom porto o que me trouxe aqui: um emprego regular a ensinar o que a Rússia produz de melhor em termos de literatura, um dinheiro que vou juntando para compormos a nossa vida. Na visão quase em permanência do mar - algo que se vai tornando perigosamente viciante - suspiro pelo tempo em que nos poderemos abraçar, ler juntos ao som dos nossos clássicos. Quero olhar para ti e sentir que acreditas quando te digo que és o homem da minha vida, e que a passagem por este país não é mais do que o intervalo para um segundo acto - tu e eu - que se adivinha glorioso.

Guardo todos os meus abraços para ti, amor da minha vida. Tua, Olga.

Olga, a russa licenciada em Literatura cuja avó foi protegida da Czarina e cita os poetas quando recebe clientes, não é mentirosa. Traduziu-me a carta que escreveu ao seu namorado e, no seu rosto, não havia vestígios de desonestidade, laivos de um espírito enganoso. Estou certo de que quando ela fechou os olhos e a escreveu, vertendo lágrimas saudosas sobre um papel de média qualidade, viu o mar, sentiu o ar salgado, tentou vislumbrar a rotina certa das ondas que se desfazem num areal vazio. Há cartas que se escrevem às escuras, sem ver as letras que se ordenam ao longo de linhas direitas, sem atentar na precisão da pontuação, sem qualquer preocupação sobre as palavras escolhidas, porque as mais verdadeiras são as que nos saem da ponta de uma caneta sem que passem pelo crivo da artificialidade.

É neste mundo que Olga vive, porque quando desperta para a realidade e olha pela janela vê o tapume do prédio que vai sendo demolido junto a esta Fábrica da Ilusão. O ruído ambiente não é o das gaivotas que planam sobre o mar, mas o dos martelos pneumáticos que destroem tijolo e cimento. O cheiro não é o da maresia, mas o dos corpos humanos, do pó que anda pelo ar, das águas-de-colónia baratas ou inexistentes que classificam quem lhe entra pelo quarto adentro. Quando destapa os ouvidos não é Rachmaninoff que ouve, mas a frase fatal,

- Olga, tem aqui um cliente
.

ainda que dita com um tom de voz simpático, de quem tenta conciliar humanidade e rentabilidade.

Olga, a rapariga alta e de olhos esverdeados que veio de Moscovo, não mente. É naquele mundo que ela vive, porque o outro (será o da realidade ou da fantasia?) não é mais do que um devaneio. Todos temos luz e sombra, assumidas de forma própria por quem se olha ao espelho da vida. De facto, quantos somos dentro de nós?

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

20 abril 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, data irrelevante.

Eram seis da tarde e o sino da Igreja Paroquial repicava chamando os fiéis para a missa da tarde. Os meus pensamentos - o Marco, a vida, os anseios, a temperatura morna de dois corpos que se enroscam durante a noite - eram embalados por um pôr-do-sol manso e lento, e por uma brisa talvez fresca de mais. Fui arrancado aos meus devaneios pelo som electrónico do telefone. Do lado de lá da linha (ou de um satélite, sei lá eu…) uma voz que revelava algum nervosismo perguntou:

- Boa tarde. Posso marcar hora com uma das raparigas?

- Muito boa tarde. Com certeza que sim. Tem alguma preferência ou quer deixar ao meu critério?

- Talvez seja melhor aceitar o seu critério.

- Pois muito bem. Quer dizer-me o seu nome?

- Álvaro Marques… Espere, talvez seja melhor Adalberto Marinho.

- São duas pessoas? Em simultâneo?

- Talvez, talvez… Acho que sim, não sei bem.

- Vai ter de aguardar um momento para eu falar com a Dra. Clara. Quer ligar-me daqui por 15 minutos?

- Com certeza.

Dirigi-me ao gabinete da Dra. Clara que consultava alguns mapas com estatísticas diversas: grau de satisfação de clientes e raparigas, taxa de ocupação, tendências das fantasias, contratações em mercados emergentes, relatos de fetiches com burkas, etc. De facto, a situação de duas pessoas em simultâneo com uma das nossas raparigas era inédita e carecia de autorização superior. A voz parecia-me educada, mas sabe-se lá o que uma voz pode esconder.

Depois de alguma ponderação – e consultada a rapariga em questão – escolhemos a Mary Jo, uma norte-americana do Missouri. Era uma rapariga alta, forte, muito loira, vinda directamente de Jefferson City, a capital do Estado, situada nas margens do rio com o mesmo nome. Mary Jo encarou a experiência como um desafio à sua performance competitiva, à sua vontade de ganhar dinheiro, ao enriquecimento do seu palmarés, ao possível ascendente em relação às colegas da Casa. Iria preparar-se, física e psicologicamente, mas avançaria, naquela perspectiva de que não há impossíveis para um americano.

