16 março 2009

Lanterna Vermelha

Diário de Amália, dia de declaração do IVA

O Sr. Armando Ventura chegou à idade da escolha e seguiu aquilo que entendeu ser a sua vocação – a Contabilidade. Não a que se prende com o controlo de empresas e particulares, fugas à máquina fiscal devoradora e tentacular, arquivo zeloso de uma miríade de papéis de tamanhos diversos. O Sr. Ventura sentiu o chamamento (a tal vocatio) da simetria dos números, a sua ordenação perfeita em colunas semelhantes, a igualdade do deve e do haver – não fruto de um qualquer acaso da matemética, mas obra de uma correspondência irrepreensível, embora nem sempre entendida.

O contabilista é um homem alto e magro, com um olhar vivo por detrás de umas lentes redondas. Penteia uma cabeleira farta e grisalha para trás, porque é essa a forma de fugir à assimetria da risca ao lado. Quando veio pela primeira vez a esta Fábrica das Ilusões escolheu a Joana, uma lisboeta arruivada com um cabelo liso apartado ao meio - rigorosamente ao meio.

Quando foram para o quarto, o Sr. Ventura pediu à parceira

- a Joana não se importa?

para se despir e se mostrar de frente e de costas. Não havia, naquele pedido, nenhum fetiche especial, desejo de humilhação, extravagância erótica. Havia, simplesmente, uma vontade de apreciar a simetria daquela que iria estar consigo na próxima hora e, quem sabe, noutras mais.

A Joana, estudante esforçada do curso de Relações Internacionais, abriu um sorriso franco e cumpriu os desejos daquele cavalheiro educado, simpático - e meticuloso. Enquanto tirava a roupa com vagar e cuidado, o homem dos números, dos planos de contabilidade e dos balancetes ajeitava um ou outro bibelot, um cinzeiro, uma caixinha com cigarros, dois ou três livros que enfeitavam uma mesa. Pequenos nadas que decoram um ninho de amor e que ele entende, por uma questão de coerência, que devem obedecer a uma harmonia sem recriminações. No fundo, um lugar para cada coisa e cada coisa no seu lugar. Em nome do equilíbrio, do encaixe das coisas, da esquadria dos objectos. Da simetria, vá! diz ele.

Completamente nua, a estudante deixa cair os braços e sorri para o contabilista que, não tirando os olhos dela, compõe ainda um par de castiçais ligeiramente deslocados relativamente à moldura da qual são guardiões. Um toque ínfimo, mas mesmo assim importante.

- Obrigado, Joana. A menina é de uma simetria perfeita. Os seios, o cabelo, a posição dos olhos... Importa-se de se virar? Notável, notável! Há muito tempo que não via uma coisa assim. Duas metades iguais, se me é permitido este pleonasmo.

É então que o cliente se despe, revelando à operária que o acompanha uma cicatriz grande, que lhe corre ao longo da perna direita e que justifica o coxear que evidenciou à entrada. Não podendo ser, ele próprio, a evidência da simetria, o Sr. Ventura procura-a e encontra-a na Joana, como se abraçasse uma demonstração de resultados inundada de perfeição, correspondência, equilíbrio, sem um número desajustado que desfeie a proporção das colunas. Não sendo a simetria, Armando Ventura possui-a.

Hoje, chegou ao pé de mim e mantivemos um diálogo, no mínimo, surpreendente. Privilegie-se o factual em detrimento da apreciação.

- Boa noite, Amália.
- Boa noite, Sr. Ventura, como está?
- Bem, muito obrigado. Posso fazer-lhe uma pergunta?
- Claro, Sr. Ventura. Espero saber responder...
- Saberá com certeza. Qual é o seu preço?
- Como?
- Não me leve a mal. Mas qual é o seu valor por uma hora de prazer comigo?
- Não tenho. Não faz parte da minha descrição de funções.
- Tenho a sua autorização para falar com a Dra. Clara?
- Não me parece, Sr. Ventura. Lamento desiludi-lo.
- Pense no assunto, Amália, e diga-me.
- Duvido... Mas satisfaça-me a curiosidade.
- Faça favor.
- Porquê eu? Tem a Joana e tantas outras raparigas lindas...
- A simetria, Amália. Nada mais do que a simetria.
- Como assim?
- Estar com a Joana é olhar a simetria, vê-la na frente.
- E não chega?
- É um lenitivo, um bálsamo, mais um dia no corredor da morte.
- E o que precisa ainda?
- Preciso de ser a simetria!
- E consegue sê-la comigo?
- Sim, claro. Qual é a perna de que coxeia?
- A direita, porquê?
- A minha também. Já nos imaginou aos dois num abraço desnudo? Cada um de nós é, por si só, a assimetria, o desencontro, o desbalanceamento, o tropeço. Os dois juntos somos a simetria perfeita, a proporção notável que deriva da junção de dois corpos que, isolados, não são mais do que um defeito da natureza, ou das circunstâncias.
- Pois... Mas confesso, Sr. Ventura...
- Não me diga nada, Amália - apenas o seu preço. E se possível que seja um número simétrico.

Cumpriu-se mais um dia.

MTS

2 comentários:

Anónimo disse...

Ah, a simetria, MTS: será por isso que um só coração não nos chega?

Anónimo disse...

uáuu, que imaginação MTS! :-) A simetria obtida por junção da assimateria. Dei comigo a imaginar um salão de dança, onde os pares eram obrigatoriamente compostos por: um dextro e um canhoto; um maneta e um perneta; um surdo do ouvido esquerdo (será que existe ??) e um surdo do ouvido direito; um careca e um barbudo e assim por diante, rs.

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