Passava pouco das oito horas da noite quando assomaram à porta. Um cavalheiro de estatura média, óculos redondos de lentes grossas, um casaco puído e fora de moda chegava-se ao balcão, ligeiramente incomodado com a minha cicatriz, facto que demonstrou recuando instintivamente um passo, como se quisesse assumir uma posição de defesa perante um animal feroz. Ou talvez, simplesmente, esta visão abrupta e súbita da realidade lhe perturbasse o prenúncio de fantasia.

- Senhor Álvaro Marques?

- Sim, sou eu.

- A Mary Jo está à vossa espera, vou já mandar chamá-la. O senhor Adalberto Marinho demora-se?

O cliente pigarreou e limpou os óculos com um lenço azul claro, onde um A e um M se entrelaçavam como ramos de hera atraídos por um magnetismo tecido a vermelho. Percebi nitidamente o seu nervosismo, revelado por uns lábios perlados de suor e uma testa húmida em permanência.

- Não se incomode, caso o seu amigo esteja atrasado. A Mary Jo aguardará. Estou certo de que vos proporcionará uma hora de satisfação. É uma rapariga profissional e atenta, vinda dos EUA. Está cá, ao abrigo de uma bolsa, para terminar um estudo sobre Gestão de stocks na época dos descobrimentos - a visão do Infante D. Henrique. Um tema fora do vulgar, mas, estou certo, precioso nesta época em que vivemos de desperdício e consumismo, crise e escassez.

O cavalheiro guardou o lenço, colocou os óculos e voltou a atentar nas minhas deficiências físicas.

- Enfim. O meu nome é Álvaro Marques.

- Sim, sim, já me tinha dito.

- Mas o meu nome é também Adalberto Marinho. Percebe a coincidência de iniciais?

- Estou a ver.

- O que se passa é que tenho um problema com uma identidade dupla. Eu sou um e sou o outro, e ambos são diferentes entre si, coabitando no mesmo corpo, tendo os mesmos hábitos básicos de higiene, as mesma necessidades comezinhas de alimentação. Mas nem sempre sei quem é quem. Ou melhor: quem sou eu em cada momento. Daí a minha dúvida sobre o cliente que viria cá. Percebe, D. Amália?

- Com certeza, senhor Adalberto Marinho. Ou será Álvaro Marques?

- Pois não sei muito bem. É uma convivência difícil dentro deste corpo anónimo e de altura mediana.

Ao fundo do corredor, Mary Jo assomou deslumbrante num roupão de seda cor-de-rosa, ligeiramente aberto, naquela medida certa que não anuncia um oferecimento banal mas revela uma nudez perturbadora. Surgiu alta, passadas largas e firmes, sorriso aberto nuns dentes de primeiríssima qualidade, fruto de tecnologia norte-americana. Notei-lhe um desânimo quase imperceptível pelo facto do trio erótico já não se realizar, como se, num repente, o Iraque desaparecesse do mapa antes da invasão vencedora, deixando o exército num estado compreensível de inactividade desalentada. Cumprimentou-o, profissional e ofereceu-lhe o braço. Havia uma diferença óbvia de alturas, com predominância clara para o Novo Mundo.

- Tenha uma boa hora, senhor... -, desejei-lhe solícita, não sabendo com qual dos personagens falava.

O cliente olhou para o lado, vislumbrando um seio generoso e uma coxa forte por baixo de uma seda fina. Tentou acompanhar a passada larga da americana que vinha do Missouri para investigar a gestão de stocks no séc. 15 e balbuciou um desabafo:

- Quem me dera ser dois…

De facto, quantos somos dentro de nós?

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

13 abril 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, 2ª feira de Pascoela, mas dia, também, de uma qualquer libertação.

Abílio Rente entrou na Fábrica da Ilusão pelo fim da tarde. É um homem magro, alto, que mais parece um ramo de salgueiro que se partirá à menor ventania. Tem umas olheiras fundas e um cabelo grisalho muito ralo, penteado para o lado. Aparenta ter 60 anos, mas talvez ande no meio dos 50, embora estragados. Quando conversou um pouco comigo, e me disse apenas

- haverá alguma rapariga com 22 anos, morena e magra?

senti que o seu olhar se perturbava com a minha cicatriz e com a minha perna coxa, quase como se a realidade lhe fosse algo difícil de suportar – uma luz demasiado intensa, um frio desagradável, um calor de derreter. Ou talvez, e apenas, um desajuste imperceptível com o mundo em seu redor.

A Dra. Clara foi chamada a pronunciar-se e recomendou a Laura, uma minhota que, aos 22 anos, vai a meio de um curso de enfermagem ao qual se entrega como quem presta um serviço humanitário por vocação. É uma rapariga dócil, simpática, atenciosa, e que agradaria seguramente ao senhor Rente – para além de estar coerente com os seus pedidos. O cliente agradeceu, perguntou se era para pagar antes e baixou os olhos, como quem não quer enfrentar algumas pessoas, ou como quem tem medo de ver a vida de frente.

O par seguiu para o quarto, onde, durante a hora seguinte, se entregaria ao prazer, à sensualidade, à exploração dos corpos. Talvez mesmo ao carinho, à atenção e à companhia, afectos cuja raridade prejudica tanta gente.

Abílio Rente despiu-se revelando algum pudor e, estranhamente, algum incómodo pela nudez simples, descomplexada e levemente clara da Laura, fixando os seus olhos com mais intensidade numa borboleta tatuada onde ele suporia a cicatriz de uma qualquer apendicite.

Foi sempre com algum embaraço que, deitado na cama e com um lençol por cima, se foi confrontando com o corpo da rapariga - uns seios pequenos e levemente levantados, umas nádegas bem feitas e descaídas ao limite da estética, umas pernas magras mas elegantes, um ventre liso e sem vestígios de gorduras.

Laura foi, como sempre, carinhosa, disponível, amável.

- O que lhe apetece, senhor Rente? Ainda está em boa forma física! Gosto muito que me acaricie. Prefere a luz acesa?

O senhor Abílio Rente, um homem que estará na recta final dos 50, com olheiras fundas e cabelo grisalho ralo, fez amor com ela usando o cuidado de quem toca um cristal finíssimo, evidenciando a suavidade com que um alfaiate profissional e competente ajeita uma peca de tecido que cortará ao jeito do cliente, revelando a prudência de um explorador que se aventura, cauteloso, por terras que lhe são estranhas.

No fim murmurou-lhe um pedido

- abraça-me

naquele tom de voz que revela desejo, mas pouco à-vontade devido a desabituação, e chorou como uma criança, ou talvez como uma barragem que rebenta por não aguentar mais a pressão a montante.

Levantou-se e vestiu-se, enquanto Laura, na cama, fumava um cigarro, surpreendida com o choro súbito, vagamente apreensiva com um exame na semana seguinte. Afastou os lençóis para que Abílio Rente a mirasse de novo, sem que naquele olhar houvesse uma luxúria para além do saudável, mas apenas um motivo para dizer a frase:

- És linda, Laura! Linda.

Depois, em pé, pronto para sair, virou-se para trás e disse:

- Saí a semana passada da cadeia onde cumpri uma pena de quase 25 anos pela morte de duas raparigas, morenas, altas e com 22 anos. Foi um impulso, uma raiva, sei lá o quê. Consideraram que já não seria um perigo para a sociedade, mas tinha que ser eu, acima de tudo, a perceber a minha cura, a estar certo de que sou inofensivo. Tu foste a prova. Parto amanha para a Líbia para trabalhar na construção civil, pelo que foi a última vez que nos vimos. Obrigado por tudo.

O ex-presidiário não teve tempo – ou talvez não tenha querido ter a oportunidade - de perceber o olhar angustiado de Laura, a estudante que terá de saber perfurar uma veia com uma agulha, ou estender com mestria os instrumentos a um cirurgião.

Quando passou por mim na recepção, Abílio Rente revelou um olhar diferente para as minhas deficiências, como se a realidade fosse algo a que se começasse a habituar. É possível que eu tenha vislumbrado um sorriso, não sei. Se calhar apenas o esboço, um ensaio, uma preparação. É segunda-feira de Pascoela, e talvez se note um perfume de redenção pelo ar.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

06 abril 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de Santa Luzia, orago dos cegos

O senhor Roberto é cego desde os dez anos. Uma doença galopante e injusta, como são todas as que atacam as crianças, tirou-lhe a vista quando os seus olhos ainda deambulavam pelo Tintim, pelo Asterix e por outros heróis da banda desenhada. Fez estudos básicos e é um homem com limitações óbvias – financeiras e de dia-a-dia – mas que não pede esmola. Quer manter o seu orgulho e a sua dignidade. A Dra. Clara cruzou-se com a sua existência em circunstâncias que não vêm ao caso e ajuda-o da forma possível, dando roupas usadas mas em bom estado, algum apoio financeiro, géneros alimentares de primeira necessidade, companhia sempre que possível.

O senhor Roberto veio hoje a esta Fábrica da Ilusão - presumivelmente por gentileza da Dra. Clara - e vi-o pela primeira vez. É um homem de estatura média, sempre de óculos escuros, com um cabelo muito grisalho penteado para trás. Tem um sorriso simpático em permanência, umas mãos que se intui terem uma visão própria e roda a cabeça numa procura constante de sons que lhe permitam identificar o que se passa. Mantém uma conversa fácil e fluída, que não gera sentimentos pequenos de caridadezinha. Vinha acompanhado pelo Marco, um rapaz sossegado, muito silencioso, com uma presença quase invisível. É ele que o guia pelas ruas da cidade, no supermercado, nas repartições de Finanças, nas idas ao rio para apanhar sol.

A Dra. Clara veio recebê-lo á entrada e fizeram festa um ao outro, como se fossem amigos de longa data e não se vissem há um ror de anos. Sentaram-se, beberam um chá preto perfumado com bergamota e debicaram umas bolachas entremeadas por conversa de circunstância: a carestia da vida, a corrupção dos políticos, as noites frias, o futebol que vive momentos de desencanto. A patroa não hesitou no nome que me disse:

- Cármen.

A Cármen é uma espanhola de Sevilha com uma experiência substancial no bailado local. Não é particularmente bonita, mas tem raça, como só as espanholas sabem ter: um cabelo comprido negro, muito negro, uns olhos escuros que fascinam e atemorizam, umas coxas fortes sem serem porcinas, duas mãos que se contorcem no limite do impossível. Quando foi chamada à recepção, percebeu imediatamente que não iria dançar ao som da guitarra, não iria agitar folhos coloridos, não gemeria ao compasso da música. Esperava-se que usasse as mãos em benefício do próximo. O senhor Roberto não vê quem o acompanha e não tem, por isso, estímulo visual. Mas umas mãos que percorrem um corpo e que intervalam suavidade, vigor, carícia, estímulo, deixam-lhe recordações e podem levá-lo ao céu da satisfação.

A sevilhana deu-lhe um simpático buenos dias, señor Roberto, qué tal? e, depois de lhe apertar ambas as mãos, seguiu directa para o quarto. Marco, o cavalheiro invisual e a Dra. Clara terminaram o seu chá de fim de tarde, rindo-se com uma ligeireza genuína apesar do aquecimento global, da crise internacional, do valor das taxas de juro, das empresas que fecham com uma regularidade de serial killer.

Distraí-me na minha vida, recebendo mais clientes, encaminhando-os para as operárias, indagando da satisfação de cada um, inquirindo dos negócios, do sobrinho que anda na droga, da mãe que está entrevada, das férias nas praias da moda… Quando dei por mim tinha passado uma hora, e o cliente Roberto Catarino, cego desde os dez anos, com uma lembrança decrescente do Cavaleiro Andante e do Corto Maltese estava na minha frente, com o mesmo sorriso franco, os mesmos óculos escuros, as mesmas mãos sobredotadas, o mesmo Marco quase invisível.

- Adeus D. Amália. Sou cego e, com o Paco de Lucia a tocar magicamente durante uma hora, distraí-me. Talvez tenha mesmo passado pelas brasas, não sei. Mas estou certo de que o Marco gostou muito. Ele fala pouco, sabe, mas há coisas que nós cegos, sentimos. Os meus cumprimentos à Dra. Clara, e diga-lhe que qualquer dia passo por cá sozinho. Talvez peça a companhia da Cármen, para perceber o que encantou o rapaz.

Cumpriu-se mais um dia. Olé!

MTS

30 março 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia da morte de Lord Horatio Nelson.

Há páginas do meu diário que parecem estar sob o efeito de um cone de aspiração. Da última vez que me deitei à escrita foi para falar do Sr. Carlos Santos – talvez mesmo Alferes Carlos Santos - militar que foi garboso, cheio de orgulho e dono de uma voz possante e de uma liderança forte. Agora, semi-esquecido dos seus feitos, confia na Honória para pacificar os fantasmas que povoam a parte presente do seu passado.

Mantenho-me de alguma forma no mesmo registo e falo hoje da Gabriela, uma rapariga muito loira e com uma constituição física invejável, mais atlética do que elegante, e que passou pela Academia Militar durante dois anos. Não terminou o curso, porque foi vítima de um problema físico que se revelou tardiamente. Gabriela mantém alguns tiques da vida castrense - disciplina, sentimento de dever, apego às rotinas e às normas de execução permanente -, encantada de um modo muito pessoal pela visão de um pelotão que marcha síncrono e alinhado.

Num segundo trimestre quente e abafado de um ano recente, Gabriela frequentaria um curso internacional em Brest, França, tendo-se deleitado por um aspirante da Escola Naval Francesa com quem manteve um romance tórrido que durou seis semanas. De tarde vencia-se o inimigo – quem quer que ele fosse – e à noite os dois aliados desenhavam uma entente cordiale. Serge, o gaulês, percorreria, numa voragem quase insana, o espaço nacional representado pelo corpo da cadete Gabriela Resende, natural de Penamacor, com aspirações militares, seios rijos e fortes, e uma marca inigualável no teste de Cooper.

Sem Academia Militar e de regresso a Portugal, esta rapariga vive agora num anseio pela informação de um vaso de guerra na linha do horizonte. Quando alguém a informa desse facto, que a inunda de uma alegria nostálgica, a ex-estudante vai até ao mar e observa o rio, a baía. Vê uma corveta, um navio-escola e lembra-se então de Serge, o seu oficial de marinha, com quem partilhou estratégias, planos de ataque, leitura de cartas, identificação das posições inimigas, noites tórridas de amor todas elas faladas em francês.

No remanso de quarenta dias num quarto de hotel, ambos exploraram o corpo alheio na preparação de uma ofensiva, como se os vales, elevações, obstáculos de cada um não fossem mais do que um jogo de guerra que terminaria numa paz feita de beijos, afagos, movimentos simultâneos. A excepção, em termos de idioma, consistia nas vozes de comando que a cadete Gabriela dava ao seu parceiro e que o deixavam em ponto de desvairo. Era como se a ordem unida se revestisse, subitamente, de um manto erótico, sensual, onde a harmonia dos corpos em movimento único e irrepreensível desse azo aos pensamentos mais libidinosos.

O amante despedira-se dela na última manhã do curso. Gabriela fumava um cigarro na cama, com um lençol azul-claro a tapar uma nudez branca, aqui e ali salpicada de sinais. Uma nesga de seio subia e descia ao compasso de uma respiração suave, cadenciada, cheia de confiança num futuro que se lhe abria apaixonado, fruto de um amor que nascera limpo, transparente, falado em francês. A respiração não se alterou quando o aspirante da École Navale, apertando o último botão de uma farda vincada sem mácula, lhe falou na sua mulher e numa petite jolie fille que o esperavam nos arredores de Marselha. Gabriela apagou o cigarro, fechou os olhos, e eliminou os pensamentos derrotistas com informações factuais: nome, posto, número mecanográfico, objectivo da missão.

Agora, de quando em vez recebe um cliente por quem sente afectos estranhos e contraditórios. Lembra-se do francês, da traição, das vozes de comando que o elevavam aos céus da loucura sexual. Baixinho, agarrada ao seu parceiro daquela noite ou daquele fim de tarde, murmura gritos de saudade e desejo:

- Firme! Em sentido! Não mexe! À vontade!

Depois chora, e geme um lamento:

- Destroçar!

Da carteira, Gabriela Resende, ex-cadete da Academia Militar, com uma marca inigualável no teste de Cooper, retira uma fotografia de Serge, fardado, garboso, com um sorriso gentil numa boca bem desenhada. Por trás, uma citação de Lord Horatio Nelson devolve-lhe a importância da realidade, da não distracção dos objectivos, da importância da resistência:

You must consider every man your enemy who speaks ill of your king; and... you must hate a Frenchman as you hate the devil.

Cumpriu-se mais um dia

MTS

23 março 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, data irrelevante

Contam as más-línguas que o Sr. Carlos Santos foi um militar feroz, implacável, cumpridor à risca das ordens que lhe eram transmitidas ou que ele próprio ditava aos seus subordinados com uma voz possante de militar inato. Nas várias missões que cumpriu em Moçambique, há quem o diga, terá sido protagonista de pequenas atrocidades – não suficientemente grandes para terem interesse jornalístico, mas significativas bastante para ficarem gravadas na mente de quem o acompanhou. Homem lembrado pelos seus camaradas - pelos melhores e piores motivos - consta que exerceu as suas várias funções com mão de ferro.

Quando veio pela primeira vez a esta Fábrica da Ilusão, passou pelo gabinete da Dra. Clara para, a seu pedido, conversarem um pouco. Apesar dos seus quase 60 anos, é um homem forte, encorpado, revelando uma excelente preparação física construída em ginásio, não só por gosto próprio, mas também pelas funções que exerceu de segurança privado – a pessoas ou estabelecimentos da noite. Tem um ligeiríssimo tique que se traduz por um tremor quase imperceptível do lábio superior e, refere quem o conhece, um discurso político marcado por laivos de racismo.

Quando a Dra. Clara assomou à porta do gabinete e, com o antigo militar de lado, me disse apenas

- Amália? Chame a Honória, se faz favor

desconfiei, por um segundo apenas, da lucidez da escolha.

A Honória é uma moçambicana da Beira, da Manga, onde a família vivia juntamente com grande parte dos seus conterrâneos. Filha de uma empregada doméstica que servia uma família no Macúti, foi confrontada com a morte do seu pai, um guerrilheiro da Frelimo, às mãos do exército português. Tinha um ano, e a guerra colonial acabaria daí a poucos meses. As circunstâncias próprias da vida trouxeram-na para Portugal, onde termina tardiamente o curso de História, depois de ter investido parte do seu tempo na investigação da guerra colonial em Moçambique.

É uma mulher lindíssima. Alta, magra, tem uns olhos esverdeados e um cabelo negro e volumoso. É de uma discrição rara, pois nunca levanta a voz, e queda-se por largos momentos num silêncio emoldurado por um sorriso genuíno e uns dentes sem defeito.

Levou o Sr. Carlos Santos - ou o Sr. Alferes, como também é aqui tratado - para o quarto. Pôs música moçambicana como acompanhamento de fundo e sentou-se no sofá, vestida de uma forma simples com uma T-shirt e umas calças de ganga. O ex-militar despe-se numa atrapalhação constrangedora e, por fim, nu e de braços caídos ao longo do corpo, murmura uma frase sumida, contrastante com a sonoridade com que gritava comandos aos seus soldados:

- O que queres que faça agora, Honória?

Honória não responde. Pela sua cabeça passam as memórias de um pai de que não se lembra mas que foi entregue à família morto e crivado de balas. Recorda-se da mãe que lhe falava na praia do Macúti, da marginal por onde passeavam as famílias que ali viviam, do pôr-do-sol que nunca mais encontrou igual. Levanta-se e, independentemente de uma música que toca baixo mas com um ritmo batido, há um silêncio que dói. Honória despe-se em frente de Carlos Santos, revelando uma pele escura e sensual, um peito que não é mais do que uma duna suave, umas pernas esguias que parecem não ter fim, umas nádegas que mantêm o encanto das coisas perfeitas. Volta então a sentar-se no sofá, de onde não se levanta.

Durante aquela hora contratuada, o militar fica em pé, nu e de braços caídos. Num sofá de vime com umas almofadas cor de terra africana, a moçambicana senta-se, distende as pernas, muda de posição, apanha o cabelo, passa uma mão lânguida pelo corpo, fecha os olhos, corre a língua viscosa por cima de uns lábios grossos. Quando a hora está a chegar ao fim, a estudante de História dá-lhe um beijo longo, sensual, erótico, carregado de desejo. Não o deixando nunca tocá-la, fala-lhe numa voz mansa e baixa, desprovida de qualquer raiva, lembrada apenas da mãe, Luísa, que lhe falava do pinheiro da praia onde ia com os seus três meninos ao fim da tarde jogar às escondidas:

- Volta para o mês que vem. Nessa altura sim. Agora vai.

Quando passa por mim na entrada e se despede, o alferes Carlos Santos tem os olhos avermelhados de quem chorou copiosamente. O lábio treme com mais força. Ainda olha para trás, mas Honória já lá não está, porque o seu silêncio a leva de volta à Beira, aos meninos de quem a mãe tomava conta, a um pai que lhe foi entregue inútil e desfeito. Ao beijar o ex-militar, Honória dá o primeiro passo no sentido da reconciliação com o seu passado, encerrando numa gaveta a sua investigação sobre a guerra colonial. Daí a um mês, naquele mesmo quarto, dirá ao alferes Carlos Santos, militar que foi feroz e desapiedado dos seus inimigos:

- Não me possuas. Ama-me.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

16 março 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de declaração do IVA

O Sr. Armando Ventura chegou à idade da escolha e seguiu aquilo que entendeu ser a sua vocação – a Contabilidade. Não a que se prende com o controlo de empresas e particulares, fugas à máquina fiscal devoradora e tentacular, arquivo zeloso de uma miríade de papéis de tamanhos diversos. O Sr. Ventura sentiu o chamamento (a tal vocatio) da simetria dos números, a sua ordenação perfeita em colunas semelhantes, a igualdade do deve e do haver – não fruto de um qualquer acaso da matemética, mas obra de uma correspondência irrepreensível, embora nem sempre entendida.

O contabilista é um homem alto e magro, com um olhar vivo por detrás de umas lentes redondas. Penteia uma cabeleira farta e grisalha para trás, porque é essa a forma de fugir à assimetria da risca ao lado. Quando veio pela primeira vez a esta Fábrica das Ilusões escolheu a Joana, uma lisboeta arruivada com um cabelo liso apartado ao meio - rigorosamente ao meio.

Quando foram para o quarto, o Sr. Ventura pediu à parceira

- a Joana não se importa?

para se despir e se mostrar de frente e de costas. Não havia, naquele pedido, nenhum fetiche especial, desejo de humilhação, extravagância erótica. Havia, simplesmente, uma vontade de apreciar a simetria daquela que iria estar consigo na próxima hora e, quem sabe, noutras mais.

A Joana, estudante esforçada do curso de Relações Internacionais, abriu um sorriso franco e cumpriu os desejos daquele cavalheiro educado, simpático - e meticuloso. Enquanto tirava a roupa com vagar e cuidado, o homem dos números, dos planos de contabilidade e dos balancetes ajeitava um ou outro bibelot, um cinzeiro, uma caixinha com cigarros, dois ou três livros que enfeitavam uma mesa. Pequenos nadas que decoram um ninho de amor e que ele entende, por uma questão de coerência, que devem obedecer a uma harmonia sem recriminações. No fundo, um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar. Em nome do equilíbrio, do encaixe das coisas, da esquadria dos objectos. Da simetria, vá! diz ele.

Completamente nua, a estudante deixa cair os braços e sorri para o contabilista que, não tirando os olhos dela, compõe ainda um par de castiçais ligeiramente deslocados relativamente à moldura da qual são guardiões. Um toque ínfimo, mas mesmo assim importante.

- Obrigado, Joana. A menina é de uma simetria perfeita. Os seios, o cabelo, a posição dos olhos... Importa-se de se virar? Notável, notável! Há muito tempo que não via uma coisa assim. Duas metades iguais, se me é permitido este pleonasmo.

É então que o cliente se despe, revelando à operária que o acompanha uma cicatriz grande, que lhe corre ao longo da perna direita e que justifica o coxear que evidenciou à entrada. Não podendo ser, ele próprio, a evidência da simetria, o Sr. Ventura procura-a e encontra-a na Joana, como se abraçasse uma demonstração de resultados inundada de perfeição, correspondência, equilíbrio, sem um número desajustado que desfeie a proporção das colunas. Não sendo a simetria, Armando Ventura possui-a.

Hoje, chegou ao pé de mim e mantivemos um diálogo, no mínimo, surpreendente. Privilegie-se o factual em detrimento da apreciação.

- Boa noite, Amália.
- Boa noite, Sr. Ventura, como está?
- Bem, muito obrigado. Posso fazer-lhe uma pergunta?
- Claro, Sr. Ventura. Espero saber responder...
- Saberá com certeza. Qual é o seu preço?
- Como?
- Não me leve a mal. Mas qual é o seu valor por uma hora de prazer comigo?
- Não tenho. Não faz parte da minha descrição de funções.
- Tenho a sua autorização para falar com a Dra. Clara?
- Não me parece, Sr. Ventura. Lamento desiludi-lo.
- Pense no assunto, Amália, e diga-me.
- Duvido... Mas satisfaça-me a curiosidade.
- Faça favor.
- Porquê eu? Tem a Joana e tantas outras raparigas lindas...
- A simetria, Amália. Nada mais do que a simetria.
- Como assim?
- Estar com a Joana é olhar a simetria, vê-la na frente.
- E não chega?
- É um lenitivo, um bálsamo, mais um dia no corredor da morte.
- E o que precisa ainda?
- Preciso de ser a simetria!
- E consegue sê-la comigo?
- Sim, claro. Qual é a perna de que coxeia?
- A direita, porquê?
- A minha também. Já nos imaginou aos dois num abraço desnudo? Cada um de nós é, por si só, a assimetria, o desencontro, o desbalanceamento, o tropeço. Os dois juntos somos a simetria perfeita, a proporção notável que deriva da junção de dois corpos que, isolados, não são mais do que um defeito da natureza, ou das circunstâncias.
- Pois... Mas confesso, Sr. Ventura...
- Não me diga nada, Amália - apenas o seu preço. E se possível que seja um número simétrico.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

09 março 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, le 14 Juillet

Georgette, uma das nossas operárias, é uma francesa lindíssima e elegante. Com mais de 1,80m, tem uma pele clara, muito clara, por vezes tão transparente que se lhe vêem as veias. Podia facilmente ter sido modelo, encantando as passerelles com vestidos bizarros de tules transparentes, uns cabelos pretos e longos, um nariz fino, duas maçãs do rosto ligeiramente salientes e um corpo de fazer inveja aos mais sadios. Optara, no entanto, por terminar os seus estudos na Sorbonne, com um trabalho intitulado “A prostituição na epistolografia Portuguesa”, e decidira vir a Portugal fazer aquilo a que chamou, metaforicamente, um estágio. Os contactos com a Dra. Clara tiveram a brevidade só possível a quem se entende à distância: selectividade e ausência de ordenado, que a tarefa era de índole mais social do que sexual.

Os seus clientes, poucos, são quase todos franceses, embora haja portugueses saudosos de um tempo em que o idioma de Proust e de Balzac era língua rainha, falada com fluidez diplomática entre salões de embaixadas. Um tempo que evidenciava um berço da cultura mundial que gerara escritores sem par. Os clientes eram, no fundo, gente que não se tinha habituado a um planeta que usava o inglês como língua franca. No quarto de Georgette a argumentação era demolidora: a estátua da Liberdade era oferta do povo francês e o único esplendor no cinema norte-americano era, de facto, uma frase proferida tendo como som acompanhante o rosto mais bonito da história do cinema e um avião que voaria de Casablanca para Lisboa: we’ll always have Paris.

Numa tentativa de evidenciar, a quem de direito, que a sua passagem por Portugal se revestia de uma roupagem genuína, Georgette decidiu escrever cartas, em português, ao namorado parisiense, um emigrante de segunda geração ainda lembrado da língua de Camões. Pediu, por isso, à Dra. Clara que lhe indicasse alguém que soubesse francês o suficiente para traduzir directamente. Ela ditaria, en français, alguém escreveria, en portugais. Foi-lhe referido o professor Carlos, que lecciona francês numa escola C+S da Costa do Estoril e que já se tinha interessado por ela. É um homem de altura média, cabelo castanho claro, fumador ocasional de cachimbo e que despreza profundamente o império britânico que, diz, gerou canalha e saque no mundo onde se instalou.

O professor Carlos sentou-se numa poltrona do quarto de Georgette enquanto esta, vestida e em circulação permanente, lhe vai ditando cartas ao sabor do improviso e da procura da melhoria contínua:

Meu amor. Saberás tu o vazio em que se tornou o meu mundo com a tua ausência? O sol reveste-se de uma negritude funesta, as flores murcham invadidas por uma tristeza imensa; as andorinhas, que por aqui passavam para me dar novas da tua vida, desapareceram. Portugal sem ti não é nada, não é ninguém. É apenas um país engolido pelas brumas da minha saudade, com o odor do afastamento que se entranha na alma, carcomendo-a de desejo. Redige-me cartas de amor, sussurra-me palavras escritas.

Georgette vai ditando e, no uso de uma característica que lhe permite fazer duas coisas em simultâneo, despe-se ao ritmo das palavras. Quando dá ênfase à expressão o sol perdeu, solta o colchete último que a separa de uma nudez parcial e revelada ao professor de uma escola da Costa do Estoril. Carlos, de seu nome, sente um tremor que lhe perturba a caligrafia, transpira de umas mãos que entende deverem estar ocupadas a calcorrear solo francês cheio de aromas imaginados e despojado da alta costura que o separa do corpo. Quando Georgette menciona a frase que o cliente entende traduzir como carcomendo-a de desejo, já não lhe resta nada, a não ser uma alvura desejosa, umas pernas esguias, um peito que cabe, ele todo, na palma de uma mão. A finalista da Sorbonne está nua, e as veias que se destacam daquela pele clara consomem o professor ao ponto do desvairo.

A francesa interrompe a dicção e sorri numa evidência de convite. Carlos atira com papel, caneta, tradução, roupas incómodas, cachimbos semi-apagados. Abraça-a, beija-a, retém-na nos braços, sente-lhe o corpo todo, imagina-se a possuir la belle France e a ficar impregnado de Victor Hugo, Yourcenar, Sartre, Georgette. Murmura-lhe frases tórridas ao ouvido – em francês, que alguns asseguram ser o idioma do amor. Quer escrever-lhe cartas na pele, tapar cada centímetro de lascívia com erotismos gauleses, revestir-lhe a pele ebúrnea de sensualidades gravadas num itálico único.

- Essa carta de amor é uma falsidade, mon amour. A Georgette só diz mentiras…

A francesa sorri e enrola um caracol na ponta dos dedos finos e longos. O professor segue-lhe uma veia com a ponta dos dedos, e sente que esta artéria é uma espécie de radial que contorna o mundo gaulês.

- São palavras bonitas, Charles. E tudo o que é indiscutivelmente bonito encerra, em si, uma parte de verdade e outra de mentira. N'est-ce pas?

Ao longe, da janela aberta de uma vizinha que tem o hábito de ouvir música alto, ouvem-se melodias de sempre. Georgette oferece-se de novo - e naquele corpo está Paris, o Loire, a moda, o glamour, os perfumes de França - um esplendor de ofertas à voragem ocupante. Tony de Matos, o artista que nunca morreu, vai cantando

Cartas de amor
Quem as não tem
Cartas de amor
Pedaços de dor
Sentidas de alguém
Cartas de amor, andorinhas
Que num vai e vem, levam bem
Saudades minhas
Cartas de amor, quem as não tem

Cumpriu-se mais um dia. À bientôt.

MTS

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